Há coisas que deixam uma pessoa amarga pro resto do dia. Fui ver esse Os bastardos (Les salauds, Claire Denis, 2013) e fiquei mal o resto do dia. Tanto que o balé Momix, visto em seguida ao filme no teatro Municipal, ficou ruim também, não gostei daquele balé, mais imagem do que dança, mais malabarismo visual e cenográfico do que balé, queria ver os corpos agindo no espaço, retesando o ar com seus volteios e rodopios, e o que vi foram cenas de um cinemascope atualizado com photoshop dos bons. Nesse sentido, o grupo Corpo, visto também no Municipal numa outra dessas maravilhosas matinês de domingo, me pareceu muito, muito mais intenso, emocionante, vibrante, viril.
Isso tudo para dizer que Os bastardos é um filme muito bom, e talvez por isso deixe esse gosto amargo na boca. Porque não há mulher que não se indigne com o que a história deixa ver, e muito mais entrever, a respeito daquela jovem, já que não há linearidade nem cronologia claras no desenrolar dos acontecimentos, embora compreendamos perfeitamente o que está ocorrendo, em suas linhas gerais e mais importantes, mas acho que as lacunas são propositais, como a explicitar o caos em que aquelas vidas se encontram. Para mim, o núcleo duro do filme, o que acontece nele realmente, o que importa aos olhos dessa espectadora será a situação devastadora, relacionada a essa menina, a essa filha, essa sobrinha, essa conhecida de todos nós. E fica tudo muito triste, doloroso e cruel à medida que avançamos na compreensão daquele quebra cabeça.
Nem mesmo o encontro da bela Chiara Mastroianni com um fantástico Vincent Lindon, vivendo cenas de paixão explícita, amenizam a tragédia. E no final, ela também precisa ser uma salaude, porque tem de escolher entre o filho e o amante (e o dinheiro, claro, com tudo que ele representa) - nesse caso não há dúvidas, escolherá o filho. Para isso, terá de sacrificar o amante, numa cena que se explica sozinha. Salaude. Todos os personagens, de certo modo, têm o pé no lodo, na lama, na abjeção. É um filme que flagra meio de relance, meio aos pedaços, e por isso mesmo com mais força, a crise de valores (morais, éticos) dos que, diante da iminência de perder qualquer coisa - bens, pessoas, coisas, não hesitam em lançar mão do que seja necessário para manter seu status, e o exercício do poder.
É também um filme doloroso que expressa, em sua crueldade, senão a verdade histórica do comunismo anunciado por Marx em sua frase-síntese, ainda e sempre tão atual, outro espectro que tem rondado a Europa, cujo símbolo perfeito seria a jovem nua vagando pelas ruas, caminhando feito sonâmbula, sem luz no olhar, que abre o filme. Aqui, e agora, as mulheres que vivem nas franjas dos donos do dinheiro (e desse grande Capital) - as belas, as jovens, as que não criaram armas de defesas por conta própria, as que não são donas de suas vidas - essas são as que pagarão os mais altos preços pela desordem financeira. Semelhante à mãe da jovem, se veem de repente completamente perdidas, incapazes de administrar o caos e o pó em que os negócios se dissolveram, e tampouco são capazes de lidar com a situação moral em que agora se encontram. Vender a filha, matar o amante são apenas algumas das formas que os agora cegos no nevoeiro (cenas de Ensaio sobre a cegueira se impõem) encontram para seguir - de qualquer maneira, a qualquer custo, foice pendendo sobre suas cabeças.
domingo, 29 de setembro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
Blackfish; Amazônia
Assisti a dois documentário hoje, ambos ótimos.
O primeiro, Blackfish - fúria animal (Gabriela Cowperthwaite, 2012) discute a questão das orcas e o uso que se faz desses animais de grande porte nos aquários dos grandes centros de turismo norte-americanos. O filme discute a forma insidiosa e hipócrita como são tratados os casos de acidentes graves envolvendo o adestramento desses animais e seus treinadores.
As cenas e os depoimentos são muito esclarecedores, dá pra entender muito melhor como funciona a indústria do entretenimento que privilegia altos lucros em detrimento do bem estar seja dos mamíferos, seja de quem trabalha com eles. Trata-se de uma denúncia contundente dos Sea Worlds da vida, com depoimentos de uma grande cadeia de conhecedores, estudiosos, trabalhadores, cientistas, enfim, pessoas que circulam em torno desses animais, seja para estudá-los, seja para expô-los de modo mercantil, e a finalidade seria denunciar tais práticas abusivas, demonstrando como e por que são nefastas e agressivas com relação à natureza da espécie. Muito bom, fiquei impressionada com tudo que vi e ouvi.
O outro documentário - Amazônia (Thierry Ragobert, 2013) é meio longo, mas muito interessante, e deve ter dado um trabalho de cão fazer a montagem daquele material, porque parece uma coisa bem natural acompanhar a trajetória de um macaco prego desde o momento em que o avião em que ele ia (provavelmente contrabandeado) cai de repente no meio da floresta.
A partir daí temos uma fofura de miquinho parecendo ainda bebê tentando sobreviver naquela i.m.e.n.s.i.d.ã.o da floresta amazônica. O filme, pois, trabalha nessa clave do micro versus o macro, duas forças lutando para sobreviver. É quase épico o destino daquele mínimo animal, e vivemos com ele suas aventuras em busca das saídas possíveis para as suas enrascadas, que são muitas. É bem bonito, acredito que tenha sido um trabalho hercúleo filmar aquilo tudo porque parecia haver um roteiro bem amarrado e, evidentemente, o mico não tinha um script, logo coube ao continuísta, ao editor, ao diretor, sei lá eu a quem mais, fazer com que parecesse haver um roteiro que ele seguia, e interpretava, inclusive. Gostei muito, mesmo. Intenso e engraçado em vários momentos.
O primeiro, Blackfish - fúria animal (Gabriela Cowperthwaite, 2012) discute a questão das orcas e o uso que se faz desses animais de grande porte nos aquários dos grandes centros de turismo norte-americanos. O filme discute a forma insidiosa e hipócrita como são tratados os casos de acidentes graves envolvendo o adestramento desses animais e seus treinadores.
As cenas e os depoimentos são muito esclarecedores, dá pra entender muito melhor como funciona a indústria do entretenimento que privilegia altos lucros em detrimento do bem estar seja dos mamíferos, seja de quem trabalha com eles. Trata-se de uma denúncia contundente dos Sea Worlds da vida, com depoimentos de uma grande cadeia de conhecedores, estudiosos, trabalhadores, cientistas, enfim, pessoas que circulam em torno desses animais, seja para estudá-los, seja para expô-los de modo mercantil, e a finalidade seria denunciar tais práticas abusivas, demonstrando como e por que são nefastas e agressivas com relação à natureza da espécie. Muito bom, fiquei impressionada com tudo que vi e ouvi.
O outro documentário - Amazônia (Thierry Ragobert, 2013) é meio longo, mas muito interessante, e deve ter dado um trabalho de cão fazer a montagem daquele material, porque parece uma coisa bem natural acompanhar a trajetória de um macaco prego desde o momento em que o avião em que ele ia (provavelmente contrabandeado) cai de repente no meio da floresta.
A partir daí temos uma fofura de miquinho parecendo ainda bebê tentando sobreviver naquela i.m.e.n.s.i.d.ã.o da floresta amazônica. O filme, pois, trabalha nessa clave do micro versus o macro, duas forças lutando para sobreviver. É quase épico o destino daquele mínimo animal, e vivemos com ele suas aventuras em busca das saídas possíveis para as suas enrascadas, que são muitas. É bem bonito, acredito que tenha sido um trabalho hercúleo filmar aquilo tudo porque parecia haver um roteiro bem amarrado e, evidentemente, o mico não tinha um script, logo coube ao continuísta, ao editor, ao diretor, sei lá eu a quem mais, fazer com que parecesse haver um roteiro que ele seguia, e interpretava, inclusive. Gostei muito, mesmo. Intenso e engraçado em vários momentos.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Questão de tempo

Se você gostou de Notting Hill vai gostar muito desse filme, Questão de tempo (About time) do mesmo diretor, Richard Curtis. Eu amei a história desses jovens tão a fim de dar certo, tão a fim de amar e ser amados, tão família-do-bem.
É bom olhar essas vidas iniciantes e belas querendo ir pro lugar melhor, pro amor que dá certo, pra alegria, pro afeto compartilhado em profundidade. E ainda por cima ter a ajuda mais que bem vinda de uma viagem no tempo básica, quando se pode melhorar as performances e as experiências para obter excelentes resultados - isso é o paraíso, e resulta engraçado.
Embora apenas os homens da família tenham o tal dom, a cumplicidade com a irmã a faz beneficiária da aventura junto com ele, em momento crucial. Ou seja, família é tudo por essas plagas - talvez seja um tanto piegas, mas é bom de ver, e se embarca fácil nos sonhos e utopias de todos.
Os atores são ótimos, estão à vontade, leves e divertidos, engraçados e tristes. Especialmente os protagonistas Rachel McAdams e Domhnall Gleeson, além do mais que ótimo Bill Nighy (do memorável Hotel Marigold) e também Lindsay Duncan. Enfim, filme pra ver, gostar, rir, se emocionar, e sair da sala com um sorriso no rosto.
_____
Nota: Hoje, primeiro dia no São Luiz, houve problemas com o projetor da sala 3 - até a hora em que saí, não haveria as sessões programadas. Começou o Fest Rio, sempre algum problema, em algum lugar.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Vila Velha
Vista da janela do quarto.
Caminhadas olhando o mar.
Brinquedos pour les enfants.
Pescadores, redes, peixe fresco.
Redes de pesca sobre areia.
Vista no final de tarde. Slow and quiet - outra vida.
Arco que homenageia os idosos. Me.
Praia toda de quem quiser.
Old people everywhere. Bonita cor de cabelo.
Vendem-se peixes frescos. E quem limpa?
Ponta da Sereia, uma entrada de mar ainda mais calmo.
Coco dulcíssimo, e barato - dois ou três, dependendo do pedaço de praia.
Ele jogou essa bola durante muito, muito tempo sozinho. Os pais sentados bebiam cerveja.
Golzaço, bebê. Que a vida permita muitos outros, alegres como esse.
Ela fez companhia a ele por um tempo - a fofa.
Os pais.

Avistando a vista. Bom de ver, sempre.
Caminhadas olhando o mar.
Brinquedos pour les enfants.
Pescadores, redes, peixe fresco.
Redes de pesca sobre areia.
Vista no final de tarde. Slow and quiet - outra vida.
Arco que homenageia os idosos. Me.
Praia toda de quem quiser.
Old people everywhere. Bonita cor de cabelo.
Ponta da Sereia, uma entrada de mar ainda mais calmo.
Coco dulcíssimo, e barato - dois ou três, dependendo do pedaço de praia.
Ele jogou essa bola durante muito, muito tempo sozinho. Os pais sentados bebiam cerveja.
Golzaço, bebê. Que a vida permita muitos outros, alegres como esse.
Ela fez companhia a ele por um tempo - a fofa.
Avistando a vista. Bom de ver, sempre.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Com ela
Tempo.
Melhor esperar com ela do que sozinho, nessa tela em branco: Wislawa Szymborska.
Alguns gostam de poesia
Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.
Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.
De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.
__________
Tradução de Júlio Sousa Gomes, publicada no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.
NOTA: cento e sessenta e oito pessoas, em tese, passaram por aqui desde que deixei o poema dela e me afastei. Só um deixou comentário. O que será que isso signfica? E de onde vem esse povaréu todo, o que buscam aqui? - que coisa mais esquisita. (Isso foi ontem, 17/09, terça-feira.
Hoje, quarta, 18/09, já são cento e setenta e três almas penadas a vagar por aqui. Não entendo como podem chegar tantos fantasmas apenas farejando um título tão comum: 'com ela'. Mais do que isso não posso atinar, a não ser um delírio coletivo.
Domingo, 22/09 = 199 almas penadas passaram por aqui, caracas. Enfim.
Melhor esperar com ela do que sozinho, nessa tela em branco: Wislawa Szymborska.
Alguns gostam de poesia
Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.
Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.
De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.
__________
Tradução de Júlio Sousa Gomes, publicada no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.
NOTA: cento e sessenta e oito pessoas, em tese, passaram por aqui desde que deixei o poema dela e me afastei. Só um deixou comentário. O que será que isso signfica? E de onde vem esse povaréu todo, o que buscam aqui? - que coisa mais esquisita. (Isso foi ontem, 17/09, terça-feira.
Hoje, quarta, 18/09, já são cento e setenta e três almas penadas a vagar por aqui. Não entendo como podem chegar tantos fantasmas apenas farejando um título tão comum: 'com ela'. Mais do que isso não posso atinar, a não ser um delírio coletivo.
Domingo, 22/09 = 199 almas penadas passaram por aqui, caracas. Enfim.
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