domingo, 29 de setembro de 2013

Les salauds; balés e corpos que dançam

Há coisas que deixam uma pessoa amarga pro resto do dia. Fui ver esse Os bastardos (Les salauds, Claire Denis, 2013) e fiquei mal o resto do dia. Tanto que o balé Momix, visto em seguida ao filme no teatro Municipal, ficou ruim também, não gostei daquele balé, mais imagem do que dança, mais malabarismo visual e cenográfico do que balé, queria ver os corpos agindo no espaço, retesando o ar com seus volteios e rodopios, e o que vi foram cenas de um cinemascope atualizado com photoshop dos bons. Nesse sentido, o grupo Corpo, visto também no Municipal numa outra dessas maravilhosas matinês de domingo, me pareceu muito, muito mais intenso, emocionante, vibrante, viril.

Isso tudo para dizer que Os bastardos é um filme muito bom, e talvez por isso deixe esse gosto amargo na boca. Porque não há mulher que não se indigne com o que a história deixa ver, e muito mais entrever, a respeito daquela jovem, já que não há linearidade nem cronologia claras no desenrolar dos acontecimentos, embora compreendamos perfeitamente o que está ocorrendo, em suas linhas gerais e mais importantes, mas acho que as lacunas são propositais, como a explicitar o caos em que aquelas vidas se encontram.  Para mim, o núcleo duro do filme, o que acontece nele realmente, o que importa aos olhos dessa espectadora será a situação devastadora, relacionada a essa menina, a essa filha, essa sobrinha, essa conhecida de todos nós. E fica tudo muito triste, doloroso e cruel à medida que avançamos na compreensão daquele quebra cabeça.

Nem mesmo o encontro da bela Chiara Mastroianni com um fantástico Vincent Lindon, vivendo cenas de paixão explícita, amenizam a tragédia. E no final, ela também precisa ser uma salaude, porque tem de escolher entre o filho e o amante (e o dinheiro, claro, com tudo que ele representa) - nesse caso não há dúvidas, escolherá o filho. Para isso, terá de sacrificar o amante, numa cena que se explica sozinha. Salaude. Todos os personagens, de certo modo, têm o pé no lodo, na lama, na abjeção. É um filme que flagra meio de relance, meio aos pedaços, e por isso mesmo com mais força, a crise de valores (morais, éticos) dos que, diante da iminência de perder qualquer coisa - bens, pessoas, coisas, não hesitam em lançar mão do que seja necessário para manter seu status, e o exercício do poder.

É também um filme doloroso que expressa, em sua crueldade, senão a verdade histórica do comunismo anunciado por Marx em sua frase-síntese, ainda e sempre tão atual, outro espectro que tem rondado a Europa, cujo símbolo perfeito seria a jovem nua vagando pelas ruas, caminhando feito sonâmbula, sem luz no olhar, que abre o filme. Aqui, e agora, as mulheres que vivem nas franjas dos donos do dinheiro (e desse grande Capital) - as belas, as jovens, as que não criaram armas de defesas por conta própria, as que não são donas de suas vidas - essas são as que pagarão os mais altos preços pela desordem financeira. Semelhante à mãe da jovem, se veem de repente completamente perdidas, incapazes de administrar o caos e o pó em que os negócios se dissolveram, e tampouco são capazes de lidar com a situação moral em que agora se encontram. Vender a filha, matar o amante são apenas algumas das formas que os agora cegos no nevoeiro (cenas de Ensaio sobre a cegueira se impõem) encontram para seguir - de qualquer maneira, a qualquer custo, foice pendendo sobre suas cabeças.

sábado, 28 de setembro de 2013

Blackfish; Amazônia

Assisti a dois documentário hoje, ambos ótimos.

O primeiro, Blackfish - fúria animal (Gabriela Cowperthwaite, 2012) discute a questão das orcas e o uso que se faz desses animais de grande porte nos aquários dos grandes centros de turismo norte-americanos. O filme discute a forma insidiosa e hipócrita como são tratados os casos de acidentes graves envolvendo o adestramento desses animais e seus treinadores.

As cenas e os depoimentos são muito esclarecedores, dá pra entender muito melhor como funciona a indústria do entretenimento que privilegia altos lucros em detrimento do bem estar seja dos mamíferos, seja de quem trabalha com eles. Trata-se de uma denúncia contundente dos Sea Worlds da vida, com depoimentos de uma grande cadeia de conhecedores, estudiosos, trabalhadores, cientistas, enfim, pessoas que circulam em torno desses animais, seja para estudá-los, seja para expô-los de modo mercantil, e a finalidade seria denunciar tais práticas abusivas, demonstrando como e por que são nefastas e agressivas com relação à natureza da espécie. Muito bom, fiquei impressionada com tudo que vi e ouvi.

O outro documentário - Amazônia (Thierry Ragobert, 2013) é meio longo, mas muito interessante, e deve ter dado um trabalho de cão fazer a montagem daquele material, porque parece uma coisa bem natural acompanhar a trajetória de um macaco prego desde o momento em que o avião em que ele ia (provavelmente contrabandeado) cai de repente no meio da floresta.

A partir daí temos uma fofura de miquinho parecendo ainda bebê tentando sobreviver naquela i.m.e.n.s.i.d.ã.o da floresta amazônica. O filme, pois, trabalha nessa clave do micro versus o macro, duas forças lutando para sobreviver. É quase épico o destino daquele mínimo animal, e vivemos com ele suas aventuras em busca das saídas possíveis para as suas enrascadas, que são muitas. É bem bonito, acredito que tenha sido um trabalho hercúleo filmar aquilo tudo porque parecia haver um roteiro bem amarrado e, evidentemente, o mico não tinha um script, logo coube ao continuísta, ao editor, ao diretor, sei lá eu a quem mais, fazer com que parecesse haver um roteiro que ele seguia, e interpretava, inclusive. Gostei muito, mesmo. Intenso e engraçado em vários momentos.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Questão de tempo



Se você gostou de Notting Hill vai gostar muito desse filme, Questão de tempo (About time) do mesmo diretor, Richard Curtis. Eu amei a história desses jovens tão a fim de dar certo, tão a fim de amar e ser amados, tão família-do-bem.

É bom olhar essas vidas iniciantes e belas querendo ir pro lugar melhor, pro amor que dá certo, pra alegria, pro afeto compartilhado em profundidade. E ainda por cima ter a ajuda mais que bem vinda de uma viagem no tempo básica, quando se pode melhorar as performances e as experiências para obter excelentes resultados - isso é o paraíso, e resulta engraçado.

Embora apenas os homens da família tenham o tal dom, a cumplicidade com a irmã a faz beneficiária da aventura junto com ele, em momento crucial. Ou seja, família é tudo por essas plagas - talvez seja um tanto piegas, mas é bom de ver, e se embarca fácil nos sonhos e utopias de todos.

Os atores são ótimos, estão à vontade, leves e divertidos, engraçados e tristes. Especialmente os protagonistas Rachel McAdams e Domhnall Gleeson, além do mais que ótimo Bill Nighy (do memorável Hotel Marigold) e também Lindsay Duncan. Enfim, filme pra ver, gostar, rir, se emocionar, e sair da sala com um sorriso no rosto.
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Nota: Hoje, primeiro dia no São Luiz, houve problemas com o projetor da sala 3 - até a hora em que saí, não haveria as sessões programadas. Começou o Fest Rio, sempre algum problema, em algum lugar.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Vila Velha

Vista da janela do quarto.
 Caminhadas olhando o mar.
 Brinquedos pour les enfants.
 Pescadores, redes, peixe fresco.
 Redes de pesca sobre areia.
Vista no final de tarde. Slow and quiet - outra vida.
 Arco que homenageia os idosos. Me.
 Praia toda de quem quiser.
 Old people everywhere. Bonita cor de cabelo.
 Vendem-se peixes frescos. E quem limpa?

Ponta da Sereia, uma entrada de mar ainda mais calmo.
Coco dulcíssimo, e barato -  dois ou três, dependendo do pedaço de praia.
Ele jogou essa bola durante muito, muito tempo sozinho. Os pais sentados bebiam cerveja.
 Golzaço, bebê. Que a vida permita muitos outros, alegres como esse.
 Ela fez companhia a ele por um tempo - a fofa.
Os pais.


Avistando a vista. Bom de ver, sempre.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Com ela

Tempo.
Melhor esperar com ela do que sozinho, nessa tela em branco: Wislawa Szymborska.


Alguns gostam de poesia

Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.

Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.

De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.


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Tradução de Júlio Sousa Gomes, publicada no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.

NOTA: cento e sessenta e oito pessoas, em tese, passaram por aqui desde que deixei o poema dela e me afastei. Só um deixou comentário. O que será que isso signfica? E de onde vem esse povaréu todo, o que buscam aqui? - que coisa mais esquisita. (Isso foi ontem, 17/09, terça-feira.


Hoje, quarta, 18/09, já são cento e setenta e três almas penadas a vagar por aqui. Não entendo como podem chegar tantos fantasmas apenas farejando um título tão comum: 'com ela'. Mais do que isso não posso atinar, a não ser um delírio coletivo.

Domingo, 22/09 = 199 almas penadas passaram por aqui, caracas. Enfim.