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Não sei bem por quê, mas Gertrude Stein anda me rondando há algum tempo. Já comentei por aqui A autobiografia de Alice B. Toklas e, en passant, o Duas vidas, de Janet Malcolm, uma delícia de fofoca acadêmica em alto nível. Agora, encontrei o pequeno Paris França e, lendo o início, trouxe para ver o resto.
No geral, achei A autobiografia (1933) uma viagem meio ególatra, mas há algo no estilo que me prende, talvez seja a liberdade que ela se dá, o jeito desabusado de falar de tudo e de todos. Sobre o livro, diz Janet Malcolm:
Uma das características mais notáveis na Autobiografia de Alice B. Toklas é a maneira arrogante com que Stein trata as pessoas menos importantes de seu círculo. Ela os aplaina como talvez nenhum biógrafo, antes ou depois dela, tenha aplainado um personagem. Stein sentia, ao mesmo tempo, alegria e um pouco de vergonha com o sucesso dessa obra tão habilmente escrita para o 'público'. Escrevendo na voz de Toklas, Stein obrigou-se a falar um inglês mais convencional que o inglês falado por ela em suas obras herméticas, mas o que o grande público gostava nessas obras não era apenas o fato de conseguir entendê-las. O público reconhecia que lhe havia sido dado algo verdadeiramente original - o livro é tão vanguardista e experimental, tão extravagante e subversivo quanto a mais vanguardista e subversiva obra de Stein. Ele é - entre outras coisas - uma antibiografia. (p. 191).
Nem tão vanguardista, nem tão subversivo, mas esses são conceitos que dependem não apenas de uma certa retórica acadêmica para circunscrevê-los, mas de um viés histórico para avaliar e situar obras como tal.
De todo modo, já no início desse Paris França ela diz o que talvez seja uma boutade, mas interessante:
Afinal, todos, ou seja, todos os que escrevem estão interessados em viver dentro de si mesmos para contar o existe dentro de si mesmos. Por isso os escritores precisam ter dois países, aquele onde nasceram e o outro onde de fato vivem. O segundo é romântico, é separado deles, não é real, mas na verdade está ali. [p. 34]
[...]
Claro que algumas vezes as pessoas descobrem seu próprio país como se fosse o outro, um exemplo recente disso é Louis Bromfield descobrindo os Estados Unidos, também houve alguns ingleses assim, Kipling, por exemplo, descobriu a Inglaterra mas em geral o outro país de que se precisa para ser livre é um país diferente, não aquele onde se nasceu. [p.35]
Eu me pergunto se essa é uma perspectiva basicamente européia, em que o outro país fica ali ao lado e, por isso, a necessidade de mudar de país para o exercício da liberdade fica mais simples.
Mas penso que a questão é verdadeira, ou seja, somos mais livres longe dos constrangimentos que nossa origem, nossos pertencimentos culturais nos impõem, mas não precisamos de outro país, no máximo de outra cidade, e não por uma vida toda. Acho que só o tempo para conhecer-se, fortalecer sua própria identidade, talvez.
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Paris França. Gertrude Stein. Tradução Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Tezza, Stein, Toklas etc...
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Primeiro, estou feliz com o prêmio Portugal Telecom deste ano para O filho eterno, do Cristóvão Tezza, merecidíssimo, o livro é muito bom e deve ser uma alegria muito especial para o pai-autor obter tantas vitórias com um livro que é um extraordinário mea culpa.
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Agora, sobre A autobiografia de Alice B. Toklas, de Gertrude Stein, o livro começa auspicioso mas vai ficando cansativo, e o que era audácia 'estilística' (escrever a autobiografia de outra pessoa para falar basicamente de si) vai ficando ralo e se tornando um tititi interminável, uma conversa meio de comadres, de certo nível, é verdade, porque os parceiros das comadres são gente da mais alta qualidade, o mais assíduo dos quais Picasso no início de sua carreira, com idas e vindas de brigas entre os dois. Gertrude comprava quadros deles todos, tinha fascinação por pintura moderna e acompanhou como amiga os trabalhos iniciais sobretudo de Juan Gris, Cézanne, Braque e Matisse, além de ter convivido, por algum tempo ao menos, com Hemingway, Tristan Tzara, Picabia, Ezra Pound e outros fundadores do cânone moderno. O tom do livro me parece um tanto megalômano, como, aliás, seria o projeto do portentoso The making of Americans, sobre o qual ela diz (lembrar que está falando dela mesma em terceira pessoa):
Foi durante esse verão que Gertrude Stein começou o seu grande livro The Making of Americans.
Começava com um velho tema cotidiano que escreveu ainda em Radcliffe:
"Uma vez um homem furioso arrastou o próprio pai pelo chão do quintal que pertencia ao velho. 'Pára!' Eu não arrastei meu pai além desta árvore." [...]
Devia ser a história de uma família, e era, mas quando cheguei a Paris já estava se transformando na história de toda a humanidade, de todos os seres humanos passados, presentes e futuros." (p. 60).
Isso mesmo, meus caros, simples assim, ela só tem essa pequena ambição, coisa simples, mas o problema é que ela acha mesmo que nas mil e tantas páginas de um livro que quase ninguém leu, segundo a Janet Malcolm, ela produziu a obra-prima da humanidade. Acho que Mallarmé, tendo o mesmo tipo de delírio (escrever a obra incomensurável), deixou saldo mais vital para a cultura. De todo modo, há uma certa sedução, algo que te chama para as incontáveis histórias que não têm fim, sobre um mundo de gente que 'importa, importou e/ou importará', contadas por essa narradora espevitada, um pouco metida, a quem ninguém ousava recusar nada, segundo ela. Sempre fora mimada, a caçula numa família de vários filhos e Alice Toklas acabou sendo a parceira perfeita numa relação de ascendência de uma sobre a outra, em que Stein era o gênio protegido, administrado e incensado por Toklas.
A visão que ela tem sobre o sentido de igualdade é singular, e diz bem de seu caráter forte, já que encontra uma justificativa quase 'filosófica' para o fato de todos se renderem a ela:
Essa faculdade de Gertrude Stein de conseguir que todo mundo fizesse tudo para ela deixava intrigados os outros motoristas da organização. Mrs. Lathrop, que costumava dirigir seu próprio carro, dizia que ninguém fazia essas coisas para ela. E não eram só os soldados. Um chofer largava o volante de um carro particular na Place Vendôme para acionar a manivela do fordeco de Gertrude Stein, se fosse preciso. [...] Agora, quanto a ela, só era bem disposta, democrática, uma pessoa valia tanto quanto outra, e sabia o que queria que fizessem. Segundo ela, quando a gente é assim, se consegue tudo que se quer. (p. 182).
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A autobiografia de Alice B. Toklas. Gertrude Stein. Tradução Milton Persson. Porto Alegre L&PM, 2006.
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domingo, 19 de outubro de 2008
dois livros, duas vidas

Já estava quase no final de A autobiografia de Alice B. Toklas, o entusiasmo inicial vinha diminuindo quando me deparei há dois dias com Duas vidas, Gertrude e Alice, de Janet Malcolm, que comecei a ler na livraria e não pude deixar lá, de modos que agora leio os dois ao mesmo tempo e não há como falar do primeiro sem que a visão de uma outra história das duas moças, que a Janet conta de forma engraçada e impiedosa, interfira não apenas na leitura do primeiro, mas mude radicalmente o modo mesmo de lê-lo. Interessante isso, como um livro também é ele e suas circunstâncias receptivas.
ps. procurando a foto da capa, achei uma resenha ótima do Moacyr Scliar para a Veja, que eu não lembrava de ter lido, em
http://arquivoetc.blogspot.com/2008/05/duas-vidas-de-janet-malcolm.html
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quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Stein
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Não sei onde estava que não tinha lido ainda A autobiografia de Alice B. Toklas. A tradução é ruim, a edição pocket da L&PM também é péssima, mas mesmo assim trata-se de um livro imprescindível. Estou ainda na página 60 e já conheci quase intimamente Picasso, Matisse, Cézanne, Gauguin, Apollinaire, além de ficar besta com a audácia desta mulher, Gertrude Stein, que escreve fazendo-se passar pela própria amante, falando de si mesma em terceira pessoa, descrevendo e narrando tudo de importante que rolava no começo do século vinte, na Paris de Montparnasse et caterva.
Ainda não sei o que há de excessivamente vaidoso no gesto dela, ou se se trata de uma afirmação necessária à mulher que se queria independente de sua época, mas saberei ao final da leitura. Também é muito interessante pensar na efervescência desse e do outro grupo, o de Bloomsbury, de Virginia Woolf, como são diferentes mas como são ambos tão ricos, com mulheres fortes e interessantíssimas, pensando e atuando no mesmo nível dos melhores intelectuais da época. Bons tempos, aqueles, pelo menos para o pensamento.
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