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segunda-feira, 13 de julho de 2009
Dois livros menores
Dos livros menores que andei lendo nos últimos dias, de repouso por conta de uma pequena cirurgia, o mais fraquinho foi Monte verità, de Gustavo Bernardo, indicado por uma crítica elogiosa postada no blog da Adriana Lisboa, feita pelo José Castello. Achei que o aval de ambos era suficiente e fui pro livro com boa vontade.
O livro tenta falar para jovens leitores sobre os danos climáticos e tantos outros que ameaçam nosso sistema de morte iminente e trabalha com seis intervenções, cada uma buscando resolver um problemão por vez: o lixo do mundo todo, a poluição das águas, a super população e por aí vai, cada intervenção eliminando milagrosamente os problemas once and for all.
Paralelamente, há um homem moçambicano que tem a mulher assassinada na guerra e acaba abandonando a filha na fuga que empreende dos bandidos. Esse homem é um garçom, e ele escreve, e tudo indica que as tais intervenções são fruto de sua escrita, o que torna tudo meio ambíguo e confuso. Ou seja, a coisa toda não engrena, ficam aquelas situações fantásticas descritas nos comunicados vagando na história, assim como fica vagando esse homem, esse garçom que fala várias línguas falando meio para ninguém... Mas pode ser que o público jovem para quem, teoricamente, o livro é dirigido, goste.
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O outro livro menor é muito melhor, sem dúvida, e foi indicado por minha amiga Eliana, no blog dela. Trata-se de Vésperas, da Adriana Lunardi, e é um livrinho sem pretensão que se lê com prazer e, em alguns momentos, com emoção, já que ela escreve pequenas histórias tomando, de modo delicado, os momentos finais de algumas escritoras bem conhecidas como tema.
Como fiquei curiosa, fui direto para a história com Virgínia Woolf, e depois Ana Cristina Cesar e Clarice Lispector (as outras são Dorothy Parker, Colette, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald e Júlia da Costa) e gostei muito, porque há uma percepção fina não apenas do mundo ficcional dessas escritoras, mas uma compreensão do universo mental em que se moviam.E há os parágrafos finais, quase todos antológicos, onde ela usa uma espécie de fecho de ouro, em geral primoroso, para capturar a última cena da hora final de sua heroína, como essa sobre Ana C:
"Quando as portas se abrem, os aparelhos que me monitoram começam a apitar ao mesmo tempo. O enfermeiro arranca a máscara de oxigênio e cola sua boca na minha. Penso que sempre desejei acabar-me em uma briga. Uma briga de faca, que nunca aprendi a manejar. Resigno-me com um beijo, expreessão mais exata para minha biografia, e retiro-me, ao lado de Ana C., para assistir à corrida que leva meu corpo por esse corredor que nunca termina." [p. 54]
Ou sobre Clarice:
"O corpo dói de celebração. Atrás de mim ouço um ruído. Não tenho pressa. Sei que ao dar as costas verei Otávio, as mãos nos bolsos, entre furioso e aliviado, pensando no que fazer comigo. Há, finalmente, coisas para as quais ele não tem um nome. Mas pode estar perto, muito perto, de conhecer a ordem dos corações selvagens." [p. 78].
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Gustavo Bernardo. Monte verità. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2009.
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Adriana Lunardi. Vésperas. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
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