Ver dois filmes no mesmo dia, em horários seguidos, e estando com a vida meio enrolada, às vezes dá um samba meio doido.
Pois então, A caça (Thomas Vinterberg) tem aquela força dos filmes sem saída, das situações irremediáveis, em que alguém entra sem sequer imaginar num alçapão e mesmo conseguindo sair, cheio de lanhuras, jamais será o mesmo. O filme é absurdamente bom porque o espectador sabe o tempo todo que aquilo tudo é um pesadelo, e quer contar a todo mundo, quer ajudar, dizer, explicar, mas fica sentado na cadeira, grudado, assistindo à derrocada daquele homem, preso àquela vila - por que ele não vai embora, não larga aquela droga de cidade e de gente, depois que se sabe do relatório da polícia? Porque o buraco é mais embaixo, sempre é: aquele é o lugar dele, aquelas são as pessoas que ele conheceu a vida toda, esse é o seu mundo. Será preciso resolver-se ali - e com eles. E resolvem-se os impasses, as coisas parecem entrar nos eixos. Parecem. Porque, lembra-nos Drummond, 'de tudo fica um pouco'. E o tiro que quase o acerta na caçada entre amigos será esse resíduo imorredouro, mancha indelével com a qual ele terá de conviver vida afora, sem ter qualquer responsabilidade por sua mácula. E o ator, Mads Mikkelsen, não poderia ter feito melhor o seu trabalho - convincente ao extremo em sua aparente dureza.
Já Francisco Brennand (Mariana Brennand Fortes), dirigido pela neta do artista, me parece um documentário necessário, uma espécie de balanço de uma vida dedicada à construção de uma obra. Tudo é obra e tudo é arte na existência desse homem, agora com 86 anos (um ano menos que minha mãe), as mãos trêmulas, mas a voz forte, o pensamento claro e coerente. Há nele uma ponta de vaidade pelo que construiu, o que me parece muitíssimo coerente com a magnitude de sua entrega, e de seu legado. Acho que o trabalho dele é pessoalíssimo, grandiloquente, há um mundo de referências arcaicas, mitologias pessoais e universais que se espraiam em pinturas e esculturas grandiosas, fortes. E há homenagens a poetas, versos e retratos de outros artistas inscritos em murais, colagens, desenhos, roteiros - vida e arte, trançadas e traçadas até o limite. Hermila Guedes narra o filme, mas no final dá um testemunho da força do artista, quando se percebe em sua voz e em seu diálogo com ele uma certa humildade no tom, uma forma de falar diferente da locutora que ouvíramos até então. Isso me pareceu um tributo a mais, uma reverência, talvez. Um: estou diante de:
E aproveitando o mundo criado pelo primeiro filme, observo que esse universo de vilarejo, com suas mazelas características, me lembrou muito A festa de Babette, o livro, não o filme. Há no filme uma atmosfera gótica, um mundo quase fantasmal que cria um interesse forte no espectador - o contraste entre a atmosfera noturna, os personagens em sua velhice espectral numa cidade espectral face à vivacidade do banquete que Babette oferece a eles rende um filme extremamente inquietante, quase bizarro em sua estranha beleza. Já no livro desaparece esse contraste, e fica a linguagem quase clássica de Karen Blixen, sua habilidade para criar uma personagem cuja grandeza reside no contraste entre sua função na casa das irmãs, seu comportamento de humilde serviçal, e sua arte - a percepção aguda de que faz arte, e grande arte, é memorável: "Pobre?, disse Babette. Sorriu para si mesma ao ouvir isso. "Não, nunca vou ser pobre. Já lhes disse que sou uma grande artista. Uma grande artista, madames, nunca é pobre. Temos algo, madames, a respeito do qual as outras pessoas não fazem a menor ideia." (p. 53).
Era isso que se ouvia na voz de Hermila; é disso que se trata com relação a Brennand; foi isso que Mikkelsen me fez igualmente compreender.
segunda-feira, 25 de março de 2013
terça-feira, 19 de março de 2013
A busca

Acho que todos nós temos algum tipo de rasura, em algum momento, ao menos, nessa complicada trajetória da relação pai/mãe/filho, dependendo a intensidade dessa fissura na vida de cada um da percepção que se tenha de ter recebido mais ou menos amor na infância.
O belíssimo filme A busca (Luciano Moura) captura de forma terna, lírica, enfática, certeira e emocionante um momento de crise nessa trajetória da relação de um pai, sobretudo, e seu filho.
Trata-se de um filme sobre encontrar o pai, o amor do pai, que parece rompido, numa cadeia que vai do filho Pedro, vivido suavemente por Brás Moreau Leme, passando por Theo Gadelha, no desempenho excepcional de Wagner Moura, ao avô excluído, que quer reintegrar-se à família, vivido pelo talento consagrado de Lima Duarte, na cena que fecha o filme - pequena, forte e emocionante.
O trabalho do Wagner emociona, não apenas porque ele fica o tempo todo na tela, em closes fortes e expressivos, mas sobretudo porque ele nos torna cúmplices dessa vontade de compreender o movimento do filho - para onde foi, o que foi fazer, com quem está, onde está, se está. Refazer o caminho do filho, em sua busca, será também refazer-se, ir topando com o desconhecido e com o inesperado de que a vida é feita, e que ele, Theo, já esquecera. Momentos intensos no rastro do filho (e do filme): o parto que ele faz de uma moça amiga de seu filho, na beira de um rio de águas geladas, num acampamento neo-hippie; a carona que dá a um grupo de jovens indo a uma rave, quando parece relembrar o jovem que foi; a tentativa frustrada de atravessar o rio no bote; reconhecer o desenho do filho na oficina; avistar Pedro andando a cavalo, morro acima, uma das cenas mais bonitas e poéticas do filme - ele, morro acima, tranquilo, como alguém perdido e achado ao mesmo tempo, aquele jeito de menino sério e tenaz. E continua na sequência do pai emparelhar a moto com o cavalo e não ser reconhecido pelo filho. Tudo é bonito, tudo tem força, tudo é intenso e terno para mim.
O final é um achado, e não ligo a mínima que haja um tantinho de pieguice na reunião dos três: pai, filho e neto. Não tem como ser diferente no contexto dessa busca. Parece justo que o filho leve o pai a re-encontrar-se com seu passado, com sua história, com suas raízes - é para isso que existem as crises, as dores, as perdas. Queria muito ter visto os três conversando, tomando café da manhã, olhando uns para os outros. Queria que não terminasse ali. Enfim, tudo muito bom, do começo ao fim.
(E como se não bastasse, já tinha levantado pra sair quando ouço uma canção ao mover dos créditos, na voz portentosamente suave de Arnaldo Antunes. Paro, volto, sento de novo. Ouço. É uma espécie de psiu que ela faz para mim; um sublinhado; um asterisco; umas aspas que ela abre na percepção da história. Diz: 'olhe, veja, escute, preste atenção - sou eu, eu. Me ame do jeito que eu sou, não do jeito que você quer que eu seja'. É perfeita.).
segunda-feira, 4 de março de 2013
Buquê de livros - Cosac
Pelo andar da minha carruagem de leitora, esse vai ser meu arsenal para, talvez, o primeiro semestre, com algum otimismo. Querendo muito escrever sobre O filho de mil homens, do valter hugo mãe, que já terminei há tempos, mas levou outro tempão para chegar ao fim. Acho um livro dificílimo de comentar, já comecei a escrever, mas nada de engrenar. De todo modo, essa promoção da Cosac está excelente, e muito desse buquê precioso confesso que está aqui por conta da edição soberba, do livro ele-mesmo, objeto de amor que estará sempre presente em minha vida (já tenho e já li o Bartleby, por exemplo, só não resisti a essa edição). Mas é preciso serenidade para ler. É preciso um nível mínimo de estresse. É preciso que a vida me dê uma folga. Acho que vou tirar essa folga na marra. Da vida, claro.
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