Não conheço todos os livros que ganharam o último Jabuti, mas conheço o livro rosa - que tirou o segundo lugar de poesia - organizado pela Viviana Bosi, pesquisadora muito competente, aliás, mas, lamento informar, o Antigos e soltos - poemas e prosas da pasta rosa não é sequer um livro - ou melhor, é só isso mesmo, um objeto livro bonito, muitíssimo belo, com um conteúdo totalmente confuso e desorganizado, sem qualquer referência ou indicação ou pontuação ou o que quer que seja que o torne uma leitura à altura da poesia de Ana Cristina.
Aliás, devo dizer que amo a poesia de Ana C., já escrevi um decente ensaio (eu acho) sobre ela, mas convenhamos, bilhetinhos rabiscados, poeminhas inacabados, recadinhos pra amigos, riscadinhos e desenhinhos - nada disso faz um livro de poesia, mesmo sendo de Ana C., mestra do coloquial e das confidências.
Acho mesmo uma total falta de respeito à memória da poeta, que era bem ciosa de revisões e cuidadosa quanto ao resltado final de seus poemas. Ela não merece esse desserviço a seu trabalho, acho uma rasteira na sua obra, tanto maior porque muito de sua poesia publicada tem esse lastro de alguma coisa mais fácil, em razão do apelo ao coloquial e da conversa ao pé do ouvido com o leitor, além de estratégias de sedução e cartas escritas para nós, leitores cúmplices.
Enfim, o livro é belo enquanto objeto, e tem algum interesse para os adeptos da crítica genética - penso que alguns querem ver o sangue do autor impresso na obra. Mas não é um livro de poesia. É um livro apenas, um belo livro-objeto. A poesia que há nele, se houver, a poeta não teve tempo de criar.
___
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
(Ana C., A teus pés. Ática/IMS, 1998, p. 89).
Mostrando postagens com marcador Ana Cristina Cesar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ana Cristina Cesar. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 6 de outubro de 2009
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Antigos e soltos

Acabei de passar em revista quase todo o enorme e belíssimo volume Antigos e soltos - poemas e prosas da pasta rosa, uma edição de textos não publicados e rascunhos em fac-símiles de Ana Cristina Cesar, organizada por Viviana Bosi e editada luxuosamente pelo Instituto Moreira Salles.
O livro serve basicamente como fonte de pesquisas sobre a obra de Ana Cristina (será muito útil à crítica genética), tem valor muito mais afetivo do que literário, pois apresenta muitos textos ainda não resolvidos, muito ensaio e erro; não me parece um livro para se 'ler', mas para se ter e pesquisar, mesmo que não haja uma linha sequer de crítica, de que se ressente a obra. Teria sido necessário que a organizadora apresentasse ao menos um estudo consistente sobre o material coletado. Solto assim, fica muita coisa à espera de aproveitamento.
De todo modo, o produto final, o livro em si, é muito bonito, mas não sei se tanto dinheiro valeu o escrito. Em termos de consistência e relevância para a fortuna crítica de Ana C, o livro de Flora Sussekind (Até segunda ordem não me risque nada. Os cadernos, rascunhos e a poesia-em-vozes de Ana Cristina Cesar, 1995) ainda é mais importante.
terça-feira, 7 de agosto de 2007
Poemas de Ana Cristina Cesar
Assim que der, falo sobre a poesia de Ana Cristina Cesar. Por enquanto, alguns poemas:
Aventura na casa atarracada
Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado:
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.
[A teus pés, São Paulo: Brasiliense, 1982, p.37]
Noite de Natal
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra dentro das
botas pretas
pudera
[Idem, p. 62]
.... Fica difícil fazer literatura tendo Gil como leitor. Ele lê para desvendar mistérios e faz perguntas capciosas, pensando que cada verso oculta sintomas, segredos biográficos. Não perdoa o hermetismo. Não se confessa os próprios sentimentos. Já Mary me lê toda como literatura pura, e não entende as referências diretas.
[idem, p. 90]
Aventura na casa atarracada
Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado:
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.
[A teus pés, São Paulo: Brasiliense, 1982, p.37]
Noite de Natal
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra dentro das
botas pretas
pudera
[Idem, p. 62]
.... Fica difícil fazer literatura tendo Gil como leitor. Ele lê para desvendar mistérios e faz perguntas capciosas, pensando que cada verso oculta sintomas, segredos biográficos. Não perdoa o hermetismo. Não se confessa os próprios sentimentos. Já Mary me lê toda como literatura pura, e não entende as referências diretas.
[idem, p. 90]
Assinar:
Postagens (Atom)