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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Paulo Scott; poemas de Claudia Roquette Pinto

Do que andei lendo, aqui e ali, um livro me ficou na cabeça e já foi lido há tempos: Ithaca Road, de Paulo Scott, a que eu cheguei através dos comentários de Aguinaldo Medici no blog Livros que eu li, e que permanece em minha memória afetiva como um dos grandes textos produzidos no ano passado. Continuo pensando em Narelle, sua psoríase, seu prazer com os patins e suas inseguranças; a esquisitice de Ana me acompanha ainda, e me sinto muito próxima do jeito duro de ser da Trixie, em crise pelo fim de um relacionamento. Talvez porque as personagens fortes sejam todas mulheres, talvez porque haja muita coisa acontecendo sem ser claramente explicitada, num ar meio de filme noir, o fato é que a narrativa toda é bem sedutora, com seus vários mistérios, e nos faz cúmplices daquelas inquietações, sobretudo as que dizem respeito ao paradeiro do irmão de Narelle: voltará? terá sido assassinado? seria ele um bandido, ou um mocinho em luta contra o sistema financeiro sórdido, que o teria levado à falência? Há mistérios, eles são todos envolventes, além de o livro de Scott ser muito bem escrito. Acho que veio para ficar para além de uma temporada dos Amores Expressos.

Quanto à poesia, li um dos livrinhos da coleção Ciranda da poesia, editada pela EdUERJ, com coordenação de Italo Moriconi. São livros pequenos, quase de bolso, com leituras e análises de colegas de ofício, não necessariamente críticos literários, fazendo uma espécie de close reading de poemas, um formato interessante não apenas para os estudantes de Letras, mas para qualquer leitor interessado em poesia, e que quer entender um pouco mais da carpintaria do ofício.

Esse volume foi comentado por Paulo Henriques Britto e trata da obra de Claudia Roquette Pinto. Eu tenho dela em algum lugar nas caixas da mudança, e já devo ter lido em algum momento, Corola e Margem de manobra, mas vistos os poemas assim, iluminados pela inteligência de Paulo Henrique, me deparei com alguns poemas ótimos, percepções bem interessantes sobre o ofício de escrever, e ao final me peguei pensando: que grande poeta essa Roquette Pinto!

Dois deles:

O primeiro beijo

Íntimo do medo
(e não avesso a ele)
o rosto indecifrável sequer denuncia
a tropa de cavalaria
que lhe sacode o peito.
Enquanto as mãos,
na exposição do argumento,
tremem visivelmente,
ele permanece sereno, pousado
(gota de orvalho sobre a agulha do pinheiro)
no momento presente.
Daí o seu poder deriva:
de não querer domar a coisa viva,
mas cavalgá-la com graça
(o corpo não se opõe ao desejo).
Ele é dono do seu medo,
e o abraça.
(p. 73)
____

O torneado hábil das palavras
o dissonante vão das consoantes
não podem mais - nem por um instante -
bouleversar o meu pequeno alento.
E já nem tento, ainda que fugaz
fosse o prazer no momento do encontro
satisfazer com tais materiais
minha volúpia pelo contratempo.
Abandonar o ritmo, eis tudo:
mudar de logradouro - ou de logro -
que isso de escrever é jogo
perdido de antemão, no mano a mano.
Mas sem ressentimento: o mais são nuvens,
e todos os poemas um engano.
(p. 67)

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Claudia Roquette Pinto. Coleção Ciranda da Poesia. Apresentação de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010.

Paulo Scott. Ithaca Road. São Paulo: Cia das Letras, 2013.