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sábado, 15 de agosto de 2009

A onda do livro - Escrever, Duras

Um amigo me perguntou outro dia se eu tinha Escrever, da Marguerite Duras, eu disse sim, e fiquei de mandar para ele uma cópia, pois em princípio a obra está esgotada há algum tempo.

Procurando nos vários lugares em que ele poderia estar, acabei achando-o numa prateleira do quarto de empregada e fui reler alguns textos para tentar descobrir qual o interesse do meu amigo, já que ele não quis me contar por telefone (eu mais ou menos entendi por quê, mas quero muito ler o que vai sair daquela mente privilegiada...).

Eu já havia feito menção a esse livro num post de novembro de 2007, mas não havia lido todos os cinco pequenos textos, apenas o primeiro está com algumas anotações e fui ler os outros. No conjunto, trata-se de um tipo de reflexão muito pessoal de Duras sobre o ato de escrever e sobre a criação, com algumas ótimas percepções a respeito dessas atividades, muitas frases belas, tocantes, imagens fortes - e uma irmandade com Clarice nisso tudo, até mesmo na descrição minuciosa da morte de uma mosca, prima-irmã da barata sartreana de Clarice.

Ao fim e ao cabo, é um livro para se ler abrindo em qualquer página, encontrando alguns pensamentos luminosos, outros que são expressão daquela sensibilidade dos à beira de, de que fazem parte Duras, Clarice, V. Woolf, H. Hilst, mulheres-escritoras extremamente angustiadas e talentosas, para quem escrever era um ofício, muitas vezes, penoso - e indispensável como respirar.

Assim, abrindo ao acaso a página 112, leio:

Que existam também animais sem identidade, bolsões inchados e ocos, a doçura de uma pintura muito antiga, que lhes teria dado identidade. Signos com o aspecto de serem coisas. Troncos de árvore que vão embora, disparam. Trechos de serpentes marinhas na umidade das fontes, dos musgos. Jorros, errupções, possíveis aproximações entre a idéia, a coisa, a permanência da coisa, sua inanidade, a matéria dela, da cor, da luz, e Deus sabe o que mais.

Nesse livro, os cinco textos tratam mais ou menos disso: frases intensas sobre sentimentos extremos ligados ao ato de criar, de viver, e também de morrer.

Em alguns momentos, sentimos a peso do tempo nessa escrita, nem tudo flui como há anos, quando escrever como se respira era não apenas uma forma nova de se estar na escrita, mas quase uma postura política daquela que escrevia. Acho que alguma coisa ficou vincada, marcada e já pertence ao passado, mas sempre se encontram momentos de beleza, pequenas intensidades.

Um pouco diverso é o diapasão de romances como O deslumbramento de Lol V. Stein, por exemplo, um dos mais extraordinários livros que já li, ou O vice-cônsul, também deslumbrante.

No fim, Duras me leva para um certo tipo de literatura feita por mulheres com o qual trabalhei durante muitos anos, e me dou conta de que quase não escrevi sobre elas aqui. Quem sabe qualquer dia.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Duras etc

Tendo trabalhado boa parte de minha vida acadêmica com crítica literária feminista, questões de gênero et caterva, li sempre por dever de ofício e prioritariamente as escritoras mulheres, daqui e abroad. Assim, dos escritores devo uma montanha de leituras e agora, sem obrigações de trabalho ou de leitura, busco dar conta dos livros interessantes (nem tantos assim) que ainda não li. Mas eis que de repente, rodando na cadeira de trabalho na direção da estante, dou de cara com um livrinho da Marguerite Duras chamado Escrever, que estava lá perdido no meio dos outros. Peguei-o, abri-o e comecei a ler, reconhecendo as frases e, mais que isso, reconhecendo ali o meu mundo, a minha interlocutora, a minha sensibilidade. 

Mesmo os defeitos do livro me agradam, é como se eu reconhecesse naturalmente quem eu sou no universo mental dessa escritora, na sua frase, na sua escrita. Então o livro do Ian McEwan (um dos autores homens que valem realmente a pena), Reparação, que comecei, terá de esperar um pouquinho porque alguém já muito amigo furou a fila e veio me dar um abraço.