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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Minúsculos assassinatos


O livro da Fal Azevedo sugere muitas e inarredáveis perguntas a respeito da relação entre a literatura, o objeto livro e os textos produzidos sem cessar por blogueiros muitíssimo competentes, seguidos de perto por seus leitores vorazes, muitas vezes eles também co-partícipes de elaborações coletivas, em geral formando um grupo movido pelo afeto, cumplicidade e por uma certa vocação à confidência.
O que ocorre na passagem do blog ao livro, e sua permanência, vai depender do talento do, já agora, escritor de literatura.
Na obra em questão, há mais ganhos do que perdas porque, basicamente, a autora escreve muitíssimo bem, o que significa que tem domínio sobre a língua e a linguagem literária, as imagens têm força para tocar e emocionar o leitor, os vários tons narrativos funcionam e um humor corrosivo solapa qualquer resquício de mundo 'mulherzinha', embora a narrativa seja pontuada pela perspectiva feminina no modo como dramatiza o cotidiano e suas pequenas (e grandes) tragédias.
A proposta de alternar passado e um presente enunciativo acabou não funcionando para mim: comecei a ler obedecendo a estrutura, mas lá pela página vinte resolvi que precisava saber o que se seguiria aos acontecimentos narrados, passei a ler um bloco inteiro e depois voltei para ler o outro bloco, e já perto do final retomei a leitura concomitante. Preferi a infração.
Trata-se de um livro que se lê de um fôlego, tocante algumas vezes, duro em outras, irônico e engraçado também. Mas acho que as receitas de drinques o enfraquecem, bem como a recorrência excessiva aos emails, embora alguns textos anexados sejam muito bons, como esse:
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Cartão-postal da Vera: "Alma, quando a gente escolhe não dizer a palavra mais dura não é nada disso de amadurecer ou amolecer. É porque a gente quer continaur o jogo. Sabe frescobol? Pro jogo continuar, você tem que ajeitar a bola pro outro, se esforçar pra alcançar a bola que veio, jogar pra cima pra dar tempo pro outro chegar, abaixar, esticar. Agora, se você não quer continuar o jogo, você dá logo uma raquetada e vai embora. Beijos para todos. Volto dia 19. Vera. [p. 177].
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Sim, claro que se pode propor uma leitura para as receitas dos drinques. Elas começam a aparecer um pouco depois do acidente que mata a filha da narradora e protagonista, Alma, um dos momentos mais intensos e dramáticos da obra. Alma está deitada, de ressaca e a filha sai para a escola:
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Eu mal me lembro daquele começo de manhã. Sei que ela entrou no meu quarto e me cutucou e tentou me acordar e me chamou, porque era isso que ela fazia todas as manhãs.
[...]
Sei que estava de ressaca, resmunguei e não me levantei, sei que a empregada lhe deu café, como todas as manhãs. Sei que ela pegou a lancheira e a mochila e desceu para esperar a perua da escola, como todas as manhãs.
[...]
Quando ouvi a porta da frente bater, acordei. E me lembrei do maldito cheque da excursão que eu, evidentemente, não havia feito.
[...]
Consegui me arrastar para fora da cama e fui até a janela para gritar que ela subisse para pegar a bosta do cheque.
[...]
Cheguei à janela a tempo de ver o ônibus desgorvenado que subiu na calçada. Eu mal me lembro daquela manhã.
[...]
Enterrei minha filha numa quinta-feira ensolarada, ao lado de meus avós e minhas irmãs, o que me deu um certo conforto, mesmo que pareça absurdo... [...] [p. 112-113].
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É possível que as receitas obedeçam a uma necessidade da narradora de expor aquilo que fere ou feriu, ou apenas de brincar, de fazer bricolagem com os diversos estilos e gêneros discursivos, amalgamando tudo que "faz parte da vida". Mas nem por isso me parece necessário para a economia do texto.
Este sobrevive por si mesmo, e seus melhores momentos se dão ainda quando a narradora conta suas histórias, expondo as feridas que, como em toda boa obra, são também as nossas, pertencem a cada leitor que delas se apropria.
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Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite. Fal Azevedo. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.