Filmes vistos de que gostei: Augustine e Renoir.
No primeiro (direção de Alice Winocour), me marcou o fato de que aqueles médicos que tratavam doenças mentais no final do século XIX, Charcot incluído, foram os primeiros a usar a experiência médica como trampolim para a atualização de suas fantasias sexuais exacerbadas, privando de cenas de erotismo explícito sob o manto da neutralidade científica, quando mulheres jovens ou não expunham-se em público, como cobaias, tendo crises histéricas que mais valiam como uma catarse de masturbação explícita, e os olhinhos daqueles senhores quase senis na audiência da sala austera de Salpêtrière exsudavam lubricidade. Augustine (vivida com grande intensidade pela atriz Stéphanie Sokolinski), foi entendendo aos poucos o que estava acontecendo e dá uma volta de mestre naquele circo todo, e se acaba se safando. Mas o interessante é que sua alma nobre só pode fazer aquilo porque se envolveu afetivamente com Charcot, e guiada por esse afeto ela pode entender, resolver seu problema erótico com ele e sair fora com altivez. Filme ótimo, para as mulheres sobretudo, porque pode ser lido como uma forma de arte importante sobre a história de sua emancipação, bem como pela exposição clara do modo como a ciência atuou ao longo do tempo na domesticação e no uso do corpo da mulher. Participação da bela Chiara Mastroianni como a mulher de Charcot, e uma ótima atuação, embora um tanto rígida demais, de Vincent Lindon como o neurologista.
Renoir (Gilles Boudon) expõe um velhinho (vivido por um ótimo Michel Bouquet), já no final de sua vida produtiva (1915), com as mãos em estado miserável por causa da artrite, mas ainda pintando, e todo o tempo cercado por muitas mulheres que cuidam dele, de todas as maneiras: lavam, cozinham, carregam na cadeira pra cima e pra baixo, esfregam e fazem outras dádivas também. Até que aparece essa linda jovem modelo, a linda e boa atriz Christa Theret, que vai posar pra seus nudes. Eles acabam ficando muito próximos e o filme sutilmente sublinha o apego inelutável de Renoir ao corpo feminino, e aos apelos do corpo, mas será o filho, o futuro cineasta Jean Renoir, a casar com a moça ao final.É um filme que expõe não apenas as agruras de um grande artista já no fim da vida, sob as restrições de uma doença que atingia o cerne de sua arte, mas igualmente sua obsessão por fazê-la à altura de suas altas exigências. Quanto às luzes dos corpos que, mesmo no ocaso, brilham para ele, lembrei de um conto mínimo e feroz de Clarice, 'Ruído de passos', que compõe A via crucis do corpo. Está tudo lá, e cá.

