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Pedi a ela para copiar aqui esses três parágrafos de um longo e excelente texto que a Ana Paula posta hoje aqui, em que ela focaliza com minúcias os projetos de país com os quais sonha. O sonho dela é também o meu, e acredito que de toda pessoa lúcida.
A síntese que ela faz no final é primorosa, e diz com clareza por que um projeto de país de um candidato importa para nós mais do que o outro. E eu sei exatamente do que Ana fala quando menciona os inúmeros problemas por que os professores e as universidades públicas passaram na era FHC. Eu lembro bem, e não gosto do que lembro.
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Nós estamos diante de dois modelos diferentes de pensar, administrar e conduzir o país a esse patamar que todo mundo promete. Acredito que, em sã consciência, todo mundo defende, minimamente, que o país possa oferecer condições de trabalho, moradia, segurança, educação e saúde para todos os seus habitantes. O que quase ninguém se pergunta é como conseguir isso. E o que quase todo mundo no fundo quer é que se consiga isso sem mexer no seu próprio bolso e na sua posição. Se bem que tem bastante gente que olha com ressentimento para o fato de que os mais pobres agora andem de avião ou frequentem o mesmo supermercado e tenham a mesma televisão de plasma que eles. Que absurdo o pobre morar num barraco e querer ter tv de plasma (!!!).
Esses dois modelos diferentes têm consequências e rebatimentos na vida de todos nós: eles nos afetam, afetam nossos empregos, as relações sociais constituídas, afetam a estrutura social e econômica nacional, não apenas durante os quatro anos de mandato, mas deixando frutos e resultados, para o bem ou para o mal. Se o Serra ganhar (toc, toc, toc), eu sobreviverei. Minhas chances de bolsa no doutorado (supondo que eu passe) diminuirão, e minha perspectiva de fazer concurso público para alguma universidade federal num horizonte mais próximo também diminuirá muito (tomando como parâmetro o que foi a administração do PSDB no governo FHC e nos governos estaduais). Eu moro em casa própria, meus filhos estão praticamente encaminhados, um na faculdade e outro quase lá, a gente se vira. Mas muita, muita gente será devolvida a um estado de pouca esperança, a um estado de pouca ou nenhuma dignidade. E eu não quero isso.
É nisso que eu acredito e é por isso que eu luto, dentro das minhas possibilidades, com meus erros e limitações. Idealista? Sonhadora? Talvez. Mas se eu não tiver um ideal para iluminar e nortear o meu caminho, que sentido tem passar pelos perrengues que a gente passa na vida? Essa sou eu. Quem é você?
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domingo, 17 de outubro de 2010
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Pendengas e imbroglios
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É mais ou menos o que eu penso a respeito do confuso imbroglio com os meios de comunicação que está permeando essa eleição.
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Sufocando pluralismo jornais estimulam censura - Marcelo Semer
URL: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4731106-EI16410,00-Sufocando+pluralismo+jornais+estimulam+censura.html
A demissão da colunista Maria Rita Kehl logo após e em razão de um artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo já seria ruim por si só se representasse apenas um ato de intolerância.
Como lembrou Eugênio Bucci, nas mesmas páginas do Estadão, a intolerância desacredita e desautoriza, sobretudo, o próprio intolerante.
Mas a punição fez um estrago ainda maior. Introduziu, de vez, e pela porta dos fundos, a imprensa no centro do debate eleitoral. É certo que no primeiro turno, o embate que não ocorria entre a candidata favorita que evitava se expor e o candidato de oposição, que evitava se opor, acabou sendo substituído por um debate de alta intensidade entre o presidente da República e a grande imprensa, com acusações mútuas.
Lula atribuía à imprensa o papel disfarçado de partido de oposição e recebia como resposta a pecha de autoritário e censor. O resultado desse custoso confronto foi o de fazer com que jornais, como o próprio Estadão, explicitassem suas preferências na eleição. Por coincidência, o artigo de Maria Rita se iniciava justamente com o elogio à franqueza do jornal, por ter comunicado aos leitores seu apoio a José Serra.
O desgaste político com as declarações do presidente e a contenda generalizada com a grande imprensa provocaram um ambiente exageradamente belicoso e o assunto da parcialidade foi sendo amenizado na campanha petista. Senão por convicção, ao menos por conveniência.
A demissão de Maria Rita Kehl reintroduziu involuntariamente o tema, em especial nas redes sociais, que o vivenciaram de forma intensa e instantânea.
Não se poderá contar a história da eleição de 2010 sem discutir o papel nela desempenhado pela grande imprensa.
E como o debate político entre as duas candidaturas seguiu esvaziado de conteúdo, inclusive pela introdução proposital de falsas questões que o atrapalharam, como o caso do aborto, o tema cresceu de importância.
É mais ou menos como se parássemos o jogo do Brasil, em face uma narração enviesada de Galvão Bueno, ao invés de discutir os gols de Kaká, ou a falta deles. Trata-se de uma regra de ouro do jornalismo, em que o repórter deve evitar, o tanto quanto possível, tornar-se ele mesmo a própria notícia, obscurecendo os fatos que pretendia cobrir.
Mas essa, apesar de tudo, ainda não foi a conseqüência mais drástica do evento.
Um jornal censurado, como o Estadão, que reproduz tal informação diariamente há mais de um ano em suas páginas, como insígnia, jamais podia estimular uma punição pela opinião.
Este é o cerne da liberdade de expressão - que as pessoas não sejam punidas pela exposição de suas idéias.
A liberdade de opinião é o combustível da democracia, mas não é possível tragar a chama apenas para si, sufocando o oxigênio dos demais. No estado democrático de direito, as liberdades não são excludentes.
O jornal Folha de S. Paulo, por sua vez, ajuizou ação para proibir uma sátira realizada por blog independente, que lhe parodiava de forma crítica.
Segundo o jornal, não se trata de censura, mas apenas da defesa de marca.
Não discuto aqui o mérito da ação ou da decisão judicial.
Apenas observo que os políticos que buscam a Justiça para esconder escândalos das páginas dos jornais também alegam que não pleiteiam censura, mas tão-somente preservar a intimidade ou o seu direito à honra.
Sinto-me à vontade para criticar a ambos, pois tenho escrito, inclusive nesta coluna, que é a ação de juízes que revigora a censura na democracia, com as proibições prévias de artigos ou matérias, supostamente justificados pela defesa de reputações.
É preciso criar uma cultura de tolerância e um ambiente de liberdade para a imprensa, justamente porque não há democracia sem ela. Mas quando é a própria imprensa quem estimula o clima de censura e punições, só podemos imaginar que alguma coisa está fora da ordem.
Há quem possa dizer que a colunista não passa de uma funcionária do jornal e pode ser livremente demitida por escrever contra sua linha editorial.
É verdade. Mas trata-se aqui de defender, então, não a liberdade de expressão, e sim a propriedade privada.
Até mesmo a propriedade privada deve atender a sua função social. Isso é mais do que um panfleto ou palavra de ordem, é um princípio constitucional.
É evidente que não se pode controlar o que um jornal publica. Toda forma de censura será, sempre, um exercício arbitrário de poder.
Tampouco é possível exigir objetividade, tal qual se aprendia nos antigos manuais de jornalismo. Mesmo o quem, como, quando, onde, dependem do espectador e as mais diversas influências interferem criando diversidade de olhares. Assim também são os juízes, que interpretam diferentemente as normas, sem que uns ou outros, possam ser culpados por agirem assim.
Por tudo isso, nos resta o pluralismo, como escape e defesa da liberdade. Está em seu exercício a responsabilidade social dos jornais.
O pluralismo é a premissa da liberdade de expressão. Ela existe justamente para garanti-lo.
Somos livres, sobretudo, para expressar nossas diferenças.
Sufocar o pluralismo em nome do exercício da liberdade não é apenas um contra-senso. É um verdadeiro paradoxo.
Nenhuma democracia prescinde do pluralismo. E a responsabilidade dos órgãos de imprensa, livres em uma sociedade livre, é estimulá-lo e não amputá-lo. Os interesses pessoais, empresariais ou mesmo partidários, inclusive durante uma eleição, jamais podem sobrepujá-lo.
O pluralismo é o pai do "outro lado", da contraposição, da alteridade.
É a voz que expressa a opinião que não nos pertence, da qual não gostamos, aquela que mais nos incomoda. E justamente por isso é tão necessária. Porque não seríamos capazes de formulá-la por nós mesmos.
A Constituição outorga à imprensa a estatura de interesse social.
Não a reduz a uma mera atividade comercial.
Proíbe expressamente toda forma de censura, para garantir sua liberdade, e lhe concede imunidade tributária, como incentivo custeado por toda a sociedade para o desempenho de uma atividade relevante para o bem comum.
O que se espera dos órgãos de imprensa é que ajam com a mesma responsabilidade social com que foram tratados pela lei, abrindo oportunidades para que as opiniões possam circular livremente.
Porque o jornalismo não pode encontrar limites na democracia. Mas a propaganda sim.
Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.
Fale com Marcelo Semer: marcelo_semer@terra.com.br
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É mais ou menos o que eu penso a respeito do confuso imbroglio com os meios de comunicação que está permeando essa eleição.
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Sufocando pluralismo jornais estimulam censura - Marcelo Semer
URL: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4731106-EI16410,00-Sufocando+pluralismo+jornais+estimulam+censura.html
A demissão da colunista Maria Rita Kehl logo após e em razão de um artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo já seria ruim por si só se representasse apenas um ato de intolerância.
Como lembrou Eugênio Bucci, nas mesmas páginas do Estadão, a intolerância desacredita e desautoriza, sobretudo, o próprio intolerante.
Mas a punição fez um estrago ainda maior. Introduziu, de vez, e pela porta dos fundos, a imprensa no centro do debate eleitoral. É certo que no primeiro turno, o embate que não ocorria entre a candidata favorita que evitava se expor e o candidato de oposição, que evitava se opor, acabou sendo substituído por um debate de alta intensidade entre o presidente da República e a grande imprensa, com acusações mútuas.
Lula atribuía à imprensa o papel disfarçado de partido de oposição e recebia como resposta a pecha de autoritário e censor. O resultado desse custoso confronto foi o de fazer com que jornais, como o próprio Estadão, explicitassem suas preferências na eleição. Por coincidência, o artigo de Maria Rita se iniciava justamente com o elogio à franqueza do jornal, por ter comunicado aos leitores seu apoio a José Serra.
O desgaste político com as declarações do presidente e a contenda generalizada com a grande imprensa provocaram um ambiente exageradamente belicoso e o assunto da parcialidade foi sendo amenizado na campanha petista. Senão por convicção, ao menos por conveniência.
A demissão de Maria Rita Kehl reintroduziu involuntariamente o tema, em especial nas redes sociais, que o vivenciaram de forma intensa e instantânea.
Não se poderá contar a história da eleição de 2010 sem discutir o papel nela desempenhado pela grande imprensa.
E como o debate político entre as duas candidaturas seguiu esvaziado de conteúdo, inclusive pela introdução proposital de falsas questões que o atrapalharam, como o caso do aborto, o tema cresceu de importância.
É mais ou menos como se parássemos o jogo do Brasil, em face uma narração enviesada de Galvão Bueno, ao invés de discutir os gols de Kaká, ou a falta deles. Trata-se de uma regra de ouro do jornalismo, em que o repórter deve evitar, o tanto quanto possível, tornar-se ele mesmo a própria notícia, obscurecendo os fatos que pretendia cobrir.
Mas essa, apesar de tudo, ainda não foi a conseqüência mais drástica do evento.
Um jornal censurado, como o Estadão, que reproduz tal informação diariamente há mais de um ano em suas páginas, como insígnia, jamais podia estimular uma punição pela opinião.
Este é o cerne da liberdade de expressão - que as pessoas não sejam punidas pela exposição de suas idéias.
A liberdade de opinião é o combustível da democracia, mas não é possível tragar a chama apenas para si, sufocando o oxigênio dos demais. No estado democrático de direito, as liberdades não são excludentes.
O jornal Folha de S. Paulo, por sua vez, ajuizou ação para proibir uma sátira realizada por blog independente, que lhe parodiava de forma crítica.
Segundo o jornal, não se trata de censura, mas apenas da defesa de marca.
Não discuto aqui o mérito da ação ou da decisão judicial.
Apenas observo que os políticos que buscam a Justiça para esconder escândalos das páginas dos jornais também alegam que não pleiteiam censura, mas tão-somente preservar a intimidade ou o seu direito à honra.
Sinto-me à vontade para criticar a ambos, pois tenho escrito, inclusive nesta coluna, que é a ação de juízes que revigora a censura na democracia, com as proibições prévias de artigos ou matérias, supostamente justificados pela defesa de reputações.
É preciso criar uma cultura de tolerância e um ambiente de liberdade para a imprensa, justamente porque não há democracia sem ela. Mas quando é a própria imprensa quem estimula o clima de censura e punições, só podemos imaginar que alguma coisa está fora da ordem.
Há quem possa dizer que a colunista não passa de uma funcionária do jornal e pode ser livremente demitida por escrever contra sua linha editorial.
É verdade. Mas trata-se aqui de defender, então, não a liberdade de expressão, e sim a propriedade privada.
Até mesmo a propriedade privada deve atender a sua função social. Isso é mais do que um panfleto ou palavra de ordem, é um princípio constitucional.
É evidente que não se pode controlar o que um jornal publica. Toda forma de censura será, sempre, um exercício arbitrário de poder.
Tampouco é possível exigir objetividade, tal qual se aprendia nos antigos manuais de jornalismo. Mesmo o quem, como, quando, onde, dependem do espectador e as mais diversas influências interferem criando diversidade de olhares. Assim também são os juízes, que interpretam diferentemente as normas, sem que uns ou outros, possam ser culpados por agirem assim.
Por tudo isso, nos resta o pluralismo, como escape e defesa da liberdade. Está em seu exercício a responsabilidade social dos jornais.
O pluralismo é a premissa da liberdade de expressão. Ela existe justamente para garanti-lo.
Somos livres, sobretudo, para expressar nossas diferenças.
Sufocar o pluralismo em nome do exercício da liberdade não é apenas um contra-senso. É um verdadeiro paradoxo.
Nenhuma democracia prescinde do pluralismo. E a responsabilidade dos órgãos de imprensa, livres em uma sociedade livre, é estimulá-lo e não amputá-lo. Os interesses pessoais, empresariais ou mesmo partidários, inclusive durante uma eleição, jamais podem sobrepujá-lo.
O pluralismo é o pai do "outro lado", da contraposição, da alteridade.
É a voz que expressa a opinião que não nos pertence, da qual não gostamos, aquela que mais nos incomoda. E justamente por isso é tão necessária. Porque não seríamos capazes de formulá-la por nós mesmos.
A Constituição outorga à imprensa a estatura de interesse social.
Não a reduz a uma mera atividade comercial.
Proíbe expressamente toda forma de censura, para garantir sua liberdade, e lhe concede imunidade tributária, como incentivo custeado por toda a sociedade para o desempenho de uma atividade relevante para o bem comum.
O que se espera dos órgãos de imprensa é que ajam com a mesma responsabilidade social com que foram tratados pela lei, abrindo oportunidades para que as opiniões possam circular livremente.
Porque o jornalismo não pode encontrar limites na democracia. Mas a propaganda sim.
Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.
Fale com Marcelo Semer: marcelo_semer@terra.com.br
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segunda-feira, 28 de julho de 2008
entrevista
Li essa matéria e subscrevo tudo que diz, tal qual.
Entrevista dada a Rapahel Bruno por Ricardo Antunes, publicada no Jornal do Brasil de domingo, seção País, p. A15, em 27/07/2008.
Sociólogo e professor titular da Universidade de Campinas, Ricardo Antunes, 54 anos, é considerado um dos maiores especialistas do Brasil na área de relações do trabalho. Intelectual de peso do PT por mais de 20 anos, como tantos outros se afastou do partido quando a legenda chegou ao poder, decepcionado com as políticas praticadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para se tornar um de seus críticos mais severos
[...]
E qual a avaliação que o senhor faz da aproximação das maiores centrais sindicais do país com o governo?
– Com a vitória do Lula em 2002 tivemos uma aproximação muito forte dos sindicatos e do Estado, com a cooptação de dezenas de ex-líderes sindicais que foram para os conselhos das estatais, secretarias e ministérios.
O Lula se origina no movimento sindical e se fez liderança popular nele. Então ele tem uma vivência de como tratar com essa liderança sindical. Tudo ganha materialidade através dos fundos como o FAT e o imposto sindical. As centrais estão no colo do Estado na medida em que dependem dele financeiramente. E estão no colo político no Estado na medida em que, com o pé no governo, não são capazes de fazer oposição.
Como o governo Lula vive hoje o melhor dos mundos se há três anos chafurdava no lamaçal do mensalão? Por um lado, garantindo uma remuneração ao capital financeiro e ao grande capital produtivo num nível jamais visto no Brasil, de fazer inveja a Fernando Henrique Cardoso. Na base, no extremo oposto, o bolsa-família atinge 50 milhões de pessoas, uma política assistencialista que sequer arranha as engrenagens das nossas mazelas sociais. E nos intermédios há essa política muito competente de cooptação das centrais sindicais.
O senhor costuma utilizar com freqüência a expressão "lulismo". O que seria exatamente esse lulismo?– Lula não é uma liderança popular fictícia. Ele se consolidou ao longo de décadas. Mas nos anos 1990 o lulismo foi se tornando uma espécie de câncer dentro do PT. Ele se torna cada vez mais distante da sua classe de origem. Quanto mais ascende a escala social, mais seus valores do passado ficam para trás.
Lula combinou a sua velha base social com o mandonismo do PT, seu personalismo enorme e a comunicação direta com o povo. Ele sabe falar um discurso que o povo entende. Basta comparar com o elitismo intrínseco do Fernando Henrique. Lula pode fazer as políticas das elites, mas fala como se estivesse defendendo o povo.
O lulismo é uma espécie de semi-bonapartismo. Garante a boa-vida dos ricos embora diga que defende os pobres. Esse é o segredo da sua engenharia política. Nisso ele tem um traço do velho Getúlio. Com uma diferença: Getúlio era um oligarca dos pampas, ao passo que Lula se origina do movimento operário. Esse é o lado trágico. E é ele quem diz, não sou eu, que nunca os ricos ganharam tanto nesse país como no governo dele. É um atestado cabal do que é o lulismo.Nesse sentido, a política de Lula é mais competente para as classes abastadas do Brasil, porque além de garantir a rentabilidade alta das classes burguesas, ele tem uma política de controle dos movimentos sociais que o PSDB, por exemplo, não tem.
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