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O filme do Babenco é um lixo. Já tinha desistido de ler o livro do Alan Pauls e fui dar uma conferida no filme para ver se me redimia por ter abandonado o livro, mas quase abandono o filme também. Razões: o filme é uma louvação ao falo, à supremacia do homem em sua função de "provedor do pau" à mulher; a mulher, Sofia, é absolutamente patética, ridícula, inacreditável o que os autores do filme fazem essa mulher dizer e fazer.
Uma cena, sobretudo, dá vontade de esganar o diretor: quando ela, de um modo absolutamente mesquinho, rouba o filho do Rímini enquanto este vai comprar cigarros para ela. Detalhe: ela tinha acabado de implorar a ele que trepasse com ela, e ele, coitadinho, não havia conseguido (por culpa), ele sai com o filho, pega um táxi, ela sai logo depois, desfigurada, ele tem pena e dá uma carona no táxi. O coitadinho aqui vai por conta da atitude desse Rímini, totalmente refém daquela maluca, sem vontade própria a não ser quando se trata de trepar, que é quase o que ele faz o tempo todo no filme (outra coisa antiga, suscitar interesse do espectador por conta de sexo).
O homem aqui é visto como aquele que tem o poder entre as pernas, mas não sabe ter outras emoções profundas a não ser a partir daí. Ele é um adulto imaturo, totalmente à mercê dos sentimentos vagos com relação à maluca da Sofia, a mulher louca que só quer atormentar o cara. Não é que as peripécias amorosas na vida real não levem a situações como essas, mas a mão do diretor pesou muito negativamente com relação à mulher e ficou um retrato muito caricatural, sem o mínimo distanciamento crítico que faz dos filmes de Almodóvar, por exemplo, exemplares na exploração desses desconcertos. O espectador torce para que o diretor dê uma colher de chá e torne aquele imbróglio mais leve, para que haja um pouco de humor sem o qual tudo vira um grande pastelão, a despeito de seu propósito.
Acho que o filme tem uma visão muito antiga e muito degradada da mulher, imprime um contorno de megera bem antiquado a ela, e coloca o homem, no viés do macho-que-fode, como a vítima que é sitiada por ela ao longo da vida. Tudo muito antigo, muito chato e no final dá vontade de dizer ao Babenco: se atualiza, cara, a gente tem mais o que fazer na vida.
E, last but not least, o Garcia Bernal, que é mesmo um ótimo ator, mas não "o melhor de sua geração da AL" como disse o diretor, está apenas regular, mantendo um olhar catatônico e alheado durante todo o filme. Só numa cena a cara do Bernal se ilumina e é quando ele vê na TV um programa sobre o genocídio em um país africano, só aí o rosto adquire alguma expressão. Convenhamos, é pouco.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
poemas de Hilda Hilst
Só agora me dei conta de que não há poemas de Hilda Hilst aqui no meu blog. Não havia!
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Sobre a tua grande face
Honra-me com teus nadas.
Traduz meu passo
De maneira que eu nunca me perceba.
Confunde estas linhas que te escrevo
Como se um brejeiro escoliasta
Resolvesse
Brincar a morte de seu próprio texto.
Dá-me pobreza e fealdade e medo.
E desterro de todas as respostas
Que dariam luz
A meu eterno entendimento cego.
Dá-me tristes joelhos.
Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra
E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro.
Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão.
Tu sabes que amo os animais
Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome
Não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo.
Talvez assim te encantes de tão farta nudez.
Talvez assim me ames: desnudo até o osso
Igual a um morto.
In: Do desejo, Sobre a tua grande face. São Paulo: Ed. Globo, 2004, p.111)
____
I
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bicho dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A vida é líquida.
(In: Do desejo, Alcoólicas, id, ib., p. 99)
____
I
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
(id, ib, p. 100)
IX
Se um dia te afastares de mim, Vida -- o que não creio
Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida --
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha
Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as)
Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te
Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso: compreenderá
O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via manifesta.
Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
O êxtase de te deitares contigo. Beba.
Estilhaça a tua própria medida.
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Do desejo, Alcoólicas, id., ib, p. 107)
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Sobre a tua grande face
Honra-me com teus nadas.
Traduz meu passo
De maneira que eu nunca me perceba.
Confunde estas linhas que te escrevo
Como se um brejeiro escoliasta
Resolvesse
Brincar a morte de seu próprio texto.
Dá-me pobreza e fealdade e medo.
E desterro de todas as respostas
Que dariam luz
A meu eterno entendimento cego.
Dá-me tristes joelhos.
Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra
E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro.
Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão.
Tu sabes que amo os animais
Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome
Não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo.
Talvez assim te encantes de tão farta nudez.
Talvez assim me ames: desnudo até o osso
Igual a um morto.
In: Do desejo, Sobre a tua grande face. São Paulo: Ed. Globo, 2004, p.111)
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I
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bicho dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A vida é líquida.
(In: Do desejo, Alcoólicas, id, ib., p. 99)
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I
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
(id, ib, p. 100)
IX
Se um dia te afastares de mim, Vida -- o que não creio
Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida --
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha
Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as)
Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te
Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso: compreenderá
O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via manifesta.
Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
O êxtase de te deitares contigo. Beba.
Estilhaça a tua própria medida.
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Do desejo, Alcoólicas, id., ib, p. 107)
terça-feira, 16 de outubro de 2007
filme e patetinha
Saí da sessão de Nunca é tarde para amar com várias impressões estranhas, a saber:
1. já vi esse filme
2. a Michelle Pfeiffer encontrou um artista, ou melhor, um deus da cirurgia plástica que lhe deu um rosto novinho em folha, igual ao de vinte anos atrás. Teria sido o Pitanguy?;
3. a comédia leve para adolescentes americanos engajadinhos tem como tema agora a malhação do Bush, ou seja, a aluna avançadinha faz canção em que critica a patetice dos ícones dessa cultura: bush, as peladas da mídia e as celebridades anoréxicas. Todos lá ficam felizes, a catarse de coca-cola acontece, apazigua a micro consciência do grupo e a indústria do cinema continua jogando seu lixo cultural pro mundo todo consumir (eu, inclusive, quem diria);
4. uma sensação de ser meio voyeur de uma brincadeira que não me diz respeito, que é lá deles e, aliás, eles estão se lixando para quem não é da patota, ou seja, não é americano, não é da tchurma. E quem faz parte da tchurma? Eles, apenas eles. O resto é o resto, serve apenas para isso que eu fiz : dar dinheiro para ver um filme absolutamente ridículo, e ainda por cima rir dele.
Eu mereço. Todos nós merecemos.
1. já vi esse filme
2. a Michelle Pfeiffer encontrou um artista, ou melhor, um deus da cirurgia plástica que lhe deu um rosto novinho em folha, igual ao de vinte anos atrás. Teria sido o Pitanguy?;
3. a comédia leve para adolescentes americanos engajadinhos tem como tema agora a malhação do Bush, ou seja, a aluna avançadinha faz canção em que critica a patetice dos ícones dessa cultura: bush, as peladas da mídia e as celebridades anoréxicas. Todos lá ficam felizes, a catarse de coca-cola acontece, apazigua a micro consciência do grupo e a indústria do cinema continua jogando seu lixo cultural pro mundo todo consumir (eu, inclusive, quem diria);
4. uma sensação de ser meio voyeur de uma brincadeira que não me diz respeito, que é lá deles e, aliás, eles estão se lixando para quem não é da patota, ou seja, não é americano, não é da tchurma. E quem faz parte da tchurma? Eles, apenas eles. O resto é o resto, serve apenas para isso que eu fiz : dar dinheiro para ver um filme absolutamente ridículo, e ainda por cima rir dele.
Eu mereço. Todos nós merecemos.
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Inês aos poucos
Estou lendo uns contos de Fica comigo esta noite, da Inês Pedrosa, escreve muito bem, gostei dos poucos contos que li até agora, e vou terminar o livro para aventar uma hipótese estranha sobre ele.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
Ensaio sobre a cegueira, blog etc...
Li o Ensaio sobre a cegueira e observo que esse é um caso único em minha experiência com a literatura de um livro ser indicado por um post, que por sua vez existe em função de um filme - tudo isso vem do blog do Meirelles, o diário da filmagem de Blindness, pelo qual estou/estamos, seus leitores, apaixonados. Achei no início que o blog pudesse ganhar do livro, mas estava cega, claro. São coisas diferentes e cada um com seu cada qual.
O blog do Meirelles é precioso e o livro do Saramago é muito bom, o problema é que não consigo agora pensar nas cenas do livro sem ver a Julianne Moore fazendo a mulher do médico, o Mark Rufallo como o médico, fingindo de cego e conversando com o Meirelles, o Danny Glover como o velho da venda preta e por aí vai (só não imagino ainda o cão das lágrimas, mas vi nele meu antigo cachorro de relance). Além disso, entrei na paranóia de que ele não vai conseguir filmar aquilo, é muita loucura junta, muita craca, muida dor, muita sujeira e muito desalento e esses atores são marcados demais para fazer o 'qualquer um' que os caracteriza no livro. Enfim, vamos confiar que quem descreve tão bem seu ofício, além de escrever como o faz o Meirelles, vai nos dar o melhor filme para obra tão singular.
Outra coisa que tem me acontecido depois que li o livro é que fico esperando que os pobres que me cercam e que vivem próximos a minha rua surjam de repente como uma leva incontida de cegos e famintos e desvalidos, andando a ermo pra lá e pra cá, sem rumo ou direção, sem norte, sem nada. Fico agora mais assustada, tenho imagens agora muito fortes e firmes sobre o que seria o apocalipse.
Se é verdade que nenhum leitor fica o mesmo depois que é tocado por um grande e forte livro, essa obra do Saramago tem poderes assombrosos, no duplo sentido de ser uma estória extraordinária com uma prosa literária à altura.
Tem defeitos o livro? Sim, tem. No começo achava mesmo que não ia decolar, que o viés de parábola enfraquecia a obra, e há momentos em que uma certa repetição de cenas (quando as normas no manicômio são anunciadas, por exemplo) ou quando o narrador se empolga com alguma idéia filosófica e a desenvolve além da conta, a obra se enfraquece em alguns momentos. Além de que impliquei um pouco com o gesto político do autor de manter a grafia e a sintaxe do português de Portugal, e daí tudo que penso sobre o livro, penso com sotaque lusitano, mas agora tudo bem, não ligo mais.
De todo modo, à medida que se avança na leitura, o viés dramático se adensa e somos inteiramente subjugados pela força avassaladora das imagens, dos personagens, das cenas. Não há como não vagar com aqueles homens e mulheres, não há como não se irmanar, não há como não chorar por eles e com eles, não há como não cegar com cada um e torcer para que o mistério dessa cegueira se aclare para que possamos, nós também, enxergar enfim.
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O blog do Meirelles é precioso e o livro do Saramago é muito bom, o problema é que não consigo agora pensar nas cenas do livro sem ver a Julianne Moore fazendo a mulher do médico, o Mark Rufallo como o médico, fingindo de cego e conversando com o Meirelles, o Danny Glover como o velho da venda preta e por aí vai (só não imagino ainda o cão das lágrimas, mas vi nele meu antigo cachorro de relance). Além disso, entrei na paranóia de que ele não vai conseguir filmar aquilo, é muita loucura junta, muita craca, muida dor, muita sujeira e muito desalento e esses atores são marcados demais para fazer o 'qualquer um' que os caracteriza no livro. Enfim, vamos confiar que quem descreve tão bem seu ofício, além de escrever como o faz o Meirelles, vai nos dar o melhor filme para obra tão singular.
Outra coisa que tem me acontecido depois que li o livro é que fico esperando que os pobres que me cercam e que vivem próximos a minha rua surjam de repente como uma leva incontida de cegos e famintos e desvalidos, andando a ermo pra lá e pra cá, sem rumo ou direção, sem norte, sem nada. Fico agora mais assustada, tenho imagens agora muito fortes e firmes sobre o que seria o apocalipse.
Se é verdade que nenhum leitor fica o mesmo depois que é tocado por um grande e forte livro, essa obra do Saramago tem poderes assombrosos, no duplo sentido de ser uma estória extraordinária com uma prosa literária à altura.
Tem defeitos o livro? Sim, tem. No começo achava mesmo que não ia decolar, que o viés de parábola enfraquecia a obra, e há momentos em que uma certa repetição de cenas (quando as normas no manicômio são anunciadas, por exemplo) ou quando o narrador se empolga com alguma idéia filosófica e a desenvolve além da conta, a obra se enfraquece em alguns momentos. Além de que impliquei um pouco com o gesto político do autor de manter a grafia e a sintaxe do português de Portugal, e daí tudo que penso sobre o livro, penso com sotaque lusitano, mas agora tudo bem, não ligo mais.
De todo modo, à medida que se avança na leitura, o viés dramático se adensa e somos inteiramente subjugados pela força avassaladora das imagens, dos personagens, das cenas. Não há como não vagar com aqueles homens e mulheres, não há como não se irmanar, não há como não chorar por eles e com eles, não há como não cegar com cada um e torcer para que o mistério dessa cegueira se aclare para que possamos, nós também, enxergar enfim.
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