segunda-feira, 22 de abril de 2013

Um porto seguro

Está certo - Um porto seguro (Lasse Hallstrom) é mesmo piegas, a protagonista (Julianne Hough) quase dá vexame de tão inexpressiva em sua atuação, mas tem um ótimo (e lindo, claro) Josh Duhamel,e a outra atriz (Cobie Smulders) dá conta direitinho de ser a "amiga" que nos trará surpresas ao final. Mas se tem tantos pontos negativos (e tem), por que gostei do filme? Porque Um porto seguro é mesmo só pra distrair, emocionar e fazer chorar um tantinho. Além disso, tem injustiça contra mulher, ou melhor, marido violento e agressivo, além de alcoólatra, o que dá à mocinha todas as chances de ter o espectador a seu lado, torcendo por ela, mesmo sem entender quase até o final do que ela foge tanto, e mesmo que ela seja tão bonitinha e tão fraquinha como atriz. De todo modo, gostei de ter visto, gostei da pegada de filme sobre o "além" do final - na verdade, seria ótimo se as coisas funcionassem daquela maneira - quase todos nós, que crescemos sob a égide do mundo cristão e seus mitos de salvação, temos certa nostalgia da carta que ela recebe.

E quase sempre gosto dos filmes do Lasse, em seus aspectos redentores e muitas vezes pueris, pra não dizer piegas (mas quem fez dissertação sobre a poesia de Adélia Prado tem seu lado piegas e, mesmo, kitsch - that's me). Assim, vejo sempre que passa na TV Um lugar para recomeçar, acho bom demais. Também gosto muito de Chocolate, Chegadas e partidas; mas não curti Sempre a seu lado, por bobinho demais.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

A criada

Não sei se é porque estou num momento de vida extremamente sensível à questão do trabalho dos cuidadores de idosos, no Brasil existindo sob a esfera do trabalho doméstico, que esse ano deu uma guinada em termos de direitos e deveres dos dois pólos envolvidos - especificamente, eu e a cuidadora de minha mãe. O fato é que vi esse filme chileno - A criada (Sebastián Silva, 2009) - com quase fervor, tendo quase sempre em meu horizonte imaginativo a Clarice da angustiosa imersão no quarto da empregada em A paixão segundo G.H., e muito a Macabéa de A hora da estrela. A protagonista é uma Macabéa num tom um pouco menor (de desespero e carência), em escala um pouco mais humana, mas continua sendo de uma precariedade afetiva absoluta, tocante e intangível. São de uma crueza tão estridente suas maldades, ao mesmo tempo em que ela se mostra tão comovente em suas tentativas para impedir a divisão de 'seu território' de amor e conquista ao longo de uma vida - aquela família que lhe dá tão pouco, que lhe deu tão pouco em vinte anos de trabalho e convivência.

Então aparece, finalmente, uma ajudante que não tem medo dela, que lhe dá um inesperado abraço, mesmo diante da recusa e do repúdio. Macabéa/Raquel fica atônita, não sabe bem o que é aquilo, nunca tinha sentido o afeto ou a compaixão ou a proximidade do amor assim, de repente e gratuitamente. Há uma cena de choro catártico e as coisas parecem fazer mais sentido para ela a partir de então. Vai tentando costurar as pontas de si mesma naquelas linhas novas: compra uma blusa bonita para si, como a que vê no closet da patroa; e outra, bonita e cara, que dá de presente à nova amiga no aniversário. É tudo muito simples, singelo mesmo o embate que ela trava com a falta de... quase tudo. A atriz é magistral, tem uns olhares absolutamente perfeitos para tudo que quer expressar; tem também um ar de abobada-esperta que faz o sorriso do espectador ficar meio sem jeito ou sem gosto por comprender e aceitar aquilo, tentando com ela subir um pouco mais naquela confusa falta de. Achei um filmaço - tudo que se trança nas relações entre copa, cozinha e a sala dos patrões está ali, dito de uma forma que não poderia ser mais eficaz, simples e complexa ao mesmo tempo.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

De livros e livros

Hoje o Francisco, da livraria/sebo Beta de Aquarius www.betadequarius.com.br) veio aqui em casa, olhou, separou, escolheu e ao final do exame levou uma boa parte de minha biblioteca. Alguns foram sem dó nem piedade, outros relutei em deixar partir, outros ainda não pude abandonar. O mais polêmico foi o enorme e muito bonito livro com material inédito de Ana Cristina Cesar, editado pelo IMS - Poemas e prosa da pasta rosa, que já comentei aqui. Ele olhou pra mim e disse: - desse eu tenho certeza de que você não vai se desfazer. Respondi na hora: - pode levar. E expliquei por quê - mais ou menos o que já disse aqui em algum lugar.

Enfim, muitos e muitos dos meus livros habitam agora a rua Buarque de Macedo 72, inclusive aqueles que eu mesma escrevi - esses, doei-os, cinco exemplares de cada um, tomara que alguém se interesse - acho triste ver o livro da gente lá, esperando alguém olhar pra ele e convidá-lo pra dançar. :)

Terminei há pouco de arrumar a bagunça dos que ficaram: coloquei em ordem, cumprimentei todos que sobreviveram, e os que não deixei partir: Barthes, Foucault, Nietzsche, Benjamin etc; Clarice, Hilda, Ana Cristina, Rosa, Graciliano, Machado etc; os poetas quase todos; também ficaram os livrinhos verdes de obras completas, serviço inestimável da Nova Aguilar; os autores que não li, e os novos que recém conheci: valter hugo mãe, por exemplo. Enfim, a biblioteca ficou num tamanho razoável, pronta para receber os novos entes que por certo ainda virão. Quanto a escrever sobre eles, não sei quando ou se voltarei a fazê-lo.


domingo, 7 de abril de 2013

Dois, talvez : A parte dos anjos; O último Elvis

Estou gostando dessa estratégia de ver dois filmes no mesmo dia, e ter entrado na sala errada do Arteplex para ver O último Elvis e me deparar com as cenas finais de A busca foi ótimo, me fez lembrar as peripécias do FestRio. Saí da sala e vi que tinha ainda bastante tempo pro café e pro pão de queijo. Aliás, o novo espaço do Scada Café ficou muito bom, sempre gostei dali por ser mais discreto e também por causa de um atendente que não vi dessa vez, talvez esteja de férias, que eu chamo em meu afeto de 'pessoa almodóvar' - é uma figura meiga e doce, que parece saída de um filme desse cineasta. Nunca conversamos muito, mas quando era mais assídua ali, tipo uma vez por semana, ele me tratava gentilmente e eu gostava (gosto) muito de vê-lo, tenho um afeto gratuito por ele, gosto de seu ar de diva, de sua postura ao mesmo tempo séria e doce, e do fato de que talvez ele queira ser ela - e isso, por essas plagas, sempre é uma ralação a mais.

No Estação Rio vi, primeiro, A parte dos anjos (Ken Loach), cuja direção já prenunciava o filmaço que é. O protagonista, vivido Paul Branningan, é um sujeito que, tendo tudo pra dar errado em sua vida, faz uma coisa certa: tem um filho, mas não é apenas por conta desse filho que ele torce o destino torto que parecia ser sua cruz eterna. Ele encontra pelo caminho alguns anjos, um deles na figura do oficial responsável por sua condicional, que leva o grupo de problemáticas e engraçadas pessoas a visitar uma destilaria de uísque. A partir daí, o rapaz fadado ao insucesso vai costurando as possibilidades de torcer o destino a seu favor, com inteligência e argúcia. É um filme simples, mas tudo se encaixa com perfeição: os valores, a relação dos maus e do bom policial, as chances que percebe e cuja intuição diz a ele para não deixar escapar. E ele não deixa, embora até nos últimos minutos a mala suerte teime em espreitá-lo, em avançar sobre ele. Ele dá uma volta nela, e achamos ótimo.

O último Elvis é um exemplar do que o cinema argentino tem de bom - tocante, forte, expõe uma certa cafonice na figura de um latino que cultua Elvis a ponto de não ter dúvidas de que é Elvis. Sua realidade de cover, no entanto, é dura; sua vida pessoal é cheia de buracos: a ex-mulher o despreza; a filha tem um tanto de vergonha dele; os cachês de suas apresentações não são pagos - e a vida vai seguindo, de fracasso em fracasso, até que um acidente grave deixa a ex-mulher em coma e ele tem de cuidar da filha. Ela aprende a compreender o trabalho do pai, passa a minimamente respeitá-lo e quando isso acontece já está na hora de a filha voltar para a mãe, que ficou bem, afinal. E é hora igualmente dele realizar o sonho de uma vida: fazer a viagem que sempre sonhou, entrar na casa "dele", do Elvis que ele acredita ser, e fechar o ciclo de suas apresentações do mesmo modo que seu "alter-ego". O filme é triste, melancólico, mas quando o ator John McInerny solta a voz para cantar as canções do ídolo, não desgrudamos olhos e ouvidos: ficamos hiptonizados por sua voz e pelas lembranças de um passado que - parece - teima em não querer morrer jamais.

PS: Escrito metade há uma semana, terminado hoje.