Falar sobre filmes (não sobre cinema, sobre filmes) me parece agora uma conversa sem maiores compromissos, sobretudo depois que revi Gravidade, nessa última ida ao Rio, e fiquei boba com minha péssima primeira impressão - mas como, dona Clara, o filme é muito interessante, a protagonista vivida por Sandra Bullock não fica o filme inteiro falando coisas ininteligíveis, o par com o Clooney faz muito sentido e tem lá sua graça, ela não surge das águas no final feito uma deusa, embora haja alguma inverossimilhança em seu 'resgate', mas que sei eu de reentrada atmosférica.De todo modo, não tenho a menor ideia do que havia em minha alma quando
vi ou quando escrevi sobre o filme. O melhor, para todos os efeitos, é que não se confie absolutamente nessas mal traçadas para decidir sobre os filmes a ver - façam como eu, não liguem a mínima para o que deles dizem, e vejam tudo com olhos de descoberta.
A despeito do dito, achei a segunda parte de Ninfomaníaca (Lars von Trier, 2014) muito boa, porque se apresenta como o drama que realmente é: uma protagonista extremamente doente, com uma doença que não tem cura, e cujo drama agora fica mais explícito, que passa por muitos maus momentos em busca de um prazer que ela não sente, mas para o qual se vê compelida sem trégua. Foi possível compreender melhor a proposta de Lars, e ela é muito forte, sensível e inapelavelmente sem saída, ou seja, pertencer de algum modo à margem dos modos de ser, pensar ou sentir da maioria será penoso, e mesmo violento, em algum momento, se alguém se dispuser a ser aquilo para o que se sente predestinado. Não haverá remanso para quem não seguir o compasso traçado entre a norma e a margem, e uma das linhas de força dramática que pontuam a história será a irredutibilidade da escolha de Joe no sentido de afirmar quem ela é. E de mostrar ao outro quem ele supõe ser - numa das cenas mais terríveis do filme, ela conta histórias a um devedor, tentando conhecer suas fraquezas pelas reações sexuais ao que ouve, até que ele mesmo se depara com sua condição, até então aparentemente 'inaudível', de pedófilo: o terror desse (re)conhecimento será discutido por Joe com seu interlocutor (e tradutor, de certa forma) no presente da narrativa. Nesse momento, ela enuncia algumas das implacáveis reflexões do diretor e roteirista Lars - duramente nitzscheanas, elas não deixam pedra sobre pedra sobre toda e qualquer forma de regulação das sexualidades intentada pelas sociedades - e seus olhos vesgos.
Não há nada que seja leve no filme, talvez alguns momentos de humor - os dois homens negros que afinal não chegam a um consenso sobre como ou por onde entrar na mulher, e enquanto ambos discutem ela sai da situação e do quarto mais invisível do que antes - ou seja, até a graça é trágica, penosa. De resto, tudo aqui é dilaceramento, frustração, desamor, desalento, violência, e mesmo o fiapo de amizade que se insinuou ao longo de toda a história entre a protagonista (Charlotte Gainsbourg) e Seligman (Stellan Skarsgard, muito bom), seu ouvinte pescador, esvai-se em pó, dor e morte.
Um filme que não flerta com o fácil, nem com o simples, mas imprescindível para olhar e ver de frente algumas verdades difíceis e penosas que atravessam nossa sexualidade, e a forma de exercê-la.
