sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Moonlight; Eu não sou seu negro; Lion; A espera; Toni Erdmann; Insubstituível


Moonlight: sob a luz do luar
Dir. Barry Jenkins. Com Trevante Rhodes, Mahershala Ali, Janelle Monae.

Tudo que eu tinha a dizer sobre o filme, Justin C Chang, aqui , do Los Angeles Times, diz de forma brilhante, junto com uma precisa análise do 'acontecimento' único e inédito na história do Oscar - o engano quanto ao vencedor do prêmio principal. (Foto de Robert Gauthier / Los Angeles Times).

Mas a mim impressionou o modo como o diretor trabalha para desconstruir todos os estereótipos relacionados ao amor entre dois homens, que além de serem negros, vivem em situação de pobreza, e a mãe de um deles tem uma bagagem de dependência que impõe ao jovem certos matizes de sua conduta. Por esse desenho da estrutura familiar e social dos personagens nada levaria a supor que a delicadeza no tratamento do amor fosse tão forte e, por isso, perturbadora. Nunca havia visto nada parecido - um amor quieto, tímido, delicado e incomensurável habitando o corpo de um homenzarrão cujas credenciais, já na vida adulta, nem de longe deixariam supor o que vemos. Esse filme, para mim, foi um acontecimento extraordinário de belo, de bom, de único.


Eu não sou seu negro
Dir. Raoul Peck. Narração de Samuel L. Jackson
Uma discussão atual, forte e necessária a partir da visão que James Baldwin deixou expressa em seu livro inacabado, onde discute a história da repressão social e política dos negros estadunidenses a partir do pensamento de alguns de seus líderes fundadores: Medgar Evers, Malcolm X, Martin Luther King Jr.  O diretor avança e enlaça as questões postas por Baldwin e traça um largo roteiro da opressão ao negro, mas que baliza o problema do preconceito que não tem fronteiras, nem bandeiras - tudo que aqui se diz sobre a intolerância naquele país, serve para todos nós, anywhere.

Lion 
Dir. Garth Davis. Com Dev Patel, Rooney Mara, Nicole Kidman
Narra-se aqui a jornada de uma criança que se perde do irmão numa estação de trem na India, será adotada por um casal não muito jovem, e antes de entrar para a Universidade decide fazer o percurso em busca de sua origem. Gostei muito do trabalho de Dev Patel, que virou um ator com letra maiúscula nesse filme, para mim, que o conheço de alguns outros poucos, e bons. A história é ótima, bem conduzida, os personagens estão todos muito bem, mas Patel e o menino destacam-se, por expressivos e convincentes. 


A espera
Dir. Piero Messina. Com Juliette Binoche, Lou de Laâge. 
Gostei muito do clima claustrofóbico desse drama, em que Juliette Binoche vive de modo contido e, por isso mesmo, exacerbado, a dor de uma mãe que perdeu o filho e recebe a visita da namorada dele, que o espera sem saber que ele não virá. A protagonista compartilha de uma forma tensa e ambígua essa ausência com a moça, e as lacunas em tudo - na casa, nas conversas, no que se diz e no que se cala - caminham de mãos dadas com a vulnerabilidade e o desalento de tão vasta perda. Um filme que me tocou forte. 

Toni Erdmann
Dir. Maren Ade. Com Peter Sominischek, Sandra Hüller, Machael Wittenborn.
Achei o filme muito bom, naquele seu modo estranho de apresentar um pai que ama e vive de forma excêntrica sua relação com a filha, num momento em que ele está um tanto à deriva na vida, quando vai procurá-la. Acho que é dessa deriva que ele vai aos poucos aumentando o tom de sua existência, como um som que precisa se tornar audível, e vai aumentando e com isso o ruído aparece, na forma de comportamentos bizarros, estranhos, excêntricos, mas que são extremamente humanos, no sentido de o espectador compreender, aceitar e se tornar cúmplice daqueles excessos. A vida, às vezes, precisa zumbir pra gente entender os sons todos, sua bizarrice. A filha demora a 'ouvi-lo', ou a vê-lo, ou a compreendê-lo - mas no fim, ela acerta a melodia. Só acho que se tudo tivesse sido reduzido em mais de meia hora ficaria melhor ainda.


Insubstituível (Médecin de Campagne)
Dir. Thomas Lilti. Com François Cluzet, Marianne Denicourt, Isabelle Sadoyan.
Lindíssima estória de um médico do interior da França, que recebe um diagnóstico de doença grave e precisa encontrar um substituto para continuar o trabalho de atendimento às pessoas, em geral, idosas e sem recursos, que são monitoradas pelos serviços da assistência social francesa. Não sei o que há de fantasioso e idealizado na composição desse personagem e, sobretudo, desse projeto de medicina pública muito ativa, humana, comprometida com o bem estar do paciente, sob uma ótica de fazer o melhor para ele, e não para os interesses públicos - mas fiquei encantada com todo esse universo e, por utópico que seja, é o que desejo para qualquer um de nós, jovens ou velhos, e vejo semelhança no que se tentou aqui, de forma muito incipiente embora, e abortada pelo golpe político de direita, com a contratação dos médicos cubanos, que preenchiam vagas de trabalho no interiorzão do país, onde nossos profissionais médicos nunca quiseram morar, ou trabalhar. Esse filme mostra uma província, com um projeto de medicina e de suporte familiar que espero um dia podermos alcançar, nem que seja daqui a um século. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Redemoinho; A cidade onde envelheço

Nos dois filmes vistos hoje, a história gira em torno das vidas de dois homens, um, e de duas mulheres, outro. Em ambos, o tema da viagem, do ir e voltar à cidade de origem, os impasses que ficar ou partir geram em cada um modos de viver e de pensar suas experiências existenciais.


O universo mental e físico de Redemoinho (dir. José Luiz Villamarim, com Irandhir Santos, Julio Andrade, Dira Paes, Cassia Kiss) gira em torno do provincianismo e da província, ao tematizar o reencontro de dois amigos de infância, um que ficou na cidade pequena, casou com uma ex-prostituta e trabalha como operário numa fábrica têxtil em Cataguases; o outro que partiu dali, e agora retorna de São Paulo para passar o Natal com a mãe, para quem traz um imenso televisor de presente de Natal, mas a quem trata com grosseria, desdém, autoritarismo. 

O filme trata, então, de uma espécie de acerto de contas entre ambos, mas a conversa é ambígua, e só aos poucos vamos entendendo o que há por trás de um certo mal estar entre os dois. Nada neles parece atraente: nem a vida bem sucedida financeiramente do que partiu, e está a passeio; nem a vida do que ficou, e parece condenado à estagnação financeira e existencial, já que a cidadezinha não parece oferecer qualquer perspectiva de ascensão mais ambiciosa de vida. 

Ao fim e ao cabo, aqueles dois homens terminam como começaram a conversa: cada um em seu mundo parco, pequeno, mesquinho. E saímos do cinema achando que foi tempo demais para vê-los e ouvi-los, a despeito do trabalho muito bom de todos os atores. Mas os personagens me pareceram pequenos demais, medíocres demais, e não há drama existencial forte o suficiente para justificar tanta conversa, tanto tempo a eles dedicado.


Já em A cidade onde envelheço (dir. Marília Rocha, com Elizabete Francisca Santos e Francisca Manuel) também temos um reencontro de duas amigas portuguesas, a que já mora no Brasil (Francisca) - por coincidência, a cidade do filme também fica em Minas, mas na cidade grande (Belo Horizonte) -, e a amiga que chega de Portugal com intenções de ficar (Teresa). 

O filme trata da aproximação entre as duas em terra estrangeira, não apenas do ponto de vista da adaptação daquela que chega, um tanto deslumbrada e cheia de energia e desejo pelo novo, quanto daquela que já mora aqui há um ano e sente-se nostálgica do mar português. 

Há vários momentos ternos, delicados, que expressam uma força afetiva totalmente oposta à do filme anterior - aqui, as duas jovens têm perspectivas diferentes diante dos fatos e da vida, projetos que pareciam convergir, mas que aos poucos vão-se afastando, naturalmente, e tudo em torno delas flui sem grandes arestas, ou conflitos. Há ternura, amizade, diferenças que se respeitam, uma delicadeza intrínseca no modo de ser de ambas, e na forma como se relacionam. Além disso, há uma trilha sonora lindíssima (menos o pop rock, pra meu gosto pessoal), mais poesia e poemas e uma sensação de ter visto um naco de vidas que - encarnadas por elas - valem a pena, valem o tempo, nos fazem pensar e querer estar em sua companhia, acompanhar seu crescimento. Gostei muito.