Eu nunca tinha visto uma apresentação dela no palco, e o que vi na tela me deixou meio em estado de choque - é uma experiência da ordem do transcendente, do inominável, da estupefação, do susto, do não poder conter-se, do maravilhar-se.
São pequenos trechos dos balés, escolhidos pelos bailarinos como presente-homenagem (o filme estava em curso quando de sua morte repentina), misturados a trechos em que ela também aparece dançando - o que é isso que ela faz com os corpos e mentes de todos nós, que dança é essa que mistura drama, tragédia, leveza, sofrimento, alegria, nuvem, pó e água? Claro que se chora em vários momentos - por exemplo, sou aqueles pequenos galhos que um bailarino equilibra magistralmente nos ombros, na cabeça, nos braços, dançando com leveza extrema para não perdê-los, para que não caiam, para que não se percam: e tudo que importa está ali naquele momento (um olhar que passou de relance e não deu tempo; as perdas todas que não podiam; o amor que sempre e não; o sim, o talvez, o já) e é preciso calma e maestria para lidar com todos os pesos e levezas nesse instante.
Também as mortes todas que sucedem no 'Café Muller', e a mulher vulnerável, à mercê de todas as mãos masculinas; o pequeno homem que dança na vastidão de um horizonte cheio de penhascos e montanhas, pequeno domador do universo; o que grita "andré, andré" e se torna menino, e se enrosca e se joga no colo do outro ao som de uma canção tão tão pungente.
Fica-se depois que tudo termina ouvindo a canção, uma canção belíssima, numa voz tão boa de ouvir que se sai querendo a trilha toda. Sai-se porque terminou, toma-se um café em estado de alguma coisa. E volta-se para ver de novo, para ouvir de novo, e acreditar.
____
