A câmara clara é um réquiem de Barthes para sua mãe, recém falecida então. O livro é escrito para falar da saudade, da dor, da perda, do luto da mãe, dessa ausência que a fotografia recupera por brevíssimos instantes, no relance de alguma foto perdida no passado. Numa foto em particular, a Foto do Jardim de Inverno, ele descobre uma criança (a criança que sua mãe fora).
A respeito dela, Barthes observa: “Nessa imagem de menina, eu via a bondade que de imediato e para sempre havia formado seu ser, sem que ela a recebesse de ninguém; como essa bondade pôde provir de pais imperfeitos, que a amaram mal, em suma: de uma família?”.
Essa foto será exemplar com relação ao conceito de punctum com que ele trabalha (“o punctum de uma foto é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere”).
Na verdade, será também para falar desse punctum que o livro se escreve – trata-se daquilo que atua subjetivamente na percepção do Spectator, um detalhe, alguma coisa parcial que diz a alguém algo não previsto.
Das várias fotos que Barthes traz para nos fazer ver com ele o que o punge lá, ou cá, surpreende o que ele vê e eu não; o detalhe que o fere nem sempre coincide com minha escolha, e por isso será sempre subjetivo, pessoal.
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Acho que leio hoje esse livro de modo diferente do que o fiz há alguns anos. O interesse pela fotografia agora torna-o imprescindível. Gosto de tudo nele – das fotos, da maneira como compreende a fotografia, da forma como expõe absurdamente seus sentimentos, seu luto, sua dor.
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Ao longo das 39 horas de meu curso, fiz mais de uma centena de fotos, algumas de que gosto, outras nem tanto, e muitos equívocos, com os quais também aprendi. No entanto, não há uma foto, sequer umazinha, para a qual eu possa olhar e dizer: isso me fere, há aqui um punctum a me mover de mim mesma. E penso: só é possível haver esse encontro com fotos muito antigas? Em preto e branco? (É preciso observar que fotos ‘jornalísticas’ e/ou socialmente comprometidas não respondem ao conceito expresso por Barthes, não é disso que se trata).****
De todo modo, há uma foto minha antiga em que vejo profundamente o que o autor me diz. Trata-se de uma foto de infância, e o ponto-que-toca está nos sapatos que eu criança estou usando. A história, para mim, desse par de sapatos é impossível de ser comunicada a outrem, a não ser como isso mesmo que o nome diz: história. Mas posso ficar horas olhando para aquele branco, na esperança de ter de novo a magia do cheiro dos sapatos jamais vistos antes.