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sábado, 27 de junho de 2009

Eucana, blog e grande poesia

Descobri o site do Eucanaã há pouco. Gosto da poesia dele quase toda, há uma técnica perceptível, uma vontade estética que tem parentesco, às vezes, com Cabral, mas ele fala uma linguagem poética própria.
Hoje saiu uma entrevista dele no
Idéias & Livros do JB em que diz que escreve poesia, em grande medida, por causa de Manuel Bandeira.

Os poemas vieram do blog dele, url ao lado, vale a visita.
E ele também coedita a revista on line Errática, muito boa.

____
O equilibrista



Traz consigo resguardada
certa idéia que lhe soa
clara, exata.

No entanto, hesita: que palavra
a mais bem medida e cortada
para dizê-la?

Enquanto não lhe vem o verso, a frase, a fala,
segue lacrada a caixa
no alto da cabeça.

In
Rua do mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2004; Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007.

____
Procurar palavra...

Procurar palavra
em palheiro.

Sem circunlóquios,
não faltando à clareza.

Obstáculos
não façam extensa

e fatigante a marcha
contra o dicionário.

O gesto necessário.
E só.

Eucanaã Ferraz. Desassombro. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2001; Rio de Janeiro: Sette Letras, 2002.


____
Móbile

Passamanarias de arame, papel
e luz, que recobri com a pele,

onde instalei meus ossos desatados percutindo
no vento, está lá

o arabesco,
sem arrimo, pingando um tempo estacionário entre



palmeiras, contra o céu da Voluntários, o Cristo
ao fundo, o cinema. Seu movimento

hesita, esgrima, cigarra, urina, é-não-é,
flores da ferrugem, palavras fáceis e cento

e um dentes ameaçando carros e coisas
elétricas, edifícios em fila, famílias. Fiz



o que tinha de ser. Ficou lá, inútil, ardendo
sobre o trânsito,

o móbile
gigante que seus olhos não viram,

que seus olhos não quiseram,
que seus olhos não e não.

Ficou lá, inútil, adiado
sobre o domingo,

o monstro
que seus cuidados não souberam,

que seu medo não quis,
que nem ao menos.

Está lá, inútil, ardil desativado,
sobre nada,

lixo,
lixo,

mas, esteja certo disto, tinha o tamanho
certo de nos vestirmos com ele, para,

dentro dele, suspensos,
descansarmos na palma um do outro, acredite,

era lindo, era fácil,
era puro.
____
Eucanãa Ferraz. Cinemateca. São Paulo: Cia das Letras, 2008; Lisboa: Quasi Edições, 2000.


quarta-feira, 19 de março de 2008

um poema de Eucanaã Ferraz

Esse poema do Eucanaã Ferraz eu copiei para a Barbara,
e reproduzo aqui porque gosto muito dele, que está em  
Desassombro, 7Letras, 2002, p.32.

Eu, um velho. Ela, um menino.
Ou o contrário disso, o mesmo:
a palavra me levasse.
Eu ser o cão da palavra.

Seria: não precisar estar assim, nu
(uniforme
de quando se é funcionário
de coisa nenhuma).

E: nunca mais apertar os olhos
em cadernetas de endereço,
de telefones,
cinema, sem,

ou raramente, encontrá-la
(a palavra). Não mais os mimos,
como se faz com gatos,
leite no prato, à espera.

Imagina: haver uma palavra
sempre a postos, apta
e doce como um dono, um capitão
- seu convés de frases e versos.

Palavra que ordenasse até:
- nenhum poema! Eu, cão fiel,
calava. Mas o ar jamais faltasse.
Ela surgiria

como nas noites marinhas
o farol: estrada certa,
luzidia, sem cessar.
Vai o cão."

____

terça-feira, 7 de agosto de 2007

O cão da palavra - Eucanaã

Alguém me disse que não entendeu o verso "eu ser o cão da palavra", do Eucanãa Ferraz (Desassombro. Rio de Janeiro: 7Letras, 2002). É difícil alguém dizer o que uma poesia é, porque a primeira coisa (ia dizer 'regra' argh") para estar no poema é gostar, sentir que ele diz algo de você, para você, sobre você - como toda literatura, aliás. O que me 'pegou' no verso do Eucanaã foi, primeiro, o inusitado da imagem, sua força imagética, o 'ão' soando sinos de dobre na cabeça, além de toda carga semântica que a palavra 'cão' possui (e é possuída) aí (cf 'você é o cão'; 'cão danado'; 'cão'!). De resto, pense-se num cego sendo guiado por um cão ('cão de cego') e agora pense-se qualquer homem (poeta ou afim) sendo guiado pela palavra-cão; agora pense o inverso, o homem guiando a palavra, levando-a para onde quiser, dirigindo-a, passeando com ela, brincando com ela, ficando em danação por ela, em sua busca etc. É o poeta. E sou eu que leio e me consumo nessa mesma busca de que fala o poema, se ele me toca. É mais ou menos isso.

Agora, o poema e seu verso :

Eu, um velho. Ela, um menino.
Ou o contrário disso, o mesmo:
a palavra me levasse.
Eu ser o cão da palavra.

Seria: não precisar estar assim, nu
(uniforme
de quando se é funcionário
da coisa nenhuma).

E: nunca mais apertar os olhos
em cadernetas de endereço,
de telefones,
cinema, sem,

ou raramente, encontrá-la
(a palavra). Não mais os mimos,
como se faz com gatos,
leite no prato, à espera.

Imagina: haver uma palavra
sempre a postos, apta
e doce como um dono, um capitão
- seu convés de frases e versos.

Palavra que ordenasse até:
- nenhum poema! Eu, cão fiel,
calava. Mar o ar jamais faltasse.
Ela surgiria

como nas noites marinhas
o farol: estrada certa,
luzidia, sem cessar.
Vai o cão.
[p.32]

Outro poema de Martelo (Rio de Janeiro: 7Letras, 1997):

Forma
para Roberto Corrêa

Palavras, arrumá-las
de tal jeito
- cilada -
que se possa
apanhar com elas
um sentimento que passa.