terça-feira, 10 de abril de 2012
A vida dos peixes
O que A vida dos peixes tem de interessante é esse deter-se indefinidamente em um único personagem - um homem de 33 anos, doce e belo - numa única noite, ao longo de uma festa em casa de amigos de longa data, de quem ele tenta se despedir, mas onde vai ficando, vai ficando, quase sem forças para deixar todas as histórias que ali viveu descansarem, ou abandoná-las enfim. Até porque a mulher que realmente importa, com quem ele precisa acertar as contas de seu passado, está por chegar. E chega. E somente por expressões do rosto, por frases poucas, breves trechos da história dos dois, rememorações, retificações, ficamos sabendo o que aconteceu - quando houve a falha, a fissura, a falta; quando um dos dois não pode com o peso de sua história, se acovardou
e a vida seguiu de um jeito que o outro não tem mais como reparar; como a direção e o rumo foram outros, diferentes do desejado, a despeito do amor - por medo, imaturidade, dor, não entendimento dos grandes traumas, whatever.
Há momentos na vida de todos nós em que demos um passo, ou algo se sobrepôs a nós e a nosso caminho, e aquele passo foi mais que isso: foi uma marca, um marco, ali alguma coisa indelével aconteceu e não tem volta, por mais que tentemos remediar, remendar, consertar. Não dá pra ser o que era, não dá pra engatar outra história naquela. Acabou. Carregamos então o peso daquilo para sempre, e seguimos em frente, em busca da felicidade possível, se possível. Foi essa a magistral história que o diretor Matías Bize nos contou, usando atores perfeitos, porque parecidos com todos nós, num ritmo um pouco lento, mas necessário para caminhar com as lembranças, com o tempo que dura na memória. Muito triste. Muito bom. Reconhecço-me ali não apenas culturalmente, mas inteiramente.
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