quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Em trânsito

Voltei, por algum tempo, home. Sinto que aqui é minha casa agora, mas ainda é imperativo voltar ao Rio com relativa frequência, embora eu acredite que essa situação não possa se sustentar indefinidamente.

[Desta vez, achei que tinha deixado acesa a luz da cozinha, e como ela já havia dado um pequeno curto uma vez, decidi autorizar o porteiro a cortar a luz do apartamento. Volto, nada estava aceso e todos os congelados foram perdidos.]

Começo a sentir necessidade de me empenhar em um novo trabalho, um desafio, uma incumbência, fora a de cuidar de todos/as.

Também me deu vontade de ler, finalmente, Ulysses, que comprei na tradução do Caetano Galindo (Cia das Letras), de voltar a ler os tantos outros à espera, com alguma decência e regularidade. Pretendo abandonar um pouco aquela outra plataforma, onde todos falam bobagens o tempo quase todo (eu, inclusive), melhor escrevê-las com alguma sintaxe, talvez.

O outro Leminski chegou, não sei quando vou começar a ler,  porque estou no meio (em kindle) de Vidas provisórias, do Edney Silvestre, já passei por algumas cenas barras-pesadas de tortura, mas acho que o romance engrena muito bem, vou terminar em breve. Nesse campo, também preciso de retomar um sistema mais regular, horários e alguma disciplina, parar com a desordem do ócio.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

abadessa e a poesia


Uma vez, há anos, fiz um leitura de vidas passadas, dessas em que se colocam os dados de nascimento numa máquina e saem características do que se foi em outras vidas - deu que fui uma abadessa, vivi numa espécie de claustro, em grande isolamento e fiz muita caridade, dentre outras coisas.

Devo estar reencarnando as antigas vidas.





E já que falamos de vidas passadas, esse foi o primeiro poema que escrevi, e achei que poderia ser alguma coisa no campo da literatura, que eu amava de paixão. Não foi, nem fui. Mas ganhei dez! e uma enorme alegria.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O Leminski do amigo

O fato é que escrever dá trabalho - seja por diletantismo, seja por obrigação, do momento em que você põe os dedos no teclado, ou a caneta na mão, face a uma folha em branco, o ato se torna já uma constrição. Mas há também essa coisa em aberto, pedindo para ser dita, não sei que nome dar - se fosse escritora, e do século passado, diria que seu nome pode ser inspiração. Não sou nem uma coisa, nem outra.

Mas há que dizer algo, se algo precisa ser dito. E comentei com uma amiga sobre a façanha de ter terminado de ler, entre poucos outros livros, Minhas lembranças de Leminski, de Domingos Pellegrini, e da sensação esquisita que tal leitura me deixou.

Acho que há excesso de sentimentos atravessando essas memórias - e a vontade de ser honesto com relação à lembrança do amigo, daí que as mazelas pessoais, os vícios, as idiossincrasias da pessoa, tudo aparece como se fosse não uma confidência, mas um segredo que só um amigo que o compartilhou pode revelar. E, na verdade, não me interessou muito saber a frequência, ou falta de, com que Leminski tomava banhos; nem que bebia escondido da mulher, ou que bebeu até morrer. Não me diz absolutamente nada sobre a obra dele que, na verdade, é o que me importa, e sempre será. Acho que o homem sempre estará a reboque, quando se trata do autor de uma obra importante - como a de Leminski me parece ser.

Tampouco gosto do estilo, essa prosa sem nuances, meio afirmativa, tipo: "Os médicos bem sabem que o alcoolismo é uma doença que se pega bebendo, que se cultiva bebendo e que só se abandona quase morrendo, quando o corpo e a família já sofreram tanto que o sujeito encara o sacrifício da abstinência" (p. 83); ou de um mal disfarçado desdém, face a algumas qualidades do amigo - como sua habilidade em "chutar" em várias línguas e fazer crer que falava todas: "Lançar frases noutro idioma, de repente, é recurso de Leminski que, intencionalmente ou não, firma-lhe a fama de poliglota." (p.102); ou quando o amigo-biógrafo incorpora trejeitos próprios do estilo do biografado, e sai neologismando.

Como nem tudo é defeito, penso que a mesma obsessão em 'tudo relatar', em ser fiel à lenda e à imagem do amigo traz informações novas sobre o autor, como o processo de escrever as autobiografias; a crítica feita à forma meio por alto com que Leminski retraçou a vida de Cruz e Souza, e acho bom o gesto honesto de disponibilizar num "Posts", ao final, a carta de Alice Ruiz, em que ela não deixa pedra sobre pedra sobre por que não apoiava o projeto desta biografia, com as ressalvas quanto a expor traços da vida que não ajudariam em nada a conhecer a obra. Sumariamente: "Caso não arrede pé do seu 'estilo' detrator do Paulo pessoa, fique à vontade para isso (publicar na internet). Não somos movidas a ameaças. A decisão é sua." (p 190). Há ainda vários outros depoimentos de apoios, vindos de leitores da primeira publicação do texto, via internet.

O que ficou de mais forte após a leitura foi a vontade de confrontá-la à biografia escrita por Toninho Vaz - O bandido que sabia latim, que fui achar apenas na estantevirtual, a preço de livro esgotado.

______
Domingos Pellegrini. Minhas lembranças de Leminski. São Paulo:Geração Editorial, 2014.