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domingo, 5 de março de 2023

Fruta [25/02/2023]

Fruta

Enquanto eu perguntava o preço do mamão, o vendedor mostrava a qualidade dos produtos, arrumados na larga bancada de madeira, junto com outras frutas, expostas ao longo da calçada em frente ao largo do machado, e já foi tirando o mamão do montinho, expondo sua qualidade, valorizando o produto. Foi quando uma menina, doze anos talvez, vindo por trás dele segurando um pêssego, sussurrou algo bem perto de seu ouvido e, nesse instante, houve um olhar de ambos, muito rápido, em minha direção. Mas não foi o olhar dele, nem o relance de olhos dela para mim, que denunciou o abuso. Foi a sombra de um sorriso muito leve, muito sutil, quase sem querer, que ele jogou em minha direção – um esgar que me atravessou como lâmina, tão rápido e tão perfurante, que quando dei por mim ela já havia saído com seu pêssego, ele já embrulhava os mamões e eu pagava, me afastando lenta, o corpo muito mais pesado, tonta de tantas descobertas em um átimo de segundo. 

Ali havia um crime que ninguém jamais puniria, talvez, algo que os quatro anos sob a égide do desgoverno genocida, miliciano, misógino, insensível, violento e inimigo de todas as minorias sociais autorizaram, e o mais reles dos homens sentia-se livre, quase saltitante, para violar quem quer que fosse em troca de uma fruta. Nada mais o impedia de traficar comida com crianças, com vulneráveis, com idosos, com aqueles que serão sempre, em qualquer sistema opressivo, os deserdados da terra. Com o afrouxamento das regras de controle sociais, os famintos dessa sociedade estão à mercê das bestialidades todas, porque não contam mais com a proteção real e verdadeira do aparato do Estado que coíba a invasão dos corpos, das casas, das vidas - desses, que estão quase sempre à beira de.