Eu passei, olhei, parei diante dele e disse: (...) Seu rosto iluminou-se num sorriso - O sorriso -, e respondeu algo que eu entendi como 'que legal, muito obrigado', enquanto o amigo murmurava, voz enfática, 'abraça ela' e ele já se levantava e me abraçava sorrindo e eu dizia 'e ainda ganho abraço que maravilha'. Daí deixei-os, feliz, para entrar na sala e ver O grande mestre.
Passei boa parte do filme tentando lembrar o nome dele, depois os filmes que eu vira com ele. Primeiro lembrei o nome Irandhir, depois só me vinha à mente Serra pelada, onde ele nem está, e muito depois (isso tudo vendo o belo filme sobre lutas marciais) lembrei de O som ao redor, aquele clima opressivo, ele andando pra lá e pra cá, buscando perigos; e Tropa de elite 2, em que faz o deputado Diogo Fraga, que leva o tenente-coronel Nascimento à tribuna da Câmara, para acusar metade do plenário de corrupção; e só em casa me veio o nome do filme em que ele resplandece, tomado pela fúria dos deuses da interpretação, do deboche e da magia criativa: Tatuagem, que comentei nesse post do FestRio 2013.
Essa cultura mambembe, de que trata Tatuagem, essa moldura afetiva, em que tudo fica meio sem borda, e um clima de ninguém é de ninguém, além de fazer parte do way of life de uma parte da geração dos setenta/oitenta, compõe também o perfil de um tempo no país em que alargar os limites do permitido era uma forma de resistência, uma maneira de ser contra - a ditadura, a repressão, o desconhecido-que-se-ouvia-em-sussurros-por-todo-lado. Há também uma pegada tropicália, um abocanhar tudo de cultura que pudesse fazer vibrar o coração. Ver Irandhir foi como rever um pedaço de nossa cultura geral, e não apenas fílmica, mas também uma parte de minha própria história nela. Como na frase clichê, ele - sim - me representa.

