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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Barthes, luto, fotografia



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Seria muito complicado explicar o que sinto agora que vejo a foto dele aqui a meu lado, sorrindo e me abraçando, tendo ao mesmo tempo a certeza de sua presença em minha vida (e em meu afeto) e a notícia (vaga?) de sua partida. Ao fim e ao cabo eu mesma me tornei, junto com ele, meio espectral, e já houve um dia na rua em que tudo e todos faziam parte de uma outra dimensão, e eu via com toda a absurda clareza a palha de que somos feitos. E eu era a mais fina delas.


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De todo modo, releio Barthes e a câmara clara para sua amada mãe (morta).


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O que a Fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca poderá repetir-se existencialmente. [p.13]

A cada vez que lia algo sobre a Fotografia, eu pensava em tal foto amada, e isso me deixava furioso. Pois eu só via o referente, o objeto desejado, o corpo prezado. [p.17]


E aquele ou aquela que é fotografado, é o alvo, o referente, espécie de pequeno simulacro, de eídolon emitido pelo objeto, que de bom grado eu chamaria de Spectrum da Fotografia, porque essa palavra mantém, através de sua raiz, uma relação com o "espetáculo" e a ele acrescenta essa coisa um pouco terrível que há em toda fotografia: o retorno do morto. [p.20]


A Foto-retrato é um campo cerrado de forças. Quatro imaginários aí se cruzam, aí se afrontam, aí se deformam. Diante da objetiva, sou ao mesmo tempo: aquele que eu me julgo, aquele que eu gostaria que me julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se serve para exibir sua arte. [p. 27]


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Roland Barthes. A câmara clara. Tradução Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

saudades de Barthes

Porque me deu saudades da beleza do texto de Barthes, aí vai um excerto de um momento glorioso de sua frase, saber e sabor.

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"Michelet toma a nossa História na instituição da servidão: é aqui que se forma a idéia da Feiticeira; isolada em seu casebre, a jovem mulher do servo dá ouvidos a esses vagos demônios do lar, restos dos antigos deuses pagãos que a Igreja expulsou: ela torna-os seus confidentes, enquanto o marido trabalha fora. Na esposa do servo, a Feiticeira ainda é apenas virtual, trata-se apenas de uma comunicação sonhada entre a Mulher e a Sobrenatureza: Satanás ainda não foi concebido. Depois, os tempos endurecem, a miséria, a humilhação aumentam; surge algo na História que muda as relações dos homens, que transforma a propriedade em exploração, que esvazia de toda a humanidade o elo entre o servo e o senhor: é o ouro. Ele próprio abstração dos bens materiais, o ouro abstrai a relação humana; o senhor já não conhece seus camponeses, mas apenas o ouro impessoal com que eles devem pagar-lhe a contribuição. É aqui que muito justamente, por uma espécie de presciência de tudo o que mais tarde se dirá da alienação, Michelet coloca o nascimento da Feiticeira: é no momento em que a relação fundamental é destruída, que a mulher do servo se exclui do lar, ganha a charneca, faz um pacto com Satanás, e recolhe no seu deserto, como um depósito precioso, a Natureza expulsa do mundo; estando a Igreja enfraquecida, alienada aos grandes, separada do povo, é a Feiticeira que exerce, então, as magistraturas de consolação, a comunicação com os mortos, a fraternidade dos grandes sabbats coletivos, a cura dos males físicos, durante os três séculos em que triunfa: o século leproso (XIV), o século epiléptico (XV), o século sifilítico (XVI). Por outras palavras, estando o mundo votado à desumanidade pela colusão terrível do ouro e da servidão, é a Feiticeira que, ao retirar-se do mundo, ao tornar-se a "excluída", recolhe e preserva a humanidade. Assim, ao longo dos finais da Idade Média, a Feiticeira é uma função: mais ou menos inútil quando as relações sociais comportam por si mesmas uma certa solidariedade, ela desenvolve-se na proporção em que essas relações empobrecem: anuladas essas relações, a Feiticeira triunfa."

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(BARTHES, Roland. "A feiticeira". In Ensaios críticos. Trad. Antonio Massano e Isabel Pascoal. Lisboa: Edições 70, 1977, p. 154-5).