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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Downton Abbey - começos

Comecei ontem a ver Downton Abbey, uma série brilhante, que não vou comentar porque já deve haver uma tonelada de textos sobre ela, cuja primeira temporada começou em 2010, mas no Netflix só tem até a terceira. A quinta deve estar passando agora na Inglaterra. De todo modo, são histórias fascinantes porque focadas na perspectiva de um conjunto grande de empregados de uma propriedade de nobres em começo de decadência, no início do século passado. 

Vi os sete episódios da primeira temporada em dois dias, e tudo ali me pareceu interessante: atores entregues a um tempo que não é o nosso, com histórias de todos os tempos, porque lidam com o básico de nossa condição: ambição, inveja, poder, dominação entre senhores e seus serventes, com o detalhe de que entre os próprios empregados trava-se uma guerra mais ou menos surda por espaço, poder e lugar melhor na hierarquia da casa. 

Destaque para o talento da sempre impagável Maggie Smith; para a fotografia primorosa, os belíssimos cenários, um roteiro de primeira, com diálogos plenos de ironias, sarcasmos e aquele humor corrosivo que costuma caracterizar um certo modo de ser inglês.Tudo isso com peripécias amorosas, códigos de honra e de conduta, e o começo da luta feminista - nesse momento, no final desta temporada, as lutas pelo sufrágio entram em Downton Abbey pela voz de uma das filhas, e a primeira guerra mundial também.

Downton Abbey - chovendo no molhado, mas como não fazê-lo

Ao final da terceira temporada de Downton Abbey, a última exibida aqui no Brasil, já me sinto órfã daqueles seres com quem convivi intensamente nas últimas duas semanas. E embora tudo já tenha sido dito a respeito dessa magnífica série, não resisto e deixo aqui minhas impressões.

Na segunda temporada os acontecimentos fluem velozmente em torno da Primeira Guerra Mundial, o casarão-quase-castelo virando uma espécie de clínica para convalescentes graduados, feridos em batalhas, e a aristocracia inglesa, e seu reverso axial, os serviçais, tentam adequar-se aos estranhos e sofridos novos hóspedes.

Matthew ficar paralítico e recobrar mais à frente todos os movimentos me pareceu uma homenagem aos dramalhões que imperavam nos antigos filmes de guerra, quando havia quase sempre um paralítico que voltava ao lar e à esposa metade do homem que partira – sem braços, ou pernas. Mas, para sorte do casal de protagonistas pelo qual todos torcemos, não apenas Matthew volta a andar, mas recupera também sua potência sexual, além de acontecer a morte da noiva meio sem graça, mas muito rica, pela gripe espanhola, que, aliás, quase leva também a condessa Cora Crawley, que quase não sobrevive.

De todo modo, um trabalho como esse esconde pepitas de ouro nos detalhes, além de constituir um painel vivo e interessantíssimo dos começos do que somos hoje: nós, mulheres emancipadas, feministas e com direitos civis assegurados; nós, cidadãos que lutamos a duras penas para manter e aumentar os direitos à igualdade das minorias sexuais e sociais, que no começo do século passado ainda são criminalizadas, como talvez ainda o sejam hoje em vários países e continentes; nós, os que lutamos para tornar livres homens e países tanto da escravidão individual, quanto da dependência servil, embora nem toda forma de colonização tenha sido extinta ainda; nós, por fim, que já conseguimos enxergar formas novas na constituição das famílias, além do núcleo pai-mãe-filho biológicos, vemos na série alguns ramos desse vasto tronco de uma árvore que ainda cresce, que ainda amadurece seus frutos, de modo que o afeto seja o laço a unir quem se procura, ou se deseja.

No núcleo dos serviçais há um vigor intenso, e ali travam-se algumas das batalhas mais visíveis do que aqui se mencionou. Uma delas por um dos personagens mais interessantes da história, o criado Rob James, que vai mudando de um ser humano quase abjeto, em sua mesquinharia, intensificada por sua parceria com Siobha, criada da condessa e, por essa função, detentora de um certo poder sobre os outros. Os dois serão aliados nas duas primeiras temporadas, mas as vidas e as situações se complexificam e tanto ele, quanto ela, adquirem uma densidade outra.

Ele, sobretudo, me tocou especialmente, porque seu erotismo voltado para homens o criminaliza, e não há o que ele possa fazer nesse sentido. A série mostra de modo muito claro, e muito simples ao mesmo tempo, o que significa ser diferente da maioria no terreno sexual, tendo que ser o que se é e ao mesmo tempo controlar os impulsos mais básicos, mais urgentes, sob pena de denúncia, exclusão e mesmo prisão. Ou seja, o tesão já matou, e não está tão distante esse tempo de nós como gostaríamos de acreditar, e como seria justo desejar.

Para as mulheres, igualmente, a série tem-se mostrado riquíssima no modo como apresenta os movimentos das filhas do conde de Granthan em direção a espaços mais amplos socialmente, sobretudo a mais nova, Sybil, e a do meio, Edith. Uma apaixona-se aos poucos pelas ideias de emancipação feminina, empenha-se na luta pelo voto da mulher, e acaba por ouvir, com a mente e o coração atentos, o que o chofer da família tem a dizer sobre direitos civis, liberdade e um nascente socialismo – apaixona-se pelas ideais, e pelo autor delas.

A outra, a mais jovem, essa de algum modo terá que cavar seu lugar num mundo novo que se inicia, a partir dos escombros das velhs ideias que teimam em cruzar seu caminho, e barrar suas escolhas. É sobretudo amorosamente que ela paga preços além do que deveria, mas nesse momento da série parece que ela começa a compreender sua própria força, e seu valor. Ela é muito especial, porque se constitui nesse entrelugar de várias coisas, de várias situações, pessoais e sociais. Por isso vai precisar empreender uma conquista de si mesma, de alguém que se constrói a partir de um novo modelo de mulher, de esposa, de filha, de profissional, de tudo. E também porque ela é a mais comum das três – não tem uma beleza excepcional, nem uma inteligência brilhante. Mas tem um talento especial e, nesse momento, esse será seu salvo conduto rumo ao controle de sua vida: ela sabe escrever.