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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A gatinha esquisita

A Gatinha Esquisita (Das Merkwurdige Katzchen, Alemanha, 2013. Dir:Ramon Zurcher. 

Obra prima inconteste – o diretor filmou, do começo ao fim, todo o universo existencial, psicológico e filosófico das obras literárias de Clarice Lispector, a escritora brasileira que fotografa com a palavra cada milímetro das sensações que perpassam o cotidiano das relações entre as pessoas e o mundo, os objetos familiares, os acontecimentos comuns e banais, seja ele olhar nos olhos de um búfalo no zoológico, seja o esvoaçar de uma pena no ar, ou o cruzamento fortuito de alguém no bonde com o olhar de um cego. Todos os contos de 'Laços de família' estão aqui; todo o clima de 'A paixão segundo GH' está aqui, até mesmo cenas que se lêem em Clarice estão filmadas como se transpostas para a tela – e isso independe de o diretor conhecer ou não a obra da autora brasileira, porque é um modo de estar no mundo que os aproxima, flagrantes da existência cotidiana que em ambos adquirem estatuto de obra de arte – sob a palavra, uma; sob as imagens, outro.

Essa é a primeira vez que ”vejo” na tela uma obra literária desse tipo, ou seja, um filme feito de sopros, de sensações e observações intensas sobre o mínimo, os objetos comuns, as situações cujos significados residem nas impressões que causam, expressas por pequenas, contínuas e intensas epifanias, como se o cotidiano fosse pleno de riquezas, de sentidos que nos oprimem e nos excitam, como se a vida fosse esse diuturno brilho do singular e do comum, do banal, de onde se extraem as pepitas, o que comove, o que existe, o que pasma simplesmente por estar vivo, e pulsar e existir para e sob nossos olhos.

Há cenas antológicas, como a da mulher que faz a mãe e tem uma relação difícil com o gato, e coloca um pé sobre o bichano, no vão da porta, aproximando-o lentamente do animal, como se fora esmagá-lo – dura um átimo e uma eternidade, porque ali estão resumidos todos os nossos desejos ancestrais de um dia ter esmigalhado um gato, um besouro, uma mosca, um inseto, um tudo; ou quando essa mesma mulher-mãe toma o leite deixado sobre a mesa, onde há um pelo do gato, já quase no final do filme e da refeição com os amigos – ela toma o leite, e essa cena tem o mesmo sentido de comer a barata n’A paixão – uma redenção, talvez, em meio à culpa do que não se sabe bem o motivo, mas que está lá, sempre premente, e presente.

Há quase todo o tempo, igualmente, frases brilhantes, interessantíssimas, muitas vezes emoldurando uma situação comum, como quando a menina pergunta sobre os lóbulos dos pulmões:

_ Que são lóbulos?
_ São as asas dos pulmões. Para que voem, quando necessário.

Ou quando uma das filhas está olhando pela janela, provavelmente vendo lá fora o cão da casa, e observa para o rapaz, que parece ser o irmão:

_ Não queria ser um cão preto no verão.
_ Ainda não é verão.
_ Queria ser um no outono?
_ Aí, sim.

Ou a cena em que esse mesmo rapaz reconta a ela o momento de uma festa em que uma mulher bêbada faz uma cena, e meio que enlouquece. Ele conta uma coisa, e a tela mostra outra, ou seja, a delicadeza de um sorriso. A cena toda adquire um significado novo, revigorante, quando se vê que a mulher se acalmou não pela luz da lanterna do guarda, como ele diz simplesmente, mas por vê-lo sorrir – o mundo se refez para ela de novo com aquele sorriso, todas as gárgulas se desvanecem para ela face ao – não há outro nome – amor daquele sorriso. Ele omite isso, o que nós vemos, e essa omissão é também de uma delicadeza infinita.

Um filme magistral, que requer um olhar sensível, do mesmo modo que se dá com a literatura de Clarice – nem sempre se consegue adentrar seus meandros, e percorrê-los com o prazer das descobertas de um mundo quase sempre nos interstícios – das coisas, dos seres, dos tempos.