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domingo, 29 de junho de 2008
terça-feira, 24 de junho de 2008
Para você

E em homenagem a você, minha querida viajante, aí vai o excerto de uma crônica de dona Hilda Hilst, datada de 04 de outubro de 1993 e publicada em Cascos & carícias (São Paulo: Nankin Editorial, 1998, p. 64).
Pra você ver como ela era boa e como a situação do país sempre foi esse lixo:
Pra você ver como ela era boa e como a situação do país sempre foi esse lixo:
O arquiteto dessas armadilhas
Uma das coisas que mais me chateiam nisso de escrever crônicas é a quase obrigação de ser sempre pra cima, vivaz, alegrinha, ou então estar sempre em dia, na crista, notícias cintilantes... Ser sempre interessante como se todos fossem inteligentíssimos, profundos, finos, cultos, delicados... E se eu quiser falar do tempo do foda-se, da estupidez que grassa desmedida no País, do costumeiro engodo dos políticos em relação ao povo, se eu quiser perguntar sem parar, por exemplo, onde é que estão aqueles canalhas que roubaram bilhões e bilhões da Previdência, onde é que eles estão, hein? Estão em suas celas, com seus bidês de ouro, jogando bilboquê com suas bolotas de diamante? Bilboquê é do tempo do foda-se, mas como roubar também o é, não peco por incongruência em minha crônica. E no mais profundo da crise, ao invés dos líderes se unirem para a reconstrução do País (reconstrução, sim, porque está tudo despencando nas águas da boçalidade), há cisões nos partidos, pavões abrindo seus leques e exibindo feios dedões, perus enraivecidos regurgitando... Gente! O País não aguenta nem mais um ano se os homens inteligentes não se unirem sem ressentimentos, sem vaidades, sem egoísmo, para levantá-lo! E o que é essa baboseira de nos empurrarem goela abaixo que toda polícia do mundo não encontra o senhor PC? Mas o que é? O homem é feito de matéria quântica? De neutrinos? Atravessa paredes, não tem massa e só é visto quando colide com algum alguém, como no caso do jornalista? [ ... ]
Ah, tempos tão hoje, tão nossos. Parece que os homens inteligentes desistiram, ou estão muito ocupados bolando o plano mais astuto para pilhar o país, com letra minúscula, viu Hilda?
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ps. a foto da hilda peguei no http://www.releituras.com/hildahilst_bio.asp
sábado, 21 de junho de 2008
The happy endings
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O cinema B (ou C) americano é um poço de bobagens, que a gente vê quase sempre se perguntando 'como é que fui entrar nessa' e se dizendo que nunca, never more fará isso na vida, ou seja, pagar uma entrada para ver ultra bobagem, como Jogo de amor em Las Vegas, por exemplo. De todo modo, o que em geral acaba sendo a cereja no bolo ao fim de tais filmes é aquela indefectível dança totalmente amalucada que eles (os protagonistas) fazem, se achando muito loucos, muito soltos, muito engraçados. Em geral, a coisa toda é meio patética, sem graça, a gente fica boba de ver como é que eles se prestam a isso. Daí que uma relação das danças mais horrorosas do cinemão americano teria de incluir os finais de:
1. Hitch, conselheiro amoroso, em que quase todos pagam mico na dança do acasalamento;
2. A família da noiva, em que os personagens brancos e os negros confraternizam meio 'barbaramente', para sugerir entrosamento;
3. O casamento de meu melhor amigo, embora não seja aí que a Julia Robert paga o maior mico de salão;
4. O amor não tira férias, há uma confraternização leve com a Cameron Diaz dançando assim estilo 'livre', o que parece ser sua marca registrada (dançar em todo filme);
5. Em Uma coisa nova: as surpresas do coração, a mocinha arrepende-se de dar um fora no gatíssimo que ela namorava, porque ele era branco e ela negra, e vai atrás do rapaz no final do filme. Encontra-o, eles voltam e ela o leva para dançar na festa da comunidade negra, uma espécie de baile das debutantes, só que ela o faz usar uma roupa de tocadores mexicanos de banjo, totalmente ridícula. A dança pode não ser totalmente, mas a roupa dele é um mico só.
Outros vários poderiam estar na lista, estarão à medida que eu lembrar.
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quinta-feira, 19 de junho de 2008
Irina Palm
Irina Palm é um filme lindo, denso, dramático, forte, simples, que trata com ternura uma mulher de 50 anos, vivida bem demais pela Marianne Faithfull, numa estória bem simples: o neto da protagonista está com uma doença gravíssima, terminal, e precisa ir para a Austrália (se bem me lembro) para tentar um novo tratamento que só tem lá. Os pais não têm recursos, a avó tampouco tem dinheiro, nem emprego, nem posses, e não sabe fazer nada. Mas ama o neto. E quer salvá-lo. Procura, procura e acaba achando um emprego que paga relativamente bem, numa sex shop. Sua função? Masturbar os pênis dos clientes, que chegam até ela através de uns buracos na parede. Com o tempo, e a necessidade, Maggie vai ficando craque na tarefa, vai adquirindo uma certa expertise no ofício e sua fama se espalha. Junto com a fama (de mãos macias), ela ganha o dinheiro de que precisa, e um novo nome: Irina Palm.
E o que faz do filme uma preciosidade? O tratamento do tema, a leveza com que o que parece escabroso termina por se mostrar singelo. Em nenhum momento o sexo aparece como proeminente, como o sentido de tudo, mesmo sendo e mesmo estando ele quase todo o tempo em que a mulher aparece.
Mas a cara dela exercendo o ofício é sobretudo hilária, porque meio atabalhoada, meio perdida naquele universo. O que fica para nós é o rosto da Marianne, e, do rosto, a boca, a magnífica boca dessa artista que eu não sabia tão boa atriz.
E o que faz do filme uma preciosidade? O tratamento do tema, a leveza com que o que parece escabroso termina por se mostrar singelo. Em nenhum momento o sexo aparece como proeminente, como o sentido de tudo, mesmo sendo e mesmo estando ele quase todo o tempo em que a mulher aparece.
Mas a cara dela exercendo o ofício é sobretudo hilária, porque meio atabalhoada, meio perdida naquele universo. O que fica para nós é o rosto da Marianne, e, do rosto, a boca, a magnífica boca dessa artista que eu não sabia tão boa atriz.
PS. Descobri como colocar essa foto aí hoje, salve!
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segunda-feira, 16 de junho de 2008
De verdade (II)
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Tinha feito uma grande seleção de excertos da obra, mas quando fui publicar o blog entortou e cortou grande parte. Sobraram esses, bons que só:Não é verdade que o sofrimento nos purifica, nos faz melhores, mais sábios e compreensivos. Nós nos tornamos frios, iniciados e indiferentes. Quando compreendemos, pela primeira vez na vida, o destino, nos tornamos quase serenos. Serenos e solitários no mundo, de um modo singular e assustador.
[p. 44]
Existem momentos na vida em que vemos tudo com clareza, sentimos a própria força, as possibilidades, vemos a condição ante a qual éramos medrosos ou fracos. São os momentos de mudança. Essas coisas chegam sem aviso, como a morte, ou a conversão. [p.51]
Havia dezesseis anos vivia, rodava, andava em círculos, numa jaula como aquela ou parecida, uma fera delicada, cujo nome era paixão e espera. Eu entrara na jaula, e nós nos encarávamos. Não, aquela mulher não demandava nenhuma bugiganga que a recompensasse, que a seduzisse. Ela exigia tudo, a vida toda, o destino com todos os perigos. E sabia esperar. [p. 94]
Assim nos olhávamos. O que mais dava medo era a boca. Macia e magoada. A boca de uma fera nobre que tinha perdido o hábito de comer carne. [p.99]
Você me pergunta o que é a verdade, a cura, a capacidade de encontrar a alegria. Eu vou lhe dizer, meu caro. Vou lhe dizer com duas palavras. Humildade e autoconhecimento. Esse é o segredo. [p.139]
Há muitas espécies de mágoa entre as pessoas. Sabe, as pequenas diferenças... um conhece alguma coisa porque foi mais bem-nascido, teve a oportunidade de espiar o segredo delicado que é a verdadeira cultura... o outro apenas aprendeu a lição. Acontece. A vida passa até aprendermos isso. [p.141]
Veja, na vida existem também grandes satisfações e alegrias. Chegam tarde, de uma forma distorcida e inesperada. Mas chegam. Quando na minha casa atual, a casa de meus pais, depois de dois casamentos e duas separações eu fiquei só, senti pela primeira vez na vida o alívio triste de quem chegou ao fimde alguma coisa, alcançou o que queria. Sabe, como alguém que, condenado à prisão perpétua, de repente é libertado porque a pena foi comutada em virtude de seu bom comportamento... e pela primeira vez em décadas ele dorme sem ter medo do guarda que durante a ronda noturna espreita pela vigia da porta... A vida proporciona também alegrias assim. Custam caro, mas por fim a vida as oferece.
[p. 149]
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De verdade. Sándor Márai. Tradução Paulo Schiller. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Sex and/in the city
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Eu nunca havia prestado muita atenção ao título da série, mas o fiz agora com relação ao filme: trata-se, na verdade, nesse filme, de sexo, muitas cenas de sexo, com o pretexto de uma possível liberalidade maior dos costumes em Nova Iorque. Eu diria que se trata de um pornô-chique, com muita roupa bonita, muita mulher bem vestida e glamourosa, mas ainda assim um filme pornô.
Eu gostaria muito que fosse respeitada aqui na taba o mesmo princípio de restrição de faixa etária que a do país de origem: 17 anos. Porque, como observa a atriz que vive a personagem promíscua do filme, Kim Cattral, a fita não deve ser vista por meninas aquém dessa faixa etária. Eu concordo inteiramente. Não posso proibir L de ver o filme, porque aqui ele tem censura de 16 anos (nós somos o quintal, lembra?) mas eu acho ruim ela ir ao cinema para ver aquilo, acho muito deprimente a exacerbação do erotismo vulgar embrulhado em glamour e luxo, que acaba fascinando tortamente os adolescentes. Ah, sim, sou conservadora, claro, mas sou também atenta ao lixo com luxo.
Além disso, eu me senti (de novo) excluída daquele universo: é muito americano demais, é muito nova iorque demais, e eu não moro em nova iorque, não tenho nenhum interesse por grifes, não quero me casar nem achar o homem, sem o qual nenhuma daquelas moças parece conseguir viver. Eu acho um saco essa predestinação obrigatória e absoluta em torno de uma vida feminina que só se sustenta se houver um homem que a ampare. Um saco total e absoluto. De novo, estou excluída disso.
Um último 'além disso': todos nós sabemos que americano só vê o que é americano, nova iorquino seria o grau de excelência desse autismo. Aqui, as moças vão ao México curtir trauma de abandono (do homem, claro) e mais uma exclusão: a xenofobia naturalizada faz a Charlotte tecer comentários bem desagradáveis sobre a água de lá, que acaba bebendo sem querer quando está no banho, tem uma diarréia e se borra nas calças. Patético, mas bem sintomático de vários aspectos do filme.
PS: É engraçado que o filme é a série em edição grande, mas faz toda a diferença ver alguns episódios soltos, despretensiosos, na TV, e ver aquilo tomar ares de ... de quê? eternidade, seriedade? Não sei, mas algo acontece quando passa para a grande tela do cinema. Parece que os erros e os equívocos ficam maiores, muito maiores.
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domingo, 8 de junho de 2008
Antes que o diabo saiba que você está morto
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Eu queria falar bem de Antes que o diabo saiba que você está morto, mas não vai dar não. Gosto do Sidney Lumet, respeito os grandes filmes que já nos deu - Um dia de cão ainda hoje permanece na lembrança, mas eu vi poucos em relação a sua extensa filmografia.
De todo modo, os incômodos causados (a mim) pela fita dizem respeito menos às situações duras vividas pelos personagens e mais, acredito, ao histrionismo dos atores, à exceção do Phillipp Seymour Hoffman, o único brilhante do começo ao fim. Não adianta, o Ethan Hawke jamais conseguirá fazer um papel dramático e convencer (mas torço a favor), porque ele tem um problema com a movimentação dos lábios que faz com que toda vez que ele quer expressar dor a boca parece estar sorrindo. Então fica aquela briga dos olhos, que brilham intensamente e querem expressar o sentimento do ato, com aquela boca (até bonita) que só quer sorrir. Não dá.
Também vou parecer cruel com o Albert Finney, cuja atuação eu amei em Peixe grande e, por coincidência, revi ontem na TV em um filmete chamado Um anjo rebelde (Delivering Milo, a estória de um menino que não quer nascer). O problema do Finney em dramas pesados é também com a boca, não sei o que é essa síndrome, de que é acometida também o Denzel Washington. Sempre que há um momento de forte carga dramática, os lábios do Finney dão uma espécie de caída, cuja idéia seria talvez mostrar desolação, desânimo, mas que a mim parece patético, não me convence como recurso dramático de jeito nenhum. Além disso, o filme é pesado, cansa demais ver todo o tempo tantos fracassados juntos. Tudo dá errado para todo mundo, e não há tragédia, nesses destinos, só a plana, plena e vil miséria, o drama diuturno dessas vidas mesquinhas e pobres.
Então, os méritos do filme, segundo minha modesta opinião, ficam para a excelente atuação de Phillipp Seymour e, last but not least, os excepcionais seios da Marisa Tomei. Caramba, obra de arte é aquilo ali.
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terça-feira, 3 de junho de 2008
sobre dinheiro e não
Esse é um post antigo, que eu não aproveitei então e o faço agora.
Tenho uma incompetência atávica com relação a dinheiro: não sei guardar, não sei economizar, não sei cuidar nem dizer não, enfim, um desastre total.
Quando era mais pobre, vivia com a maior naturalidade pendurada em dívidas de cheque especial e de cartão e não dava a menor bola pra isso, achava natural (claro que naquele tempo os juros eram menos extorsivos do que agora). De todo modo, há algum tempo venho me dispondo a aprender sobre o que não sei, incluindo as questões financeiras. De repente, se me puser a ler sobre dinheiro (por isso o link para o dinheirama.com) e sobre como me tornar uma 'gestora' (caramba!), vou acabar economizando. Se apenas aprender a me relacionar melhor com o metal não tão vil já estará de bom tamanho.
Sobre o assunto, o livro do Sándor Márai oferece observações absolutamente pertinentes:
"O homem rico nunca consegue se apegar com tanta disposição vigilante e torturada aos costumes sociais, à ordem, às regras de conduta, à reverência burguesa, a tudo o que significa a justificativa da existência da pequena burguesia em todos os momentos da vida, quanto o chefe de escritório, que faz questão de preservar o desejo de morar melhor, de se manter na moda, de conservar os ditames da vida social em paralelo com a renda de cada classe social... O rico se dispõe a certas aventuras, se dispõe a pôr uma barba postiça e fugir com o pé no estribo, por mais ou menos tempo, da prisão solene e entediante das posses. Tenho uma convicção secreta de que o rico sente tédio o dia inteiro. Porém o burguês, que apenas ocupa um posto, que não tem dinheiro, ambiciona com o heroísmo de um cavaleiro cruzado a ordem à qual pertence, o nível e os princípios burgueses. Precisa deles, precisa provar alguma coisa até o fim da vida." [p. 141]
E mais uma, que não tem a ver com dinheiro, mas é perfeita:
"Veja, na vida existem também grandes satisfações e alegrias. Chegam tarde, de uma forma distorcida e inesperada. Mas chegam. Quando na minha casa atual, a casa de meus pais, depois de dois casamentos e duas separações eu fiquei só, senti pela primeira vez na vida o alívio triste de quem chegou ao fim de alguma coisa, alcançou o que queria. Sabe, como alguém que, condenado à prisão perpétua, de repente é libertado porque a pena foi comutada em virtude de seu bom comportamento..." [p.149]
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Sándor Márai. De verdade. Tradução Paulo Schiller. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
De verdade
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Outro dia a Mônica Waldvogel, no programa Saia Justa, sugeriu a leitura do livro De verdade, do Sándor Márai, de quem eu não conhecia nada até então. O que me chamou a atenção de imediato foi o modo como ela falou desse trabalho - embora fosse um comentário rápido, os olhos da moça brilharam intensamente, a gente percebia que havia amor, mais que isso, fervor, ao falar do escritor e da obra. Eu confiei nesse brilho e no dia seguinte me pus a procurá-lo na Argumento (foi em busca desse livro que ocorreu o episódio do mel).
Bom, eu costumo sublinhar trechos, palavras, pensamentos enfim, nos livros que estou lendo, vício antigo de quem leu durante anos a trabalho, além de dobrar as pontinhas das páginas assinaladas. Pois bem, eu ainda estou na página 168 das 445 do livro e as dobrinhas das páginas estão quase uma sim outra não. De repente, quase todo o livro será dobrado, porque se trata de uma obra-prima extraordinária, que fala comigo, para mim, de mim sobre quase tudo que importa na vida, e eu fico besta de ver como é que eu nunca havia posto meus olhos sobre esse autor e sobre este livro (resposta: muito provavelmente, porque fiquei limitada, ao longo de minha vida acadêmica, a leituras obrigatórias de crítica e ficção canônica brasileiras, além de obras de autoras mulheres, objeto de outras tantas pesquisas devidas).
O livro é uma obra-prima (publicada uma parte em 1940 e a parte final em 1979), e o parágrafo inicial já diz muitíssimo de sua estrutura:
"Veja aquele homem. Espere, não olhe agora, vire-se para mim, vamos conversar. Eu não gostaria que ele olhasse para cá, que me visse, não gostaria que me cumprimentasse. Agora pode olhar de novo... O homem baixo, atarracado, com o casaco de pele de gola de marta? Não, nada disso. Aquele alto, pálido, de sobretudo preto, conversando com a garçonete magra. Está pedindo a ela que embrulhe cascas de laranja cristalizada." [p. 11].
Assim como Guimarães Rosa em seu Grande Sertão, ou mesmo A hora e a vez de Augusto Matraga, em que se trabalha o artifício da confidência, de contar os 'casos fabulosos', aqui também Márai estabelece de pronto um viés de cumplicidade com o leitor já em "Veja aquele homem". Evidentemente, precisa mais que um apelo para transformar o interesse e a curiosidade iniciais em obra de valor, mas ao correr da leitura o leitor vai-se tornando muito mais que um voyeur dos acontecimentos - ele ficará refém não apenas das vidas ali encenadas, mas da sabedoria que percorre cada observação, cada reflexão dos vários narradores. São pensamentos atualíssimos, questões nossas, de hoje, e foram escritos, em sua maior parte, na década de 40!
Alguns trechos:
"Não acredito que a família 'traga felicidade'. Nada traz felicidade. Porém a família é uma tarefa tão grande, diante de nós mesmos e também do mundo, que por ela vale a pena suportar as preocupações desnecessárias, as paixões inúteis da vida. Não acredito em famílias 'felizes'." [p. 134]
"No fundo da nossa alma vive a memória de um mundo luminoso, ensolarado, lúdico, em que a obrigação é divertimento, o esforço é agradável e racional. Talvez os gregos, sim, talvez eles fossem felizes... Mataram-se uns aos outros e aos estrangeiros, sofreram guerras terrivelmente longas e sangrentas, mas ainda assim resistiu neles uma espécie de sentimento comunitário bem-humorado e transbordante, porque eram todos cultos, no sentido mais profundo, não escrito, da palavra, inclusive os fabricantes de panelas...." [p. 136]
"Se um homem como ele, que zela e representa todos os valores de uma cultura, desmorona, não é apenas ele que se extingue, mas com ele se extingue um pedaço do mundo em que vale a pena viver." [p. 118]
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De verdade. Sándor Márai. Tradução do húngaro de Paulo Schiller. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
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