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Vi o Ensaio na primeira sessão do primeiro dia em exibição, mas só agora me animo a dizer sobre ele algumas palavras. Primeiro, não há como desvincular a leitura do filme da leitura do blog do Meirelles e/ou do livro do Saramago. No caso específico deste filme, as três formas de representação estão imbricadas, e minha leitura do filme está atravessada pela dos dois outros suportes. Isso acontece porque o filme procura ser bastante fiel ao livro, e acho que consegue, em quase todo ele, mas há algo que não funciona inteiramente, assim como o livro também tem seus percalços, sobretudo na vontade filosofante do Saramago, às vezes excessiva. Alguns bons filmes que tenho visto me ensinam coisas técnicas sobre essa arte, na verdade, ensinam a qualquer espectador atento e que goste de cinema. Não lembro qual me fez sair da sessão com idéias mais claras a respeito de montagem; o último bom que vi (Mistérios do samba) me falou sobre como o fotograma pode ser uma sucessão de belas fotografias; e Blindness me deu a impressão de que houve cortes em demasia na montagem, algo parece descosido, não engrena totalmente, embora eu tenha gostado do filme, se por gostar se entender um profundo sentimento de desamparo e desalento ao fim da exibição, o mesmo que senti quando terminei de ler o livro e me via caminhando com bandos de cegos a minha volta. É bonito, e é triste ao mesmo tempo. Por isso é bom, porque toca profundamente em vários momentos. O livro mais que o filme, talvez, mas não estou certa.
De todo modo, eu jamais saberei tampouco se essa sensação de 'montagem' explícita acontece porque existe e enfraquece o filme, ou porque eu li com muita avidez o blog do diretor, onde que ele detalha em minúcias o processo todo. Não sei se queria ver as cenas de estupro que foram cortadas, algumas das quais chocaram mulheres nos testes com platéias, mas certamente eu teria gostado de ver mais a Sandra Oh, de quem ele fala tão bem no blog e que só aparece rapidamente (ele diz que criou essa mínima aparição especialmente para ela, que pediu para estar no filme, afetivamente). Mas os atores estão muito bons, a música é forte, e eu gostei de ter visto o filme.
Impressiona mesmo ver São Paulo destruída, parece que os furacões da temporada passaram por lá. Outras coisas que impressionam no filme (porque agora vemos), e que já estavam no livro (e então imaginávamos): impressiona a imundície do lugar, o sem rumo de tudo e de todos; impressiona como a mulher do médico (Julianne Moore, muito boa) consegue se manter humana apesar de tudo, e como ela só consegue matar um único homem, o chefe da casamata 3 (Gael García Bernal, impagável), quando vários deles que participaram do estupro coletivo mereciam ser punidos; impressiona o modo como ela perdoa o marido e fala baixinho no ouvido da prostituta com quem ele a havia traído, como ela mantém a sanidade e como parece serena, apesar das barbaridades que presencia. E percebo agora que quase tudo de importante recai sobre os ombros desta mulher. Ela provê, cuida, protege, orienta, leva o grupo pro banheiro no asilo, depois para casa fora dele, procura comida numa cidade devastada, dá banho, dá comida.
Enfim, seria apenas porque ela é a única que enxerga e que pode então cumprir tudo isso, ou haveria alguma coisa mais em relação ao papel e à função da mulher, no livro e no filme, de que não me dei conta então e que só percebo agora? Talvez reveja para tirar algumas dúvidas.
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