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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Ida ao Museu e JCMN

Travo sempre uma batalha comigo mesma para sair de casa, seja a hora que for, sobretudo à noite, mas hoje, instigada pelo post da carrie do sublimesucubus e também porque o Museu da República é aqui ao lado, fui ver a Primavera do Livro e só coisas ótimas aconteceram, querem ver?

Primeiro, comprei cinco livros, três da Cosac daquelas mulheres fantásticas (Karen Blixen e os dois da Duras, que eu já tenho mas não posso viver sem essas edições lindas), além de A lua da verdade, do Isaías Pessotti (alguém leu?), de quem li Aqueles cães malditos de Arquelau e amei demais. Também comprei um livrinho de pequenos contos pra Lu que, milagre, já leu dois e está gostando (milagre as duas coisas).

Segundo, depois de caminhar pelos estandes, estava tomando um café e pedi licença a uma moça que me pareceu acessível para sentar na mesma mesa, que permitiu, claro, e engrenamos um papo só ótimo - ela lida com cinema, é super extrovertida, gosta de conversar e de gente, pelo que pude ver. Além disso tudo, vocês não vão acreditar - é filha do João Cabral, que máximo! Já pensou, conversar assim de pertinho com a filha do homem, aquele mesmo, ele, JCMN. Pra quem passou a vida admirando sua obra e trabalhando com sua poesia foi um presente. Foi muito bom, viu, Inês? Beijo, adorei conhecer você.

Como se não bastassem tantas emoções, outra moça simpaticíssima pede também a nós duas licença para sentar e engrena outro papo ótimo conosco, a Márcia, com quem depois conversei sobre assuntos em comum e que parece ter sido enviada para esse encontro, porque falou de coisas que me interessam mas para as quais não sei ainda se estou pronta.

Por fim, enquanto conversava com essas duas damas encontro saindo do cinema a Silvinha, que não via há séculos, linda, com um cabelo tão fofinho, que também gostou de Piaf, como eu, e me deu notícias de um amigo comum. Foi muito bom revê-la, encontrar pessoas interessantes e foi uma festa essa minha ida ao Museu. Um abraço a todas as meninas que fizeram meu dia mais alegre hoje.

E, claro, em homenagem e preito de admiração irrestrita, poemas de João Cabral, retirados da Obra completa, Editora Nova Aguillar, 2003:


Tecendo a manhã

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão. (p. 345)

***

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma. (p. 338)

***

A mulher e a casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
pelos recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.
(p. 242)

***

Janelas
Há um homem sonhando
numa praia; um outro
que nunca sabe as datas;
há um homem fugindo
de uma árvore; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu;
há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu. (p. 50)

***

Estudos para uma bailadora andaluza

1

Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.

Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;

gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
]carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.

Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,

gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.

Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,

de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,

que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha. (p. 219-20)

[...]

terça-feira, 17 de julho de 2007

Entradas em João Cabral

É possível entrar no universo poético de João Cabral por inúmeras portas, a maioria das quais já nos foram franqueadas por seus melhores leitores-críticos: Benedito Nunes, Haroldo de Campos, Antonio Houaiss, Luiz Costa Lima, Othon Maria Garcia, Sérgio Buarque de Holanda, José Guilherme Merquior, Marta de Senna e Antonio Carlos Secchin, entre tantos outros. Pode-se começar por dizer que João Cabral é o poeta da síntese, da concisão, das formas geometricamente construídas sobre a folha do papel; do preto no branco; da reta mais que da curva, salvo quando o vento faz soçobrar a cana no canavial, ou quando o rio, à míngua, negaceia suas águas aos tantos Severinos que as circundam.

Poeta das mesmas vinte palavras que reconhece em seu parceiro de estilo-lâmina, explicitadas em "Graciliano Ramos" (Serial): "Falo somente com o que falo: / com as mesmas vinte palavras / girando ao redor do sol / que as limpa do que não é faca:", signos poéticos que se desdobram em áreas de ressonância inscritas sob os nomes de bala, pedra, rio, terra, poema, pintura, cana, bicho, luz, tempo, homem, mulher, sol, fome, secura, canto, água, corpo, silêncio, faca, Espanha, Pernambuco, conforme recolha de Antonio Carlos Secchin..

Se a forma construtiva foi apropriada pelos concretos, de cuja mais valia de excelência tenderam a se beneficiar, a poética de João Cabral rasura circunscrições de grupos, de épocas e/ou de estéticas para viger sob o estatuto de sua luz particular, de sua régua e compasso. Compasso que perscruta e refaz, a cada poema, uma ética da palavra livre da "flor", quando se a quer "fezes" ("Antiode"), de que também deriva uma estética do descante a palo seco, do mínimo, do essencial, do menos. Tal ética e tal estética configuram, ao mesmo tempo e no mesmo movimento, as construções formais de um Nordeste que se espraia para além da região pernambucana ou do ente Severino que nela habita: Nordeste reapresentado, como se visto pela primeira vez a cada leitura dos poemas, da forma que o re-constrói. Por isso, ele pode ser também Andaluzia, Sevilha, Madri, Carmona. Pois se trata, em João Cabral, de construir formas e com elas fazer ver as coisas, os objetos: "Sempre evitei falar de mim, / falar-me. Quis falar de coisas. / Mas na seleção dessas coisas / não haverá um falar de mim? ("Dúvidas apócrifas de Marianne Moore", Agrestes).

Assepsia e método que delegam ao poema a quase autonomia da criação, livre da mão que o regula: "O poema trata a Caatinga de hospital / não porque esterilizada, sendo deserto; / não por essa ponta do símile que liga / deserto e hospital: seu nu asséptico" ("O hospital da caatinga", A educação pela pedra). Outros "objetos" raros surgem da paisagem cabralina: o como-fazer-o-poema, poéticas valiosas, formas em dobras, exercícios de contensão e distensão da metáfora, tornadas ferramentas de trabalho para os que lidam com o ensino da literatura – quem, se brasileiro, já não aprendeu as regras da composição poética que se tensionam e distendem nas metáforas, símiles e metonímias que organizam textos como "O ovo e a galinha", "Tecendo a manhã", "Catar feijão", "A palavra seda", "Retrato de escritor"?; ou ainda o objeto "mulher", cuja figura – incapturável – avança sob um corpo de metáforas a se deslocar pela voz ao telefone, como em "Paisagem pelo telefone"; ou no confronto entre o corpo da mulher e sua densidade, sua massa, o lugar que ocupa no vasto desejo do outro, como em "Mulher vestida de gaiola"; ou ainda a mulher enredada nos espaços de uma casa, em seu cantos de dentro, seus "recessos bons de cava", como surge em "A mulher e a casa", Quaderna; ou ainda na dança tensa e escorregadia da bailadora andaluza, para cuja imagem desdobram-se metáforas do fogo, do nervo em tensão, da telegrafia, da estátua até chegar à da "espiga, nua e espigada, / rompente e esbelta, em espiga" ("Estudos para uma bailadora andaluza", Quaderna).

Mas há igualmente o João Cabral escatológico, verista, de um humor irônico e corrosivo, jamais do riso aberto, mas contido, como vemos no poema "Espana em el corazón", onde desfaz-se a imagem do título para opor-lhe "a tripa" e o "colhão" de que a Espanha é feita: "A Espanha é coisa de colhão, / o que o pouco ibérico Neruda / não entendeu, pois preferiu / coração, sentimental e puta" (Agrestes); ou quando evoca e recria a experiência no colégio marista em "As latrinas do colégio marista do Recife", sob o viés da cáustica ironia: "Lavar, na teologia marista, / é coisa da alma, o corpo é do diabo; / a casti

ade dispensa a higiene / do corpo, e onde ir defecá-lo" (Agrestes); ou a critica bem humorada ao vezo nacional da retórica "balofa e roçagante", como diria Oswald, no poema "Um piolho de Rui Barbosa", crítica em forma de blague: "veio de tais piolhos grotescos / o único estilo nacional: / ler como discurso um soneto" (Agrestes).

Pode-se entrar na obra de João Cabral de Melo Neto pelas mais diversas portas, sob as mais distintas perspectivas críticas; pode-se lê-la igualmente sem qualquer roteiro: a obra oferece-se inteira, em sua incomparável singularidade, aos leitores de todos os tempos.

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Publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, Fortaleza.