quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Dois e meio e um PS: O lado bom da vida; Lincoln; Os miseráveis

Olha só, o filme Os miseráveis só entra aqui na sexta, mas um monte de gente já viu, pelo que li no facebook, seja em prévias para jornalistas, seja por baixar através de um estranho programa chamado *torrent, que já me explicaram como funciona mas fiquei cansada só de ouvir, além de que gosto de salas de cinema, de telonas, não quero ver nada em telinhas, nem em casa, já fico demais em casa. Enfim. Mas já li bastante sobre o filme, e uma das mais interessantes resenhas está aqui, em inglês, porque a vida é hard mesmo.

Então, talvez nem tenha necessidade de comentar quando o vir na próxima sexta, primeira sessão, já vão aqui alguns pensamentos inteligentes do Stanley Fish (escrevi sobre alguns textos dele em minha tese) para os meus caros magros fantasminhas.

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Quanto a O lado bom da vida, achei de mediano pra bom, a gente ri bem ao longo da história, mas no final é mesmo puro bom divertimento nos imbroglios daqueles dois simpáticos destrambelhados. Os atores dão conta, De Niro não paga mico, Jacki Weaver faz uma esposa meio abobada, Bradley Cooper achei convincente, Jennifer Lawrence também convence, mas não daria estatueta a nenhum deles, embora ache que vale a ida ao cinema pra rir.

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Lincoln é um trabalho de artesão, de maestria inigualável, de composição minimal feita pelo imenso ator que é Daniel Day-Lewis. É lento, demorado, mas em nenhum momento eu fiquei com vontade de sair ou achei chato, ao contrário, olhei as duas horas e meia para aquele homem com atenção, contagiada por sua força de palavras, por sua força de gestos, comedidos, mas incisivos, para as nuances de sua interpretação. Daniel é um sol de intensidades, não de calor ou exuberância, mas de intensidades. Olhar para seu trabalho é como assistir a uma ópera, às variações dela, aos vaievéns, às altissonâncias, às harmonias, às forças - à tapeçaria de uma grandeza. Além do presente que a atuação dele constitui, e nos oferta, o filme me deu vontade de conhecer esse homem real, sua História e, mais ainda, de saber muito o que aconteceu com seu filho menor, sobretudo, mas também com sua histérica mulher, com seu filho mais velho. Tudo em torno de Lincoln esse ator me fez querer conhecer. Isso é arte, grande arte, penso.

PS. Visto Os miseráveis: gostei, há senões, mas muitas versões discursivas sobre o mesmo fato, cansei. Se der, volto ao assunto, ou não.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As crianças de Bodhgaya

Ieda, boa sorte e que muitos se juntem a sua voz.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Django livre

Obra prima. Magistral, mesmo com alguns senões. Uma curtição magnífica do começo ao fim, tirando o pequeno momento em que o Tarantino resolve curtir ainda mais com a cara da gente e se mete a fazer uma ponta como um péssimo ator*.

Mas não atrapalha em nada a grandeza desse épico da escravidão, que tira um sarro monumental de todas as forças retrógradas ou reacionárias, sejam elas da opressão, do preconceito, do politicamente correto, da cultura branca cinematográfica estadunidense, dos filmes de faroeste, da hegemonia do branco sobre o negro ao longo da História, enfim, Tarantino cria um filme que é pura diversão, mas ao mesmo tempo uma aventura cruel e engraçada através de momentos duríssimos na história de seu país.  Não se trata apenas de inverter os papéis e dar o revólver ao negro para matar brancos donos de escravos: há uma trama muito bem elaborada, cheia de reviravoltas, que mantém o espectador grudado na cadeira e atento durante todo o tempo - e é um longo tempo, 2h45min - sem jamais achar que está demais.

Tudo interessa ali: os cenários, as músicas (estupenda trilha sonora, que não apenas sublinha os momentos, mas os lê para nós, ironiza-os, dependendo do encontro entre as imagens e sua correspondente melodia), as cenas cruéis de vinganças, os mocinhos contra seus absurdos algozes, a mocinha salva pelo amado, redimido e vencedor depois de muitas batalhas e algumas derrotas. A cena final não podia ser mais irônica: vi ali E o vento levou revisitado, às avessas, assim como o personagem de Samuel Jackson, um cão de guarda do senhor branco vivido por Di Caprio, a quem os escravos temem como a peste, foi desenhado à semelhança do negro bom de A cabana do pai Tomás. Jackson está absolutamente genial no personagem, assim como os dois protagonistas mais impressionantes: Jamie Foxx e Christoph Waltz. Ambos merecem figurar em qualquer relação de best of the year. E o filme merece todos os prêmios que ganhar.

Para mim, Tarantino deu show de competência, energia, frescor, criatividade, além de nos mostrar que ótimo cinema também se faz com muita diversão.

Já li em algum lugar que no final ainda tem alguma coisa a ser vista depois dos créditos. Não vi ali nada demais: os escravos que ficaram abandonados na gaiola, no meio da estrada, perguntam entre si: "Who is that nigger?". É só mais uma homenagem do diretor, politicamente incorretíssimo, ao veto secular imposto ao vocábulo, desde o tempo em que Harriet Beecher Stowe escreveu a Cabana. Assim penso.
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* Acho que essa participação do Tarantino, exatamente por ser ruim demais, mostrou-se bem educativa - ela me disse o que significa ser ator, vestir um personagem, onde reside a força desse ofício que tanto nos emociona. Ao mostrar como não fazer a coisa, mostrou o que a coisa é.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Amor

Para falar de Amor (Michael Haneke), talvez seja importante dizer que o tema de que trata o filme eu conheço na minha própria pele, ou seja, eu vivi em minha casa (e não de visita, como faz a personagem da filha no filme, vivida por Isabelle Huppert) a situação de ter minha mãe num processo de AVC que a deixou não apenas com um dos lados paralisados, mas que a enlouqueceu totalmente por longos dois ou três meses, em que ela gritava e gemia dia e noite.

Para conseguir dormir, contratei enfermeiras para ficar com ela dia e noite, porque eu mesma estava à beira de enlouquecer naquele processo. Esse me pareceu um pesadelo maior do que o que eu vivi quando tive câncer, morando praticamente sozinha em Fortaleza. Não tem comparação. Ela teve a sorte de reverter todo o quadro, e hoje anda, está absolutamente lúcida, voltou para o apartamento dela, onde tem uma acompanhante durante a semana, mas agora por causa da idade, não por sequelas do AVC - nisso nós tivemos muita, muita sorte.

Acho relevante fazer menção a essa situação real porque, primeiro, não há como não estabelecer imediata ligação entre uma experiência tão traumática na vida real e aquela igualmente feroz que a tela nos revela; segundo, para situar, de certo modo, meu distanciamento quanto ao problema do casal no primeiro terço do filme - além de ser uma exigência da própria direção, uma marca autoral que se entende à medida que a história se desenvolve. Para mim, a sequela dela parecia insignificante diante do que poderia ter sido - comparada com a minha experiência, aquilo ali era fichinha.

Só que o filme é magistral e vai tecendo um quadro de horror de forma muito sutil, e ao mesmo tempo inapelável. A vida vai-se esvaindo aos poucos e a inexorabilidade da morte que se aproxima, com seu cortejo de sofrimentos e dor, é filmada desse modo cruelmente distanciado, de forma a não permitir qualquer laivo de piedade, condescendência ou sentimentalismo - expressões que ela mesma trata de cortar, no diálogo com o ex-aluno que a visita.

Tal escolha do diretor funciona ao mesmo tempo para pintar o quadro que se vai desenhando em sua força ultra realista, mas ao mesmo tempo para distanciar o espectador, de modo que a cena visceral que terá lugar ao final do filme tenha ainda mais impacto. Ela é ao mesmo tempo de uma delicadeza e de uma violência arrebatadoras - esse, na verdade, é o clima geral do filme: quieto, calmo, tecido em ritmo lento e um tanto sufocante, até o final inesperado e inexorável.

A proposta de não envolvimento sentimental feita pelo diretor - acho que esse filme poderia ser considerado o Lado B de Intouchables, talvez seu oposto perfeito - me deixou, como espectadora, no lugar que ele escolheu para mim - e para seu público: não me aconteceu nem uma lágrima, em nenhum momento, só houve um grande susto em dada cena, mas logo me recuperei e compartilhei da coragem do protagonista.

Nunca será demais ressaltar o trabalho magnífico da Emmanuelle Riva e do Jean-Louis Trintignant, ambos são perturbadoramente perfeitos, mas é do rosto dela, da expressão de seus olhos ausentes e opacos que me recordo com frequência, eles é que me acompanham quando lembro do filme.

Sem dúvida, é um filme aterrador. Não se pode dizer que é muito bom vê-lo, porque  sua pintura é terrível demais para qualquer um de nós, estejamos ou não próximos dessa velhice e de sua existência precária. E parece que os dois atores em cena, aqui, levaram-na - essa experiência -  a um lugar, talvez, ainda não tocado por outros intérpretes.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Lola e Jodie

Quem gosta de Jodie Foster não pode deixar de ler esse post da Lola (link do blog aí ao lado) e, sobretudo, de ouvir o discurso da atriz, muito bonito e tocante. Aqui:

http://escrevalolaesceva.blogspot.com.br/2013/01/o-discurso-da-jodie-foster-idola-e-genia.html

Uma das cenas mais tocantes do discurso é não apenas a reafirmação que ela faz de sua amizade por Mel Gibson, mas a cara de perdido que ele ostenta quase todo o tempo, olhando para ela com uma certa devoção (ou estou viajando), mas um jeito meio perdido, como seu personagem em Beaver, que ela dirigiu. Eu acho que amizade de verdade é assim mesmo, há laços que são mais profundos do que a má sorte ou o mau comportamento do amigo. O Mel me dá muita tristeza, e é o retrato fiel do peso dessa indústria sobre seus eleitos, quando se tornam desafetos.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Os últimos : Entre o amor e a paixão; Um alguém apaixonado; Infância clandestina; HaHaHa; Liv & Ingmar; Sete psicopatas e um shih tzu;

Vi o trailer ontem de Amor e parece realmente forte, com temas que têm me tocado muito nos últimos tempos: a morte e seus arredores. Mas do que vi recentemente e merece alguma observação:

Entre o amor e a paixão, com direção de minha 'amiga' Sarah Polley, tem vários aspectos interessantes, sobretudo a questão final, que fica sugerida pela expressão de alegria e liberdade com que a personagem de Michelle Williams, ótima, abre os braços na roda gigante, sozinha, enfim. Claro que não estou fazendo a apologia da solidão para encontrar a felicidade, mas o modo como os dois relacionamentos amorosos dela acontecem, subsumidos pelo 'amor' no casamento, e pela 'paixão' fora dele, imprime ao gesto uma importância especial, sobretudo se se pensar que o marido é um completo idiota, para os meus padrões, e se o amante abre o leque das experiências existenciais e sexuais, há o momento, como em toda paixão, que ela arrefece. Ai é preciso crescer, e para crescer é preciso aprender a conhecer-se, ficar um pouco consigo mesmo, saber quem se é para si antes de ser para o outro. Enfim. Tirando a irritação com as piadas e as caretas mega sem graça do período 'casamento', gostei de ter visto.

Um alguém apaixonado (Abbas Kiarostami) é interessante, mas se estende um pouco demais, com acontecimentos um pouco de menos, para contar uma história sobre a solidão de um idoso e sua busca por tangenciar a morte (que se avizinha a cada dia para todos nós, para o idoso um pouco mais) através da companhia paga de uma jovem-que-podia-ser-sua-neta. Tudo desanda, claro, porque o namorado dela descobre que fora trapaceado e toma as providências cabíveis para punir ambos. Mas, na verdade, o andamento da coisa toda é meio lento, e o final também não surpreendeu.

Gostei de Infância clandestina (Benjamín Ávila) pela tensão inerente não apenas àquelas vidas à beira de ser encontradas pelas forças da repressão, o que ocorre ao longo do filme, mas porque o menino que interpreta o filho tem uma força intensa no olhar, uma altivez e uma beleza raras. Vemos tudo através dele, mas também somos hipnotizados por seu encanto, e queremos que ele se salve. É bonito quando ele afinal pode dizer seu nome, mas é tristíssimo ter(mos) perdido tantos ao longo do caminho.

Ia ver Holy Motors (Leos Carax), mas a sala do Estação Botafogo estava só com ventilação e tinha acabado de sair dela. Desisti e fui ver HaHaHa (Hong Sang-soo) e achei bem estranho. À parte ser uma longuíssima conversa sobre encontros e desencontros amorosos, as discussões sobre arte e poesia me pareceram chatíssimas, aliás, o filme acaba ficando muito chato lá pelas tantas, porque não acaba nunca. Faltando uma meia hora pro final tive de levantar, vi em pé porque estava inquieta demais e sem paciência. Mas vi estoicamente até o fim. Que figuras enroladas, meu - sim, eu sei que a vida é enrolada mesmo, mas nesse filme os rolos vão e vêm e não acabam nuuunca.

Liv & Ingmar achei bem interessante, sobretudo a tranquilidade com que Liv rememora sua história de amor e trabalho, e mesmo nos quadros em que Ingmar não fica muito bem, pela exposição da violência e do sadismo, o modo como ela fala disso é cúmplice, amoroso, como se duas vidas de peso e consistência estivessem sendo mostradas para nós. E com leveza da parte dela, e humor. Ela é muitíssimo interessante, e teria sido ótimo ver o mesmo filme sob a perspectiva dele.     




Sete psicopatas e um shih tzu (Martin McDonagh) é uma delícia de comédia - macabra em sua violência em tantos momentos, mas em nenhum deles se deixa de rir, sobretudo porque o elenco inteiro está afinadíssimo, todos são protagonistas e brilham no estilo non-sense com sobriedade, destacando-se o excelente Christopher Walken, num conjunto de mestres. Acho imperdível, e a Boscov faz uma crítica muito boa a respeito do filme, com a qual concordo in totum, claro.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Vila Velha - fotos

Ano Novo sem sobressaltos, comemorado do jeito que eu quis: nenhuma obrigação, nenhuma festa, nenhum voto dito em palavras - silêncio e quietude, tudo com que sonhava há algum tempo. Não gosto de efemérides, não gosto de festas programadas, nem das etiquetas que obrigam a qualquer coisa, sobretudo a comprar. Então, nem a cinema eu fui - até porque já tinha visto todos os filmes que estavam passando em Vitória, salvo o da moça da sex-shop - vi o primeiro e acho que já está de bom tamanho, não preciso ver o segundo, acho, a não ser que seja irremediável.

Mas vi no Telecine ontem, de novo, o filme com Sarah Polley A vida secreta das palavras (2004, Isabel Coixet) e continuei achando tão delicadamente forte, incisivo, simples, tocante, belíssimo, sereno e melancólico, com atuações perfeitas tanto dela, quanto do Tim Robbins.

Acabei querendo saber mais sobre essa até então desconhecida para mim, e descobri muitas coisas interessantes - sobre a pessoa, a diretora, a atriz, a ativista empenhada, lúcida. Foi como se tivesse feito a descoberta de uma amiga antiga, como se a re-encontrasse depois de anos sem nos ver. Muito bom conhecê-la.

Um pouco de Vitória, onde me sinto bem.