Ir ao cinema será sempre programa cultural, mas nas últimas semanas tem sido também refúgio para o calor insano que tem feito na cidade. Assim, fui conhecer o minúsculo Cine Glória, bonitinho, todo novinho e quase ninguém por lá, uma pena. O filme que vi então - melhor esquecer, que de juventude não tem nada, é velho, velho, assim como o ego imenso do diretor e um dos atores (Domingos de Oliveira), que coisa mais chata aquela conversaria de homens bobos, nada que me chame para o papo, enfim.
Acabei indo ver Ninho vazio, e não sei bem o que pensar dele. No geral, excessivo. No particular, algumas cenas boas, os dois protagonistas bons, mas para mim muita coisa não funcionou, não engrenou, uma história com muitos furos, e afinal fiquei sem saber se os filhos faltam ou já foram tarde...
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De todo modo, valeu ter passado na livraria e visto um livrinho despretensioso da adriana calcanhotto (agora com dois tt ou já tinha antes?) - Saga Lusa - a respeito de uns problemas alérgicos que teve numa turnê do show maré, em portugal.
O ótimo é que ela escreve bem, é irônica e mordaz, engraçada e tem um estilo com uma pegada meio modernista, meio oswald de andrade, mas não fica demodé não.
Outra coisa boa é que a gente fica o tempo todo imaginando o que pode ou não ter acontecido, se aquela piração teria sido real ou não, porque ela usa o próprio nome, as canções que compôs e várias outras referências ao mundinho real. É um voyeurismo leve, brincalhão, uma leitura agradável, que eu engrenei desde o momento que cheguei à casa e só larguei no fim do livro e da noite.
Trechinhos:
Minha mãe sempre me disse que um dia eu ia escrever um livro, gozado. A gente se esforça, batalha, luta, faz psicanálise, vai ao teatro, tudo, pra se constituir, pra ter recorte. Aí, na primeira surtadinha faz o quê? O que mamãe queria. Não sei não, achei meio caído. (p. 66).
Albuquerque querido veio me buscar para irmos ao médico, acho que viciei nisso também. Ele tem um ótimo que o ajuda com as drogas, pra dormir, pra acordar, pra subir, pra descer, pra renascer, pra zoar, pra pintar, pra ser, pra estar. Abre-se a porta do elevador e lá está no saguão do hotel o meu amigo, com um sorriso largo e um par de brincos deslumbrantes para oferecer, presente pra mim, que ele não bate bem da cachola. Não podem ser mais lindos, parecem etruscos. (p. 94).
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Adriana Calcanhotto. Saga lusa: o relato de uma viagem. Rio de Janeiro: Cobogó, 2008.