sexta-feira, 21 de março de 2014

Tergiversando - e opinando

Falar sobre filmes (não sobre cinema, sobre filmes) me parece agora uma conversa sem maiores compromissos, sobretudo depois que revi Gravidade, nessa última ida ao Rio, e fiquei boba com minha péssima primeira impressão - mas como, dona Clara, o filme é muito interessante, a protagonista vivida por Sandra Bullock não fica o filme inteiro falando coisas ininteligíveis, o par com o Clooney faz muito sentido e tem lá sua graça, ela não surge das águas no final feito uma deusa, embora haja alguma inverossimilhança em seu 'resgate', mas que sei eu de reentrada atmosférica.

De todo modo, não tenho a menor ideia do que havia em minha alma quando
vi ou quando escrevi sobre o filme. O melhor, para todos os efeitos, é que não se confie absolutamente nessas mal traçadas para decidir sobre os filmes a ver - façam como eu, não liguem a mínima para o que deles dizem, e vejam tudo com olhos de descoberta.

A despeito do dito, achei a segunda parte de Ninfomaníaca (Lars von Trier, 2014) muito boa, porque se apresenta como o drama que realmente é: uma protagonista extremamente doente, com uma doença que não tem cura, e cujo drama agora fica mais explícito, que passa por muitos maus momentos em busca de um prazer que ela não sente, mas para o qual se vê compelida sem trégua. Foi possível compreender melhor a proposta de Lars, e ela é muito forte, sensível e inapelavelmente sem saída, ou seja, pertencer de algum modo à margem dos modos de ser, pensar ou sentir da maioria será penoso, e mesmo violento, em algum momento, se alguém se dispuser a ser aquilo para o que se sente predestinado. Não haverá remanso para quem não seguir o compasso traçado entre a norma e a margem, e uma das linhas de força dramática que pontuam a história será a irredutibilidade da escolha de Joe no sentido de afirmar quem ela é. E de mostrar ao outro quem ele supõe ser - numa das cenas mais terríveis do filme, ela conta histórias a um devedor, tentando conhecer suas fraquezas pelas reações sexuais ao que ouve, até que ele mesmo se depara com sua condição, até então aparentemente 'inaudível', de pedófilo: o terror desse (re)conhecimento será discutido por Joe com seu interlocutor (e tradutor, de certa forma) no presente da narrativa. Nesse momento, ela enuncia algumas das implacáveis reflexões do diretor e roteirista Lars - duramente nitzscheanas, elas não deixam pedra sobre pedra sobre toda e qualquer forma de regulação das sexualidades intentada pelas sociedades - e seus olhos vesgos.

Não há nada que seja leve no filme, talvez alguns momentos de humor - os dois homens negros que afinal não chegam a um consenso sobre como ou por onde entrar na mulher, e enquanto ambos discutem ela sai da situação e do quarto mais invisível do que antes - ou seja, até a graça é trágica, penosa. De resto, tudo aqui é dilaceramento, frustração, desamor, desalento, violência, e mesmo o fiapo de amizade que se insinuou ao longo de toda a história entre a protagonista (Charlotte Gainsbourg) e Seligman (Stellan Skarsgard, muito bom), seu ouvinte pescador, esvai-se em pó, dor e morte.

Um filme que não flerta com o fácil, nem com o simples, mas imprescindível para olhar e ver de frente algumas verdades difíceis e penosas que atravessam nossa sexualidade, e a forma de exercê-la.

domingo, 9 de março de 2014

Sonhar, viajar

Cada vez mais ando querendo viajar, ir a outras plagas, outros mundos - teria sido mais justo para todos nós que a cada human being fosse dado o direito de ir e vir sem ônus algum de passagens, estadias, tipo assim, quatros viagens por ano pra onde quisesse por, digamos, dez dias, podendo escolher uma casa, uma família com quem trocar hospedagem.

Sim, isso já existe hoje, mas quem pode pagar tudo que tal aventura comporta? Trata-se aqui de utopia, ou de um sonho realizável por quem tem: coragem, energia, disponibilidade, espírito de aventura e entrega incondicional ao desconhecido.


Par contre, todo mês agora bato ponto no Rio (por enquanto, pelo menos), um pouco por dever filial, outro tanto porque não preciso pagar estadia, fico no meu apartamento, hoje ocupado pela mãe e suas cuidadoras. Isso é bom, claro - o Rio não é uma cidadezinha sem importância, é uma cidade lindíssima, um grande centro cultural, dinâmico, heterogêneo, bagunçado etc, etc - e põe etecétera nisso -, e ter onde pousar na cidade é um privilégio, claro.


Mas também tornou-se uma espécie de obrigação - como minha vida financeira ficou muito restrita, em razão exatamente da exorbitância que viver (ou manter a vida de uma pessoa idosa) naquela cidade passou a custar, fico sem asas para voar, tenho que ir onde é possível - e, nesse caso, o Rio não apenas se tornou possível, mas obrigatório. Aí fica chato, não é mais turismo, não é mais liberdade, nem aquilo que chamo viagem.


Tá certo, vou ficar de castigo por reclamar injustamente. Mas sem insatisfação, como caminhar em direção aos sonhos?

terça-feira, 4 de março de 2014

Só conversa

Talvez  por estar meio isolada numa cidade pequena, sem muito apelo cultural, vi a festa do Oscar com prazer, achei que esse ano foi um dos melhores, e essa foi uma das poucas vezes em que vi a cerimônia até a fim.

A Ellen De Generis estava especialmente interessante, engraçada, irônica e meio louquinha, sem excessos desagradáveis, salvo quando quase gritou com a senhorinha atriz de Nebraska, June Squibb, mas o momento pizza valeu qualquer possível gafe.

Achei que, pela leveza e bom humor da apresentadora, a plateia estava solta, leve, sem aquela regidez que marcou outros anos da festa. Aliás, acho que grande parte dos que estavam nas primeiras filas sabiam das gracinhas que ela ia aprontar e foram 'convocados' a participar, porque Ellen parece ser muito amada pelo povo do show business (agora, que ela deu a volta por cima dos preconceitos todos).

Quanto aos vencedores, torci pela deusa Cate, como quase todo mundo, que fez um discurso bonito, em que as outras colegas foram homenageadas, gosto sempre dessa coisa de compartilhar as vitórias, sobretudo porque as concorrentes eram muito boas mesmo, e gostei dela ter falado que filme com mulher protagonista quer ser visto pelo público, e dá retorno financeiro; torci pelo Jared Leto, que fez o discurso mais bonito que ouvi, além de ele ser um lindo-rapaz-que-ama-a-família, o que eu não sabia - outro dia vi um show na TV de seu grupo 30 Seconds to Mars e fiquei impressionada com sua energia, vitalidade e intensidade cantando e se apresentando, nem parecia esse rapaz meigo e calmo do Oscar. E o personagem dele no filme é mesmo um arraso.

Gostei do Matthew ter ganhado por melhor ator, mais ainda por ele ter ido abraçar o Leo antes de subir ao palco. Acho que ele mereceu, mas o Leo tinha minha torcida, acho que a Academia já deve esse Oscar a ele há vários filmes. De todo modo, não entendi muito bem seu longo discurso, vou ler a íntegra (não sei se houve tradução, porque ouvi tudo em inglês, pra treinar mesmo), porque do que captei me pareceu meio estranho. O prêmio para a Lupita foi merecido, claro, sobretudo pela cena intensamente dramática da surra de chicote, que impressiona
mesmo e me fez desviar os olhos, por odienta demais. Ela é uma figura belíssima, tem um carisma forte e espero que venham outros filmes bons para sua carreira.

Quanto ao prêmio de melhor filme, não torcia por nenhum em especial, achei todos medianos. Não gostei, particularmente, deste filme, como já disse em outro post, mas entendo que 12 anos tenha recebido a estátua - primeiro, é um filme politicamente correto, e ainda necessário para a causa da emancipação do negro, mesmo na América do Norte, e em grande parte do mundo; segundo, acho que Brad Pitt, bem como
George Clooney, quando se propõem produzir algum trabalho o fazem com o empenho dos fortes profissionais da indústria, como homens de negócios que entendem os caminhos áridos a percorrer para que um filme possa acontecer, têm lastro e conhecimentos abrangentes das pessoas certas para obter resultados bem positivos para os produtos que vendem. Não acho que a produção do Brad tenha sido o fator decisivo para a vitória do filme, óbvio, nem que sua importância na indústria tire o brilho da conquista da equipe, mas me parece um dado relevante. Os outros dados dizem respeito ao valor do próprio filme, que reconheço: ótimos personagens, história contundente e compromissada com os valores da liberdade; cenas fortes e chocantes de violência contra os escravos, que podem produzir horror, mas também catarse no final; libelo a favor da liberdade do homem, tout court.

Sobre o filme estrangeiro, sei que meu preferido e amado, Alabama Monroe, não tinha chances, e gostei da vitória de A grande beleza, assim como teria gostado se A caça tivesse sido premiada.

Por fim, como isso aqui é mesmo uma conversa de comadre (ou solilóquio, melhor), três perguntas que não querem calar: 1. o que houve com a Liza Minelli, santo deus?; 2. por que os seios da Angelina cresceram tanto? Será que ela vai parar nesse tamanho? Bom senso não faz mal a ninguém, menos ainda a esse monumento de beleza; 3. o que a Bete Midler tem feito para retroagir no tempo e aparecer lindamente rejuvenescida, sem nada que indique os 69 que já tem, e sem aquelas marcas intensas de botox, tão comuns nas atuais celebridades? Sua fórmula deveria ser patenteada.    
    

domingo, 2 de março de 2014

Alabama Monroe - quando uma história é mais que um filme

Não escrevi sobre tudo que vi em 2014, mas Alabama Monroe (Felix Van Groeningen, Bélgica, 2013) - com a linda Veerle Baetens, o belo e estranho Johan Heldenbergh, a atriz mirim Nell Cattrysse - vi duas vezes, e acho o mais emocionante filme, junto com Amor, que vi nos últimpos tempos.

Não sei todas as razões por que amei e amo tanto o filme, mas o tema da morte já é um começo. Também a mistura de passado e presente, num ir e vir frenético entre morte e vida, as duas inextricáveis ao longo de toda a história - e aqui exemplar em sua realização, deu um ritmo especial às cenas, de modo que não podemos perceber uma situação específica sem todos os outros momentos-vida que a circunscrevem, como se ela, a vida, não pudesse ser constituída de momentos isolados, mas de percepções simultâneas de tudo que vemos, sentimos, das pessoas com quem interagimos, das coisas que fazemos ou deixamos de fazer, de como nos expandimos para o mundo, e logo depois nos recolhemos em nós mesmos, regidos pelas forças de fora, pelos impulsos internos, pela potência da energia que está em nós e além de nós, mas que nos afeta, nos move em direção a - mais vida.

Todo esse movimento vital é regido pela música mais exuberantemente bela, leve, alegre, comovente que um filme jamais produziu (que eu lembre), além de ser cantada por vozes encantadoramente comuns, mas afinadas, e apaixonadas pelo que fazem. Tudo é ao mesmo tempo simples e comovente - das vidas comuns dos personagens, suas ocupações, às letras das canções, ou o amor de Didier pelo bluegrass - essa coisa meio ingênua de ir ao encontro do 'mais puro som', enfim, tudo é, de certo modo, singelo e fortemente tocante.

A música, então, me parece um personagem tão importante quanto os outros três, e é essa trilha que faz o espectador ficar em estado de enlevo todo o tempo, e mesmo quando tocado pela dor mais dilacerante ela está presente, sublinhando estados de alegria extrema, bem como seu oposto, o que nos permite vivenciar mais profundamente o fluxo dos acontecimentos, seus altos e baixos, intensificados por ritmos e imagens simultâneos, bem como regimes temporais concomitantes, que mantêm o espectador em estado de alerta quase sempre.

Mesmo ao final, quando a mãe já fez a escolha inevitável, inexorável, aquela que para ela não poderia ser outra, a música está presente não como coadjuvante, mas como reafirmação da vida, reafirmação da potência do existir - que vejo presente até mesmo no modo como ela decide integrar-se ao amor da filha, ao que lhe parece ser o lugar da filha - logo, o seu lugar.

Um filme memorável, sob todos os aspectos.

sábado, 1 de março de 2014

Minha lista - e atualizando


Meus filmes preferidos lançados aqui em 2013/2014, em ordem (neste momento) de gostância:

1. Alabama Monroe
2. Amor
3. A caça
3.1. Blue Jasmine
4. Tabu
5. Django livre
5.1. Clube de Compras Dallas
6. Flores raras
7. Azul é a cor mais quente
7.1. Nebraska
8. A grande beleza
8.1. O lobo de Wall Street
9. Serra pelada
10. A vida secreta de Walter Mitty
11. Lincoln
12. Álbum de família
13. Philomena
13.1. Trapaça
14. Faroeste caboclo
14.2. Ela
15. Sete psicopatas e um shih tzu



sábado, 15 de fevereiro de 2014

Caçadores de obras-primas

Uma mega produção, cheia de astros de primeira grandeza, que atuam com maestria e alguns com a cumplicidade que se espera dos grandes amigos, como se dá com Matt Damon e o diretor, ator, correteirista e produtor George Clooney (o homem joga em todas as posições, e acho que o faz bem), com um tema simpático e ainda não visto sobre a destruição e a rapinagem feita pelos alemães nos anos de guerra, quando obras de valor inestimável foram roubadas, queimadas, outras milhares simplesmente escondidas em grandes espaços, como minas abandonadas.

O filme mostra as façanhas de um grupo de não soldados, mas amantes da arte e especialistas, que resolve tomar a si a tarefa de salvar alguns espécimes do grande patrimônio da arte universal. Não é um filme de ação eletrizante, nem mais uma história de guerra, nem mesmo uma comédia, embora flerte com esse gênero - mas o grupo acaba formando uma espécie de exército brancaleone, em que os mocinhos estão todos imbuídos dos melhores sentimentos e das melhores intenções quando à salvaguarda dos bens culturais, de modo que o espectador fica agradecido pelo empenho e torce pela realização das tarefas - o que ocorre, em meio a baixas de homens e de obras.

O filme, afinal, se vê com prazer pela causa que defende, e pela presença desse time imbatível, com destaque para o pequeno mas decisivo e excelente papel de Cate Blanchett. Sua presença é um alento sempre, e  promove a mesma alegria que o personagem de Clooney experimenta (e nós também, claro) ao encontrar a Virgem com o Menino, de Michelangelo, única de suas esculturas fora da Itália - mais precisamente em Bruges, na Bélgica.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Paulo Scott; poemas de Claudia Roquette Pinto

Do que andei lendo, aqui e ali, um livro me ficou na cabeça e já foi lido há tempos: Ithaca Road, de Paulo Scott, a que eu cheguei através dos comentários de Aguinaldo Medici no blog Livros que eu li, e que permanece em minha memória afetiva como um dos grandes textos produzidos no ano passado. Continuo pensando em Narelle, sua psoríase, seu prazer com os patins e suas inseguranças; a esquisitice de Ana me acompanha ainda, e me sinto muito próxima do jeito duro de ser da Trixie, em crise pelo fim de um relacionamento. Talvez porque as personagens fortes sejam todas mulheres, talvez porque haja muita coisa acontecendo sem ser claramente explicitada, num ar meio de filme noir, o fato é que a narrativa toda é bem sedutora, com seus vários mistérios, e nos faz cúmplices daquelas inquietações, sobretudo as que dizem respeito ao paradeiro do irmão de Narelle: voltará? terá sido assassinado? seria ele um bandido, ou um mocinho em luta contra o sistema financeiro sórdido, que o teria levado à falência? Há mistérios, eles são todos envolventes, além de o livro de Scott ser muito bem escrito. Acho que veio para ficar para além de uma temporada dos Amores Expressos.

Quanto à poesia, li um dos livrinhos da coleção Ciranda da poesia, editada pela EdUERJ, com coordenação de Italo Moriconi. São livros pequenos, quase de bolso, com leituras e análises de colegas de ofício, não necessariamente críticos literários, fazendo uma espécie de close reading de poemas, um formato interessante não apenas para os estudantes de Letras, mas para qualquer leitor interessado em poesia, e que quer entender um pouco mais da carpintaria do ofício.

Esse volume foi comentado por Paulo Henriques Britto e trata da obra de Claudia Roquette Pinto. Eu tenho dela em algum lugar nas caixas da mudança, e já devo ter lido em algum momento, Corola e Margem de manobra, mas vistos os poemas assim, iluminados pela inteligência de Paulo Henrique, me deparei com alguns poemas ótimos, percepções bem interessantes sobre o ofício de escrever, e ao final me peguei pensando: que grande poeta essa Roquette Pinto!

Dois deles:

O primeiro beijo

Íntimo do medo
(e não avesso a ele)
o rosto indecifrável sequer denuncia
a tropa de cavalaria
que lhe sacode o peito.
Enquanto as mãos,
na exposição do argumento,
tremem visivelmente,
ele permanece sereno, pousado
(gota de orvalho sobre a agulha do pinheiro)
no momento presente.
Daí o seu poder deriva:
de não querer domar a coisa viva,
mas cavalgá-la com graça
(o corpo não se opõe ao desejo).
Ele é dono do seu medo,
e o abraça.
(p. 73)
____

O torneado hábil das palavras
o dissonante vão das consoantes
não podem mais - nem por um instante -
bouleversar o meu pequeno alento.
E já nem tento, ainda que fugaz
fosse o prazer no momento do encontro
satisfazer com tais materiais
minha volúpia pelo contratempo.
Abandonar o ritmo, eis tudo:
mudar de logradouro - ou de logro -
que isso de escrever é jogo
perdido de antemão, no mano a mano.
Mas sem ressentimento: o mais são nuvens,
e todos os poemas um engano.
(p. 67)

____
Claudia Roquette Pinto. Coleção Ciranda da Poesia. Apresentação de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010.

Paulo Scott. Ithaca Road. São Paulo: Cia das Letras, 2013.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

sessenta e cinco

Hoje faço 65 anos. Não tenho a menor ideia do que isso significa, mas é uma idade difícil. Achei que os cinquenta fossem um marco, e talvez tenham sido, mas não me senti assim, como estou me sentindo, meio à deriva, meio em abismo. Ainda era bem menina naquele então pra rir do meio século - em 2000 estava me aposentando da Universidade, tinha a fantasia de que me estava libertando para enfim procurar o trabalho para o qual havia nascido, sem as obrigações de frequentar reuniões chatíssimas, nem ter que estar em sala de aula às sete da manhã. Não foi bem assim que os anos se mostraram. Eu tomei um ser sob meus cuidados, e descobri que tomar conta de outrem é minha especialidade - e meu tormento também. E pude entender por que não tive filhos - não foi apenas porque tive que trabalhar muito, estudar muito, escrever muito, produzir muito, viajar muito - há mulheres que fazem tanto quanto eu fiz e mantêm uma família, mesmo com dificuldades. Eu não poderia, porque cuidar para mim é um ato de abnegação quase total. Eu não apenas cuido, como me torno - exupéryanamente - para sempre responsável pelo ser cuidado. Daí que minha vida, que ia ser livre, leve e solta, fincou-se no chão das responsabilidades e durante anos não vi as três cores do filme. 

Depois, outros acontecimentos vieram, outras voltas no caminho, e outros cuidados me foram exigidos: entrei em outra Universidade, voltei às aulas e à rotina acachapante; minha saúde sofreu um baque, me tratei, sofri e fiquei relativamente boa - sempre by myself. O que eu não sabia é que minha excessiva autossuficiência haveria de cobrar seu preço, e cobrou sob forma de uma certa descompensação, que levaria alguns anos para se resolver. Em seguida, ainda meio zonza, a mãe requer cuidados, sofre um AVC, e a persona cuidadora entra em cena de novo. Desde 2010 venho exercendo o papel com afinco, até que não deu mais e tive que - tive que - cair fora. Cheguei há pouco mais de um mês nessa Vila Velha, que de velha não tem nada; nesse Espírito Santo, que eu acolho em seu nome, e no meu.

Aos sessenta e cinco, recomeçar a busca, tentar cuidar de mim com o mesmo zelo e afinco com que minhas asas sempre se abriram para abrigar o que ou quem sob elas se recolhesse. Recolher as asas. Redefinir a rota. Afinal, voar não é com os pássaros?

Sínteses, filmes II

5. Gloria: Paulina Garcia é Gloria, uma mulher já não tão jovem que busca se entender com suas necessidades de afeto, de sexo, de vida, com suas inerentes decepções. Um filme interessante, que se mantém assim pelo trabalho ótimo dessa atriz, embora nem sempre a graça das situações tenha toda a graça que se espera (pintar a casa do amante com paintball, por exemplo, podia ter sido mais).

6. Frozen: não vejo desenhos quase nunca, mas aqui parei com essas restrições, por falta de opções, e acabei ganhando mais esse gênero: vi e gostei muito do filme, e tenho tido sorte porque as mulheres têm sido privilegiadas nos desenhos a que assiti, e de que gostei (Valente achei lindinho também, sem contar Rio).

7. Pelos olhos de Maisie: um filme com muita ternura em torno das manifestações de afeto e de abandono por que passa essa menina, em quem nós todos nos vemos, com mais ou menos intensidade, já que, penso, há em todos nós um ser mais ou menos carente de afeto, cuja base vem desse lugar e desse tempo onde se encontra Maisie. Na verdade, as ações não acontecem pelos olhos dela, ou seja, por seu ponto de vista, mas em torno dela, sendo ela o centro dos acontecimentos, do vaivém do pai, da mãe, dos cuidadores - aqueles dois seres amorosos que ela teve a sorte de poder escolher como seus responsáveis e, por isso, tem grandes chances de ser feliz agora, e vir a sê-lo também na vida adulta.

8. Quando eu era vivo: um filme estranhíssimo, de um terror leve mas incômodo. Não sei bem o que pensar dele, não sei se é um filme de que se gosta ou sobre o qual se reconhece determinadas qualidades formais. Como não sou expert no último quesito, só posso dizer que não gostei, mas também não detestei, não saí da sala, vi até o fim aquela bizarrice. Penso que, afinal, trata-se de um filme sobre filiação, sobre como um filho recupera o amor do pai, embora o caminho até lá seja penoso, ou mais que isso - tenebroso. Aliás, fato raro (porque gosto de ir ao cinema sozinha), vi esse filme na companhia de um bom amigo.

9.Trapaça: um filme divertido, bem feito, com uma dinâmica meio frenética em torno dos trambiques e das situações tensas vividas por uma penca de ótimos atores, com destaque para o quarteto impagável formado por Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence e, de lambuja, os ótimos Jeremy Renner e ainda De Niro. Além disso, tem uns figurinos e umas caracterizações de personagens que em si já fazem a diversão.

10. Alabama Monroe: achei um deslumbre, um dos melhores filmes do conjunto que vi ultimamente, porque gosto quase sempre da tematização da morte (até hoje, Amor era meu filme preferido sobre o assunto), mas nunca havia visto uma discussão sobre a morte feita de modo ao mesmo tempo tão intensa, tão íntima e tão feliz - o feliz vai por conta da trilha sonora, e advém do trabalho dos dois protagonistas, que são cantores de música country americana. Na verdade, ele é vidrado nesse estilo de canção, o que acaba contagiando sua companheira. O filme tem nos cortes sua grande força, o que nos faz ir e vir continuamente ao passado e ao presente das situações vividas pelos personagens, de modo que as canções e as alegrias se mesclam aos momentos de perda, doença, dor, luto e morte sem grandes hiatos. Um filme que eu vi meio chorando, mas ao mesmo tempo num estado de espírito que se pode chamar de saltitante, com alguma liberdade, por causa das canções. E que achei muito bom.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sínteses, filmes

Pensando alto sobre os filmes que vi na meia maratona do Rio, um pouco porque os queria ver, um pouco porque estar no ar condicionado era obrigatório, fica o seguinte:

1. Ninfomaníaca: pra mim, havia dois momentos distintos em termos de interesse - quando a Charlotte Gainsbourg aparecia contando sua história era chatíssima, o que salvava era o ouvido atento do personagem-pescador, o ótimo Stellan Skarsgard, que imprimiu uma dinâmica interessantíssima aos relatos cheios de culpa cristã da moça. Já quando a ação se voltava para o passado, em que se veem as travessuras sexuais da moça e sua amiga, as coisas ficam meio aquém do que o título sugere: o que vi foi menos maníacas, e mais ninfas inquietas com suas vidinhas bobas e fazendo do sexo uma forma de diversão e escape. As cenas finais talvez anunciem o que o filme tem a mostrar, porque até agora não me disse muito.

2. 12 anos de escravidão: filmes sobre holocausto e/ou sobre escravidão já foram quase todos feitos, e para emocionar e tocar o espectador precisa ser algo realmente novo. Aqui, a única coisa nova, segundo penso, foi o roteiro, porque nunca vira antes uma história sobre sequestro de homens negros livres vendidos como escravos - essa é uma das ignomínias que se denunciam no filme, dentre tantas outras. Mas ainda acho que o filme do Tarantino, Django livre, tem uma contribuição mais importante não apenas para o cinema, mas também para a causa da libertação - o homem branco no filme de Tarantino liberta o negro e o faz um igual no início da ação, de modo que o filme é sobre as aventuras em torno do tema da liberdade envolvendo os dois; já o escravo nesse filme leva doze anos para ser enfim libertado pelo homem branco que, não por acaso, é interpretado por Brad Pitt. As cenas grotescas, de açoites e chicotes e brancos desumanos já foram vistas, e nos cabe, no final, o mesmo papel de indignação face à inapelável e vergonhosa história nossa.

3. A grande beleza: não há ninguém, acredito, que não seja um adolescente, que não se tenha emocionado em algum momento com esse filme, que trabalha na esteira dos grandes filmes italianos, dos grandes clássicos e há essa travessia por momentos de uma vida que se exaure, e que exaure as possibilidades de brilho, de vivacidade - acho que os acima de sessenta entendem melhor, talvez, o travo um tanto amargo, talvez mais que irônico, que perpassa a voz desse personagem-narrador. Há uma curva mais adiante, mas ela não nos fechou ainda, então vivamos e tiremos da vida o melhor sabor que pudermos - se pudermos.

4. Philomena: filme de intérprete, para o brilho da sempre ótima Judi Dench. Eu gosto muitíssimo de ver essas grandes damas do cinema dando banho de talento, em filmes quase feitos para elas, adoro, talvez porque me sinta mais próxima delas agora. De todo modo, a história tem um lado politicamente correto, ao trazer essa mãe sem a mais leve sombra de preconceito ao saber que seu filho, já desaparecido, era gay e, mais que isso, inventa uma categoria engraçada na tentativa de achá-lo: bi-curioso, a propósito de uma moça que poderia tê-lo conhecido. Enfim, um filme divertido, que comenta criticamente o papel hipócrita e bajulador de ricos da Igreja que já conhecemos, carregado com galhardia pela Dench.


(continua)