Pensando alto sobre os filmes que vi na meia maratona do Rio, um pouco porque os queria ver, um pouco porque estar no ar condicionado era obrigatório, fica o seguinte:
1. Ninfomaníaca: pra mim, havia dois momentos distintos em termos de interesse - quando a Charlotte Gainsbourg aparecia contando sua história era chatíssima, o que salvava era o ouvido atento do personagem-pescador, o ótimo Stellan Skarsgard, que imprimiu uma dinâmica interessantíssima aos relatos cheios de culpa cristã da moça. Já quando a ação se voltava para o passado, em que se veem as travessuras sexuais da moça e sua amiga, as coisas ficam meio aquém do que o título sugere: o que vi foi menos maníacas, e mais ninfas inquietas com suas vidinhas bobas e fazendo do sexo uma forma de diversão e escape. As cenas finais talvez anunciem o que o filme tem a mostrar, porque até agora não me disse muito.
2. 12 anos de escravidão: filmes sobre holocausto e/ou sobre escravidão já foram quase todos feitos, e para emocionar e tocar o espectador precisa ser algo realmente novo. Aqui, a única coisa nova, segundo penso, foi o roteiro, porque nunca vira antes uma história sobre sequestro de homens negros livres vendidos como escravos - essa é uma das ignomínias que se denunciam no filme, dentre tantas outras. Mas ainda acho que o filme do Tarantino, Django livre, tem uma contribuição mais importante não apenas para o cinema, mas também para a causa da libertação - o homem branco no filme de Tarantino liberta o negro e o faz um igual no início da ação, de modo que o filme é sobre as aventuras em torno do tema da liberdade envolvendo os dois; já o escravo nesse filme leva doze anos para ser enfim libertado pelo homem branco que, não por acaso, é interpretado por Brad Pitt. As cenas grotescas, de açoites e chicotes e brancos desumanos já foram vistas, e nos cabe, no final, o mesmo papel de indignação face à inapelável e vergonhosa história nossa.
3. A grande beleza: não há ninguém, acredito, que não seja um adolescente, que não se tenha emocionado em algum momento com esse filme, que trabalha na esteira dos grandes filmes italianos, dos grandes clássicos e há essa travessia por momentos de uma vida que se exaure, e que exaure as possibilidades de brilho, de vivacidade - acho que os acima de sessenta entendem melhor, talvez, o travo um tanto amargo, talvez mais que irônico, que perpassa a voz desse personagem-narrador. Há uma curva mais adiante, mas ela não nos fechou ainda, então vivamos e tiremos da vida o melhor sabor que pudermos - se pudermos.
4. Philomena: filme de intérprete, para o brilho da sempre ótima Judi Dench. Eu gosto muitíssimo de ver essas grandes damas do cinema dando banho de talento, em filmes quase feitos para elas, adoro, talvez porque me sinta mais próxima delas agora. De todo modo, a história tem um lado politicamente correto, ao trazer essa mãe sem a mais leve sombra de preconceito ao saber que seu filho, já desaparecido, era gay e, mais que isso, inventa uma categoria engraçada na tentativa de achá-lo: bi-curioso, a propósito de uma moça que poderia tê-lo conhecido. Enfim, um filme divertido, que comenta criticamente o papel hipócrita e bajulador de ricos da Igreja que já conhecemos, carregado com galhardia pela Dench.
(continua)
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