Paulina
(Santiago Mitre, 2015). Com Dolores Fonzi, Oscar Martinez, Esteban Lamothe.
Paulina me parece um filme muito difícil de comentar,
porque qualquer que seja a perspectiva, para não ser politicamente incorreta,
ela precisa estar colada à decisão da protagonista. E não estou. Não vejo
altruísmo, nem grandeza, nem compactuo com a visão dela, Paulina, com relação
ao problema que ela se propôs ajudar a resolver, nem com suas escolhas
difíceis.
E a história acontece em torno de mudanças de vida, e de políticas salvacionistas –
ela quer salvar os desafortunados, e para isso abandona seu curso de doutorado
em direito, seu lugar privilegiado na escala social, seu trabalho, seu pai, sua
vida, enfim, e aceita fazer parte de um projeto social em que dará aulas para
jovens na periferia de Buenos Aires.
Se o eixo
gira em torno de valores, de ética, de processos sociais injustos e de posturas
abnegadas, quem vê precisa tomar uma posição, e isso não será uma tarefa fácil,
porque ela mesma, a protagonista, nos oferece todos os argumentos pelos quais
suas opções são guiadas, ou seja, ela não está agindo de modo ingênuo, ao
contrário, sabe o que quer, e suas escolhas são firmes, vigorosas.
Eu
vejo sua tenacidade, e me vejo ali, nessa qualidade, só que no polo oposto – eu
vejo com os olhos de quem veio da pedreira, e levou anos, muitos anos, para
chegar ao doutorado que Paulina desdenha. Paulina só pode desdenhar seu lugar
de origem, porque ela não o conquistou, mas recebeu de herança. Eu só posso
olhar com desconfiança para quem abre mão de um bem que a mim custou tanto
alcançar. E vejo Paulina perdida, nem lá nem cá, sequer generosidade eu vejo em
seu projeto. E como abrir mão de, para dizer o mínimo, “educar” seus
molestadores? Ela quer resolver na conversa, no nível pessoal, mas estupro é
estupro, e se fosse com a outra mulher continuaria a ser um estupro. Paulina,
no entanto, condescende, porque são pobres seus algozes.
Na
verdade, acho que Paulina não sente, ela pouco sente, ao menos assim me pareceu
o rosto quase impassível que narra os fatos – não há emoções naquele rosto, é
quase como se seu corpo pudesse ser o lugar de um ritual de sacrifício.
Enfim,
um filme difícil. E a cena final, à subida dos créditos, mostra a protagonista
em sua caminhada, rumo e direção anódinos, apenas caminhando, indo, o rosto em
close mostrando ambiguamente um andar ao encontro de sua decisão: solitária,
dura, sem paixão.
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