sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

sangue negro

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Eu gostaria de poder falar sobre Sangue negro, mas não sei se posso dar conta em palavras do impacto que foi assistir à atuação do Daniel Day-Lewis vivendo o outro Daniel, o Plainview, que de comum não tem nada. Na verdade, trata-se da criação de um personagem magistral, nietzscheano por excelência, um Paulo Honório elevado a uma potência altíssima.

Ele vai aos poucos crescendo e tornando-se aquilo para o que se predestinou (o poder absoluto sobre si e sobre os outros) e, à medida que os obstáculos aparecem, vai destruindo-os implacavelmente, matando, traindo, odiando, afastando-se, intumescendo-se de óleo e poder. Há vários momentos intensos e perturbadores no filme (acompanhar a trajetória de Daniel e a maneira como ela é desenhada pelo diretor, em closes duros, violentos e hiper-realistas é um acontecimento estético que precisa ser vivenciado, não pode ser contado, nem descrito).

Por exemplo, quando ele diz que não suporta o convívio com as outras pessoas, não as suporta e quer ser rico para poder viver só; outro momento forte é quando ele está no restaurante com o filho e vai à outra mesa provocar os concorrentes. Reconheci aquilo perfeitamente, entendi que aquele homem está profundamente doente, não sei o nome dessa doença mas sei que ela traz muito sofrimento a quem convive com ele. Há ainda a cena na igreja, quando ele finge que se converte para obter o que deseja, o duto que vai levar o petróleo através do oceano, e que tem de passar pelas terras de um daqueles homens. Mal sabem os cordeiros que tudo aquilo é teatrinho de fantoche, a águia só encena um vôo mais alto, de onde pode mirar melhor e trucidar todos que se lhe opuserem. E o faz. Na cena final, fulmina o pastor que o obrigou àquela cena, humilha-o, estraçalha sua cabeça com uma garrafa de boliche, vinga-se. Fica só.

Há ainda o que dizer sobre a ausência de mulheres na história, sobre como também aqui é um filme que traduz a força nietzscheana, a vontade de potência, onde as mulheres não têm espaço sequer como coadjuvantes, frágeis que são entre os fracos. Tampouco o têm os enfermos, os combalidos. No momento em que o filho fica surdo vira um estorvo e dele Daniel se livra enviando-o para uma instituição, um educandário para surdos. Depois se livra dele mais radicalmente, quando ele ameaça tornar-se um concorrente: mata-o ao negar que seja seu pai, diz que o havia encontrado num cesto ("a bastard in a basket", ele grita). Enfim, ele está só. Enfim, podemos partir, carregando aquele homem e sua dureza e sua solidão nas costas. Eu achei pesado, mas belíssimo.


De todo modo, como acho que não consegui dizer nem metade da força desse filme, apelo para a Isabela Boscov, que escreveu na Veja desta semana a mais brilhante resenha sobre o filme que eu li, e que termina assim:


"Upton Sinclair era um socialista e um romântico; Paul Thomas Anderson tem oito décadas de história de vantagem sobre ele, e nada do idealismo do escritor sobreviveu em seu filme. Ele é, ao contrário, apocalíptico na maneira como retrata as duas forças motrizes do desenvolvimento dos Estados Unidos – a riqueza e a religião –, e na forma como identifica nelas apenas manifestações diversas de uma mesma obsessão por domínio, controle e conquista. Filmado em planos longos, de vistas imensas, Sangue Negro reproduz em toda a sua potência a mitologia do Oeste modelada nos faroestes de John Ford. Mas é como se ela fosse vista aqui pela lente de Stanley Kubrick, em que a simetria e o formalismo anunciam não a ordem, mas o caos latente sob ela. Como em toda a ficção e o folclore americanos, porém, são os indivíduos que encarnam as grandes forças. O diretor desenha, assim, o pano de fundo, mas entrega aos seus atores a tarefa de se pôr em primeiro plano e concentrar a ação – e Day-Lewis e Dano se enfrentam e se sobrepujam cena após cena, dobrando um ao outro em combates de uma violência moral e física que ao mesmo tempo choca e eletriza. Dessa combinação entre a intensidade de seus atores e a maestria com que evoca o mundo que eles habitam, Anderson tira algo poderoso: o equivalente cinematográfico do "grande romance americano", como, na tradição literária, são chamadas as obras capazes de encapsular de maneira definitiva os estados de alma do país. Desde Boogie Nights e Magnólia, Anderson se revelara um cineasta de talento incomum. Agora, aos 37 anos, ele acaba de se tornar algo maior – um clássico."

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