Em ótimo filme, Anna Muylaert volta às telas num trabalho que mantém o interesse e a curiosidade do espectador, no qual volta a explorar núcleos familiares fora do esquema tradicional ou, talvez, em curto circuito quanto ao padrão mais comum das famílias. Baseado em fatos reais - somos pródigos em matéria prima quase pronta para compor as artes ficcionais -, o filme trabalha com as dificuldades quanto à ideia do pertencimento - pertenço a essa família? àquela? a meu gênero? a ele, a ela? Os mundos familiares até então conhecidos por Pierre/Felipe entram em colapso de repente, quando ele recebe a confirmação de que fora roubado na maternidade por essa que julgara ser sua mãe por dezessete anos. Imerso nas incertezas de uma passagem da adolescência para a vida adulta quanto a quem quer ser, para onde vai seu desejo, o jovem quase soçobra à mudança para o novo arranjo familiar, os novos modos de ser, a nova casa. Nessa, ele tem tudo certinho - um pai, mãe, um irmão adolescente, um quarto (suíte), mas nada faz muito sentido, e ele força a barra da estranheza ao impor à família o uso de vestido no dia a dia.
Os atores - sobretudo Matheus, Nero e Nefussi, como o pai, o filho e a mãe, mantêm o nível de excelência que costumamos encontrar nos filmes da diretora, em especial o até agora desconhecido Naomi Nero, que faz o rapaz; Matheus, como o pai tradicional, tem pelo menos uma cena antológica; e a mãe, vivida por Dani Nefussi nos dois núcleos familiares, convence com brilho e emoção em cada cena.
Mais um filme que só nos orgulha - ao cinema, ao cinema brasileiro, às mulheres cineastas, tão poucas, que brilham em nossas artes e em nossas telas.

As montanhas se separam (Jia Zhangke, 2015), com Jing Dong Liang, Zhao Tao, Yi Zhang, é um filme de mais de duas horas cuja história, em três momentos, a gente acompanha com atenção e enlevo.
Trata-se de um olhar penetrante sobre a cultura chinesa, o modo como o capitalismo se coloca sobre as tradições e os novos modos do dinheiro agir, dirigindo os caminhos de cada um, as opções, as escolhas.
É bonito de ver, acompanhar as delicadezas dos percursos dessa jovem, com seus dois amigos e pretendentes, sua vida a partir da escolha pautada pelo sentimento 'sem nenhuma estridência', mas que será impactada pelo dinheiro do escolhido, e tudo que vem a seguir. É bonito também acompanhar o que virá muitos anos depois, no terceiro espaço temporal - como o percurso de um rio, vidas que se cruzam e somem de vista, depois algo delas, pedaços de suas histórias, lembranças, enfim, raízes se encontram e se tecem com outras, com outros, e o rio-vida segue.
Acho que o filme fala também sobre a permanência, a partir da história desses três destinos que se afastam e se tocam em outros momentos, pendularmente. Os acontecimentos e o modo de narrar parecem às vezes distanciados de nós, talvez pela diferença cultural, mesmo assim o filme emociona, e tem momentos tocantes, sobretudo pela singeleza dessas personagens - a verdade de suas vidas sempre mantém uma certa força sobre nós.
























