Depois da guerra, dir Annarita Zambano, com Barbora Bobulova, Giuseppe Battiston, Orfeo Orlando. Já entrei na sala com o filme começado (me perdi no detestável horário de verão), mas acho que vi o que importava - cheguei no momento em que o protagonista, Marco, dá uma entrevista à repórter sobre sua participação nos "crimes de guerra" cometidos por ativistas políticos há 20 anos atrás, na Itália, quando um juiz foi assassinado em frente de casa. Nesse momento, crime semelhante ocorre na Itália, e Marco começa a ser caçado na França, onde se asilou, e tem uma filha adolescente.
Os acontecimentos vão rapidamente se deteriorando, sobretudo para os parentes de Franco que permanecem na Itália e, num clima de pânico, vemos ele e a filha em processo de fuga, que não se concretiza, por um acidente que me pareceu ao acaso, mas nada impede a leitura de vingança política. Enfim, uma história de passado político violento, de regimes ditatoriais, cujas sequelas jamais cessam de viger para quem deles fez parte ativa, sobretudo quando no mundo se reacendem as vontades políticas totalitárias e obscurantistas, às quais o Brasil vem ensaiando, igualmente, um triste retorno. Muito bom, atual e necessário, talvez.
Os Meyerowitz: família não se escolhe, dir Noah Baumbach, com Adam Sandler, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Elizabeth Marvel, Candice Bergen, Rebecca Miller, Adam Driver. Apesar de ter comprado dois ingressos para dias diferentes desse filme, acabei vendo-o na Netflix, o que me deixou meio sem paciência com ele. Mas o filme ganha o espectador, revela-se bem interessante, com aquela família cheia de personagens complicados, com seus problemas explícitos (comumente chamadas 'famílias disfuncionais', nem sei bem por quê - todas o são, afinal, num nível ou noutro) que são tratados a sangue frio, sem muito lero-lero, mas com a ternura necessária a esses seres complexos, como sói acontecer com os trabalhos do diretor (de Francis Ha, 2012, ainda guardo muito boas lembranças).
O que sustenta a qualidade superior do filme é, em grande medida, seu elenco, não apenas estelar, mas trabalhando com entrosamento, sem apelações, sobretudo os dois atores que têm carreira na comédia (Stiller, Sandler) defendem muitíssimo bem seus personagens tensos, dramáticos, enrolados com as ausências paterna e materna, cada um a sua maneira lidando com o peso dessa herança de carências afetivas, e um certo acerto de contas ocorre a partir do momento em que o patriarca - em atuação ótima de Hoffman - interna-se por um problema de saúde, e precisa ser assistido pelos familiares no hospital.
De todo modo, vigoram alguns mal-entendidos nas situações de vida de todos os membros da família, mas é sobretudo o relativo desprestígio e decadência com que a arte do patriarca vem sendo mensurada que está na raiz das atuais asperezas do grupo: um pai artista-que-se-acha-gênio se recusa a aceitar a gradual e irreversível obsolência; a mãe ausente afetivamente; a madrasta alcoólica que ainda tem os pés em Woodstock e cozinha muito mal; uma filha saindo da adolescência que ganha a vida fazendo filmes porno-satíricos (ou coisa semelhante), com a anuência do pai que, ao final, reconhece seu grande talento nesse ramo de atuação; a irmã que foi molestada na infância por um dos melhores amigos do pai - enfim, há um largo espectro de problemas em cada um daqueles que compõem o núcleo familiar do grupo que, ao fim e ao cabo, revela-se engraçado, leve, divertido e cheio de singularidades interessantes - como se dá com o filme, aliás.


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