sexta-feira, 29 de julho de 2011

Potiche e um certo modo de ser e envelhecer

____
Postiche é uma experiência cinematográfica muito interessante - uma das impressões mais fortes é ver aquela dupla impagável, ícones da história do cinema francês, e pensar: são bichos de cinema, ambos, Catherine Deneuve e o onipresente Gérard Dépardieu. Sabem tudo de big screen, namoram a tela, fazem amor com ela, seduzem e se deixam seduzir pela câmera. Há momentos em que tenho a íntima sensação de que eles filmam entre eles, para eles, curtem horrores toda aquela coisa.

E o filme é uma produção francesa avant la lettre, tudo respira um certo modo de ser francês: o modo de tratar o adultério, o jeito blasé da atriz e da personagem de Catherine, o gostar dos pequenos prazeres da vida, de que a cena final me parece antológica, não apenas dessa particularidade, mas do cinema ele mesmo - ali se revela o caráter de encenação da coisa, e também se percebe uma homenagem não só aos dois atores, mas ao cinema francês. Senti todo o tempo que Ozon fez o filme para homenagear esses ícones e, de algum modo, o cinema francês. A música que Catherine canta, olhando diretamente no olho do espectador ao final, eu leio como uma brincadeira, uma homenagem a todos que estamos vivos, amadurecemos e queremos continuar na festa da vida, com alegrias e conquistas.

Ela já foi lindíssima, está com o rosto um tanto deformado pelo botox; ele está barrigudo excessivamente - mas ambos continuam sendo uma referência de arte, de empenho por um ofício, de uma certa história de cinema de que compartilhamos em grande medida. O olhar cúmplice para a câmera e o sorriso maroto nos irmana - sim, a vida ainda pode ser muito bela, a despeito de nossas imperfeições, do tempo e suas marcas - as boas e as nem tanto,  ambas indispensáveis para o ser que somos hoje.

Filme adorável, ça va sans dire.
____

Nenhum comentário: