quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Linha sem passe
Linha de passe: filme chato, muito chaaato. Alguém tinha que dizer ao Walter Salles que ninguém aguenta mais a arte feita em cima da pobreza e dos pobres brasileiros. Eu sei que ele é bem intencionado, que faz coisas boas para os atores pobres que descobre em seus filmes, acredito até que faça muito trabalho social que a gente não sabe, mas, convenhamos, não dá para aguentar esse tipo de arte. Porque todo mundo, mas todo mundo neste país está cansado de saber das injustiças, da miséria, das condições absolutamente degradantes em que mora e vive grande parte desse imenso contingente de sem-quase-tudo, embora se diga que "nunca antes na história desse país" se fez tanto pelos pobres.
O Walter é um moço educadíssimo, fino, rico, muito rico (como se sabe também, os banqueiros "nunca antes na história desse país" ganharam tanto dinheiro...), e acha que precisa, do alto de sua cobertura não-sei-aonde, denunciar essa miséria, acolhê-lha artisticamente, fazer alguma coisa, entende? Então fez o Central do Brasil, e eu até gostei: muita miséria também, mas numa história comovente, um roteiro criativo, alguma coisa a dizer, com a Fernandona ajudando à beça.
Mas esse Linha de passe, faça-me o favor: não tem enredo, não tem atores, não tem história, não tem nada (tá certo, a atriz que ganhou o prêmio tem uma expressão forte e sofrida, e o menino negro é uma fofura, mas só isso não faz um bom filme). E aquela família fica empacada ali naquela tristeza só, a gente vendo que não tem saída, não tem mesmo nenhuma saída pra eles e o filme fazendo aqueles closes imensos, como se com isso pudesse gritar para nós: vejam, vejam o que está acontecendo agora!
Sim, eu sei, Waltinho, eu venho de lá. Eu vivo cá, no Catete, ou em Copacabana, em qualquer lugar eu vejo. Todo dia eu vejo. E também me lembro, eu tenho memória. Além disso, eu li Vidas Secas, que foi publicado em 1938, e li por volta dos quinze anos, ou seja, há muitas décadas atrás. E tenho vivido no Brasil todo esse tempo. E tenho visto como os governos manipulam, enganam, sonegam, enriquecem os ricos e dão esmolas aos pobres. Vi como e quando nossa "reserva moral e ética", que em algum momento Lula e o PT representaram para muitos de nós, se transformou nos escândalos mais devassos, e como nossas escolas continuam um lixo completo, e nossos hospitais matam mais do que curam.
Então, Waltinho, eu, se tivesse a grana preta que você tem, e o tanto de bons sentimentos que certamente te movem (e eu acredito nisso, não estou ironizando) eu adotava uma favela, e não apenas os trabalhadores mirins dos seus filmes. Uma favela inteira, ou um bairro pobre, tanto faz. Pode ser pequena, claro, também não precisa ser a Rocinha. Quem sabe a Cidade Líder, onde você filmou o Linha de passe. E aí colocava lá um ótimo hospital, com bons e bem pagos médicos, e uma escola com bons e bem pagos professores, onde as crianças pudessem ficar o dia todo aprendendo e brincando, aprendendo e brincando e comendo. Sem bandidos. Sem balas perdidas. Já pensou heim, Waltinho. Isso sim, era o filme que eu queria ver.
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12 comentários:
Minha querida,
Tai um movimento que seria preciso fazer: proibido ganhar prêmio com a miséria alheia. Copyright para a miséria.
Você lembra de um filme genial - Ladroes e cinema - do Cony Campos, se nao me engano? Esse sabia de tudo.
Você tem toda a& razao: se quisesse ajudar adotava uma favela, um hospital, uma escola que fosse.
Mas nao: o negocio é faturar artisticamente em cima da miséria. Nos ja estamos cansados de saber do estado do pais? Muito bem mas quem disse que o filme é pra nos? O filme é pras platéias internacionais, européias e americanas, pro tipo de pessoa que vai ao Brasil e compra tour em favela promovido por certos hotéis.
Ha muito tempo atras um padre que trabalhava em Recife disse a um grupo de pesquisadoras paulistas que a ultima espoliaçao que sofre " o povo" é a de sua historia e de sua imagem".
Pois é.
Bises,
Eliana
Clara,
Concordo com você,onde eu assino?
beijos
PAola
É verdade, eliana, o filme não é feito nem para os pobres (eles não vão ao cinema) e nem para nós, que já estamos cansados de saber, então só pode ser para os estrangeiros mesmo, e se vc olhar a propaganda do filme no folheto do Unibanco Artplex só tem comentário de jornal de fora (NYT, Washington Post e vários outros) e um da Folha, se me lembro bem.
Quanto ao filme de Cony Campos, vc sempre sacando uns filmes que eu não vi, mas quero ver, ou vi e não lembro... que memória, minha irmã:)
beijos, atualize seu blog, please,
clarita
Paola, que bom que concorda, afinal falar dos muitos pobres e/ou dos muito ricos é sempre complicado, né não?
beijo,
clara
Clara,
Não vi o filme. Mas já concordo com você. Ando cansada de filmes que exploram a miséria, a violencia. Haja visto Tropa de Elite, Meu nome não é johnny, haaaaa.. Tô cansada também do Seltom Melo, fazendo as mesmas caras e bocas prá personagens tão diferentes...
Beijos.
Boa essa propossta, quem faz filme explorando a pobreza alheia, fica automaticamente impossibilitado de ganhar prêmios.
Exceto nos casos de aplicação total do dinheiro na reversão da situação... coisas assim...
Ritinha, o Selton vc manda pra cá, gosto muito dele desde Lavoura Arcaica, filme que eu amo...:) Quanto aos outros filmes que vc menciona, cada um tem seus problemas, mas gostei no geral e fiz algumas críticas no particular a eles em algum lugar desse blog.
beijo,
clara
Paola, eu até acho que o Walter Salles deve fazer trabalho social de peso, além de sustentar e encaminhar financeiramente seus atores mirins, mas ele jamais divulgará isso pq age como um príncipe, mas nem por isso (ou talvez por isso) eu tenho de gostar de todos os filmes-de-arte dele sobre problemas sociais.
um abraço, querida,
clara
Você está certa. Esta temática da miséria é insuportável!
Quanto ao chato do Selton Melo quem está certa é a Rita.
Oba, se topar com o selton por aí diz que sou fã dele demaaaaaisss:)
beijo,
vera
Não sabia que um diretor de cinema tunha q fazer o que o governo deixa de cumprir...
Não tem, claro. Mas ele é tão empenhado, tão cheio de boas intenções, tão rico... tem os motivos e os meios, pois não?
abraço,
clara lopez
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