quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira - o filme


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Vi o Ensaio na primeira sessão do primeiro dia em exibição, mas só agora me animo a dizer sobre ele algumas palavras. Primeiro, não há como desvincular a leitura do filme da leitura do blog do Meirelles e/ou do livro do Saramago. No caso específico deste filme, as três formas de representação estão imbricadas, e minha leitura do filme está atravessada pela dos dois outros suportes. Isso acontece porque o filme procura ser bastante fiel ao livro, e acho que consegue, em quase todo ele, mas há algo que não funciona inteiramente, assim como o livro também tem seus percalços, sobretudo na vontade filosofante do Saramago, às vezes excessiva.

Alguns bons filmes que tenho visto me ensinam coisas técnicas sobre essa arte, na verdade, ensinam a qualquer espectador atento e que goste de cinema. Não lembro qual me fez sair da sessão com idéias mais claras a respeito de montagem; o último bom que vi (Mistérios do samba) me falou sobre como o fotograma pode ser uma sucessão de belas fotografias; e Blindness me deu a impressão de que houve cortes em demasia na montagem, algo parece descosido, não engrena totalmente, embora eu tenha gostado do filme, se por gostar se entender um profundo sentimento de desamparo e desalento ao fim da exibição, o mesmo que senti quando terminei de ler o livro e me via caminhando com bandos de cegos a minha volta. É bonito, e é triste ao mesmo tempo. Por isso é bom, porque toca profundamente em vários momentos. O livro mais que o filme, talvez, mas não estou certa.

De todo modo, eu jamais saberei tampouco se essa sensação de 'montagem' explícita acontece porque existe e enfraquece o filme, ou porque eu li com muita avidez o blog do diretor, onde que ele detalha em minúcias o processo todo. Não sei se queria ver as cenas de estupro que foram cortadas, algumas das quais chocaram mulheres nos testes com platéias, mas certamente eu teria gostado de ver mais a Sandra Oh, de quem ele fala tão bem no blog e que só aparece rapidamente (ele diz que criou essa mínima aparição especialmente para ela, que pediu para estar no filme, afetivamente). Mas os atores estão muito bons, a música é forte, e eu gostei de ter visto o filme.

Impressiona mesmo ver São Paulo destruída, parece que os furacões da temporada passaram por lá. Outras coisas que impressionam no filme (porque agora vemos), e que já estavam no livro (e então imaginávamos): impressiona a imundície do lugar, o sem rumo de tudo e de todos; impressiona como a mulher do médico (Julianne Moore, muito boa) consegue se manter humana apesar de tudo, e como ela só consegue matar um único homem, o chefe da casamata 3 (Gael García Bernal, impagável), quando vários deles que participaram do estupro coletivo mereciam ser punidos; impressiona o modo como ela perdoa o marido e fala baixinho no ouvido da prostituta com quem ele a havia traído, como ela mantém a sanidade e como parece serena, apesar das barbaridades que presencia. E percebo agora que quase tudo de importante recai sobre os ombros desta mulher. Ela provê, cuida, protege, orienta, leva o grupo pro banheiro no asilo, depois para casa fora dele, procura comida numa cidade devastada, dá banho, dá comida.
Enfim, seria apenas porque ela é a única que enxerga e que pode então cumprir tudo isso, ou haveria alguma coisa mais em relação ao papel e à função da mulher, no livro e no filme, de que não me dei conta então e que só percebo agora? Talvez reveja para tirar algumas dúvidas.




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10 comentários:

Anônimo disse...

Oi, Clara!
O Contardo Calligaris, na Folha de São de Paulo de hoje, também trata do Ensaio sobre a Cegueira, vale a pena ler. Sobre o papel das mulheres no filme, bem em consonância com a sua resenha, diz ele que "(...)diferente do que acontece em muitas narrativas apocalípticas, a heroína é uma mulher, e as mulheres são as depositárias da esperança; elas saem engrandecidas pelas provas da situação extrema". A conclusão do texto dele é a seguinte: "(...)caso, um dia, a gente tenha que recomeçar tudo do zero: em geral, as mulheres sabem, melhor do que os homens, o que é essencial na vida".
Acho que vou gostar desse filme.
Um abraço,
Cláudia

PS. Hoje, no Todoprosa, tem post sobre o Paul Auster. Lembrei de você quando li!

vera maria disse...

Claudia, olha que coisa interessante: hoje me dispus a fazer uma relação também dos filmes que já comentei por aqui, e estava então catando os títulos pelos posts antigos quando li meu post de desistência do blog e seu comentário tão alentador. Fiquei pensando em você, em quem você seria, essas coisas e de novo comovida com suas palavras. Entro aqui agora e o primeiro comentário ao post sobre o Blindness é seu, não é a maior (e boas) coincidência? :)
Quanto ao comentário da Folha, não li ainda, mas vou tentar, pq o jornal não deixa a gente ler quase nada se não for assinante, e não sou.
Vou lá no Todoprosa pq vc está sugerindo, não frequento mais o site pq os leitores dele são loucos...:)
um abraço, adorei saber de você,
clara

Anônimo disse...

Coincidência boa mesmo, Clara!
Saiba que, embora caladinha, continuo, firme e forte, lendo o seu blog, torcendo por você e, de uns tempos para cá, me encantando com as suas fotos.
Um abraço,
Cláudia

Antonio Augusto disse...

Estou louco para ver o filme e teu comentário aumentou esta vontade.

vera maria disse...

Obrigada, Claudia, fico feliz com sua visita, sempre. Você não precisa ficar caladinha, que bom que está mais falante agora :)
Fui lá no Todoprosa, li o comentário sobre o Auster e concordo em termos. Não há mesmo que endeusá-lo, mas isso se aplica a qualquer artista, eles não são deuses, são homens que acertam e erram, como todos nós, só que fazem um trabalho especial, e isso toca mais gente. Quando é bom, a gente ama, quando não, a gente esquece. Li tb alguns comentários dos leitores dele e eu não sei o que acontece ali, mas são muito dogmáticos, autoritários, enfim, não gosto.
um abraço,
clara

vera maria disse...

Acho que vc vai gostar, antonio, embora não seja leve, deve ser visto, eu acho.
um abraço, miss you too,
vera

Alexandre Kovacs disse...

Clara, a sua resenha me deixou ver (!) com mais clareza algun pontos que a minha adoração por Saramago não permitiu. Acho que não consigo mesmo ter uma abordagem imparcial neste caso, por gostar muito de Saramago e Meirelles também.

Só não concordo com a passagem: "sobretudo na vontade filosofante do Saramago, às vezes excessiva", apesar de ser uma opinião generalizada sobre ele, entendo que as colocações são sempre precisas (fazer o que...).

Sempre bom passar por aqui. Bem que a Cláudia podia visitar também o meu mundo (nem que seja para ter uma visão (!) diferente do filme), seria um prazer.

vera maria disse...

Oi, Kovacs, a gente gosta dos autores, das obras, eu também, mas não deixo de manter o senso crítico, acho que faz parte do meu modo de ver quase tudo na vida, e tb é vício de trabalho.
Quanto ao Saramago, às vezes ele fica repetitivo, eu acho, e nesse Ensaio, o livro, há vários momentos disso. Mas gosto do livro, claro.
Um abraço grande,
clara

Anônimo disse...

Clarita,
Otima resenha. Nao me animo a ver o filme nao porque nao gosto (mais)de "filme-catastrofe". Mas gostei muito de seu texto.
Por outro lado, adorei as fotos da feira.
E tudo bem?
Bises,
Eliana

vera maria disse...

Querida, que bom que gostou. Eu entendo que vc não goste mais desse tipo de filme mas, pra mim, 'quanto mais desastre melhor', desde que numa forma bela...:) Tô brincando com meu 'jeito trágico de ser'...:)
Estou bem, agora.
beijo,
clarita (já tenho tantos nomes por aqui, mais um só vai enriquecer meu currículo, né mesmo? :))