sexta-feira, 7 de julho de 2017

Soundtrack

Soundtrack. Direção 300ml, com Selton Mello, Ralph Ineson, Seu Jorge. 

Há pouco tempo fui andar por São Paulo e acabei vendo (com duas amigas virtuais paulistas que se tornaram presenciais) a peça Constelações, com Marília Gabriela (a quem sigo no instagram) e Caco Ciocler. As duas amigas detestaram, mas eu simplesmente amei a peça. 

Gostei de tudo: das repetições, do trabalho de atriz de Marília, sobretudo o controle da voz que ela empreende, o esforço hercúleo que deve ter sido ela mudar seu tom de voz firme e contundente, que usa em seu trabalho de jornalista, e moldá-la para ser a voz hesitante e suave de Marianne, aquela que vai-se mostrando ao longo da história de modo mais intenso. A peça é difícil, repete-se infinitamente, e vai modulando nessas repetições uma história que vai ficando cada vez mais interessante, para mim, que fui ficando cada vez mais presa em tudo e em todos os pequenos detalhes, e amei cada momento. No final, aplaudi de pé. 

Tudo isso pra dizer que esse filme da dupla 300 ml (mais informações sobre eles aqui ) é diferentão, estranho, e belíssimo. Não importa que não tenha quase história, mas ter sido filmado sob (e sobre) o gelo mais gélido e numa paisagem quase toda branca todo santo dia - tudo isso me interessou muitíssimo, além do trabalho magnífico de Selton Mello, com seu inglês perfeito, e de seu colega Ralph Ineson, os que mais ativamente contracenam, e por onde a história circula melhor. 

Acho que o filme propõe uma discussão sobre os limites da arte e da vida, além de confrontar o valor da ciência frente à arte para o avanço da vida entre nós, terráqueos. Na primeira vertente, ele trabalha a ideia de até onde se pode ou deve ir para fazer o que parece necessário a fim de construir um objeto de arte conforme o desejo que se impõe ao artista, além de constituir-se como metáfora da solidão criativa - em sua concretude de cenário, de personagem, de projeto, e das relações hesitantes, difíceis mesmo, que eles intentam criar no exíguo espaço que lhes cabe compartilhar. 

Enfim, vi o filme como uma história sobre aproximações humanas, e sobre a inexorável fome do artista em face de sua arte. 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Três filmes, mais um

Paris pode esperar. Dir. Eleanor Coppola, com Diane Lane, Alec Baldwin, Arnaud Viard.
Tudo a ver com Sob o sol da Toscana (2003), em que a mesma atriz protagoniza um filme romântico de semelhante extração - bonito, bem feito, em cenários de cidades onde quase qualquer pessoa pode desejar viver, bem como experimentar as aventuras leves, divertidas, sem culpas, tranquilas, superficiais e sensatas, com direito a paquera amorosa e tour gastronômico com o casal, nessa ótima história. Tudo corre lindo, leve e solto no filme, que foi feito para nos proporcionar prazer, alegria e bem estar, na medida certíssima do bom senso e da sobriedade. Eu agradeço todas as delicadezas, gostei demais de sentar às mesas todas dos restaurantes onde o casal esteve, amei os passeios todos e vi feliz esse filme que não me exigiu nada além da entrega - o que fiz com prazer.

Quero a sequência com os casal aos 70 anos, espero ainda estar viva até lá para continuar nossa aventura sob o signo da leveza. 

PS: Tomara que ela aceite o convite dele e vá aonde ele marcou. 

Na vertical. dir. Alain Guiraudie, com Damien Bonnard, India Hair, Raphaël Thiéry.
Se em Um estranho no lago, filme anterior do diretor, o sexo entre homens é o tema e leitmotiv, misturado a um certo clima de mortes e mistérios, aqui parece haver um escancaramento na proposta de abordar o sexo, agora como uma espécie de compulsão - o protagonista passa por várias situações um tanto confusas, até se tornar pai e, de certo modo, ficar paralisado naquele papel - ele não avança em seu caminho de vida, não sabe o que fazer daquele dom que descobriu em si, nem do bebê propriamente dito, já que não consegue cuidar dele, nem instalar-se em algum lugar que sirva de lar, abrigo, ou proteção para a criança. 

O filme fica banzando como o pai, de lá pra cá, e meio que se finca nas cenas fortes, três ao menos, que impressionam e impactam o espectador - um parto em amplo close; uma cena de cunnilingus também em close, e uma penetração entre homens que eu achei meio artificial (pelo tamanho que me pareceu exagerado, ou falso, do pênis), mas que ao cabo se mostrou extremamente erótica, sobretudo pela relação imediata com a morte e, na sequência, com o pós orgasmo, como o nomeiam os franceses, e está em nosso imaginário - la petite mort.  
De todo modo, a par dessas cenas contundentes, achei o filme meio sem destino, e talvez tenha sido essa sua proposta. 


Kiki - os segredos do desejo. Dir. Paco Léon, com Natalia de Molina, Álex García, Anna Katz.
Já esse Kiki, que prometia pelo trailer um filme bem centrado nas questões de sexo, fica mais no nível das brincadeiras eróticas, das taras bem leves e com alguma graça dos personagens. Um filme que se vê sem grandes arroubos, mas com algumas boas risadas.


Dégradé. Dir. Tarzan Nasser, Arab Nasser, com Hiam Abbas, Maisa Abd Elhadi, Manl Awad. 
Talvez pelo espaço de confinamento em que se transforma o salão de cabelereiro onde as mulheres se encontram, e terminam meio aprisionadas, o filme também acabou me cansando, mesmo sendo uma história necessária em seu empenho de retratar uma guerra infindável, ao mesmo tempo que encena o outro lado da vida: as necessidades do cotidiano e do universo femininos, representadas pela mulher que vai ter um filho; pela outra que vai casar e precisa estar maquiada e bem penteada para a cerimônia etc - situações que parecem nunca chegar ao fim, em razão dos transtornos trazidos por uma sequência de ataques violentos na rua em frente, de que só se ouvem os fortes ecos. 

Enfim, um filme que sufoca, menos pela questão da violência explícita da guerra, do que pelo confinamento das mulheres a tão restrito espaço - mental e físico.   

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O círculo

O círculo tenta fazer o retrato um tanto aterrorizante dos tempos midiáticos, onde não há praticamente privacidade, nem quase individualidade, e a mocinha (bem mocinha mesmo, quase uma Hermione do mundo fictício-real mostrado na tela) se dispõe, por livre e espontânea vontade, a fazer de sua vida um personal reality, ou seja, nada do que faz deixa de ser visto e comentado por bilhões de pessoas all over the world - a coisa é mesmo massiva, como eles gostam - toda a humanidade olha, vê, comenta, palpita (tá, o exagero foi o filme que autorizou). A atriz Emma Watson se sai bem, mas nada que tenha me parecido novo no conjunto de seu trabalho.

Achei tudo meio - se não inverossímel - bobinho demais, excessivo, com furos de plot - afinal, ninguém mais sabia da existência do personagem Ty Kalden, criador do programa mais ambicioso da empresa? Não achei convincente que ele possa ser tão invisível quanto deseja, num universo mental e ambiente profissional onde expor-se é regra básica de qualquer iniciante. Enfim, achei que tem furos, me pareceu inconvincente, e o que de melhor vi ali foi a atuação de Tom Hanks, muito bom e muito à vontade no meio da garotada. Deu de dez.

sábado, 10 de junho de 2017

Neve negra

Neve negra. Martin Hodara. Com Ricardo Darín, Laia Costa, Dolores Fonzi, Leonardo Sbaraglia. 

Achei Neve negra uma obra prima. Obríssima mesmo, tudo perfeito para mim: síntese, direção, fotografia (na Patagônia gélida, mais que gélida, eu mesma senti frio ao longo do filme todo), roteiro, atuação magistral de Darín, e também dos outros dois atores que trabalham o tempo todo. 

Não achei furo na história, não vi as antecipações que menciona o Janot, fui entendendo à medida que os fatos iam sendo rememorados, junto com os flashbacks de Marcos, e só fui perceber o inteiro teor da coisa quando o diretor quis que eu soubesse. Amei, me assustei, me emocionei, fiquei com raiva, claro, e saí do cinema com o peso de ter entendido o nível de solidão daquele homem, a quem Darín incorporou tão bem: a expressão, o olhar, a dureza, a alma angustiada e o jeito simples dos homens inteiros, que sobreviveram a formas variadas de expiação. 

Um filme para não esquecer, para pensar em nossos limites, e nos limites das instituições que nos configuram; nos abandonados da terra, nos puros e nos que reconhecem pelo cheiro os que lhe são pares. Farejadores. Víboras cujas línguas se cruzam, se casam. Os que causam mal, e os que sobrevivem a quase tudo, contando com sua própria força - aquela que foi sendo gestada e tecida na solidão de um cenário inóspito, cruel, absoluto. Os absolutos. Os absolutamente sós. Enfim, um puta filme.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Mulher maravilha!

Filme blockbuster ótimo, com o charme extra de mostrar a força e a extrema qualidade da diretora e da protagonista, ambas excedendo em seu métier num universo-gênero cuja primazia tem sido solitariamente masculina desde que o cinema existe. Espero que seja uma franquia também de muito sucesso, e que mais mulheres ousem nesse nível de excelência!
Ah! @QueroMaisMulherMaravilha!
E todas as outras maravilhas de que somos capazes.

domingo, 28 de maio de 2017

Comeback

Vi ontem 'Comeback - um matador nunca se aposenta', e gostei muito, mas muito mesmo do trabalho magistral de Nelson Xavier, sem o qual não haveria o filme. Ou seja, a história só existe porque o ator a faz existir, com seu carisma, seu talento, seu magnetismo, mesmo que por vezes, entre algumas cenas de violência sem histeria, haja alguns tempos mortos, repetições, vagares, que são parte do contexto de decadência em que vive o protagonista, mas também se reflete no andamento da ação, num certo vai e vem, sobretudo nas cenas sobre a máquina caça-níqueis que, se conseguem várias risadas da platéia, também a horas tantas cansam um pouco. Acho que o filme tem falhas, mas ver o último e excelente trabalho de Xavier vale muito a ida ao cinema. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Três comentários curtos: Norman, confie em mim; Vermelho russo; Corra!

Norman, confie em mim. Não estou certa de que esse tipo de personagem seja inerente à sociedade estadunidense; acho que pelo menos a carência absurda que comanda sua vida pertence a qualquer pessoa, em qualquer lugar. Mas talvez o modus operandi seja próprio das sociedades mega capitalistas e competitivas, essa coisa de influenciar e conectar as pessoas para dali tirar benefícios financeiros, o jogo de poder que o conhecimento da pessoa certa pode trazer. Apesar de um pouco longo, o filme mostra de forma contundente o enorme vazio na vida desse homem, interpretado de modo intenso e convincente por Richard Gere - e como ele transforma o "fazer pelos outros" no sentido de sua vida. Não se trata de generosidade, no sentido cristão de doar-se sem esperar recompensa; ao contrário, trata-se de criar os laços possíveis, não de afetos, mas de pontes entre as necessidades dos outros. Norman é o que se faz ponte, já que não consegue, e nunca foi capaz, de criar laços. Um filme sobre a esterilidade das relações, o uso que se faz das e entre as pessoas, e sobre a carência absoluta de um homem.

Vermelho russo. As duas atrizes que vão fazer um curso de teatro na Rússia (Moscou?) são ótimas, o plot é muito bom, porque se fala de interpretação ao mesmo tempo em que nas relações pessoais das duas vão acontecendo desgastes, rupturas, atritos normais entre pessoas que se conhecem, se gostam, mas estão vivendo uma experiência quase de exílio, num país de cultura extremamente diversa. Mas o que me comoveu mesmo, de verdade, foi o subtexto: o lugar onde elas ficam é uma espécie de hostel, ou um tipo de pousada de baixo custo, em que vivem vários velhinhos, bem como enfermeiras que cuidam deles (parece um serviço custeado pelo estado, mas não fica clara essa situação). O fato é que a velhice e uma certa nostalgia do passado dessas pessoas acabaram se tornando o filme para mim. Vi ali uma Rússia derrotada pelo capitalismo, e seu povo empobrecido, em cujas vidas o brilho vem de um lugar lá atrás, quando havia energia, frescor, vivacidade. Situação que, acredito, ocorrerá em algumas décadas no Brasil - eu, particularmente, já a vivo na velhice de extrema carência de minha mãe, que me coube suprir, por falta de outros apoios -, sobretudo se não conseguirmos reverter o golpe fascista que tomou o país de assalto e vai deixar o povo, os velhos sobretudo, de joelhos, mais pobres do que sempre foram.

Corra! Ótimo trabalho que envolve questão de raça e terror, num approach fortemente diferenciado quanto ao preconceito e ao arianismo fascista de uma parcela branca cínica da América, ou de qualquer outro lugar. Muito bem feito, só aos poucos a trama vai-se revelando em toda sua estrondosa bizarrice e crueldade. Mas a volta por cima do herói retoma um pouco aqueles filmes vermelho-sangue-serrotes, sem nunca chegar à breguice deles. Gostei muitíssimo.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Moonlight; Eu não sou seu negro; Lion; A espera; Toni Erdmann; Insubstituível


Moonlight: sob a luz do luar
Dir. Barry Jenkins. Com Trevante Rhodes, Mahershala Ali, Janelle Monae.

Tudo que eu tinha a dizer sobre o filme, Justin C Chang, aqui , do Los Angeles Times, diz de forma brilhante, junto com uma precisa análise do 'acontecimento' único e inédito na história do Oscar - o engano quanto ao vencedor do prêmio principal. (Foto de Robert Gauthier / Los Angeles Times).

Mas a mim impressionou o modo como o diretor trabalha para desconstruir todos os estereótipos relacionados ao amor entre dois homens, que além de serem negros, vivem em situação de pobreza, e a mãe de um deles tem uma bagagem de dependência que impõe ao jovem certos matizes de sua conduta. Por esse desenho da estrutura familiar e social dos personagens nada levaria a supor que a delicadeza no tratamento do amor fosse tão forte e, por isso, perturbadora. Nunca havia visto nada parecido - um amor quieto, tímido, delicado e incomensurável habitando o corpo de um homenzarrão cujas credenciais, já na vida adulta, nem de longe deixariam supor o que vemos. Esse filme, para mim, foi um acontecimento extraordinário de belo, de bom, de único.


Eu não sou seu negro
Dir. Raoul Peck. Narração de Samuel L. Jackson
Uma discussão atual, forte e necessária a partir da visão que James Baldwin deixou expressa em seu livro inacabado, onde discute a história da repressão social e política dos negros estadunidenses a partir do pensamento de alguns de seus líderes fundadores: Medgar Evers, Malcolm X, Martin Luther King Jr.  O diretor avança e enlaça as questões postas por Baldwin e traça um largo roteiro da opressão ao negro, mas que baliza o problema do preconceito que não tem fronteiras, nem bandeiras - tudo que aqui se diz sobre a intolerância naquele país, serve para todos nós, anywhere.

Lion 
Dir. Garth Davis. Com Dev Patel, Rooney Mara, Nicole Kidman
Narra-se aqui a jornada de uma criança que se perde do irmão numa estação de trem na India, será adotada por um casal não muito jovem, e antes de entrar para a Universidade decide fazer o percurso em busca de sua origem. Gostei muito do trabalho de Dev Patel, que virou um ator com letra maiúscula nesse filme, para mim, que o conheço de alguns outros poucos, e bons. A história é ótima, bem conduzida, os personagens estão todos muito bem, mas Patel e o menino destacam-se, por expressivos e convincentes. 


A espera
Dir. Piero Messina. Com Juliette Binoche, Lou de Laâge. 
Gostei muito do clima claustrofóbico desse drama, em que Juliette Binoche vive de modo contido e, por isso mesmo, exacerbado, a dor de uma mãe que perdeu o filho e recebe a visita da namorada dele, que o espera sem saber que ele não virá. A protagonista compartilha de uma forma tensa e ambígua essa ausência com a moça, e as lacunas em tudo - na casa, nas conversas, no que se diz e no que se cala - caminham de mãos dadas com a vulnerabilidade e o desalento de tão vasta perda. Um filme que me tocou forte. 

Toni Erdmann
Dir. Maren Ade. Com Peter Sominischek, Sandra Hüller, Machael Wittenborn.
Achei o filme muito bom, naquele seu modo estranho de apresentar um pai que ama e vive de forma excêntrica sua relação com a filha, num momento em que ele está um tanto à deriva na vida, quando vai procurá-la. Acho que é dessa deriva que ele vai aos poucos aumentando o tom de sua existência, como um som que precisa se tornar audível, e vai aumentando e com isso o ruído aparece, na forma de comportamentos bizarros, estranhos, excêntricos, mas que são extremamente humanos, no sentido de o espectador compreender, aceitar e se tornar cúmplice daqueles excessos. A vida, às vezes, precisa zumbir pra gente entender os sons todos, sua bizarrice. A filha demora a 'ouvi-lo', ou a vê-lo, ou a compreendê-lo - mas no fim, ela acerta a melodia. Só acho que se tudo tivesse sido reduzido em mais de meia hora ficaria melhor ainda.


Insubstituível (Médecin de Campagne)
Dir. Thomas Lilti. Com François Cluzet, Marianne Denicourt, Isabelle Sadoyan.
Lindíssima estória de um médico do interior da França, que recebe um diagnóstico de doença grave e precisa encontrar um substituto para continuar o trabalho de atendimento às pessoas, em geral, idosas e sem recursos, que são monitoradas pelos serviços da assistência social francesa. Não sei o que há de fantasioso e idealizado na composição desse personagem e, sobretudo, desse projeto de medicina pública muito ativa, humana, comprometida com o bem estar do paciente, sob uma ótica de fazer o melhor para ele, e não para os interesses públicos - mas fiquei encantada com todo esse universo e, por utópico que seja, é o que desejo para qualquer um de nós, jovens ou velhos, e vejo semelhança no que se tentou aqui, de forma muito incipiente embora, e abortada pelo golpe político de direita, com a contratação dos médicos cubanos, que preenchiam vagas de trabalho no interiorzão do país, onde nossos profissionais médicos nunca quiseram morar, ou trabalhar. Esse filme mostra uma província, com um projeto de medicina e de suporte familiar que espero um dia podermos alcançar, nem que seja daqui a um século. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Redemoinho; A cidade onde envelheço

Nos dois filmes vistos hoje, a história gira em torno das vidas de dois homens, um, e de duas mulheres, outro. Em ambos, o tema da viagem, do ir e voltar à cidade de origem, os impasses que ficar ou partir geram em cada um modos de viver e de pensar suas experiências existenciais.


O universo mental e físico de Redemoinho (dir. José Luiz Villamarim, com Irandhir Santos, Julio Andrade, Dira Paes, Cassia Kiss) gira em torno do provincianismo e da província, ao tematizar o reencontro de dois amigos de infância, um que ficou na cidade pequena, casou com uma ex-prostituta e trabalha como operário numa fábrica têxtil em Cataguases; o outro que partiu dali, e agora retorna de São Paulo para passar o Natal com a mãe, para quem traz um imenso televisor de presente de Natal, mas a quem trata com grosseria, desdém, autoritarismo. 

O filme trata, então, de uma espécie de acerto de contas entre ambos, mas a conversa é ambígua, e só aos poucos vamos entendendo o que há por trás de um certo mal estar entre os dois. Nada neles parece atraente: nem a vida bem sucedida financeiramente do que partiu, e está a passeio; nem a vida do que ficou, e parece condenado à estagnação financeira e existencial, já que a cidadezinha não parece oferecer qualquer perspectiva de ascensão mais ambiciosa de vida. 

Ao fim e ao cabo, aqueles dois homens terminam como começaram a conversa: cada um em seu mundo parco, pequeno, mesquinho. E saímos do cinema achando que foi tempo demais para vê-los e ouvi-los, a despeito do trabalho muito bom de todos os atores. Mas os personagens me pareceram pequenos demais, medíocres demais, e não há drama existencial forte o suficiente para justificar tanta conversa, tanto tempo a eles dedicado.


Já em A cidade onde envelheço (dir. Marília Rocha, com Elizabete Francisca Santos e Francisca Manuel) também temos um reencontro de duas amigas portuguesas, a que já mora no Brasil (Francisca) - por coincidência, a cidade do filme também fica em Minas, mas na cidade grande (Belo Horizonte) -, e a amiga que chega de Portugal com intenções de ficar (Teresa). 

O filme trata da aproximação entre as duas em terra estrangeira, não apenas do ponto de vista da adaptação daquela que chega, um tanto deslumbrada e cheia de energia e desejo pelo novo, quanto daquela que já mora aqui há um ano e sente-se nostálgica do mar português. 

Há vários momentos ternos, delicados, que expressam uma força afetiva totalmente oposta à do filme anterior - aqui, as duas jovens têm perspectivas diferentes diante dos fatos e da vida, projetos que pareciam convergir, mas que aos poucos vão-se afastando, naturalmente, e tudo em torno delas flui sem grandes arestas, ou conflitos. Há ternura, amizade, diferenças que se respeitam, uma delicadeza intrínseca no modo de ser de ambas, e na forma como se relacionam. Além disso, há uma trilha sonora lindíssima (menos o pop rock, pra meu gosto pessoal), mais poesia e poemas e uma sensação de ter visto um naco de vidas que - encarnadas por elas - valem a pena, valem o tempo, nos fazem pensar e querer estar em sua companhia, acompanhar seu crescimento. Gostei muito.  

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

ACC - POÉTICA

Bom, é o seguinte, como esse blog está muito deserto, vamos animar alguma alma falante interessada em receber a Poesia completa de Ana Cristina Cesar - doarei a quem quiser e disser primeiro, claro. 

Por quê? Porque comprei dois sem me dar conta, por razões que desconheço - ou melhor, uma sim, a mais óbvia parece ser o amor a sua poesia, já escrevi sobre quando produzia os ensaios obrigatórios das pesquisas acadêmicas, daí o que era obrigação virava prazer porque eu tentava só escolher os amados e as amadas.

Por que não vendo? Porque não preciso vender, mas poderia doar a um aluno, mas todos os meus são ex com os quais perdi o contato, e quando voltei de Fortaleza fiz um encontro de uma tarde com um grupo bom de alunos e doei muitos, umas oito caixas grandes, porque sabia que ia me aposentar pela última vez - e achei tão bom ver a alegria com que eles receberam os livros que passei a gostar de doar livros. Também já vendi no site da estantevirtual, mas me retirei de lá e acabei vendendo há uns dois anos uma nova ruma de livros para um sebo aqui do Catete. Logo, gosto de dar livros, e livros que importam, como me parece ser o caso desse aqui. 

Então, em querendo o belo, e a bela poesia de Ana, diga sim e mande email para arepo@terra.com.br que mando pelo correio, ou se morar pelos arredores do bairro, pega na portaria - e ainda escrevo bilhetinho à guisa de autógrafo.

Veja a sinopse da Livraria Cultura:

Ana Cristina Cesar deixou em sua breve passagem pela literatura brasileira do século XX uma marca indelével. Tornou-se uma das mais importantes representantes da poesia marginal que florescia na década de 1970, justamente pela singularidade que a distanciava das 'leis do grupo'. Criou uma dicção muito própria, que conjugava a prosa e a poesia, o pop e a alta literatura, o íntimo e o universal, o masculino e o feminino - pois a mulher moderna e liberta, capaz de falar abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, derramava-se numa delicadeza que podia conflitar, na visão dos desavisados, com o feminismo enérgico, característico da época.
Entre fragmentos de diário, cartas fictícias, cadernos de viagem, sumários arrojados, textos em prosa e poemas líricos, Ana Cristina fascinava e seduzia seus interlocutores, num permanente jogo de velar e desvelar. 'Cenas de abril', 'Correspondência completa', 'Luvas de pelica', 'A teus pés', 'Inéditos e dispersos', 'Antigos e soltos' - livros fora de catálogo há décadas estão agora novamente disponíveis ao público leitor, enriquecidos por uma seção de poemas inéditos, um posfácio de Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário, por muitos anos, dos escritos da carioca, Armando Freitas Filho. Esta obra reúne os volumes independentes do começo da carreira aos livros póstumos da autora.
Poética. CESAR, Ana Cristina. São Paulo:Cia das Letras, 2013. 496 p.