sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Redemoinho; A cidade onde envelheço

Nos dois filmes vistos hoje, a história gira em torno das vidas de dois homens, um, e de duas mulheres, outro. Em ambos, o tema da viagem, do ir e voltar à cidade de origem, os impasses que ficar ou partir geram em cada um modos de viver e de pensar suas experiências existenciais.


O universo mental e físico de Redemoinho (dir. José Luiz Villamarim, com Irandhir Santos, Julio Andrade, Dira Paes, Cassia Kiss) gira em torno do provincianismo e da província, ao tematizar o reencontro de dois amigos de infância, um que ficou na cidade pequena, casou com uma ex-prostituta e trabalha como operário numa fábrica têxtil em Cataguases; o outro que partiu dali, e agora retorna de São Paulo para passar o Natal com a mãe, para quem traz um imenso televisor de presente de Natal, mas a quem trata com grosseria, desdém, autoritarismo. 

O filme trata, então, de uma espécie de acerto de contas entre ambos, mas a conversa é ambígua, e só aos poucos vamos entendendo o que há por trás de um certo mal estar entre os dois. Nada neles parece atraente: nem a vida bem sucedida financeiramente do que partiu, e está a passeio; nem a vida do que ficou, e parece condenado à estagnação financeira e existencial, já que a cidadezinha não parece oferecer qualquer perspectiva de ascensão mais ambiciosa de vida. 

Ao fim e ao cabo, aqueles dois homens terminam como começaram a conversa: cada um em seu mundo parco, pequeno, mesquinho. E saímos do cinema achando que foi tempo demais para vê-los e ouvi-los, a despeito do trabalho muito bom de todos os atores. Mas os personagens me pareceram pequenos demais, medíocres demais, e não há drama existencial forte o suficiente para justificar tanta conversa, tanto tempo a eles dedicado.


Já em A cidade onde envelheço (dir. Marília Rocha, com Elizabete Francisca Santos e Francisca Manuel) também temos um reencontro de duas amigas portuguesas, a que já mora no Brasil (Francisca) - por coincidência, a cidade do filme também fica em Minas, mas na cidade grande (Belo Horizonte) -, e a amiga que chega de Portugal com intenções de ficar (Teresa). 

O filme trata da aproximação entre as duas em terra estrangeira, não apenas do ponto de vista da adaptação daquela que chega, um tanto deslumbrada e cheia de energia e desejo pelo novo, quanto daquela que já mora aqui há um ano e sente-se nostálgica do mar português. 

Há vários momentos ternos, delicados, que expressam uma força afetiva totalmente oposta à do filme anterior - aqui, as duas jovens têm perspectivas diferentes diante dos fatos e da vida, projetos que pareciam convergir, mas que aos poucos vão-se afastando, naturalmente, e tudo em torno delas flui sem grandes arestas, ou conflitos. Há ternura, amizade, diferenças que se respeitam, uma delicadeza intrínseca no modo de ser de ambas, e na forma como se relacionam. Além disso, há uma trilha sonora lindíssima (menos o pop rock, pra meu gosto pessoal), mais poesia e poemas e uma sensação de ter visto um naco de vidas que - encarnadas por elas - valem a pena, valem o tempo, nos fazem pensar e querer estar em sua companhia, acompanhar seu crescimento. Gostei muito.  

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