La vanité (Lionel Baier, 2016). Com Patrick Lapp, Carmen Maura, Ivan Georgiev.
Simples, eficiente, engraçado, o filme trata dos últimos momentos de um arquiteto, no momento em que decide usar os serviços de uma empresa que trabalha com eutanásia, e antecipar sua morte, em razão de um câncer aparentemente terminal.
Mas as coisas não funcionam como ele havia planejado, algumas revelações e reviravoltas acontecem no quarto exíguo do hotel, que ele ajudou a construir, com a mulher, anos atrás. O fato é que o filme corre leve, quando se poderia esperar drama e choro - esse último não há, ao contrário, um rapaz de programa russo, super simpático, traz humor e encanto às agruras do homem e, ao fim, também da mulher (Carmen Maura, sempre ótima), e tudo termina um pouco melhor do que antes. Para distrair, e ver como se trata a morte com leveza, vale o programa.
Copenhagen (Mark Raso, 2014).Com Frederikke Dahl Hansen, Gethin Anthony, Sebastian Armesto.(canal Netflix)
Confesso que já havia tentado ver esse filme várias vezes, mas sempre empacava na clara vertente de filme 'viajante mochileiro encontra girls pelos caminhos e acontecem embrólios, cama, sexo etc, etc", ou seja, falta de paciência para os road movies de descobertas sejas quais forem. Puro mau humor.
O filme tem uma menina atriz lindíssima, e ótima; tem pegação e descobertas também, mas tem uma história bacana, uma coisa de crescimento do rapaz - ele tem 27 anos, em tese deveria ser o 'mentor' da garota, que tem 14-em-vias-de-completar-15, mas aos poucos quem menos conhece de si é mesmo ele.
O fato é que aos poucos vão-se delineando surpresas, e as mudanças nos personagens são tão interessantes, tudo se passa apesar de - ele não querer se envolver com uma menina; a menina não ser exatamente uma adolescente secundarista ingênua, mas uma pessoa rica, interessante, com maturidade muito além de sua idade, e da experiência dele - depois teremos insights do porquê ela cresceu e amadureceu mais do que a idade revela.
O final do filme, com cenas delicadas, bonitas e duras, para expressar mudanças, crescimentos, transformações, sacações de quem ele estava buscando quando procurava o pai do pai, me encantou, assim como o filme todo, e fiquei muito feliz de ver, afinal, com olhos limpos e tranquilos sua singela beleza.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
domingo, 24 de julho de 2016
Três filmes: Procurando Dory; Espaço além - Marina Abramovic e o Brasil; Um dia perfeito
Procurando Dory (Andrew Stanton, Angus MacLane, 2016). Vozes originais de Elle DeGeneris, Albert Brooks, Idris Elba, Diane Keaton, Ed O’Oneill.Sim, não gosto de desenhos, mas tenho estado tão cansada certos dias que procuro o DA como um refúgio, para me distrair. Mas esse aqui é mesmo lindo, tem uma história comovente e muito bem feita, claro, e a Dory é uma menina muito esperta e fofa. Mas o que me levou a vê-lo, mesmo, foi eu ser leitora do instagram de Marília Gabriela e ela ter feito menção a seu trabalho no filme. Achei ótima a participação, achei ótimo o filme também. Agora sou uma espectadora de filmes animados, que bom.
Não conhecia nada sobre a protagonista desse filme, mas acabei achando interessante, embora nem sempre me conectando a ele, o empenho dela em conhecer-se, em buscar sentidos para a vida e o vazio em que se encontrava depois de ser abandonada pelo amado.
O momento mais tenso foi quando ela tomou ayahuasca pela primeira vez e quase enlouqueceu - lembrei-me de um caso recente, do Rian, filho de Nizo Neto, que morreu numa viagem com essa erva. Pode-se ver no filme como ela pode levar a isso, mas também o outro lado, quando ela toma pela segunda vez e faz uma viagem alucinógena transcendental. Já vivi uma experiência semelhante, embora com erva muito menos forte, e foi apenas uma vez - não gostei do que vi, nem do que vivi, ou senti
De todo modo, o filme interessa sob essa ótica, e de forma especial a quem está em busca do que quer que seja - de si, do sentido das coisas, do mundo, da vida, da morte, de uma certa luz, enfim - buscas.
Um dia perfeito (Fernando Leóna de Aranoa, 2016) Com Benício Del Toro, Tim Robbins, Olga Kurylenko.
História envolvendo um cadáver que precisa ser retirado de um poço para não contaminar a água dos moradores de um vilarejo perdido no meio do nada durante uma das trezentas mil guerras patrocinadas pelos impérios etc, etc. Mais um menino que perdeu os pais e ainda não sabe, a quem lhe tomam a bola na marra; mais dois amigos - vividos, claro, por Del Toro e Robbins - que fazem trabalho humanitário nessas regiões cheias de minas prontas a explodir ao menor vacilo; mais duas mulheres que também ajudam, e criam alguns problemas para os homens.
Enfim, um filme que promete mais do que cumpre, onde se ri às vezes, em que se percebe que Del Toro continua belíssimo, mas atuando no piloto automático. E quanto a Tim Robbins, nem isso pude perceber.
Enfim, um filme que promete mais do que cumpre, onde se ri às vezes, em que se percebe que Del Toro continua belíssimo, mas atuando no piloto automático. E quanto a Tim Robbins, nem isso pude perceber.
Dois filmes: O valor de um homem; Um belo verão
O valor de um homem (Stéphane Brizé, 2016). Com Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller.
O que esse filme tem de simples, tem de forte - tanto no tema (a força corrosiva do capital sobre o trabalhador assalariado), como na forma como retrata um momento crucial em sua vida: as tentativas, as inúmeras entrevistas, as situações humilhantes por que passa um homem em busca de trabalho, qualquer trabalho, de modo a tocar sua vida e dar o sustento da família.
[Lembrei aqui de outro filme que trata do desemprego e do desespero gerado por essa situação, numa Europa saturada e empobrecida: Dois dias, uma noite (dos irmãos Dardenne, 2014), em que Marion Cotillard vai de amigo em amigo esmolando, pedindo que eles abram mão do bônus extra que haviam recebido pelo trabalho, enquanto ela estivera doente, de modo que possa retomar seu posto, seu lugar, seu trabalho. Não gostei do filme, porque não gostei da postura da personagem - jogando para seus pares a responsabilidade por sua miséria, e por tirá-la dela].
Aqui há algo semelhante, ou seja, há uma crise de emprego, há um homem no limite de sua honra, alguém que precisa desesperadamente de um trabalho para não sucumbir à miséria. Ele consegue, afinal, uma saída, e fica até um certo tempo, ou melhor, até perceber o jogo sujo que o capitalismo impõe a seus dependentes - o exercício da escrotidão voluntária e diuturna é o seu trabalho, tomar conta dos pobres e desempregados, como ele o fora até há pouco tempo; delatá-los; humilhá-los; vê-los e tratá-los como escória ou, numa leitura bem brasileira, e bem contemporânea: desdenhar os que, em tese, não aproveitam o sistema de meritocracia capitalista - os vagabundos, os que não quiseram estudar, os que não trabalharam duro para ascender (os grandes cínicos no poder afirmam).
Nada disso é dito, tudo é visto pelos encontros entre os clientes e os supervisores do supermercado. O homem age, olha, fica em silêncio, mas seu gesto final faz valer a pena tudo: ele recusa ser o rato em que o querem transformar, e parte. Belo filme, e atuação magistral de Vincent Lindon.
Um belo verão (Catherine Corsine, 2016). Com Cécile de France, Izïa Higelin, Noémie Lvovsky
O terceiro melhor filme lésbico que já vi - o primeiro foi (acho que ainda é, não sei, teria que rever) Quando a noite cai, um filme de 95 de Patricia Rozema; o segundo seria Azul é a cor mais quente, de Abdelatiff Kechiche, 2013, mas parece que não vi tantos assim.
O interessante aqui, para mim, aparece em três níveis: um momento da história do feminismo, no início dos 70, com suas reuniões acaloradas, em que as jovens discutem as ações e intervenções de rua, gerando um clima de algazarra, rebeldia e insurgência contra alguns modelos patriarcais de então, e de hoje; o segundo ponto reside na diferença de origem entre as duas protagonistas e amantes: o fato de Delphine (Izïa Higelin) vir do campo e nele trabalhar sugere uma dimensão interessante à história das duas, e também pontua sob outro ângulo as questões feministas postas pelo filme, sobretudo no modo como o trabalho da mãe é visto pelo marido, pelo grupo e mesmo pela filha; o terceiro ponto de interesse é a liberdade de filmar os corpos em sua paixão com delicadeza e verdade, é a história mesma, o modo como se desenrola em Paris, e depois no campo. Aí vira o que é mesmo: um filme romântico, bonito, com paixão e separação, com abandonos e reviravoltas, e duas atrizes fazendo um trabalho estupendo - gostei muito de Cécile de France e seu cabelão, mas é de Izïa que mais me lembro. O final fica em aberto, mas não tenho dúvidas de que, na minha história, Carole...
O terceiro melhor filme lésbico que já vi - o primeiro foi (acho que ainda é, não sei, teria que rever) Quando a noite cai, um filme de 95 de Patricia Rozema; o segundo seria Azul é a cor mais quente, de Abdelatiff Kechiche, 2013, mas parece que não vi tantos assim.
O interessante aqui, para mim, aparece em três níveis: um momento da história do feminismo, no início dos 70, com suas reuniões acaloradas, em que as jovens discutem as ações e intervenções de rua, gerando um clima de algazarra, rebeldia e insurgência contra alguns modelos patriarcais de então, e de hoje; o segundo ponto reside na diferença de origem entre as duas protagonistas e amantes: o fato de Delphine (Izïa Higelin) vir do campo e nele trabalhar sugere uma dimensão interessante à história das duas, e também pontua sob outro ângulo as questões feministas postas pelo filme, sobretudo no modo como o trabalho da mãe é visto pelo marido, pelo grupo e mesmo pela filha; o terceiro ponto de interesse é a liberdade de filmar os corpos em sua paixão com delicadeza e verdade, é a história mesma, o modo como se desenrola em Paris, e depois no campo. Aí vira o que é mesmo: um filme romântico, bonito, com paixão e separação, com abandonos e reviravoltas, e duas atrizes fazendo um trabalho estupendo - gostei muito de Cécile de France e seu cabelão, mas é de Izïa que mais me lembro. O final fica em aberto, mas não tenho dúvidas de que, na minha história, Carole...
sábado, 23 de julho de 2016
Quatro filmes: Agnus Dei; Julieta; Marguerite; Na ventania
Agnus Dei (Anne Fontaine, 2016). Com Lou de Laâge, Vincent Macaigne, Agata Buzek.
Sensível retomada das barbáries cometidas contra mulheres durante a 2ª guerra mundial, desta vez contra as mulheres freiras num convento polonês, estupradas por soldados, de quem várias engravidam e, logo, vão parir quase ao mesmo tempo. A enfermeira Mathilde, embora proibida por regulamento, vai-se aproximando cada vez mais fortemente dos dilemas vividos por aquelas mulheres, cheias de culpa por terem os corpos (de Deus) violados, sem saída quando chega a hora do parto, e menos ainda qualquer chance de manter o filho, caso gerar traga à tona qualquer inesperado sentimento de maternidade.
Enfim, uma história forte, em que há um emparedamento geral - desde os muros do convento, aos exíguos espaços do hospital que atende aos feridos de guerra, ou os sentimentos abafados das noviças e, sobretudo, da madre superiora, cujos deveres de consciência levam-na a atitudes brutais. Tudo sufoca, até que ocorre uma inesperada mudança - um jorro de luz, humanidade e leveza como grand finale - e o espectador agradece .
Sensível retomada das barbáries cometidas contra mulheres durante a 2ª guerra mundial, desta vez contra as mulheres freiras num convento polonês, estupradas por soldados, de quem várias engravidam e, logo, vão parir quase ao mesmo tempo. A enfermeira Mathilde, embora proibida por regulamento, vai-se aproximando cada vez mais fortemente dos dilemas vividos por aquelas mulheres, cheias de culpa por terem os corpos (de Deus) violados, sem saída quando chega a hora do parto, e menos ainda qualquer chance de manter o filho, caso gerar traga à tona qualquer inesperado sentimento de maternidade.
Enfim, uma história forte, em que há um emparedamento geral - desde os muros do convento, aos exíguos espaços do hospital que atende aos feridos de guerra, ou os sentimentos abafados das noviças e, sobretudo, da madre superiora, cujos deveres de consciência levam-na a atitudes brutais. Tudo sufoca, até que ocorre uma inesperada mudança - um jorro de luz, humanidade e leveza como grand finale - e o espectador agradece .
Julieta (Pedro Almodóvar, 2016). Com Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao.
Um Almodóvar da maior qualidade, sem gritos, mas ainda mantendo a mulher dramática como centro gerador de energia - atômica, atávica, cósmica, visceral -, em que o diretor continua seu mergulho na natureza da condição feminina, a partir de onde constrói núcleos de ação e compreensão do mundo dos sentimentos e dos conflitos amorosos como poucos o fizeram, ou fazem.
Há uma centelha no cinema de Almodóvar que ilumina não apenas o universo feminino, mas a complexidade dos sentires, a partir do olhar delas, do particular sentimento de mundo delas. Aqui não é diferente: a história de mãe e filha, que se mantêm afastadas por longos anos em virtude de um segredo que ambas guardam, resulta num filme excelente, com uma pitada de policial, e tudo de drama romântico. Muito bom, mesmo.
.
Marguerite (Xavier Giannoli, 2016). Com Catherine Frot, André Marcon, Michel Fau.
Não vi e não verei, por falta de interesse, o outro filme em cartaz que conta a mesma história, mas esse aqui achei bem bonzinho - ok, 'bem bonzinho' é horrivelmente condescendente, mas eu gostei, há cenas ótimas, a atriz Catherine Frot fez outro filme de doce memória, não por ser excelente, mas por tratar de culinária. Ela é muito simpática, boa atriz, e faz com muita graça e delicadeza a mulher rica que ama cantar, apesar de ser miseravelmente desafinada. Do final, inesperado, não gostei - precisava chegar a tanto?
Na ventania (Martti Helde, 2016). Com Laura Peterson, Ingrid Isotamm, Mirt Preegel.
Filme dificílimo de ver, tanto por causa de seu tema - o holocausto, quanto pela forma como ele é mostrado: são cenas paradas, estáticas, de situações vividas pelos judeus durante sua indescritível expiação - daí que o filme me pareceu um conjunto forte de fotografias, encenadas na grande tela, que se assemelha então a um museu em cena aberta - um museu do holocausto. E daí também sua força, seu impacto, na forma nova como engessa e expõe, escancarando l.e.n.t.a.m.e.n.t.e - o inominável.
Se o filme ganha uma grandiosa força dramática, litúrgica mesmo, advinda desta inovação técnica, perde um pouco na dinâmica fílmica, ou seja, há um certo momento em que eu quero ver um filme, seu encadeamento, não uma sequência de fotos, por mais extraordinárias que sejam em sua força de denúncia. Mas nada que não torne obrigatória a experiência, e imperdível a obra.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Dois filmes: Mãe só há uma; As montanhas se separam
Mãe só há uma. (Anna Muylaert, 2016). Naomi Nero, Dani Nefussi, Matheus Nachtergaele, Luciana Paes, Helena Albergaria.
Em ótimo filme, Anna Muylaert volta às telas num trabalho que mantém o interesse e a curiosidade do espectador, no qual volta a explorar núcleos familiares fora do esquema tradicional ou, talvez, em curto circuito quanto ao padrão mais comum das famílias.
Baseado em fatos reais - somos pródigos em matéria prima quase pronta para compor as artes ficcionais -, o filme trabalha com as dificuldades quanto à ideia do pertencimento - pertenço a essa família? àquela? a meu gênero? a ele, a ela? Os mundos familiares até então conhecidos por Pierre/Felipe entram em colapso de repente, quando ele recebe a confirmação de que fora roubado na maternidade por essa que julgara ser sua mãe por dezessete anos. Imerso nas incertezas de uma passagem da adolescência para a vida adulta quanto a quem quer ser, para onde vai seu desejo, o jovem quase soçobra à mudança para o novo arranjo familiar, os novos modos de ser, a nova casa. Nessa, ele tem tudo certinho - um pai, mãe, um irmão adolescente, um quarto (suíte), mas nada faz muito sentido, e ele força a barra da estranheza ao impor à família o uso de vestido no dia a dia.
Os atores - sobretudo Matheus, Nero e Nefussi, como o pai, o filho e a mãe, mantêm o nível de excelência que costumamos encontrar nos filmes da diretora, em especial o até agora desconhecido Naomi Nero, que faz o rapaz; Matheus, como o pai tradicional, tem pelo menos uma cena antológica; e a mãe, vivida por Dani Nefussi nos dois núcleos familiares, convence com brilho e emoção em cada cena.
Mais um filme que só nos orgulha - ao cinema, ao cinema brasileiro, às mulheres cineastas, tão poucas, que brilham em nossas artes e em nossas telas.

As montanhas se separam (Jia Zhangke, 2015), com Jing Dong Liang, Zhao Tao, Yi Zhang, é um filme de mais de duas horas cuja história, em três momentos, a gente acompanha com atenção e enlevo.
Trata-se de um olhar penetrante sobre a cultura chinesa, o modo como o capitalismo se coloca sobre as tradições e os novos modos do dinheiro agir, dirigindo os caminhos de cada um, as opções, as escolhas.
É bonito de ver, acompanhar as delicadezas dos percursos dessa jovem, com seus dois amigos e pretendentes, sua vida a partir da escolha pautada pelo sentimento 'sem nenhuma estridência', mas que será impactada pelo dinheiro do escolhido, e tudo que vem a seguir. É bonito também acompanhar o que virá muitos anos depois, no terceiro espaço temporal - como o percurso de um rio, vidas que se cruzam e somem de vista, depois algo delas, pedaços de suas histórias, lembranças, enfim, raízes se encontram e se tecem com outras, com outros, e o rio-vida segue.
Acho que o filme fala também sobre a permanência, a partir da história desses três destinos que se afastam e se tocam em outros momentos, pendularmente. Os acontecimentos e o modo de narrar parecem às vezes distanciados de nós, talvez pela diferença cultural, mesmo assim o filme emociona, e tem momentos tocantes, sobretudo pela singeleza dessas personagens - a verdade de suas vidas sempre mantém uma certa força sobre nós.
Em ótimo filme, Anna Muylaert volta às telas num trabalho que mantém o interesse e a curiosidade do espectador, no qual volta a explorar núcleos familiares fora do esquema tradicional ou, talvez, em curto circuito quanto ao padrão mais comum das famílias. Baseado em fatos reais - somos pródigos em matéria prima quase pronta para compor as artes ficcionais -, o filme trabalha com as dificuldades quanto à ideia do pertencimento - pertenço a essa família? àquela? a meu gênero? a ele, a ela? Os mundos familiares até então conhecidos por Pierre/Felipe entram em colapso de repente, quando ele recebe a confirmação de que fora roubado na maternidade por essa que julgara ser sua mãe por dezessete anos. Imerso nas incertezas de uma passagem da adolescência para a vida adulta quanto a quem quer ser, para onde vai seu desejo, o jovem quase soçobra à mudança para o novo arranjo familiar, os novos modos de ser, a nova casa. Nessa, ele tem tudo certinho - um pai, mãe, um irmão adolescente, um quarto (suíte), mas nada faz muito sentido, e ele força a barra da estranheza ao impor à família o uso de vestido no dia a dia.
Os atores - sobretudo Matheus, Nero e Nefussi, como o pai, o filho e a mãe, mantêm o nível de excelência que costumamos encontrar nos filmes da diretora, em especial o até agora desconhecido Naomi Nero, que faz o rapaz; Matheus, como o pai tradicional, tem pelo menos uma cena antológica; e a mãe, vivida por Dani Nefussi nos dois núcleos familiares, convence com brilho e emoção em cada cena.
Mais um filme que só nos orgulha - ao cinema, ao cinema brasileiro, às mulheres cineastas, tão poucas, que brilham em nossas artes e em nossas telas.

As montanhas se separam (Jia Zhangke, 2015), com Jing Dong Liang, Zhao Tao, Yi Zhang, é um filme de mais de duas horas cuja história, em três momentos, a gente acompanha com atenção e enlevo.
Trata-se de um olhar penetrante sobre a cultura chinesa, o modo como o capitalismo se coloca sobre as tradições e os novos modos do dinheiro agir, dirigindo os caminhos de cada um, as opções, as escolhas.
É bonito de ver, acompanhar as delicadezas dos percursos dessa jovem, com seus dois amigos e pretendentes, sua vida a partir da escolha pautada pelo sentimento 'sem nenhuma estridência', mas que será impactada pelo dinheiro do escolhido, e tudo que vem a seguir. É bonito também acompanhar o que virá muitos anos depois, no terceiro espaço temporal - como o percurso de um rio, vidas que se cruzam e somem de vista, depois algo delas, pedaços de suas histórias, lembranças, enfim, raízes se encontram e se tecem com outras, com outros, e o rio-vida segue.
Acho que o filme fala também sobre a permanência, a partir da história desses três destinos que se afastam e se tocam em outros momentos, pendularmente. Os acontecimentos e o modo de narrar parecem às vezes distanciados de nós, talvez pela diferença cultural, mesmo assim o filme emociona, e tem momentos tocantes, sobretudo pela singeleza dessas personagens - a verdade de suas vidas sempre mantém uma certa força sobre nós.
quinta-feira, 23 de junho de 2016
Paulina
Paulina
(Santiago Mitre, 2015). Com Dolores Fonzi, Oscar Martinez, Esteban Lamothe.
Paulina me parece um filme muito difícil de comentar,
porque qualquer que seja a perspectiva, para não ser politicamente incorreta,
ela precisa estar colada à decisão da protagonista. E não estou. Não vejo
altruísmo, nem grandeza, nem compactuo com a visão dela, Paulina, com relação
ao problema que ela se propôs ajudar a resolver, nem com suas escolhas
difíceis.
E a história acontece em torno de mudanças de vida, e de políticas salvacionistas –
ela quer salvar os desafortunados, e para isso abandona seu curso de doutorado
em direito, seu lugar privilegiado na escala social, seu trabalho, seu pai, sua
vida, enfim, e aceita fazer parte de um projeto social em que dará aulas para
jovens na periferia de Buenos Aires.
Se o eixo
gira em torno de valores, de ética, de processos sociais injustos e de posturas
abnegadas, quem vê precisa tomar uma posição, e isso não será uma tarefa fácil,
porque ela mesma, a protagonista, nos oferece todos os argumentos pelos quais
suas opções são guiadas, ou seja, ela não está agindo de modo ingênuo, ao
contrário, sabe o que quer, e suas escolhas são firmes, vigorosas.
Eu
vejo sua tenacidade, e me vejo ali, nessa qualidade, só que no polo oposto – eu
vejo com os olhos de quem veio da pedreira, e levou anos, muitos anos, para
chegar ao doutorado que Paulina desdenha. Paulina só pode desdenhar seu lugar
de origem, porque ela não o conquistou, mas recebeu de herança. Eu só posso
olhar com desconfiança para quem abre mão de um bem que a mim custou tanto
alcançar. E vejo Paulina perdida, nem lá nem cá, sequer generosidade eu vejo em
seu projeto. E como abrir mão de, para dizer o mínimo, “educar” seus
molestadores? Ela quer resolver na conversa, no nível pessoal, mas estupro é
estupro, e se fosse com a outra mulher continuaria a ser um estupro. Paulina,
no entanto, condescende, porque são pobres seus algozes.
Na
verdade, acho que Paulina não sente, ela pouco sente, ao menos assim me pareceu
o rosto quase impassível que narra os fatos – não há emoções naquele rosto, é
quase como se seu corpo pudesse ser o lugar de um ritual de sacrifício.
Enfim,
um filme difícil. E a cena final, à subida dos créditos, mostra a protagonista
em sua caminhada, rumo e direção anódinos, apenas caminhando, indo, o rosto em
close mostrando ambiguamente um andar ao encontro de sua decisão: solitária,
dura, sem paixão.Órfãos do Eldorado
Gosto de tudo em Órfãos
do Eldorado: a exuberância das matas, dos rios, das águas, dos desejos -
tudo nele é excesso e paixão desmedida, numa fotografia deslumbrante, e o
brasilzão pulsando nas histórias, nos casos contados, e Arminto, meio
Macunaíma, procurando sua Ci, mãe do mato, mato a dentro, rio a fora, mais o
Hatoum fazendo pontinha e entregando peixe a ele, dentro d'água, que lindeza. E
que belas e fortes cenas com Florita, sim também para elas. E preciso ler o
livro.
Big Jato
Big Jato (Cláudio Assis, 2016). Com Matheus Nachtergaele,
Rafael Nicário, Marcella Cartaxo.
O filme todo é bom, mas alguns aspectos são melhores. Por
exemplo: Matheus – o que é aquilo que vemos nesse ser tão incomensuravelmente grande
e bom e magnífico que empresta voz, corpo, alma, tiques e transcendência para
viver dois irmãos bem diferentes um do
outro, e criar essa diferença no geral e no particular, no temperamento, nos
tiques, nos detalhes, e acaba sendo um exercício comovente ver a entrega do ator
às minúcias de caracterização, à entrega apaixonada aos dois homens que ele
incorpora. Marcela Cartaxo também está excelente como a mulher do motorista do
caminhão Big Jato, o limpa-fossas do sertão.
Nesse papel, Matheus faz um homem
ébrio quase todo o tempo, que anda com o filho na boleia do caminhão pra lá e
pra cá, conversando, aconselhando, falando as verdades simples que o menino precisa
aprender, para crescer como um homem, semelhante à filosofia de para-choque inscrita
na traseira do veículo: “Quem não reage, rasteja”. Filosofia que perpassa todos
os personagens, em níveis variados de perspicácia, no que se poderia chamar de papo
de botequim elevado ao nível do bom cinema, e cuja síntese são as sacadas existenciais do personagem de Jards
Macalé, a meu ver, o mais fraco elo do conjunto de atuações, mesmo seus “ensinamentos’
me pareceram aquém do que se poderia esperar. Mas o menino vai-se
transformando em rapaz e precisa ouvir, aprender, talvez ser convencido de que a poesia, sua vocação, não serve para o
mundo, diz-lhe o pai caminhoneiro; ao que o tio locutor da rádio local,
incorrigível bon vivant, responde
dando-lhe por presente uma máquina de escrever, de onde poemas poderão brotar,
salvo se o pai, num momento de ira e bebedeira, espatifá-la no chão.
O filme transita, assim, entre os valores de um mundo nordestino, masculino e
machista por excelência, jogado sobre os ombros de um jovem em busca
de quem é, ou de quem pode vir a ser, mais as cirandas da vida familiar desse
núcleo, composto por pai, mãe, três filhos homens e uma menina. Estranhamente, nesse
universo de valores machistas arraigados,
o rapaz-que-pinta-unhas é menos discriminado, ou assediado pelo pai bravo, do
que o que-vive-nas-nuvens-das-palavras. Parece que a questão do trabalho fala
mais alto aqui, o ganhar a vida e o pão importa mais do que mostrar-se ou não afeminado.
E vemos na tela, então, uma espécie de poema em imagens sobre a
aridez e a ternura possíveis num contexto cultural sobredeterminado, em que se tenta viver um
pouco além dos limites inarredáveis da pobreza material e intelectual, na
tentativa de escapar ao confinamento geográfico, existencial, material. E Nachtergaele, penso, é o grande motor que faz a engrenagem da peça toda mover-se, com a força e maestria das grandes artes.
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Dois filmes - Nise; O tesouro
O tesouro (Corneliu Porumboiu, 2016). Com Cuzin Toma, Adrain Purcarescu, Radu Banzaru, Iulia Chiochinã. Tendo lido a crítica feita por um jornal carioca ao filme, resolvi comentá-lo conversando com o crítico em questão, ficou assim:
Não, Janot, a cena final de ‘O tesouro' não vale o filme inteiro, como se lê no comentário feito no jornal, o máximo que se pode conceber seria o bonequinho sentado apenas observando, sem aplaudir. A não ser que se curta passar mais de metade do filme olhando três homens conversando enquanto escavam sem parar em busca do tal tesouro. A situação econômica precária do país (Romênia) e dos personagens, a semelhança com nosso atraso social, o ‘jeitinho’ maroto a que recorrem alguns que vivem certos estágios de decadência, em vários momentos bem semelhantes a nosso modo de resolver as coisas, tudo leva a plateia à empatia, e ao riso. Eu achei menos graça, e fiquei meio impaciente com aquela falta de entrecho, ou melhor de ação, e sobretudo não deu para comprar aquela cena final edificante, nem mesmo se tivesse sido inspirada nas narrativas mais delirantes do universo maravilhoso de nossa literatura de cordel. Não achei verossímil, nem uma saída adequada sequer na ficção. E de boas ações o purgatório - das artes e da vida – está lotado.
Nise - o coração da loucura (Roberto Berliner, 2016). Com Glória Pires, Fabrício Boliveira, Simone Mazzer, Flávio Bauraqui, Fernando Eiras, Julio Adrião, Felipe Rocha, Claudio Jaborandy, Zé Carlos Machado, Bernardo Marinho, Georgiana Goes, Luciana Fregolente, Charles Fricks, Roberta Rodrigues.
Filme indispensável, com muitos muitos acertos, e uma importância especial por contar uma parte fundamental de nossa história e prática manicomiais, ressaltando o desempenho dos atores, tanto da Glória Pires, que vive a psiquiatra, quanto do excelente grupo dos que fazem os doentes - esses, o coração pulsante do filme. Achei mais fraco o trabalho dos médicos, com exceção do ótimo Zé Carlos Machado, como o diretor. Como se trata, de modo especial, de um trabalho em que o grupo gera a energia-motora do filme, há elos mais ou menos fortes. O mais fraco me pareceu o crítico de arte Mario Pedrosa, vivido por Charles Fricks, que achei inconvincente, aquém de sua importância real na história que se conta. E essa história está muito bem relacionada aos acontecimentos na bela crítica que li numa noite de insônia, escrita por Fernando Pardal, no site Esquerda Diário e que, apesar de começar com um erro feio de ortografia (no lead, talvez nem seja de sua responsabilidade, não sei), vale a leitura por situar com precisão o contexto político-social dos acontecimentos narrados, que me parecem fundamentais para compreender melhor a importância de Nise para a psiquiatria brasileira. Mas o filme vale por si mesmo, em suas escolhas e acertos.
O site referido, veja aqui
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Alguns filmes - março/abril
Rua Coverfield, 10: (Dan Trachtenberg, 2016) Com Mary Elizabeth Winstead, John Goodman, John Gallagher Jr, Maya Erskine. Dois terços do filme acontecem dentro de um bunker, onde uma mulher e dois homens supostamente se refugiam de um ataque nuclear. Ela desconfia quase sempre de que seu protetor parece mais um raptor, mas vai se adaptando, até que a coisa fica esquisita demais e ela resolve fugir. E nessa fugida é que o diretor dá uma volta no espectador, tipo - vocês pensavam que era só um filme banal sobre psicótico americano sequestrador de moças? Não, temos outros trunfos na manga. E o final fica assim, como direi? Uma outra vertente de um gênero igualmente fértil se abre, mas não tira a sensação de déjà vu.
A juventude (Paolo Sorrentino, 2016). Com Michael Caine, Harvey Keytel, Rachel Weisz, Jane Fonda. A gente percebe que se trata de uma temática semelhante à de outro filme dele, A grande beleza, ou seja, questões relativas à percepção da vida em momento de declínio, como estar na vida e na velhice, em que dois personagens se entregam aos projetos possíveis: um, dirigir seu filme- testamento; o outro, deleitar-se. Mas penso que aqui as discussões são mais complexas, as palavras nem sempre estão dizendo o que os atos realizam. Como na vida, há ao mesmo tempo a ação dos personagens, que nem sempre estão de acordo com o que eles pensam delas, ou dos outros, ou de suas próprias histórias, que a memória tinge de cores variadas, dependendo do momento, ou de quem lembra. Um filme rico, denso, interessante o tempo todo, que vale a pena ver e rever.
A segunda esposa: (Umut Dag, 2016), Com Begum Akkaya, Vedat Erincin, Nihal Koldas. Uma das experiências mais intensas sobre a delicadeza, o que nós, mulheres ocidentais, chamamos 'sororidade', mesmo que não seja esse o projeto do filme. Ele quer apenas tematizar o devotamento de uma esposa e mãe por sua família, mas o destino prega-lhe uma peça e tudo vai em direção oposta ao planejado. Salvo a delicadeza extrema dessas duas personagens, e seu encontro único. Um filme para se ver com prazer.
Mais forte que bombas (Joachim Trier, 2016). Com Isabelle Huppert, Gabriel Byrne, Jesse Eisenberg, Devin Druid. Um filme que a princípio não diz bem a que veio, mas à medida que avança vamos percebendo os nós e as tramas que envolvem os homens daquela família (o marido, os dois filhos), em torno da mulher, de seu trabalho como fotógrafa de guerra, e de sua morte. Tudo vai-se revelando quando o mais velho começa a fazer a arrumação das fotos e descobre novos ângulos da vida de sua mãe, anos depois do acidente de carro que a matou, e tudo se embaralha com seu momento atual, o filho recém nascido, as dúvidas; também começamos a ver melhor o irmão mais jovem, imerso em um mundo cheio de asperezas, próprias da idade, mas igualmente cindido pelas rupturas - com a mãe, com o pai com quem não consegue dialogar, com o mundo dos afetos, dos amigos. Tudo no filme soa como um flash estourado, em que estilhaços reverberam em cada vida, em cada fotograma, em cada um de nós. Um dos melhores filmes que vi no mês.
Diplomacia (Volker Schlöndorff, 2016). Com André Dussollier, Niels Arestrup, Burghart Klaubner. Um filme em que o espectador gruda na tela apenas com a atuação de dois atores, em conversas dentro de um quarto, a respeito de destruir ou não Paris na saída final dos alemães da segunda guerra. Magnífico trabalho de atores, embora tudo pareça simples, leve e sério ao mesmo tempo. Um jogo de conversas e argumentos, que nos cativa até o fim.
A senhora da van (Nicholas Hytner, 2016). Com Maggie Smith, Alex Jennings, Jim Broadbent. Achei uma história meio bobinha, um filme que quase nunca engrena em interesse, uma personagem meio caricata, mas onde aparece a radiância de sempre da Maggie Smith. Só vale por ela.
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