domingo, 5 de janeiro de 2014

Álbum de família

Uma lavagem de roupa suja clássica entre membros de uma família, que se odeiam visceralmente, esse o núcleo dramático de Álbum de família (John Wells, 2013), em que brilha lá no alto a atuação magistral de Meryl Streep, em que pese alguns exageros de vez em quando - embora todos caibam no personagem, uma mãe em conversa com a morte, em razão de um câncer na boca, mas nem por isso disposta a fazer mea culpa do que quer que seja, ao contrário, irascível, meio louca pela dependência às drogas, odiando todo mundo, aí incluídas as filhas, que, por seu turno, têm pouquíssima compaixão por essa mãe em seu momento doloroso, mas dificílima de ser amada.

Trata-se de um filme de texto, longos diálogos cruéis e duros, entre todos os personagens, mas sobretudo entre essa mãe enlouquecida e suas três filhas, com destaque para a mais velha, Barbara, vivida por Julia Roberts, em seu primeiro filme com a 'grande dama'. Há duas cenas, ao menos, impagáveis: uma briga em que todos se envolvem e caem no chão, se batendo e debatendo, e uma cena em que Violet, a mãe, se embrenha no mato, correndo trôpega, vindo do funeral do marido, que se matara. O modo como todo seu corpo treme, de raiva e pela doença, impressiona. Ao longo da história, vemos uma matriarca demente que quer imperiosamente manter-se no poder e impor seu poder aos que a visitam, e já a abandonaram, tratando todo mundo de forma cruel e irônica, sobretudo Barbara, que se afastou dali há anos, e por isso torna-se a mais visada.

Trata-se de um filme poderoso, onde se ri eventualmente, porque em toda grande tragédia sempre há do que achar graça, mas é da solidão de todos os personagens, mesmo daqueles que estão em pares, da absoluta solidão de cada um de nós, que nos enxergamos em pedaços na tela, que fica a mensagem forte final.

9 comentários:

Aguinaldo Medici Severino disse...

Clara minha cara. Bom ano novo para você também. A literatura sempre é um descanso na loucura e com ela seguimos o caminho. Felicidades. Aguinaldo

vera maria disse...

Um abraço, aguinaldo, tudo de ótimo,
clara

Anônimo disse...

me lembrei vagamente, pelo q vc contou, de um filme espanhol, "Mamá cumple cien años"... mas fui pesquisar na internet e vi que é uma comédia... então deve ser outro filme, não sei, não lembro de nada.

tentei bancar o inteligente e peguei três vídeos no setor Cult da locadora no fim de semana: um filme do Rosselini sobre o Sócrates, outro do Sam Peckinpah sobre matadores da CIA e o terceiro dos irmãos Coen, "Bravura indômita", que eu não havia visto...

Bom, só consegui assisti, mesmo assim em "capítulos", ao filme do Rosselini, que é horroroso, medonho, mas eu gosto da história do Sócrates e me senti confortável "vendo" aqueles diálogos sobre os quais já li várias vezes. Nos outros filmes, infelizmente, dormi e não insisti.

Esse negócio de ser cult dá muito sono. Foi a minha conclusão.

Como anda a vida na nova terra? Alguma novidade pra melhor ou pior?

Abs

Osvjor



vera maria disse...

Oi, osvjor, pena que vc não viu o filme de Lars, Ninfomaníaca (quase 3 horas de duração :)), que não é cult mas o homem é danadinho. Vai entrar aqui amanhã, bem longe de onde moro, mas vou ver.

Esses filmes que vc menciona não conheço nenhum, e acho que pelos seus comentários não vou querer ver não. A vida aqui é bem tranquila, comme il faut, ainda estou muito devagar na arrumação da casa, que vai acontecendo muito lentamente. De todo modo, de todas as centenas de caixas a abrir que havia por aqui, só há agora as caixas com livros, que eu tô começando a odiar na mesma intensidade do amor que tenho por eles. Mas ninguém pode ser nômade carregando uma biblioteca desse tamanho, mesmo já tendo sido resumida a seu essencial à minha vida. Preciso ficar leve de livros, urgente.

O apt é imenso, mas os banheiros têm problemas de mofo nos pequenos armários sob a pia, e eu sou alérgica a isso e a quase tudo que há no ar, então só agora estou conseguindo encaminhar alguma solução para a coisa, e tudo vai muito devagar mesmo. É isso, quando alguma coisa estiver do jeito que tem que estar, para mim, eu posto alguma foto, certo?

abraço, merci pela visita,

vera

ps. e seu livro, já publicou? :)))

Anônimo disse...

fala, Vera.

meus livros, que imagino não sejam nem de longe na mesma quantidade que os seus, acabaram sendo um encosto na minha vida quando comecei a me mudar.

agora que estou na casa que, parece, será a minha penúltima morada (a última é aquela que todos sabemos, mas não gostamos de nomear), olho pra eles e vejo que foi um esforço inútil. a maioria ficou mofada porque, numa dessas mudanças, eles precisaram ficar em caixas em casa alheia, onde os deixaram na área de serviço, exposto às cruéis intempéries dos trópicos.

então me pergunto: pra que tanta aporrinhação? quando quero reler um livro, se ele não está à mão, sabe o que eu faço?? não ria: eu compro um novo! outro dia fiz isso com um Campos de Carvalho. os meus exemplares desse autor maravilhoso, que era meio raro de encontrar no meu tempo, estão não sei onde, e eu já comprei usados.

um trabalho absurdo esses anos todos pra nada. então eu te entendo. e agora decidi que vou me livrar de mais da metade das minhas porcarias. eu tinha umas ideias bestas, de guardar pro caso de um dia ter filhos etc... mas é um romantismo estúpido. e muita coisa é de domínio público, está na internet, ou vale a pena mesmo gastar um dinheirinho pra ter uma edição nova, cheirosinha, mais bem traduzida... ah, me alonguei demais.

Vera, não tive nenhuma resposta ainda sobre a questão da publicação. Eu te disse que tinha me animado a continuar escrevendo, né? Agora estou terminando um volume de contos. É o de que mais gostei até agora. Acho que consegui chegar a um tipo de voz (mesmo variando de protagonista pra protagonista, já que se são sempre em primeira pessoa) que me agrada.

Vou continuar tentando publicar. Mas tem nenhum desespero, mas estou prestes a entrar na fase de pedir ajuda a amigos de amigos de amigos.

Vc não perguntou, mas a minha vasta e imprescindível obra agora se divide da seguinte forma:

1) Contos: vida em família, alegria melancólica.

2) Novela: separação, melancolia.

3) Contos: despedidas, desencontros, algum humor.

Cortando: Esse negócio de armário sob pia é uma praga. Eu por mim tirava tudo, deixava aberto. Lá em casa outro dia voltou a dar esse problema. Mas é um projeto antigo, já estava quando chegamos, na época não fizemos grande obra no apartamento (e mesmo assim demorou quase um ano!!!), então agora relutamos em enfrentar qualquer tipo de reforma, a não ser as emergenciais. mas acho que a solução é trocar tudo (cano, porta, prateleira etc). será que mão de obra aí é mais barata que no Rio??

Espero que as coisas caminhem sempre pra melhor por aí. Esse filme aí do Lars, o pessoal aqui do Globo se dividiu. Eu fiquei muito puto com o Lars depois daquela coisa chamada "Anticristo", então enjoei um pouco dele. mas a verdade é que ele já fez coisas que eu gosto, como aquele com a Björk, então vou ver se o filme ainda está por aqui e de repente vou assistir, sim, depois de uma boa noite de sono.

abs

Osvjor

vera maria disse...

Pois é, pra quem se muda livros são um transtorno completo, e eu acho que ainda vou me mudar outras vezes, embora neste momento tenha horror à ideia. Mas VV é província mesmo, a gente fica um tempo, que não sei quanto, mas segue em frente, há outros lugares pra morar, conhecer, ficar. Acho que eu quero ir ficando pelos lugares por um tempo, um ano no mínimo, mas pra isso precisa ficar com uma casa mais leve, sobretudo parar de carregar livros. Eu não carrego mais esses daqui mesmo, vou doar metade pra biblioteca da UFES, vender outro tanto no estantevirtual, enfim.

Quanto à divisão de sua inestimável obra, a par da ironia, não sei se entendi - vc dividiu seus temas literários por formas, ou está tratando de sua vida? - ficou ambíguo.

Seu comentário sobre armário de banheiro acabou de me dar a única solução possível pra essa desgraça: tirar as portas! Fui lá ver se eu mesma conseguia fazer isso, mas os parafusos são apertados. Já liguei pra um faz-tudo daqui e ele vem segunda feira tirar isso, vai ficar feio, claro, mas eu vou poder voltar a respeirar direito, pq desde que botei os pés aqui (eu não tinha percebido o problema antes, nem outros que existem aqui) não paro de espirrar e de tossir, tô com medo de estar tuberculosa :))

Bom, o Lars é mesmo um sujeito difícil, como pessoa pública e como artista. Eu nem pensei em ver Anticristo, li sobre a coisa e vi que não dava pra mim. Mas esse da Bjork, Dançando no escuro, eu achei belíssimo, assim como Melancolia. Mas detestei o final de Dogville, e o filme todo muito penoso de assistir, e não fiquei a fim de ver a sequência dele, Manderley, acho.

Bom, é isso. Meu programa pra daqui a pouco: guardar três caixas de DVD's e CD's no armário que o cara montou hoje aqui na sala, um rack grande onde espero que caiba tudo. Amanhã, quem sabe encontrar o ferro de passar roupa numa das trezentas caixas de livros, pq até agora não foi encontrado em lugar nenhum :))

Grande abraço, merci toujours,
vera

Anônimo disse...

oi, Vera,

foi uma ótima resolução a dos armários. torcendo aqui pra dar certo.

agora como alguém pode pensar em SE MUDAR a CADA ANO?? vc não leu aquela pesquisa que diz que mudança é a segunda atividade mais estressante do mundo, atrás de não sei qual outra?

eu queria ter essa disposição sua. só de pensar em fazer uma viagem ali pra Búzios já me dá uma leseira desgraçada, imagina me mudar!

quanto à minha inestimável obra, lamento ter sido ambíguo e fiquei frustrado com isso na verdade. é assim: tenho três livros, todos de ficção. o primeiro é de contos, que em sua maioria falam de vida em família; o segundo é um romancezinho, sobre aquele buraco na alma; e o terceiro também é de contos, que versam, de um modo geral, sobre coisas que não dão certo e o fim.

abs

Osvjor

vera maria disse...

É verdade, é muito estressante, mas acho que se não tiver livros demais, fica mais fácil. Eu gosto de estar em movimento, minha marca numa cidade fica em torno de 3/4 anos, depois disso vou ficando deprê, me sinto prisioneira. Há anos quero sair do Rio, mas minha mãe me pôs uma corrente no pescoço, por conta de suas necessidades, eu tive que esperar e esperar, agora não quero mais voltar nem ficar muito tempo em lugar nenhum. Acho que eu sou doida, osvjor, talvez seja isso.

Quanto aos livros, pensei que aquele fosse o primeiro seu publicado, então vc já é um autor, um senhor autor, com três livros - todos publicados? I do hope so.

Eu acho que se tiver paz aqui vou escrever, não sei ainda sobre, ou talvez saiba, vamos ver.

abraço grande, merci por passar aqui,
vera

ps: na segunda vem alguém tirar essas portas, espero tbm que dê certo; hoje montei a TV pq achei o pé de apoio da base, enfim posso ver um filme com o mínimo de conforto. A outra TV, menor, tem uma image ruim, CCE ´é uma droga.


Anônimo disse...

ah, não, Vera, eu não tenho nenhum livro publicado... são todos inéditos... tenho um ou outro conto publicado em coletâneas de concursos, mas isso faz séculos e é tudo uma bosta...

vou ver seu relato lá em cima...

Osvjor