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Há anos atrás, quando lecionava teoria da literatura, costumava trabalhar em todos os cursos iniciantes com um conto de Jack London chamado "A histórica de Keesh". Essa leitura vinha acoplada à de um texto teórico de Walter Benjamin chamado "O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov", em que se discutem noções ligadas à experiência, ao saber comunitário que passa de pai para filho, à tradição, enfim, organizadas em torno do que ele chama de representantes arcaicos, nas figuras do camponês sedentário, do marinheiro e do artífice, embriões dos futuros narradores. Há momentos muito belos no texto de Benjamin, e (quase) todo ele é muito bom de ler. Por exemplo, quando fala da natureza da verdadeira narrativa, diz que "ela tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária.
Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida - de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas, se 'dar conselhos' parece hoje algo de antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis." (p. 200).
Então, o conto de Jack London, mais do que o Leskov com que Benjamin trabalha, vai palmilhar os conceitos à perfeição, numa história muito singela e bonita. Trata-se de um ritual de passagem de um menino (índio) para a vida adulta, e do que será necessário fazer para obter o respeito dos mais velhos e encontrar seu lugar na tribo. O conto é simples, a linguagem de London é de um classicismo magnético e há sempre alguma moral em suas histórias, sem que isso torne pesada a narrativa, ou menos interessante o seu final.
De todo modo, tudo isso é para chegar a A praga escarlate, uma novela curta, que comprei por curiosidade e pra ler enquanto faço fisioterapia no joelho. Já terminei (a novela, não a fisio) e gostei muito. Quem conhece a história pode supor que sou definitivamente macabra, mais do que meramente masoquista...:) pois se estamos vivendo a tal pandemia, de que tenho horrores de medo, tinha mesmo de ler uma história que fala do fim da humanidade por causa de uma peste vermelha, que mata todo mundo em questão de minutos? Pois é, mas é London quem conta, e conta tão bem que não resisti (igual ao pombo que marca encontro com a pomba, e não resiste à beleza da paisagem, em Paulo Mendes Campos) e tive de ir lendo, ir lendo, até... bom, mas há esperanças, pois ainda sobraram o narrador e mais uns três ou quatro para recomeçar toda a saga humana, olé...
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Jack London (1876 - 1916). "A história de Keesh". In Os melhores contos de Jack London. Círculo do Livro, s/d.
____. A praga escarlate (1912). Trad. Roberto DeNice. Ilustrações Gordon Grant. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2003. Clássicos Conrad.
Walter Benjamin. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.197-221.
9 comentários:
por coincidência, acabei de ler dois livros do Jack London, talvez com atraso de algumas décadas, "O chamado selvagem" e "Caninos brancos". gostei tanto que separei um terceiro título, "The sea wolf", encontrado por acaso durante uma limpeza de não rotina na estante, pra ler assim que possível. acho incrível que ele, em tão pouco tempo de vida, já que se matou aos 40 anos, tenha escrito tanto e com tanta qualidade, virando um marco na literatura americana. no caso de "O chamado selvagem" e "Caninos brancos", me admirei particularmente com o fato dele, naquela época, entender tão bem, empiricamente, a psicologia canina, assunto tão em voga hoje em dia, tema de programas de TV e de livros e estudos científicos. é uma admiração besta, claro. é que gosto de tudo que tem cachorro no meio. e a menção à moral é perfeita, não precisa colocar aspas. vou ficar atento a outros textos do Jack London, incluindo esse do indiozinho.
agora, um livro realmente contra-indicado pra se ler durante esta epidemia seria "Zona quente", do Richard Preston. é um quadro assustador do estrago que um vírus faz na humanidade...
abs
Mas que coincidência mesmo, osvjor, pq essa minha leitura é totalmente por acaso, assim como parece ser a sua, e nos encontramos afinal em London...:)
Vc acredita que nunca li Caninos brancos, mas sempre que passa o filme da Disney na TV eu vejo, e acho lindíssima toda aquela vastidão branca, o espírito épico do filme, e os cães, claro, que eu tb amo... de todo modo, vou ler o livro urgente, pq me deu muita vontade agora, e depois, se for o caso, comento aqui.
um abraço, bom ter vc por aqui,
clara
ps. ah, e retirei as aspas da moral, claro, não precisava mesmo...
tem filme da Disney? será que eu já vi? vou procurar na locadora depois. grazzie pela dica.
Tem sim, vc encontra bastante coisa dele no youtube, em inglês como white fang, com um ethan hawke ainda bem jovem...:)
abraço,
clara
Engraçada essa coisa das nossas motivações. Eu fiquei com vontade de ler Jack London depois de ter visto "Na Natureza Selvagem" ("Into The Wild") há uns 2 anos. Fucei um pouco na biblioteca do meu pai e achei justamente "White Fang". Mas depois de ler a resenha do livro (no próprio), eu desisti, porque achei q o pobrezinho do White Fang sofria demais (no mundo violento dos animais selvagens e também no mundo violento dos animais supostamente civilizados) até a sua redenção, o seu final feliz. Ah, e a resenha dizia q o livro às vezes era "muito gráfico". Acho q foi isso q me fez desistir. Pq eu já não gosto de sofrimento muito gráfico em gente nem em outros animais, mas em cachorros especificamente, eu acho q ficaria insuportável.
Lembrei-me de uma cena (para mim nefastamente inesquecível) do filme vencedor do Oscar (de filme estrangeiro) "Tsotsi"...
Mas agora estou intrigada com o White Fang de novo.
Não sabia q tinha uma adaptação da *Disney* estrelando o meu queridinho *Ethan Hawke* bem jovem! Se bem q a Disney fez "Bambi" q eu achei muito pesado e chorei horrores. *hehehe* Quando eu tinha uns 7 anos. :)
Melissa, dear, essa coisa das motivações é mesmo muito interessante. Eu sou muito livre com relação a minhas leituras, mas algumas pessoas por quem nutro algum respeito, seja de que ordem for, me fazem querer sintonizar com uma visão qualquer que um livro tenha produzido nela - uma imagem, uma cena, uma palavra... bem, esse foi o caso do osvjor, fiquei com vontade de ler o white fang por causa do comentário dele, estou lendo, aliás, e gostando muito, no final talvez comente aqui, vamos ver.
Agora, eu queria muitíssimo saber o que é essa história de livro 'muito gráfico'...:) Se isso quer dizer que há imagens fortes, algumas lutas entre animais são um pouco, mas nada demais face à exacerbação de tanta maluquice imagética que a gente vê no dia a dia digital.
Quanto ao filme, já vi umas duas vezes, talvez, mas há tempos, não me lembro bem de tudo não...
beijo grande,
clara
Hehehe Esse povo das Letras é fogo! O "muito gráfico" era com relação às descrições das cenas de violência. Descrições exatas, fortes, detalhadas, feitas sem pressa e q se tornam um pouco aflitivas para leitoras sensíveis à violência como eu. :) Bom, me expressei mal de novo. Eu não sou sensível à violência rápida e nem à morte, tipo, fuzila logo todo mundo e pronto. Mas eu sou sensível à violência (ao sofrimento?) lenta, torturante. Tipo, depois do q você escreveu aqui sobre "O Lutador", eu já optei (facilmente) por não vê-lo. Coisas tipo "Jogos Mortais" eu só veria se fosse por muuuito, mas muuuito dinheiro. E "Jogos Mortais" com personagens caninos hehehe Eu não veria *nem* me pagando.
Ah! Eu sinto lhe informar hihihi, mas agora você terá q comentar (nem q seja um comentário telegráfico de duas linhas) sobre White Fang. :)
Beijocas!
Eu entendi, querida, a coisa da violência, tb tenho certa alergia a tudo que diz respeito ao tema, não vejo esses jogos mortais de jeito nenhum, e tb tenho medo de filme sobre espíritos, já vi uma vez O bebê de Rosemary, mas fechando olhos em algumas cenas, hoje não tenho mais coragem... nunca vi O iluminado (e tenho o dvd), mas tenho vontade de saber o que é, qquer dia ganho coragem...:)
Pelo visto não vou escapar dos dentes caninos...:)
beijo,
clara
Mesmo já tendo passado um tempão, preciso dizer que revi o filme em DVD recentemente e acho que exagerei no 'espírito épico' que não existe. Para ser bem franca, o filme é um tanto infantil, e não segue a complexidade das aventuras do cão que existe no livro, muito, mas muito melhor do que o filme.
De todo modo, há muita neve, é bonito e a gente vê com prazer a relação de afeto que vai-se estabelecendo entre o rapaz e o animal.
clara
em 05/10/09
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