terça-feira, 26 de agosto de 2008

os objetos de Clarice


Vi a exposição de Clarice no CCBB e, apesar de ter ficado muito emocionada com o depoimento dela, numa gravação péssima (aliás, não entendo por que não remasterizaram o filme, não aceito o "velho para ficar no tempo dela"), confesso que esperava mais de tudo. Está adequada, está bonita, como outras que já vimos lá, em que o dinheiro não é problema.
Parece que a questão da "interioridade" de Clarice foi resolvida com o recurso às gavetas. Quando você as abre, vê todos os objetos (estão lá os livros, as carteirinhas várias, as fotos, as cartas) mediados por um vidro, não se pode tocar em nada. Está certo, senão as coisas iam virar frangalhos ao final, mas de algum modo isso tirou a intimidade, ou talvez as gavetas não tenham sido suficientes para criar essa relação com o 'leitor/espectador' que a literatura dela impõe. Não sei, acho que sou uma leitora suspeita para falar. Não concebo muito a Clarice fora da obra. Talvez seja isso, talvez nenhum escritor que a gente ame muito seja 'exposicionável'.



4 comentários:

Anônimo disse...

Voilà tout, très chère. Como é que se pode mostrar um escritor fora de sua obra?
Penso que esse tipo de exposiçao so teria valor como obra em si mesma, quer dizer, nao seria Clarice o objeto da exposiçao mas seu tema. E nao deveria haver "curador" da exposiçao mas sim "autor da instalaçao". Fora dai nao tem nenhum sentido, é puro negocio com o dinheiro publico. Diheiro publico sim porque o dinheiro "privado" vem de renucia fiscal.
Enfim, por isso, em principio nao vou ver. Nem ai nem aqui. Nao tenho o menor interesse pelo mundo "real" em que viveram certos cidadaos que, em determinadas cirunstancias chamamos "escritores". Acho que falamos disso ao telefone, né?
Por outro lado, Dona Clarice... bem, acho que mereia um lindo post seu pra fazermosum congresso on line...
Bises,
Eliana

Paola disse...

Quando vi aqui no museu da língua, achei meio shopping center, as gavetas querendo lembrar introspecção, achei barato demais, gostei mais do Guimarães Rosa, o foco era a obra (grandes sertões)
Vi um filme que me incomodou, ela dizendo que está cansada, me pareceu que ela estva se sentindo profundamente invadida.

vera maria disse...

Eliane, querida, concordo com as observações todas, sobretudo com relação à impossibilidade de a obra de clarice ser traduzida em exposição. Eu tenho alguma curiosidade quanto às vidas, mas só quando é grande escritor, coisa de voyeur mesmo, mas prefiro a coisa da descocberta pessoal, não gosto que me dêem esse universo particular numa exposição, descobri agora.
beijo,
vera

****

paola, querida, talvez seja mesmo barato demais, aquele monte de gavetas com coisinhas quase todas bobinhas. Quanto ao vídeo, foi o de que mais gostei, foi feio depois do incêndio, ela estava escrevendo a hora da estrela, seu último livro, e no ano seguinte morreria. Acho muito forte o vídeo (apesar do péssimo estado em que está), a morte está ali, claramente, e Clarice sabe disso. Eu chorei.
um abraço,
vera

vera maria disse...

"foi feito"