Ainda não recomecei porque não sei que rumo dar a essas notas.
Quando parei, já estava meio confuso o meio de campo - havia comentários sobre filmes, basicamente, quase nada sobre livros, que continuam sendo pouco lidos, embora comprados regularmente.
Houve uma postagem retirada de um conjunto de textos que escrevi sobre fotografias de minha infância, e que eu pretendo/pretendia um dia transformar em diário de uma época, e hoje não sei o que será, ou se será. Não por ser autobiográfico, o que as fotos já dizem, mas por haver climas tensos e alguns dramas, e não sei a quem se destinaria tal diário, quando em letras e frases e páginas.
Houve essa última exposição dos livros, e o consequente explicitar do nome real e da pessoa sob o pseudônimo de clara lopez, o que já se vinha desenhando no facebook, sobretudo quando escrevi a resenha do livro de minha amiga Eliana Bueno, sobre Santo Antonio, e ela espalhou aos amigos quem era a autora, mas convivo bem com ambos - ou ambas.
Enfim, sinto falta desse espaço - primeiro, de escrita; segundo, de comunicação. Mesmo não tendo o retorno de leitores, sei pelas estatísticas que várias pessoas (se não forem alienígenas, o que eu adoraria) visitam o blog e, suponho, o leem.
Não sei que rumo dar a essa volta (se volta for), e talvez não precise dar um rumo, só escrever, e se for para conversar, converso então com o blog da marina dabliú que postou aqui um áudio com a voz de Adélia Prado falando um de seus mais belos poemas. Logo que comecei a ouvir, parei, porque não suporto ouvir poemas, sejam ditos por intérpretes, sejam ditos por seus próprios autores. Considero, basicamente, que aquele poema que eu ouço não é o que eu li, o que guardei em mim. E os de Adélia, sobretudo, me pertencem de um modo especial, porque convivi com eles à exaustão, há muitos anos, e ainda lembro dos significados que emprestei a cada um, e de seu timbre em mim.
Então, quando comecei a ouvir na voz de Adélia aquele poema de amor - tão visceral, e ao mesmo tempo tão singelo -, parei o som. Mas voltei, ouvi tudo e reconheci o poema novo que ela me apresentava - senti a mesma ternura como se lido pela primeira vez. Ela encontrou na voz a simplicidade molecular de sua estrutura na fala, que corresponde inteiro às linhas que eu percorri e ainda guardo na memória - e no afeto.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
terra ou mar
Começando a ter saudades daqui.
Qualquer hora volto - só não sei a cara que a casa terá então.
Qualquer hora volto - só não sei a cara que a casa terá então.
terça-feira, 1 de julho de 2014
caitituando - quase todos
Muito simpaticamente o autor do blogue, Jônatas, me enviou por email esse post, em que publica a orelha de meu livro sobre Adélia.
1) Como a orelha diz, foi meu primeiro livro, resultado de dissertação de Mestrado, sobre a poesia de Adélia. Não havia muitos estudos sobre ela na ocasião. Publicado em 1994 pela Editora da UFG.
O vazio e o pleno - a poesia de Adélia Prado
E já que o primeiro veio à baila, pela postagem do rapaz, eu mesma posto os outros, que se seguiram ao primeiro:
2) Tese de Doutorado, publicada em 1997 pela EdUFF. Basicamente, trata-se de apresentação e análise de alguns temas mais constantes da crítica feminista das representações, a partir de textos de autores/as que me pareceram importantes na época. Deu um trabalho enorme escrever, como toda tese.
5) Três ensaios sobre mulheres críticas (acadêmicas) brasileiras, resultados de pesquisa para o Cnpq, reunidos em livro por uma editora bem simples (e barata), a Oficina de Livros, e publicado em 2008.
As autoras estudadas: Heloisa Buarque de Hollanda; Eneida Maria de Souza; Flora Sussekind.
Há outros que eu apenas organizei, sobretudo para a editora Tempo Brasileiro, com ensaios variados sobre Clarice Lispector, principalmente. É isso sobre o assunto.
1) Como a orelha diz, foi meu primeiro livro, resultado de dissertação de Mestrado, sobre a poesia de Adélia. Não havia muitos estudos sobre ela na ocasião. Publicado em 1994 pela Editora da UFG.
O vazio e o pleno - a poesia de Adélia Prado
E já que o primeiro veio à baila, pela postagem do rapaz, eu mesma posto os outros, que se seguiram ao primeiro:
2) Tese de Doutorado, publicada em 1997 pela EdUFF. Basicamente, trata-se de apresentação e análise de alguns temas mais constantes da crítica feminista das representações, a partir de textos de autores/as que me pareceram importantes na época. Deu um trabalho enorme escrever, como toda tese.
3) Ensaios sobre a obra de Hilda Hilst, livro publicado em 2000 pela Editora Mulheres. Foi um trabalho ambicioso, apesar do livrinho minúsculo, um dos primeiros a sistematizar um estudo sobre a autora. Eu gosto dele, mas tem um erro grave, de minha responsabilidade, que não pude consertar antes da publicação, e a editora republicou depois com muitos outros problemas de revisão, sem meu conhecimento, só fui saber anos depois. Enfim, uma pena.
4) Conjunto de ensaios sobre autoras brasileiras, resultado de pesquisas financiadas pelo Cnpq. Publicado em 2004 pela 7Sois, editora independente de Fortaleza.
Os autores de que trato: Ana Cristina Cesar; Hilda Hilst; Machado e Clarice; Lya Luft (a ficcionista); Gilka Machado; Marilene Felinto.
5) Três ensaios sobre mulheres críticas (acadêmicas) brasileiras, resultados de pesquisa para o Cnpq, reunidos em livro por uma editora bem simples (e barata), a Oficina de Livros, e publicado em 2008.
As autoras estudadas: Heloisa Buarque de Hollanda; Eneida Maria de Souza; Flora Sussekind.
Há outros que eu apenas organizei, sobretudo para a editora Tempo Brasileiro, com ensaios variados sobre Clarice Lispector, principalmente. É isso sobre o assunto.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Praia do futuro
Para Egídio
Já tantos disseram e comentaram e analisaram o filme que vou apenas pontuar o que achei forte, especialmente, em Praia do futuro, de Karim Aïnouz (2014).
1. Um ritmo tenso, descosido, sem linearidade, cuja forma está absolutamente de acordo com o conteúdo: aqueles três homens ziguezagueiam em busca de caminhos - literalmente expressos pelas braçadas mar a dentro, de um; pelo trabalho com e meio de transporte na moto, de outro; pelo andar sem rumo em busca do irmão por uma Berlim estranha e estrangeira para o terceiro. A primeira cena de sexo entra pela cara do espectador como uma rajada de bala: ninguém ali está para amenidades, meus senhores, o papo aqui é curto, e direto (foi nesse momento que um casal de idosos saiu devagarinho da sala).
2. Um amor e um erotismo fortes e másculos - não há mimimi por ali, tudo é cheio de tesão, intensidades e descobertas. Na verdade, quando o filme termina, meu primeiro pensamento, além de seguir atávica aquela paisagem final gelidamente bela foi: filme macho pacas! Um amor entre homens, que se amam como homens, com direito a expressões de afeto coreografadas como uma luta de boxe, e sexo sem expressões de ternura. Salvo depois, sobretudo em um dado momento em que Donato passeia pela rua depois do amor com Konrad, com aqueles incríveis cabelos cacheados, e a expressão de enlevo que Wagner imprime ao rosto me acompanha até agora - o meio sorriso é mais bonito e terno que o da Monalisa, e de uma delicadeza, uma graça e um afeto absolutos. Wagner, com a perícia dos grandes artistas, domina tudo nesse filme.
3. O tema do estranho e do estrangeiro que percorre toda a estória é um leitmotiv extremamente bem realizado, porque ele se apresenta tanto para cada indivíduo, em sua busca pessoal de auto conhecimento (o homem viaja de moto com o amigo para conhecer-se no mundo; o outro viaja para o estrangeiro para se conhecer e se descobrir no amor; o menino viaja para desvendar seu passado e seu futuro com o irmão-pai), quanto no sentido mais amplo, do homem face ao estrangeiro que ele é em cada lugar e ao estranho que ele é para o outro, o que se deixa ler na duplicidade e ambiguidade do título - Praia do futuro remete tanto ao lugar da capital nordestina que acolhe visitantes estrangeiros de vários partes do mundo, quanto condensa em seu sintagma um possível caminho de constituição metafórica dos personagens.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Memórias (1) - Uns sapatos e seu cheiro
O cheiro dos sapatos novos jamais me abandonou. Aquele
cheiro específico, misturado com odor de papel novo, cola,
couro, novidade, cheiro de gente de verdade.
cheiro específico, misturado com odor de papel novo, cola,
couro, novidade, cheiro de gente de verdade.
Eu era menina, devia ter uns seis, cinco anos, morava nos
cafundós do Ceará (para registro: Alto Santo). Meu tio tinha vindo
do Rio de Janeiro, do outro lado do mundo, para nos visitar, e
trouxe todo o luxo com que jamais sonhara - máquina de tirar
fotos, roupas, sabonetes, muitas novidades. Minha mãe, mesmo
paupérrima, comprou os sapatos em Mossoró, segundo me disse.
Esse cheiro que eu reconheci muitas vezes depois de adulta, com
um sentimento que, tenho certeza, Proust descreveu quando falou do gosto da madeleine:
nostalgia, esgarçamento, distância, tempo, alegria, existência, futuro bom pressentido, outra
vida. Tento não esquecer, mas o cheiro me escapa, faço força para lembrar e o encontro às
vezes inesperadamente. Jamais poderei compartilhar o que significa isso na minha história,
a não ser como 'marca', 'sinete' inscrito na percepção dos cheiros.
Já o vestido fora feito por ela que, muito pobre, tinha um orgulho imenso do bordado de
sianinha sobre o TV8 (sim, era o nome do tecido) marinho, reforçado com goma ao passar
para ficar armado, sinônimo de elegância. O vestido pinicava, o bolero esquentava, mas a
mãe não abria mão da singela elegância dos filhos, fazia sacrifícios e ela mesma cuidava
para que os três parecessem "gente".
Mas fora da foto, a gente se vestia exatamente como a menina encostada na parede. Ela
parece diferente de nós, mas não era, e ficou na foto na marra...
terça-feira, 29 de abril de 2014
Irandhir
Eu passei, olhei, parei diante dele e disse: (...) Seu rosto iluminou-se num sorriso - O sorriso -, e respondeu algo que eu entendi como 'que legal, muito obrigado', enquanto o amigo murmurava, voz enfática, 'abraça ela' e ele já se levantava e me abraçava sorrindo e eu dizia 'e ainda ganho abraço que maravilha'. Daí deixei-os, feliz, para entrar na sala e ver O grande mestre.
Passei boa parte do filme tentando lembrar o nome dele, depois os filmes que eu vira com ele. Primeiro lembrei o nome Irandhir, depois só me vinha à mente Serra pelada, onde ele nem está, e muito depois (isso tudo vendo o belo filme sobre lutas marciais) lembrei de O som ao redor, aquele clima opressivo, ele andando pra lá e pra cá, buscando perigos; e Tropa de elite 2, em que faz o deputado Diogo Fraga, que leva o tenente-coronel Nascimento à tribuna da Câmara, para acusar metade do plenário de corrupção; e só em casa me veio o nome do filme em que ele resplandece, tomado pela fúria dos deuses da interpretação, do deboche e da magia criativa: Tatuagem, que comentei nesse post do FestRio 2013.
Essa cultura mambembe, de que trata Tatuagem, essa moldura afetiva, em que tudo fica meio sem borda, e um clima de ninguém é de ninguém, além de fazer parte do way of life de uma parte da geração dos setenta/oitenta, compõe também o perfil de um tempo no país em que alargar os limites do permitido era uma forma de resistência, uma maneira de ser contra - a ditadura, a repressão, o desconhecido-que-se-ouvia-em-sussurros-por-todo-lado. Há também uma pegada tropicália, um abocanhar tudo de cultura que pudesse fazer vibrar o coração. Ver Irandhir foi como rever um pedaço de nossa cultura geral, e não apenas fílmica, mas também uma parte de minha própria história nela. Como na frase clichê, ele - sim - me representa.
sábado, 26 de abril de 2014
Um: Hoje eu quero voltar sozinho. Dois: Pelo malo.
O que um tem de emocionante: primeiro, a celeuma exterior, a efervescência de enormes parcelas de jovens, de todos os cantos do país, pedindo para que o filme passe em suas cidades - é um clamor forte, muito alto, e isso precisa ser lido, precisa ser ouvido. O que eu ouço é a voz de jovens querendo entender sua sexualidade e, sobretudo, ter certeza de que ele é um ser absolutamente normal, que gostar de outro ser do mesmo sexo não lhe assegura passagem direta para o inferno. Eles querem - eu acho - a força do coletivo que os autoriza a ter os desejos que têm; eles querem amar e ser aceitos e se sentir parte da turma, qualquer turma que queiram, e não a que lhes imputem. O que o fillme faz por eles é, primeiro, tratar como normal o que é normal - quando Leo diz que talvez esteja apaixonado por Gabriel, sua amiga não faz nenhuma cena, no máximo diz que não esperava aquilo, talvez porque ela mesma tinha esperanças de vir a ser a primeira a beijar o amigo. Mais que isso, o diretor e roteirista faz com que um jovem cego (portanto, diferente dos outros desde o nascimento) e que se descobre gay, que sofre bullyng no colégio, que tem uma mãe castradora, mas um pai e uma avó com quem ele pode contar, ou seja, duas bases de suporte afetivo - que esse jovem encontre sua sexualidade sem grandes traumas ou paranóias e, além disso, seja correspondido em sua primeira paixão - isso, em si, já é coisa à beça, e ele sai inteiro do embate.
Além disso, o filme é singelo e delicado no modo como encena o encontro desse amor - são jovens de certo modo puros, é quase um conto de fadas, sem vilões, sem violências, sem posturas amorais de nenhum personagem. Tudo simples, bonito, inaugural - como as vidas que eles prenunciam, e que desejamos sejam boas, plenas, com as melhores realizações. É o que desejamos para nossos filhos.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Histórias que contamos
Acabei de ver na TV, encantada, o documentário Histórias que contamos (Canadá, 2012), de Sarah Polley, que faz um percurso interessantíssimo sobre um tema aparentemente sem nenhuma importância para qualquer outra pessoa, além de sua própria família, mas que vai prendendo a atenção de quem vê pelo brilhantismo dos desdobramentos das histórias contadas e lembradas, sobretudo a de sua mãe, e dela própria, Sarah, já que o filme acaba se revelando também a história de seu nascimento, da paixão fora do casamento de que ela é o fruto,e de que só tomou conhecimento na idade adulta.
É fascinante a maneira como ela vai voltando no tempo e recolhendo depoimentos de amigos, conhecidos, parentes que conheceram os envolvidos, a mãe, sobretudo, e como ela junta os retalhos de uma colcha preciosa não apenas com depoimentos, mas igualmelnte com filmes de épocas passadas, de sua infância, da juventude dos pais, dos amigos, tudo encaixado de forma precisa, de modo que os eventos fluem como se feito para estar ali, nesse documentário que ela elabora agora, reconstruindo o que parece ter sido filmado para ele, tantos anos depois. É de uma delicadeza e de uma inteligência absolutas.
E para coroar a série de engenhosidades desse filme, o que se vê também é uma história escrita pelo pai que a criou como filha até a idade adulta, cujo choque com a revelação de que Sarah não é sua filha biológica o leva a escrever compulsivamete, para entender, para aceitar e perdoar a mulher a quem nunca deixou de amar. Um filme, definitivamente, apaixonante.
É fascinante a maneira como ela vai voltando no tempo e recolhendo depoimentos de amigos, conhecidos, parentes que conheceram os envolvidos, a mãe, sobretudo, e como ela junta os retalhos de uma colcha preciosa não apenas com depoimentos, mas igualmelnte com filmes de épocas passadas, de sua infância, da juventude dos pais, dos amigos, tudo encaixado de forma precisa, de modo que os eventos fluem como se feito para estar ali, nesse documentário que ela elabora agora, reconstruindo o que parece ter sido filmado para ele, tantos anos depois. É de uma delicadeza e de uma inteligência absolutas.
E para coroar a série de engenhosidades desse filme, o que se vê também é uma história escrita pelo pai que a criou como filha até a idade adulta, cujo choque com a revelação de que Sarah não é sua filha biológica o leva a escrever compulsivamete, para entender, para aceitar e perdoar a mulher a quem nunca deixou de amar. Um filme, definitivamente, apaixonante.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Cinema Varilux 2014
Vi alguns filmes do Festival Varilux 2014, menos do que gostaria porque agora moro numa cidade pequena e qualquer diversão fílmica fica longe e, outro pecado, só tem cinema em shopping. Fazendo as contas, três dias indo e vindo a 52 o táxi, além de alguns cafés e pães de queijo, fizeram desse um dos mais caros que já segui, ever. E não vi todos, mas vi metade dos dezesseis, ou metade mais um se considerar que Os incompreendidos, do Truffaut, é acessível fora do festival, e acho que já vi a primeira versão há milênios. De todo modo, achei a maioria dos que vi bem medianos, nenhum de tirar o fôlego, e mais comédias do que de ação dramática, de que gosto mais.
Uma viagem extraordinária (2013, Jean-Pierre Jeunet) com Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Kyle Catlett é um filme bonito, do tipo-fofíssima-criança-prodígio-à-procura-de-si- mesma, com um ator mirim muito impressionante e uma mãe vivida pela ótima Bonham Carter. O filme mistura a aventura da road movie, ou melhor, da train movie, do menino que parte para pegar um prêmio que ganhou, mas ao mesmo tempo ficamos sabendo de outros motivos mais profundos e tocantes, que o levam a sair de casa - trata-se menos de uma expedição pela ciência e muito mais uma aventura para se entender e compreender um acontecimento fundamental de que ele fez parte. Muito bom, um dos melhores que vi.
Suzanne (2012, Katell Quilévéré), com Sara Forestier, François Damiens, Adèle Haenel, Paul Hamy. A história dessa moça, Suzanne, me ajudou a entender como é o processo das pessoas que não podem, mas não conseguem mesmo ficar longe de problemas. Sim, claro, é por amor, grande parte das encrencas em que ela se mete é por amor, mas como a moça demora pra aprender vai me dando um pouco de irritação. No final, não contente, ela ainda volta pra cadeia pra purgar um pouco mais os pecados. Não achei muita coisa além disso.
Eu, mamãe e os meninos (2013, Guillaume Gallienne), com Guillaume Galliene, André Marcon, Françoise Fabian, Diane Kruger. Esse parece ser um filme bem ambicioso, porque trabalha o tempo todo insinuando, sugerindo e mostrando situações de um rapaz possivelmente gay que, ao final, dá uma volta em todo mundo. Ele é engraçado, tem humor ferino, sofre bullying e dá vexames muitas vezes - tudo segundo um certo figurino meio estereotipado do gay. O ator faz muito bem tudo que faz: ele mesmo e sua mãe, uma personagem bem cruel, sobretudo em sua relação com esse filho, especialmente.
Toda a história está bem armada para direcionar o espectador ao modelo um tanto fake de homossexual, corroborado pelos que estão a sua volta - familiares, amigos, colegas. Mesmo o riso é uma coisa meio cúmplice do estereótipo - rimos do que todo mundo ri quando um gay faz "cenas". O que acontece no terço final, ou quase ao final, é uma revirolta que me pareceu meio artificial, embora o filme suporte o turning point sem se destruir. De repente, o riso fica parado na face e vemos um ator em cena, conversando conosco, sua platéia, a respeito do que se pensou que se viu. Ele vai fechar a peça em que atua, contando a história dele e de sua mãe, e ao mesmo tempo vamos sendo apresentados ao verdadeiro Guillaume. Trata-se de uma jogada de cena, e também de uma visada mais esperta do que propriamente dramática, embora haja drama também nas cenas, o que me fez ficar numa posição dúbia quanto ao valor do que vi, do que vejo. Foi como ter sido passada para trás, ter sofrido um golpe de esperteza - muito bem feito, com ótimas atuações, mas insidioso, e golpe. De todo modo, ele vale ser visto sobretudo pelo tour de force do ator (e diretor) que faz o protagonista, muito bom nos dois papéis.
Um belo domingo (Nicole Garcia, 2013), com Louise Bourgoin, Pierre Rochefort, Dominique Sanda trabalha a ideia do homem solitário, do jovem interessante que guarda um segredo e que será revelado por artimanhas do amor por uma mulher, e do afeto por seu filho. A história dele é bem interessante, e o filme é muito bom de ver, tem aspectos não simplistas quanto aos valores da vida, da grande riqueza e das escolhas que importam na vida de cada um. Nos tempos de hoje, colocar em cena alguém que abdica de enorme herança em favor de um projeto pessoal no caminho da simplicidade é quase um conto da carochinha, mas a história é muito bem conduzida de modo que aceitamos aquela decisão como a coisa certa - tomar a decisão sobre os rumos que quer dar a si mesmo, sobre o melhor caminho e o que a vida realmente significa para ele, já é parte da constituição e da cura do interessantíssimo rapaz. E, afinal, ele ganhou o amor e um filho - a vida pulsa generosa para ele nesse momento, e ele vê isso, agora, pode reconhcer os dons que recebe - e escolher. Filme ótimo, a que se assiste com prazer.
Uma viagem extraordinária (2013, Jean-Pierre Jeunet) com Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Kyle Catlett é um filme bonito, do tipo-fofíssima-criança-prodígio-à-procura-de-si- mesma, com um ator mirim muito impressionante e uma mãe vivida pela ótima Bonham Carter. O filme mistura a aventura da road movie, ou melhor, da train movie, do menino que parte para pegar um prêmio que ganhou, mas ao mesmo tempo ficamos sabendo de outros motivos mais profundos e tocantes, que o levam a sair de casa - trata-se menos de uma expedição pela ciência e muito mais uma aventura para se entender e compreender um acontecimento fundamental de que ele fez parte. Muito bom, um dos melhores que vi.
Suzanne (2012, Katell Quilévéré), com Sara Forestier, François Damiens, Adèle Haenel, Paul Hamy. A história dessa moça, Suzanne, me ajudou a entender como é o processo das pessoas que não podem, mas não conseguem mesmo ficar longe de problemas. Sim, claro, é por amor, grande parte das encrencas em que ela se mete é por amor, mas como a moça demora pra aprender vai me dando um pouco de irritação. No final, não contente, ela ainda volta pra cadeia pra purgar um pouco mais os pecados. Não achei muita coisa além disso.
Eu, mamãe e os meninos (2013, Guillaume Gallienne), com Guillaume Galliene, André Marcon, Françoise Fabian, Diane Kruger. Esse parece ser um filme bem ambicioso, porque trabalha o tempo todo insinuando, sugerindo e mostrando situações de um rapaz possivelmente gay que, ao final, dá uma volta em todo mundo. Ele é engraçado, tem humor ferino, sofre bullying e dá vexames muitas vezes - tudo segundo um certo figurino meio estereotipado do gay. O ator faz muito bem tudo que faz: ele mesmo e sua mãe, uma personagem bem cruel, sobretudo em sua relação com esse filho, especialmente.
Toda a história está bem armada para direcionar o espectador ao modelo um tanto fake de homossexual, corroborado pelos que estão a sua volta - familiares, amigos, colegas. Mesmo o riso é uma coisa meio cúmplice do estereótipo - rimos do que todo mundo ri quando um gay faz "cenas". O que acontece no terço final, ou quase ao final, é uma revirolta que me pareceu meio artificial, embora o filme suporte o turning point sem se destruir. De repente, o riso fica parado na face e vemos um ator em cena, conversando conosco, sua platéia, a respeito do que se pensou que se viu. Ele vai fechar a peça em que atua, contando a história dele e de sua mãe, e ao mesmo tempo vamos sendo apresentados ao verdadeiro Guillaume. Trata-se de uma jogada de cena, e também de uma visada mais esperta do que propriamente dramática, embora haja drama também nas cenas, o que me fez ficar numa posição dúbia quanto ao valor do que vi, do que vejo. Foi como ter sido passada para trás, ter sofrido um golpe de esperteza - muito bem feito, com ótimas atuações, mas insidioso, e golpe. De todo modo, ele vale ser visto sobretudo pelo tour de force do ator (e diretor) que faz o protagonista, muito bom nos dois papéis.
Um belo domingo (Nicole Garcia, 2013), com Louise Bourgoin, Pierre Rochefort, Dominique Sanda trabalha a ideia do homem solitário, do jovem interessante que guarda um segredo e que será revelado por artimanhas do amor por uma mulher, e do afeto por seu filho. A história dele é bem interessante, e o filme é muito bom de ver, tem aspectos não simplistas quanto aos valores da vida, da grande riqueza e das escolhas que importam na vida de cada um. Nos tempos de hoje, colocar em cena alguém que abdica de enorme herança em favor de um projeto pessoal no caminho da simplicidade é quase um conto da carochinha, mas a história é muito bem conduzida de modo que aceitamos aquela decisão como a coisa certa - tomar a decisão sobre os rumos que quer dar a si mesmo, sobre o melhor caminho e o que a vida realmente significa para ele, já é parte da constituição e da cura do interessantíssimo rapaz. E, afinal, ele ganhou o amor e um filho - a vida pulsa generosa para ele nesse momento, e ele vê isso, agora, pode reconhcer os dons que recebe - e escolher. Filme ótimo, a que se assiste com prazer.
Uma juíza sem juízo (Albert Dupontel, 2012), com Sandrine Kiberlain, Albert Dupontel, Nicolas Marié trata de um daqueles imbroglios entre pessoas bem diferentes, em todos os sentidos (classe social, valores) e como ao final a vida dá uma volta nelas, que terão de rever seus próprios valores e se adequar à movida dos novos e repentinos acontecimentos em torno deles. É interessante, sobretudo por conta da rigidez dos valores da juíza, e de como ela vai ter que rever quase tudo que pensou e construiu depois de bebemorar numa festa de final de ano da empresa (sempre elas, as tais festas, onde a desrepressão vigora). A atriz principal faz o papel de modo contido, com pontuais crises de histeria, e tudo fica bem divertido.
Um amor em Paris (Marc Fitoussi, 2013), com Isabelle Huppert, Jean-Pierre Darroussin é um típico filme francês, no sentido mais chão de tratar de forma contida, mas clara, a maneira como os franceses abordam a traição no casamento. É um filme para os dois atores, que brilham mesmo, ele talvez mais do que ela, que achei meio já-vi-aquela-expressão-antes. Bem mediano.
Grandes garotos (Anthony Marciano, 2012), com Alain Chabat, Max Boublil, Sandrine Kiberlain foi um dos mais engraçados, sobretudo porque explora a relação entre um homem mais velho e desiludido com a vida, e um jovem com todos os projetos em andamento, num momento em que ambos precisam engrenar uma outra marcha em suas vidas. Os dois são ótimos atores, belos, e o jovem vivido por Alex Boubil, além de tudo, tem de altura o que carrega de charme e talento. E a atriz que faz a mulher do casal mais velho é a mesma Sandrine Kiberlain, a juíza do outro filme. (Vistos seguidos uns aos outros, nos deparamos com os mesmos atores algumas vezes em vários filmes, fica meio engraçado). Mas desse filme também gostei bem.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
sem som
Se as palavras não conseguem mais a ordem do sentido, algumas imagens talvez possam dizer um som quase inaudível. Em tradução crua: sem a menor paciência pra escrever sobre o que quer que.
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