sábado, 23 de setembro de 2017

Mãe!

Mãe! Dir. Darren Aronofsky, com Javier Bardem, Jennifer Lawrence, Michelle Pfeiffer, Ed Harris 

Achei chato, pretensioso, um pesadelo ver a Jennifer all the time na telona fazendo caras e bocas de espanto e medo, menos um pouco o Javier Bardem fazendo o artista sem inspiração, e o homem-marido sem tesão pela mulher. 

Sim, quase todas as leituras sobre as experiências de viver o ato de criação e sua seca são possíveis, mas claro que aqui tudo se passa numa clave hiper over dimensionada. Menos do que a questão da criação e seu desejar onívoro, vi ali uma encenação dos egos inflados pela cultura contemporânea dos likes e selfies, sem os quais o homem-que-cria, ou o-que-pensa, passa a quase não existir. O artista hoje parece enlouquecido pelo aqui e agora do gostar público, e o diretor filma tanto o desejo absoluto por uma platéia faminta de sua obra, como a violência dessa aproximação e desse desejo sem limites. 

No final, uma das cenas mais kitschs do filme me deixou com o sentimento de - putz!, mas precisava aquilo? O coração de mãe é assim tão visceral? Tenho minhas ressalvas e dúvidas, e se o coração de mãe, como símbolo de amor absoluto, doação e entrega máximas, permeia a ideia da cena final, ela se segue a sequências que me pareceram mais um episódio da série-que-nunca-segui, onde vigoram os zumbies. Tais os adoradores do poeta! Do poeta! 

Em mais uma boutade que só se pode ler como soberba ironia, a grande arte, a magnífica arte que arrebata o público e enlouquece os fãs do artista não pertence ao universo imagético, como sói acontecer na atual cultura, mas ao mundo da p.a.l.a.v.r.a!!! Aquela multidão amorfa e enlouquecida quer um poema, uma obra que incendeia o coração e arrebata as almas feita de palavras?? Essa só pode ser uma grande e escandalosa piada, pensei - e fui deixando a sala, entre irritada e impaciente. 

sábado, 12 de agosto de 2017

O filme da minha vida

 O filme da minha vida. De Selton Mello, com Johnny Massaro, Vincent Cassel, Bruna Linzmeyer, Bia Arantes, Ondina Clais Castilho, Martha Nowill, João Prates, Antonio Skármeta, Rolando Boldrin.

Sim, gostei muito de O filme da minha vida (quem não?), embora ele pudesse ser só um pouquinho mais enxuto. Antes de falar por que eu gostei dele, devo observar que nunca, never, em nenhum outro momento de nossa produção cinematográfica recente, eu vi uma equipe divulgar de modo tão avassalador, e profissional, um filme brasileiro - nem em Tropa de elite eu vi isso. 

Mas talvez porque eu esteja na midia social mais adequada a tais projetos culturais - o instagram, em que pequenos vídeos e fotos passam na timeline, não tomam muito tempo, mas causam efeitos. Assim, Selton Mello, mais a produtora Vânia Catani, têm dado um show de competência e inundado as redes com todo tipo de divulgação, sejam pequenos depoimentos dos espectadores, sejam flashes do filme e de seus bastidores, bem como premières pelo país com cinemas lotados e conversas dos artistas, sobretudo de Selton, com vários apresentadores de programas de TV. Enfim, o diretor tem sido incansável, e o filme tem correspondido a essa divulgação massiva.

Então, meu sentimento em relação ao que vi (na estreia, primeira sessão do cinema Odeon, quase vazio, delícia) foi a de estar no território do simples, do que faz bem à alma, no campo dos afetos que aparentemente se perderam, mas nunca morreram, e continuam espraiando sua força e sua vida nas vidas dos personagens, até que finalmente tecem seus fios e vão alongando seus desejos para reafirmar-se mais à frente, sem grandes abalos, nem perfídias, nem vinganças, nem ressentimentos. 

Um filme cheio de bons sentimentos, todos, até os que torcem o caminho do amor o fazem sem crueldade, apenas por aproveitar um atalho que a vida ofereceu - o personagem do Selton nem é mau, só tolo, maladroit, e um pouco aproveitador da chance que o outro lhe deu, e sequer chega a realizar o desejo secreto que o moveu. Achei bonito o modo como o filho reconquista sua história, como o cinema o ajuda a se recompor com o pai, com sua infância e, sobretudo, como a generosidade é um ativo para toda aquela comunidade. 

Um filme de onde se sai melhor do que se entrou, mesmo que por alguns instantes. Nem dá vontade de fazer contraponto com o país - não cabe nesse mundo da tela a barbárie real em que estamos mergulhados. 

Merci, Selton! Você tem trabalhado feito um estivador para fazer o filme andar - e acho que tem valido a pena, e o esforço. 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

De canção em canção

Cansada para falar De canção em canção, Terrence Malick, com Natalie Portman, Michael Fassbender, Ryan Gosling, Rooney Mara, Cate Blanchett. Achei muito impressionante a coisa toda, e por vezes entediante o por onde ele nos leva naquele mundo delirante em busca de uma liberdade que não existe, jamais existirá para nenhum humano, não naquelas sendas trilhadas por seus personagens, todos artistas do meio musical, mais perdidos do que centrados, uns mais que outros, vão-se esbarrando - e a palavra é essa mesma, eles se esbarram, transam, procuram no outro o que falta no caminho de cada um, no sentimento, na vida, na história, no amor que não há, até que vão entendendo, e os que acham o amor, acham; os que não, se matam - acho justo, acho digno. Mas as mulheres sempre chorando mais que os homens, porque eles aprontam mais? Não, porque mulher chora mais mesmo, e eu detesto mulher chorosa, ou chorona. Enfim, sobram os pedaços de uns, os inteiros possíveis de outros, mas a fotografia é sempre belíssima, os cenários estranhos e mutáveis todo o tempo, um mundo mental entre o onírico e o simplesmente delirante, louco.

De todos os cacos que formam esse vitral fílmico, os cacos relacionados à performance musical dos astros mais me irritaram, por estereotipados, salvo as cenas quase lindas com a Patti Smith - terna figura, meio-bruxa, meio-sábia, sendo generosa com a personagem de Rooney Mara. 

E de tal colcha de retalhos, quase nada me deslumbrou, como parece ser o desejo do filme: - olhem, admirem o fim de tudo que é desejo, amor ou ilusão de afeto. A vida é estilhaço, apenas - foi o que as imagens cortantes e cortadas me disseram. Eu ouvi, vi, e me retirei, entre cabisbaixa e decepcionada. Há mais, Malick, e há outras formas mais bacanas desse mais. Ou desse menos. 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Soundtrack

Soundtrack. Direção 300ml, com Selton Mello, Ralph Ineson, Seu Jorge. 

Há pouco tempo fui andar por São Paulo e acabei vendo (com duas amigas virtuais paulistas que se tornaram presenciais) a peça Constelações, com Marília Gabriela (a quem sigo no instagram) e Caco Ciocler. As duas amigas detestaram, mas eu simplesmente amei a peça. 

Gostei de tudo: das repetições, do trabalho de atriz de Marília, sobretudo o controle da voz que ela empreende, o esforço hercúleo que deve ter sido ela mudar seu tom de voz firme e contundente, que usa em seu trabalho de jornalista, e moldá-la para ser a voz hesitante e suave de Marianne, aquela que vai-se mostrando ao longo da história de modo mais intenso. A peça é difícil, repete-se infinitamente, e vai modulando nessas repetições uma história que vai ficando cada vez mais interessante, para mim, que fui ficando cada vez mais presa em tudo e em todos os pequenos detalhes, e amei cada momento. No final, aplaudi de pé. 

Tudo isso pra dizer que esse filme da dupla 300 ml (mais informações sobre eles aqui ) é diferentão, estranho, e belíssimo. Não importa que não tenha quase história, mas ter sido filmado sob (e sobre) o gelo mais gélido e numa paisagem quase toda branca todo santo dia - tudo isso me interessou muitíssimo, além do trabalho magnífico de Selton Mello, com seu inglês perfeito, e de seu colega Ralph Ineson, os que mais ativamente contracenam, e por onde a história circula melhor. 

Acho que o filme propõe uma discussão sobre os limites da arte e da vida, além de confrontar o valor da ciência frente à arte para o avanço da vida entre nós, terráqueos. Na primeira vertente, ele trabalha a ideia de até onde se pode ou deve ir para fazer o que parece necessário a fim de construir um objeto de arte conforme o desejo que se impõe ao artista, além de constituir-se como metáfora da solidão criativa - em sua concretude de cenário, de personagem, de projeto, e das relações hesitantes, difíceis mesmo, que eles intentam criar no exíguo espaço que lhes cabe compartilhar. 

Enfim, vi o filme como uma história sobre aproximações humanas, e sobre a inexorável fome do artista em face de sua arte. 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Três filmes, mais um

Paris pode esperar. Dir. Eleanor Coppola, com Diane Lane, Alec Baldwin, Arnaud Viard.
Tudo a ver com Sob o sol da Toscana (2003), em que a mesma atriz protagoniza um filme romântico de semelhante extração - bonito, bem feito, em cenários de cidades onde quase qualquer pessoa pode desejar viver, bem como experimentar as aventuras leves, divertidas, sem culpas, tranquilas, superficiais e sensatas, com direito a paquera amorosa e tour gastronômico com o casal, nessa ótima história. Tudo corre lindo, leve e solto no filme, que foi feito para nos proporcionar prazer, alegria e bem estar, na medida certíssima do bom senso e da sobriedade. Eu agradeço todas as delicadezas, gostei demais de sentar às mesas todas dos restaurantes onde o casal esteve, amei os passeios todos e vi feliz esse filme que não me exigiu nada além da entrega - o que fiz com prazer.

Quero a sequência com os casal aos 70 anos, espero ainda estar viva até lá para continuar nossa aventura sob o signo da leveza. 

PS: Tomara que ela aceite o convite dele e vá aonde ele marcou. 

Na vertical. dir. Alain Guiraudie, com Damien Bonnard, India Hair, Raphaël Thiéry.
Se em Um estranho no lago, filme anterior do diretor, o sexo entre homens é o tema e leitmotiv, misturado a um certo clima de mortes e mistérios, aqui parece haver um escancaramento na proposta de abordar o sexo, agora como uma espécie de compulsão - o protagonista passa por várias situações um tanto confusas, até se tornar pai e, de certo modo, ficar paralisado naquele papel - ele não avança em seu caminho de vida, não sabe o que fazer daquele dom que descobriu em si, nem do bebê propriamente dito, já que não consegue cuidar dele, nem instalar-se em algum lugar que sirva de lar, abrigo, ou proteção para a criança. 

O filme fica banzando como o pai, de lá pra cá, e meio que se finca nas cenas fortes, três ao menos, que impressionam e impactam o espectador - um parto em amplo close; uma cena de cunnilingus também em close, e uma penetração entre homens que eu achei meio artificial (pelo tamanho que me pareceu exagerado, ou falso, do pênis), mas que ao cabo se mostrou extremamente erótica, sobretudo pela relação imediata com a morte e, na sequência, com o pós orgasmo, como o nomeiam os franceses, e está em nosso imaginário - la petite mort.  
De todo modo, a par dessas cenas contundentes, achei o filme meio sem destino, e talvez tenha sido essa sua proposta. 


Kiki - os segredos do desejo. Dir. Paco Léon, com Natalia de Molina, Álex García, Anna Katz.
Já esse Kiki, que prometia pelo trailer um filme bem centrado nas questões de sexo, fica mais no nível das brincadeiras eróticas, das taras bem leves e com alguma graça dos personagens. Um filme que se vê sem grandes arroubos, mas com algumas boas risadas.


Dégradé. Dir. Tarzan Nasser, Arab Nasser, com Hiam Abbas, Maisa Abd Elhadi, Manl Awad. 
Talvez pelo espaço de confinamento em que se transforma o salão de cabelereiro onde as mulheres se encontram, e terminam meio aprisionadas, o filme também acabou me cansando, mesmo sendo uma história necessária em seu empenho de retratar uma guerra infindável, ao mesmo tempo que encena o outro lado da vida: as necessidades do cotidiano e do universo femininos, representadas pela mulher que vai ter um filho; pela outra que vai casar e precisa estar maquiada e bem penteada para a cerimônia etc - situações que parecem nunca chegar ao fim, em razão dos transtornos trazidos por uma sequência de ataques violentos na rua em frente, de que só se ouvem os fortes ecos. 

Enfim, um filme que sufoca, menos pela questão da violência explícita da guerra, do que pelo confinamento das mulheres a tão restrito espaço - mental e físico.   

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O círculo

O círculo tenta fazer o retrato um tanto aterrorizante dos tempos midiáticos, onde não há praticamente privacidade, nem quase individualidade, e a mocinha (bem mocinha mesmo, quase uma Hermione do mundo fictício-real mostrado na tela) se dispõe, por livre e espontânea vontade, a fazer de sua vida um personal reality, ou seja, nada do que faz deixa de ser visto e comentado por bilhões de pessoas all over the world - a coisa é mesmo massiva, como eles gostam - toda a humanidade olha, vê, comenta, palpita (tá, o exagero foi o filme que autorizou). A atriz Emma Watson se sai bem, mas nada que tenha me parecido novo no conjunto de seu trabalho.

Achei tudo meio - se não inverossímel - bobinho demais, excessivo, com furos de plot - afinal, ninguém mais sabia da existência do personagem Ty Kalden, criador do programa mais ambicioso da empresa? Não achei convincente que ele possa ser tão invisível quanto deseja, num universo mental e ambiente profissional onde expor-se é regra básica de qualquer iniciante. Enfim, achei que tem furos, me pareceu inconvincente, e o que de melhor vi ali foi a atuação de Tom Hanks, muito bom e muito à vontade no meio da garotada. Deu de dez.

sábado, 10 de junho de 2017

Neve negra

Neve negra. Martin Hodara. Com Ricardo Darín, Laia Costa, Dolores Fonzi, Leonardo Sbaraglia. 

Achei Neve negra uma obra prima. Obríssima mesmo, tudo perfeito para mim: síntese, direção, fotografia (na Patagônia gélida, mais que gélida, eu mesma senti frio ao longo do filme todo), roteiro, atuação magistral de Darín, e também dos outros dois atores que trabalham o tempo todo. 

Não achei furo na história, não vi as antecipações que menciona o Janot, fui entendendo à medida que os fatos iam sendo rememorados, junto com os flashbacks de Marcos, e só fui perceber o inteiro teor da coisa quando o diretor quis que eu soubesse. Amei, me assustei, me emocionei, fiquei com raiva, claro, e saí do cinema com o peso de ter entendido o nível de solidão daquele homem, a quem Darín incorporou tão bem: a expressão, o olhar, a dureza, a alma angustiada e o jeito simples dos homens inteiros, que sobreviveram a formas variadas de expiação. 

Um filme para não esquecer, para pensar em nossos limites, e nos limites das instituições que nos configuram; nos abandonados da terra, nos puros e nos que reconhecem pelo cheiro os que lhe são pares. Farejadores. Víboras cujas línguas se cruzam, se casam. Os que causam mal, e os que sobrevivem a quase tudo, contando com sua própria força - aquela que foi sendo gestada e tecida na solidão de um cenário inóspito, cruel, absoluto. Os absolutos. Os absolutamente sós. Enfim, um puta filme.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Mulher maravilha!

Filme blockbuster ótimo, com o charme extra de mostrar a força e a extrema qualidade da diretora e da protagonista, ambas excedendo em seu métier num universo-gênero cuja primazia tem sido solitariamente masculina desde que o cinema existe. Espero que seja uma franquia também de muito sucesso, e que mais mulheres ousem nesse nível de excelência!
Ah! @QueroMaisMulherMaravilha!
E todas as outras maravilhas de que somos capazes.

domingo, 28 de maio de 2017

Comeback

Vi ontem 'Comeback - um matador nunca se aposenta', e gostei muito, mas muito mesmo do trabalho magistral de Nelson Xavier, sem o qual não haveria o filme. Ou seja, a história só existe porque o ator a faz existir, com seu carisma, seu talento, seu magnetismo, mesmo que por vezes, entre algumas cenas de violência sem histeria, haja alguns tempos mortos, repetições, vagares, que são parte do contexto de decadência em que vive o protagonista, mas também se reflete no andamento da ação, num certo vai e vem, sobretudo nas cenas sobre a máquina caça-níqueis que, se conseguem várias risadas da platéia, também a horas tantas cansam um pouco. Acho que o filme tem falhas, mas ver o último e excelente trabalho de Xavier vale muito a ida ao cinema. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Três comentários curtos: Norman, confie em mim; Vermelho russo; Corra!

Norman, confie em mim. Não estou certa de que esse tipo de personagem seja inerente à sociedade estadunidense; acho que pelo menos a carência absurda que comanda sua vida pertence a qualquer pessoa, em qualquer lugar. Mas talvez o modus operandi seja próprio das sociedades mega capitalistas e competitivas, essa coisa de influenciar e conectar as pessoas para dali tirar benefícios financeiros, o jogo de poder que o conhecimento da pessoa certa pode trazer. Apesar de um pouco longo, o filme mostra de forma contundente o enorme vazio na vida desse homem, interpretado de modo intenso e convincente por Richard Gere - e como ele transforma o "fazer pelos outros" no sentido de sua vida. Não se trata de generosidade, no sentido cristão de doar-se sem esperar recompensa; ao contrário, trata-se de criar os laços possíveis, não de afetos, mas de pontes entre as necessidades dos outros. Norman é o que se faz ponte, já que não consegue, e nunca foi capaz, de criar laços. Um filme sobre a esterilidade das relações, o uso que se faz das e entre as pessoas, e sobre a carência absoluta de um homem.

Vermelho russo. As duas atrizes que vão fazer um curso de teatro na Rússia (Moscou?) são ótimas, o plot é muito bom, porque se fala de interpretação ao mesmo tempo em que nas relações pessoais das duas vão acontecendo desgastes, rupturas, atritos normais entre pessoas que se conhecem, se gostam, mas estão vivendo uma experiência quase de exílio, num país de cultura extremamente diversa. Mas o que me comoveu mesmo, de verdade, foi o subtexto: o lugar onde elas ficam é uma espécie de hostel, ou um tipo de pousada de baixo custo, em que vivem vários velhinhos, bem como enfermeiras que cuidam deles (parece um serviço custeado pelo estado, mas não fica clara essa situação). O fato é que a velhice e uma certa nostalgia do passado dessas pessoas acabaram se tornando o filme para mim. Vi ali uma Rússia derrotada pelo capitalismo, e seu povo empobrecido, em cujas vidas o brilho vem de um lugar lá atrás, quando havia energia, frescor, vivacidade. Situação que, acredito, ocorrerá em algumas décadas no Brasil - eu, particularmente, já a vivo na velhice de extrema carência de minha mãe, que me coube suprir, por falta de outros apoios -, sobretudo se não conseguirmos reverter o golpe fascista que tomou o país de assalto e vai deixar o povo, os velhos sobretudo, de joelhos, mais pobres do que sempre foram.

Corra! Ótimo trabalho que envolve questão de raça e terror, num approach fortemente diferenciado quanto ao preconceito e ao arianismo fascista de uma parcela branca cínica da América, ou de qualquer outro lugar. Muito bem feito, só aos poucos a trama vai-se revelando em toda sua estrondosa bizarrice e crueldade. Mas a volta por cima do herói retoma um pouco aqueles filmes vermelho-sangue-serrotes, sem nunca chegar à breguice deles. Gostei muitíssimo.