quinta-feira, 13 de outubro de 2016

FestRio 2016 - Os belos dias de Aranjuez; Loving; Voyage of time; O ornitólogo

Os belos dias de Aranjuez, de Win Wenders, com Reda Kateb, Sophie Semin, Jens Harzer, Nick Cave.

Entendi finalmente a importância do 3D para Wenders – aqui, esse modo de filmar torna-se imprescindível, um achado mesmo. O filme é muito bom, um legítimo Wenders no sentido de que é cinema de arte, sem concessões, e ocorre do seguinte modo: um escritor senta-se em sua mesa de trabalho, acompanhamos seu processo de escrita e seu olhar para fora da sala, e da máquina de escrever, e vemos um casal conversando - são os personagens que ele está criando, presentificando-se no filme que vemos.

Eles conversam sentados em torno de uma mesa redonda, e a sua volta um jardim deslumbrante, absolutamente local de todas as delícias da beleza natural, expande-se a nosso olhar por graça e obra do 3D, nunca antes visto dessa maneira por mim - cada detalhe das plantas, das cores, da brisa que faz esvoaçar folhas, flores, tudo é paradisíaco. 

A conversa gira em torno de histórias da vida de ambos, cujos termos são previamente combinados, como encenadas num palco, como falas de personagens de um teatro. Eles falam de sua infância, dos amores, da primeira vez etc - ela, mais que ele. Essas conversas não são entrelaçadas, são meio soltas – ela fala dela, ele ouve, depois ele fala sobre a experiência dele em Aranjuez, mas não há relação entre o que ela diz, e o que ele responde, ou melhor, ele não responde, ele encena sua fala. 

Num certo momento, ela se empolga com a questão do amor, do sentido do amor para a mulher que ela é, e diz umas coisas muito estranhas, para mim, sobre a majestade do amor submisso, de um tipo de amor de mulher que se entrega a um homem e que diz ‘sim’ a uma espécie de submissão, ou seja, tudo que nós, mulheres, hoje, refutamos. Mas no contexto de tudo que diz, do modo como vê esse ato como entrega total, acho que faz sentido. Na verdade, tudo é tão puramente encenado ali, que fica difícil trazer as experiências relatadas por ambos para a vida real, ou lhes emprestar nossos valores. E há vários níveis de encenação: o escritor que escreve e ouve músicas de Nick Cave, que depois aparece ele mesmo tocando uma canção romântica; a conversa entre o homem e a mulher, cujos temas e o modo de abordagem foram pactuados entre eles, teatro, portanto; há todo o tempo em cima da mesa do escritor uma pequena maquete da cenografia onde ocorre a conversa do casal: uma mesa redonda e duas cadeiras vazias. 

Enfim, o filme é puramente arte, encenação, e deslumbramento causado pela paisagem capturada por essa técnica em 3D, em seu pleno estado de arte: cada folha, cada flor, cada planta, tudo tem vida, é pulsante, lindíssimo - tive vontade várias vezes de fotografar as flores, ou de comê-las. 

Gostei muito de 'Loving' (Jeff Nichols. Com Ruff Nega, Joel Edgerton, Michael Shannon, Marton Csokas) porque trata da primeira família interracial na Virgínia, que luta durante mais de 10 anos na justiça, e ganha na Suprema Corte, o direito ao casamento, e consequentes direitos civis. As duas horas do filme passam leve, nada atrapalha nosso interesse pelo sucesso daqueles dois. Filme ótimo, inteiro em seus valores e bem conduzido sempre.

Já 'Voyage of time: Life's journey', super esperado Doc do Terrence Malick, me pareceu um percurso longo por todos os cantos do planeta, com imagens estonteantes, de beleza acachapante, de ar, terra, fogo, mar, com privilégio desse último, de seus seres estranhos e magníficos, alguns dos quais já vistos em Docs do National Geographic, via Netflix. Um detalhe: a voz narrativa é bela, mas repete-se bastante sua interpelação à mãe terra; e nós, humanos, quando aparecemos, não estamos bem na fita. Na verdade, somos os scumbags of the earth. Ressalto ainda que a fotografia é de uma qualidade desconcertante - tudo se vê nos mínimos detalhes, até lágrima em pedra (rs).

O ornitólogo, de João Pedro Rodrigues. Com Paul Hamy, Xelo Cagiao, João Pedro Rodrigues, Han Wen, Chan Suan. Trata-se de um filme franco-português meio inacreditável, que trata do seguinte: um estudioso de aves está observando cegonhas negras, espécie em extinção. Em certo momento ele entra no caiaque, para ir embora, e se distrai olhando mais uma vez seus pássaros queridos. Acontece o que a gente já sabe: o rio tem rios corredeiras, o caiaque vira, e ele será encontrado mais tarde, desacordado, por duas chinesas meio loucas, que estão perdidas na mata. A partir daqui, senhores, eu não posso dizer que a coisa flui, porque a perdição do homem foi a perdição do filme.


A gente entende que a proposta talvez tenha sido a de construir uma fábula sobre a transformação do homem sob situações difíceis, extremas, mas a coisa toda degringola de tal maneira, vira uma história sem pé nem cabeça, e ao final a redenção acontece, meio que na marra, ou seja, infringindo todas as leis de uma lógica qualquer, ou de uma certa verossimilhança, mesmo fílmica. A paisagem é muito bonita, mesmo, mas esse filme foi visto depois do deslumbre de fotografia do filme de Malick, então achei meio embaçadas até mesmo as cores dos vastos ambientes que, me parece, constituem suas melhores qualidades.

FestRio 2016 - Capitão Fantástico; A canção do por do sol; Nocturama

Capitão Fantástico, de Matt Ross, com Miggo Mortensen, Ann Dowd, Charlie Shotwell, Elijah, Stevenson, Erin Moriarty, Galen Osier e outros.
Um filme ótimo, cheio de valores nobres no modo como o pai decide criar os cinco filhos no meio da floresta, depois que sua mãe parte em busca de tratamento para TOC. Ele mantém todos ocupadíssimos, com agenda para várias atividades, que devem ser cumpridas como se na escola estivessem. Na verdade, a educação deles é esmeradíssima, semelhante aos valores clássicos, em que mente e corpo são adestrados em seus limites, para melhor saúde da alma e do corpo. Até que uma notícia trágica os leva de volta à cidade e alguns problemas tornam-se incontornáveis. É bonito ver como a liberdade e a transparência podem, idealmente, unir e tornar forte uma família, frutificar em seres interessantes e possantes. O filme é pra cima, bonito, e nos comove, nos dá esperanças.

A canção do por do sol, de Terence Davies, com Agyness Deyn, Peter Mullan, Kevin Guthrie. Trata-se de um filme longuíssimo, a  história de uma moça, Chris, cheia de afazeres na fazenda onde nasceu, cujo pai é violento, bate no irmão com fúria, até o dia em que ele parte, ela cresce, seu pai morre (e precisava mesmo, era um cão), ela conhece um rapaz de nome Ewan, eles se casam, são felizes por um tempo até que a eclosão da Primeira Guerra leva o rapaz aos campos de batalha, de onde ele volta uma vez extremamente violento, e depois o vemos ser fuzilado por deserção. O filme é rigorosamente isso, mas tem para salvá-lo em suas duas longas horas uma paisagem deslumbrante do campo, do milharal, das imensidões. Então, para mim, o filme valeu pela fotografia, a história não me disse nada.

Nocturama, de Bertrand Bonello, com Finnegan Oldfield, Vincent Rottiers, Hamza Meziani, só vi até talvez a metade porque fiquei impaciente com o vaivém dos personagens, cada um fazendo uma coisa em um lugar diferente, sem aparente ligação. Mas a história gira em torno de um grupo de jovens da periferia que realiza uma série de ataques em Paris, e o modo de encenar o encontro dos jovens, pelo menos até onde vi, me irritou, porque é aquela coisa meio elétrica de focar um fazendo uma coisa, depois outro, e assim segue, as coisas são filmadas soltas, para mais tarde, provavelmente, fazer sentido. Eu logo perdi o interesse, e não pude saber como aqueles fios soltos se juntaram e deram um curto circuito geral, hélas.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

FESTRIO 2016 - Eu, Daniel Blake

     Assisti no domingo, e acho imperativo ver "Eu, Daniel Blake", do Ken Loach - magistral, vencedor da Palma de Ouro de Cannes com louvor. Um painel sucinto e perfeito do que está posto para nós depois do golpe. Lá, como cá, tiraram e tirarão ainda mais nosso chão, e nossa dignidade.
     O filme trata de vida de um marceneiro, ou seja, um trabalhador de ofício, logo, algo que está entre a arte e a grande produção. Ele tem orgulho do que faz, o que em si já o distingue do trabalhador assalariado comum. Esse homem, Daniel Blake, sofre um ataque cardíaco, está em processo de recuperação, e enquanto acompanhamos seu périplo em busca da ajuda financeira do Estado, a que tem direito, ele se depara com uma jovem, Katie, e seus dois filhos, despejados do apartamento onde moravam em Londres e, sem opção, enviados para nova moradia, nessa outra cidade, New Castle, distante da família, da escola dos filhos.
     Quem conhece o universo de Kafka vai entender rapidamente o nonsense das situações vividas por Blake pelos meandros da burocracia estatal, que não está ali para ajudá-lo, mas para apagar seu nome do sistema de 'necessitados', numa política de massacre dos direitos trabalhistas que recém divisamos, a partir do golpe político-midiático-parlamentar instalado no país. Apesar de todas as adversidades, o homem aproxima-se dessa família de modo solidário e ativo, ajuda no que pode e como pode - são todos náufragos de um barco célere que os leva contra as altas ondas, os rochedos, e eles - os pobres, os sem emprego, os sem salário, os que têm fome - lutam como podem para sobreviver.
     O filme é de uma simplicidade acachapante e, por isso mesmo, de uma força devastadora. Aplaudimos no final, pela síntese perfeita que Loach nos oferece do mundo a ruir não apenas para uma Europa castigada, mas para nós, os periféricos, os que ainda vão provar com mais intensidade do pão amargo que os tempos nos trouxeram.
     E eu, que vivi 20 anos de minha juventude numa ditadura, que vivi também o arrocho do governo psdbista de FHC, eu saí triste e cabisbaixa. Me sinto cansada para os novos tempos, e as próximas lutas.


sábado, 8 de outubro de 2016

FESTRIO 2016 - Certas Mulheres; O mistério da Costa Coral

Dois filmes interessantes vistos ontem:

Certas Mulheres, de Kelly Reichardt, com as excelentes Michelle Williams, Kristen Stewart, Laura Dern e uma quarta extraordinária atriz, Lily Gladstone, que fala pouquíssimo, mas cujo olhar e atuação marcam intensamente o espectador, ou essa espectadora, embora pouca gente mencione seu nome. O filme trata de um momento, ou momentos, na vida dessas quatro mulheres, suas atividades e a forma como resolvem os problemas que lhes aparecem, em geral no campo profissional, e na vida familiar. Elas são pessoas comuns, e ao mesmo tempo singulares, porque inteiras no modo de estar na vida, íntegras consigo mesmas, e imprimem uma certa soberania a seus atos, os comuns, aqueles que praticamos, de um modo ou de outro, quase sem nos darmos conta. A diretora recorta e olha com atenção e perspicácia para essas mulheres, afirma e enfatiza a força dos gestos simples, das buscas, dos afetos, de suas possibilidades e desencontros. Tudo de forma delicada, sem alardes, quase num sussurro. Excelente filme.

O segundo foi um filme estranhíssimo, O mistério da Costa Chanel, do francês Bruno Dumont, um com Juliette Binoche, Fabricio Luchini, Valeria Tedesco, Brandon Lavieville e outros, cuja história parece muito simples :  uma família burguesa vai passar o verão em sua mansão no norte da França, em Baía Slack, e para atravessar o mar na maré baixa, precisam da ajuda de barqueiros pobres da região, que os carrega no colo, ou em barquinhos. Daí alguns visitantes começam a desaparecer, e um policial estranhíssimo porque imensamente roliço, a ponto de descer as dunas rolando, e seus ajudantes, começam a investigar tais desaparecimentos. Isso rende as cenas mais engraçadas, mas há ainda toda uma encenação quase grotesca no exagero dos atores do núcleo de burgueses: todos são caricatos, atuam para acentuar suas distorções de classe, e não sei se esse excesso resulta no que propõe. Eu, particularmente, achei chatas aquelas cenas super-mega-over dos integrantes do clã. Mais esquisito ainda é o núcleo oposto, o das pessoas simples quem servem aos burgueses – dizer que eles são canibais talvez ajude a entender o quão bizarro tudo parece ser. Para completar esse mundo de estranhezas alguns personagens voam – isso mesmo, literalmente voam, sem quê, nem por quê. Esse o filme que vi. Nem belo, nem chato. Esquisito, estranho. 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Onze semanas


Onze semanas, de Ernani Lemos (Portugal, Chiado Editora, 2015), é um romance sobre a difícil relação entre Claudia e sua filha Meg, que se encontram no momento final da vida da mãe, por conta de uma doença, e a quem a filha jamais perdoou o abandono.

No leito do hospital, vamos acompanhar essa difícil reaproximação entre as duas, a partir de pequenos relatos de Claudia, movidos a emoção e dor, feitos a partir de pedaços de um diário que ela escreveu exatamente para tentar explicar à filha o que estava na base daquele abandono, que segredos envolveram suas escolhas, suas decisões de afastá-la de si por duas vezes, o que praticamente inviabilizou a vida afetiva da filha, que carrega o forte sentimento de rejeição desde sempre, e a sensação de que o amor só pode machucar. 

O pacto narrativo organiza-se em torno de um mistério, e esse mistério envolve mãe e filha - já aí temos uma linha de interesse tanto universal, quanto particular: relações familiares conflituosas estão na base das grandes tragédias, de que Édipo seria um dos fortes paradigmas; mais ainda, o mistério promete ser desvendado a partir de uma voz narrativa, a da mãe, que está à beira da morte, vítima de um câncer terminal, o que de imediato deflagra a cumplicidade de mulheres, mães ou não, porque todos nós somos filhos de uma mulher, e sendo filha/filho, há conflito, e a história desde já nos pertence; além disso, o recurso que a mãe utiliza para ir esclarecendo aos poucos os segredos que a filha busca sobre a mãe, sobre seu abandono e, logo, sobre o vazio que constituiu desde sempre sua vida, sua história - esse recurso é ir entregando aos poucos páginas de um diário que ela escreveu, caso um dia a filha viesse procurá-la. 

Esse diário "aos pedaços", como a história de ambas as personagens, cria no leitor uma curiosidade crescente por seu desenrolar, e o que ele relata é motivo de conversas entre mãe e filha, de forma que o passado caminha unido ao presente ao longo da leitura do romance, e vai ficando cada vez mais difícil para o leitor abandonar aquela busca, agora de ambas, por um ponto em comum, ou seja, para a descoberta que fazem uma da outra, e do que as separou. 

Sim, claro, temos aí vários elementos para uma história que facilmente escorregaria para o piegas, mas essa é uma das ótimas qualidades do romance: muito raramente ocorre um ou outro deslize nesse campo. Via de regra, o que se impõe é uma história muitíssimo bem contada, e muito bem construída, utilizando técnicas narrativas bem exploradas, que levam o leitor ao passado e ao presente, cada vez mais ansioso para ver unidas essas duas pontas do tempo, e essas duas vidas, de que já somos cúmplices, torcemos pelo encontro e, por que não, pela redenção de uma, e o perdão da outra.

Os núcleos narrativos giram em torno, pois, da saga dessa família, composta por Claudia, a mãe; Paul, com quem ela se casa aos 14 anos, já grávida de Meg; Eric, o segundo filho, e um dos polos de afeto de Meg; Sandra, a tia com quem Meg vive alguns anos, e referência de amor materno para ela - todos os personagens imbricam-se nessa falta constituinte da personagem-filha que, de certa forma, conduz a narrativa em torno das perguntas cruciais, dos sentimentos de raiva e ressentimento contra o que ela vê como negligência da mãe - e o vazio inexorável que tais sentimentos produziram nela.

O autor vai nos aproximando aos poucos da história que Claudia vai reconstituindo para a filha, e vemos os personagens mudar, crescer, interagir, tentando entender os segredos, os dramas, as dores, os encontros possíveis e impossíveis, no presente e passado, ao mesmo tempo que as perspectivas de ambas a respeito das situações vão sendo desenoveladas lentamente, de modo que a partir de um certo momento estamos capturados, não há mais como sair daquele mundo narrativo e emocional até que a última página do diário seja lido, a frase que contém o segredo seja escrita e compartilhada, e o mundo possa começar a fazer sentido, enfim, para Meg - e para nós. 

O final talvez seja o possível para o momento da personagem, e o mais adequado para a economia do romance, mas ele nos deixa também uma brecha para acreditar que o poodle Azul venha um dia a conviver com o Fred, e torcemos para que isso venha a ocorrer. Afinal, Meg já faz parte de nossa família - a família escolhida.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Aquarius

Aquarius - Dir. Kleber Mendonça Filho, 2016. Com Sonia Braga, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, Humberto Carrão, Carla Ribas.

Aquarius é obrigatório, agora para maiores de 16 anos, porque é um filme raro, uma pedra preciosa, uma gema valiosa: um filme sobre a maturidade de uma mulher, sobre os laços, entrelaçamentos e guardados afetivos que permanecem na vida e na memória dessa senhora, belissimamente vivida, com sobriedade e sabedoria, por Sonia Braga e seus cabelos deslumbrantes, sua arte, doçura, talento, força, garra.

O filme é todo importante, tem um tempo diferente, longo, mas absolutamente necessário, porque esse tempo diz respeito às sensações, às emoções, aos sentimentos presentes e passados, sendo também um tempo de vinha que matura, como aquele momento em que ela diz  que está "tentando matar aquela garrafa de vinho" e faz outra coisa.

Percebe-se nitidamente que os atores todos abraçaram-se àquele projeto - de dentro do Edifício Aquarius projeta-se um filme que emana afeto, olhares intensos, fraternos, cúmplices entre todos os integrantes - há sorrisos, abraços, tragadas, conversas, danças; há desejos, cenas outrora-agora entre amantes, seres intensamente vivos, presentes, atuantes nas vidas de antes, e nas vidas dos que estão aqui, agora. 

E Clara - presente forte que Sonia Braga construiu e nos ofertou, nesse momento tão necessário em que se tenta cercar o país de arides e deserto, em que os cupins e suas ranhuras aparecem sobre nossas mesas, casas, paredes. Ela nos diz que é possível chamar Irandhir/Roberval, o bombeiro de terno coração e sorriso irrepreensível: ele ajudará, e outros, e outras.

Clara não está só, e tudo é muito bom de ver.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Não só de pão

Nem só de pão

Da varanda do quinto andar ela viu o homem idoso, muito magro, caminhando com dificuldade, dando um passinho, bem devagar, depois outro, e parar por vários minutos, recuperando o fôlego, para tentar arrancar nova passada, lenta.

Ela já o vira antes, nesse mesmo percurso, de uma ponta a outra do quarteirão, duas calçadas compridas, cuja travessia custava ao homem uma eternidade. Na esquina da rua, ele parou, ficou um tempo em pé, segurando no poste encimado pelo nome da rua. Depois foi-se arrastando e sentou no parapeito do jardim, ofegante.

Ela olhava lá de cima, atenta, curiosa, querendo entender por que tanto esforço naquele corpo magro. Até que ele acendeu o cigarro – era para isso, para fumar escondido, todo esforço e sacrifício daqueles passos trôpegos. O corpo magro, quase esquálido, mostra que a calçada, tortuosa embora, é o espaço inescapável do prazer, e do tormento.

Fuma por um tempo, e se levanta, devagar, começando o caminho de volta. Apoia-se na parede e avança dois passos, para diante da obra no caminho, estaca e descansa longamente em pé - ele fica longamente parado no meio da calçada, equilibrando-se.

Dois garotos de uniforme vêm conversando em sua direção, brincando, e ela se angustia – se encostarem nele, apenas triscarem nele, o derrubam, e os ossos à mostra se quebrarão. Mas eles se esquivam, pressentem talvez o desastre, e seguem seu caminho. O velho passa do portão onde deveria entrar – ela sabia que ele morava ali, já o observara nesse mesmo percurso antes. 

Dessa vez ele seguiu, passos cada vez mais trôpegos, até a esquina, e parou. E ficou lá, olhando para o outro lado da rua. Ela pensou: ele quer atravessar, mas não pode – se o fizer, com suas passadas lentíssimas, será atropelado.

Ela segue a cena – ele parado, instável, hesitante, na esquina do prédio e da rua. As pessoas passam por ele, ela teme, vendo lá do alto, que alguém esbarre nele e o derrube. Ela decide descer, ver se ele quer atravessar, ajudá-lo, fazer parar os carros para que seus ossos passem. Desce, chega perto e pergunta: o senhor quer atravessar? Ele responde baixo, voz rouca, quase inaudível, mostrando uma nota de cinco reais: quatro pãezinhos, por favor, e olha em direção à padaria em frente. Ah, era isso. Ela pega o dinheiro, atravessa a rua. Está aflita, sentindo que ele deve estar no limite de suas forças, tanto tempo em pé, pode desabar a qualquer momento.

Ela compra os pães, fala com as moças da padaria sobre ele, aponta do outro lado, diz – como o deixam sair sozinho, tão frágil? A moça no caixa responde: ele sai pra fumar escondido.

Ela leva os pães, entrega a ele, pergunta coisas: qual o seu nome? – Abílio. O senhor mora sozinho? Ele, baixinho, quase inaudível – Com a nora. Pergunta onde ela mora, ela aponta o prédio, diz que o viu da varanda. Ele segura seu braço com força, caminham devagar de volta a seu portão. Antes de chegar, ele pede a sacola com os pães, diz que ali está bom, pode deixá-lo. Ela deixa, mas bate no portão e chama o porteiro: - esse senhor precisa de ajuda, ele mora aqui. 


quarta-feira, 27 de julho de 2016

O monstro - leitura de um conto de Sérgio Sant'Anna

UM GOLPE DE MESTRE - Sobre um conto de Sérgio Sant'Anna 
                       (Vera Queiroz)

Há uma relação estreita entre os procedimentos narrativos que organizam a obra de Sérgio Sant'Anna, desde o livro inicial de contos Os sobreviventes, de 1969, chegando até o romance Um crime delicado (1998): em todas as novelas, contos e romances aparece o visceral desejo de experimentação da linguagem ficcional, e em cada uma das obras o autor radicaliza a pesquisa sobre os processos de narração, empenhando-se na criação de um estilo absolutamente original, que lhe tem conferido um lugar ímpar no cânone brasileiro, e diversos prêmios literários, entre eles três Jabutis.


Com O monstro não é diferente: trata-se de um conto exemplar quanto à exploração de linguagens que se superpõem, criando um universo multifacetado cujo resultado surpreende e captura o leitor, fascinado pelo constante estranhamento a que é submetido no processo de leitura, em que se mesclam os discursos jornalístico, jurídico e a reflexão filosófica acurada, e onde os rituais de transgressão são descritos de forma minimal, cooptando o leitor e tornando-o cúmplice, de algum modo, desse narrador voyeur e perverso. Inscrito no que a crítica, não sem controvérsias, tem chamado de literatura pós-moderna, o texto de Sant'Anna reflete sobre vários tipos de discurso, reduplicando-os magistralmente, de modo a criar um espelho que refrata textos e gêneros, personagens e consciências que os reduplicam, vozes que falam por si e por outros, subsumidos todos pela hábil manipulação desse mago desconstrutor de realidades.

A narrativa abre-se com uma peça jurídica perfeita. Trata-se de um relatório tendencioso contra o réu, Antenor Lott Marçal, 45 anos, acusado de cometer, junto com a cúmplice, Marieta de Castro, um crime hediondo: o estupro e assassinato da jovem e bela Frederica Stucker, com o agravante de que a vítima sofria de forte deficiência visual. O relatório obedece a todos os imperativos formais e jurídicos, inerentes a tal tipo de peça: há a descrição sumária dos envolvidos e do crime, o onde, o como, o porquê, em quatro parágrafos concisos e exemplares. O aspecto tendencioso mostra-se em recursos de enunciação que sublinham o ponto de vista do narrador, contrário ao réu, em frases como "drogada por seus algozes", "atraiu Frederica para aquela cilada", "surpreenderam dos policiais aos juízes" etc. Em seguida ao relatório, o narrador faz um briefing, em linguagem jornalística, apresentando a entrevista que se vai ler e tecendo comentários sobre o teor da matéria, que atiçam a curiosidade do leitor não apenas sobre os fatos que ele vai conhecer, em sua versão real, porque contada pelo autor, mas porque ele vai entrar em contato com algo possivelmente abominável, conforme insinua o narrador-jornalista, em frases como "o resultado dos encontros [...] surpreendeu até o jornalista habituado a conviver profissionalmente com os mais diferentes tipos de caráter humano" [SANT'ANNA, 1997:607], sugerindo que esse caráter, em particular, é especialmente monstruoso. Técnica jornalística, sem dúvida, mas também recurso literário que se sobrepõe no horizonte de expectativas do leitor, em sua relação com o texto, já que o pacto firmado entre ambos se dá na clave da ficção (pois trata-se aqui de um conto). A partir de então, o que se tem é o desenvolvimento de um outro tipo de expertise discursiva, em que o gênero jornalístico é explorado através da encenação de uma entrevista, supostamente dada pelo protagonista ao jornalista de Flagrante - note-se o campo semântico do nome dado ao jornal, que remete para o instantâneo, para a presentificação do fato, além de dialogar de modo claro com a linguagem policial.


É na entrevista que o leitor vai sendo apresentado a um sujeito (o réu) extremamente lúcido, cujo domínio completo da linguagem e das formas de expressão do pensamento o qualificam para a profissão que exerce: professor de filosofia. Aqui, Sant'Anna explora de forma magistral as contradições que residem na raiz mesma do comportamento humano, em sociedades complexas que, por sua estrutura heterogênea e por suas profundas desigualdades, pelo esgarçamento dos mínimos valores ─ éticos, morais, políticos, sociais ─ tornam-se permeáveis a todo tipo de perversão, na medida em que, quando os indivíduos são submetidos diuturnamente ao rebaixamento de quase todas as formas de dignificação dos valores, das forças morais, dos princípios de vida, o que se vai perdendo também é o contato com a sua própria humanidade, com a capacidade de discernir os limites dos atos sociais. Uma sociedade pervertida produz mais facilmente os perversos, de que Antenor e Marieta figuram como paradigmas. A narrativa dele deixa entrever, ao mesmo tempo, um domínio completo do pensamento, da palavra e da razão ─ professor de filosofia que é ─ e uma cisão profunda quanto aos valores que regem os atos, a determinação, a vontade, as paixões, enfim. O personagem narra, explica, busca compreender, distancia-se para ver melhor, mas continua imerso na aporia irreversível do ato sem sentido, da violência desmedida. O contraste entre a lucidez e o controle absolutos que o protagonista tem, seja da linguagem, em sua melhor retórica, seja dos mecanismos inerentes aos atos dele e de Marieta, contrastam com a incapacidade de ambos em regular suas paixões e vontades, sua incapacidade em colar, aos atos, os valores correspondentes, embora ele possa, a posteriori, reconhecer tais distúrbios, sem nunca, entretanto, chegar a nomeá-los. A racionalização se dá ainda dentro dos parâmetros do sujeito intelectual: desejo de verdade: "Mas outro aspecto importante é que sempre houve em mim, por minha própria formação, esse desejo de buscar a verdade. Eu não me conformava com todas aquelas versões mentirosas infamando Frederica, vinculando-a a drogas, a uma vida dupla". (SANT'ANNA, 1997: 631).


Menos do que o crime que descreve, o que qualifica o monstro a que se refere o título do conto diz respeito a essa incapacidade de colar uma ação hedionda a seu valor moral. O leitor pode nomeá-los, rubricá-los dentro das sociopatias conhecidas – voyeurismo, esquizofrenia, o que talvez seja outra forma de racionalização. Maior que a indignação face ao crime, sua hiperexposição sob forma de alta literatura transborda e fere de morte a doxa, o olhar acostumado, lançando para o abismo nosso bom-mocismo ingênuo. Essa a função das grandes artes: golpear o monstro que espreita toda forma de alienação.

______________
SANT'ANNA, Sérgio. O Monstro. In: Contos e novelas reunidos. Cia das Letras:1997, p.606-640.

Nota: Texto escrito para um curso da Faculdade de Direito, há vários anos, quando a autora ainda acreditava que poderia fazer outra faculdade, desta vez para defender os fracos e oprimidos. Chegou ao quarto período e rendeu-se.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Alguns poucos filmes da MostraAí 2014

A GATINHA ESQUISITA (Das Merkwurdige Katzchen, Alemanha, 2013. Dir:Ramon Zurcher Com:Leon Alan Bewiersdorf, Lea Draeger)


Obra prima inconteste – o diretor filmou, do começo ao fim, todo o universo existencial, psicológico e filosófico das obras literárias de Clarice Lispector, a escritora brasileira que fotografa com a palavra cada milímetro das sensações que perpassam o cotidiano das relações entre as pessoas e o mundo, os objetos familiares, os pequenos acontecimentos, seja ele olhar nos olhos de um búfalo no zoológico, seja o esvoaçar de uma pena no ar, ou o cruzamento fortuito de alguém no bonde com o olhar de um cego. Todos os contos de Laços de família estão aqui; todo o clima de A paixão segundo GH está aqui, até mesmo cenas que se lêem em Clarice estão filmadas como se transpostas para a tela – e isso independe de o diretor conhecer ou não a obra da autora brasileira, porque é um modo de estar no mundo que os aproxima, flagrantes da existência cotidiana que em ambos adquirem estatuto de obra de arte – sob a palavra, uma; sob as imagens, outro.

Essa é a primeira vez que vejo na tela uma obra literária em sua perfeita forma, ou seja, um filme feito de sopros, de sensações e observações  intensas sobre o mínimo, os objetos comuns, as situações cujos significados residem nas impressões que causam, expressas por pequenas, contínuas e intensas epifanias, como  se o cotidiano fosse pleno de riquezas, de sentidos que nos oprimem e nos excitam, como se a vida fosse esse diuturno brilho do singular e do comum, do banal, de onde se extraem as pepitas, o que comove, o que existe, o que pasma simplesmente por estar vivo, e pulsar e existir para nossos olhos.

Há cenas antológicas, como a da mulher que faz a mãe e tem uma relação difícil com o gato, e coloca o pé sobre o bichano, no vão da porta, aproximando-o lentamente do animal, como se fora esmagá-lo – dura um átimo e uma eternidade, porque ali estão resumidos todos os nossos desejos ancestrais de um dia ter esmigalhado um gato, um besouro, uma mosca, um inseto, um tudo; ou quando essa mesma mulher-mãe toma o leite onde há um pelo do gato, já quase no final do filme e da refeição com os amigos – ele toma o leite, e essa cena tem o mesmo sentido de comer a barata n’A paixão – uma redenção, talvez, em meio à culpa de que não se sabe bem o motivo, mas que está lá, sempre premente, e presente.

Há quase todo o tempo, igualmente, frases brilhantes, interessantíssimas, muitas vezes emoldurando uma situação comum, como quando a menina pergunta sobre os lóbulos dos pulmões:
_ Que são lóbulos?
_ São as asas dos pulmões. Para que voem, quando necessário.
Ou quando uma das filhas está olhando pela janela, provavelmente vendo lá fora o cão da casa, e observa para o rapaz, que parece ser o marido, ou namorado:
_ Não queria ser um cão preto no verão.
_ Ainda não é verão.
_ Queria ser um no outono?
_ Aí, sim.


CRIANÇA DE DEUS (Child Of God, James Franco, 2013). Com Scott Haze, James Franco, Jim Parrack, Tim Blake Nelson

O filme é muito bom, na verdade um tour de force do ator Scott Haze, que leva o filme inteiro em sua interpretação brutal, na pele de um homem que perdeu o pai aos dez anos e, vivendo a esmo e no ermo da cidadezinha, vai-se tornando cada vez menos um homem, e cada vez mais um sujeito doente de solidão, que o leva aos poucos a uma forma de loucura, mas com um sentido agudo de sobrevivência, buscando descobrir como sair das situações difíceis que aquela sua existência comporta. A partir de um certo momento, esse estado esgarça-se, e ele se aproxima de práticas mais bestiais, e será desse lugar, em que todos os sentidos retesam-se para garantir a sobrevivência, que ele se vê um quase selvagem, matando a sangue frio para manter sua recém descoberta possibilidade amorosa: a necrofilia.


O modo como o diretor James Franco apresenta sua história não permite ao espectador julgar as ações desse (quase) homem de um ponto de vista das normas sociais – ele é acompanhado pela câmera, pulando e caçando, evacuando e matando um bicho aqui e ali para alimentar-se, de modo que quando ele mata um homem quase sem pensar, e depois a mulher, não há aparentemente nenhuma mudança brusca – o pássaro morto mata sua fome de comida; a mulher morta mata sua fome de sexo e de amor. Assim, acompanhamos sua descida na escala humana, em direção ao seu estado mais duro e mais brutal, ao mesmo tempo em que vai descendo para o mais fundo da caverna, achando os buracos onde se abrigar e guardar o que ama - a mulher, os bichos de pelúcia. Mas perder é de sua natureza de ser híbrido - entre bicho e gente, então ele perde o braço. Mas não a vida. Essa segue a trilha dentro das pedras, por um caminho que só os íntimos da natureza conhecem, e ergue-se por fim em meio a uma campina vasta – essa cena final, em que ele corre e grunhe de alegria, mostra um ser que caminha para um lugar indecidível na escala humana.

Um grande filme, em que se percebe como Franco foi certeiro ao deixar seu ator agir, e filmá-lo quase como o documentário de uma loucura anunciada. E sem esse ator, sem essa entrega absurda e visceral do ator ao personagem, não haveria o filme sobre a gestação de uma insanidade, passo a passo.  Muito bom, e muito terrível.

A SALVAÇÃO (Kristian Levring, 2014). Com: Mads Mikkelsen, Eva Green, Jeffey Dean Morgan, Eric Cantona.

É um ótimo faroeste, clássico, dos bons, com o talento de Mads Mikkelsen, com aquela expressão dura e concentrada, e a incrível interpretação de Eva Green no papel de uma mulher muda (porque lhe cortaram a língua), mas que fala pelos olhos mais do que elenco todo, fiquei impressionada com a força dela, mesmo já a conhecendo de alguns episódios em Penny Dreadful. Ela está soberba, sem falar, e quase sem piscar, puro ódio concentrado - muito bom.

ACEITA CARTÃO? (Julian Gilbey, 2014). Ed Speleer, Will Poulter.

Achei mediano, dá pra ver se não houver grandes expectativas - filme de trambiqueiros, como já vimos tantos produzidos pela matriz norte americana, e só o sotaque britânico não o diferencia deles, mas soa bem aos ouvidos, porque gosto do sotaque

PASSO EM FALSO (Starred Up, Reino Unido, 2013. Dir:David Mackenzie Com:Jack O’Connel, Rupert Friend)

Embora pertença a um gênero em que a violência comanda, e eu quase nunca me encontre num filme onde a testosterona dita quase tudo, gostei desse porque os dois personagens, pai e filho, se estraçalham ao mesmo tempo por ser o que são, e por desejarem ser diferentes, ou seja, a violência que os constitui é uma parede, por onde passam, a fórceps, a memória de um desejo de afeto, de amor, de família. Achei bruto tudo, mas muito emocionante o esforço desses homens para se encontrarem em algum lugar no mundo dos afetos. Muito intenso.


A MOÇA DA BICICLETA (Girl On A Bicycle. EUA/Alemanha, 2013. Dir:Jeremy Leven Com:Louise Manot, Vincenzo Amato)

Vi esse filme e amei. Uma comédia romântica super agradável, com cenas simples, às vezes engraçadas, tudo correto e fácil e bom. Num final de domingo, é um presente.

SOBRE AQUELE NOSSO VERÃO (Very Good Girls, EUA, 2013. Dir:Naomi Forner Com: Elisabeth Olsen, Dakota Fanning) NOTA 6,5

Dakota com a mesma expressão trágica excessivamente dura, por querelas de amor juvenil, nada a acrescentar, a não ser as cenas de rebelião das jovens que agora acontecem quando tiram a roupa toda e nadam nuas, ou tiram a blusa e ficam de sutiã e calcinhas quando fazem as pazes. Uau! 


COERÊNCIA (Coherence, EUA, 2013. Dir:James Ward Byrkit Com:Emily Baldoni, Maury Sterling, Nicholas Brendon)  

Filme em que se pode ficar até o fim dos tempos tentando entender as teorias da física que lhe dão suporte; outro tanto para entender os acontecimentos do próprio filme. Mas nada disso tira o interesse dessa ficção científica, que nos deixa grudados na cadeira até sua última cena – quando concluímos a compreensão por um: como?

ENCONTROS, DESENCONTROS, REENCONTROS (Une Rencontre, França, 2014. Dir:Lisa Azuelos Com: Sophie Marceau, François Cluzet, Lisa Azuelos)

Uma história de amor clássica, com todos os ingredientes para fazer o espectador feliz: um casal de protagonistas belíssimo, ótimos atores, uma história de amor impossível e atração irresistível por outra mulher, e a decisão final dele de não trair o casamento, a despeito da paixão e fascínio intensos. Muito bom, e bem feito.

LUA DE MEL (Honeymoon, EUA, 2014. Dir:Leigh Janiak Com:Rose Leslie, Harry Treadaway)


Filme B de terror, quase todo tempo psicológico, e meio bobo, sobretudo o rapaz, que chega a constranger pela falta de entendimento do que está acontecendo. Fiquei olhando até o fim, mas até os sessenta minutos somos cozinhados em banho maria naquela situação, que pressentimos qual seja, menos o rapaz, claro, até que nos minutos finais a mulher finalmente... Bem, a gente vê, mas achei muito sem graça. Pode ser que a exibição ruim do online tenha prejudicado o filme, já que o escuro de várias cenas (para contrapor à tal luz etc) ficou quase invisível algumas vezes. De todo modo, achei muito distante de Coherence.

Alguns filmes da 'MostraAí' 2013

Esses comentários estão guardados há tempos, esperando que eu os desenvolva mais, o que não ocorreu, e resolvi expor assim mesmo.

Não lembro se eles foram vistos no Mostra Aí de 2013 ou 2014, um festival on line organizado por um querido cinéfilo, muito bamba, e fica aqui como registro de tê-los assistido.

Os garotos - drama vivido por dois jovens: um, cuja família é estruturada com pai, mãe e irmã pequena; o outro, cuja mãe morreu e vive com o pai e o irmão. Ambas as famílias são amorosas com seus filhos, mas a segunda tem mais conflitos em razão da falta da mãe. Os dois garotos têm em torno de   16 anos, correm por suas escolas e se apaixonam. O filme é o drama que eles vivem para se entender e se encontrar. Encontram-se no final. nota 8

Metro Manilla: drama que envolve uma família de agricultores paupérrimos (marido, mulher,uma criança de 9 anos e um bebê) que resolvem largar a miséria do campo e migrar para a capital filipina, Manila, onde ele acaba encontrando um emprego de guarda de carro forte, protegido pelo colega que o ajuda a ser contratado, que tem planos de roubar uma das caixas com dinheiro e vai precisar da ajuda do agricultor para pegar a chave que a abre, sem estourar o dinheiro. O filme tem um final totalmente inesperado e, de certo modo, redentor e altruísta. Além de dar uma volta no sistema social que o condenava à miséria sem apelação, a diretora do filme também faz seu personagem romper com o estereótipo do homem simples do campo como sinônimo de ignorância, ao atribuir-lhe um plano elaboradíssimo e bastante complexo que deixará sua família para sempre em boa situação financeira, e tudo sai exatamente como ele planejou. Paga um preço altíssimo, mas sai vencedor de acordo com seus desígnios. Nota 9

Joséphine: moça de classe média que não tem nada na cabeça cisma de entrar em competição com a irmã sobre namoros e casamento, e acaba criando uma mentira tão cabeluda que se vê na contingência de ir ao encontro do 'noivo inventado no Brasil, já que ele é médico naquele país e sambalelê. Ela não vai, claro, sua mala se extravia e ela se esconde em seu próprio ótimo apartamento, em seu próprio quarto, onde passa a conviver às escondidas com um colega de trabalho que subloca seu apartamento, agora que,em tese, ela se mandou pra outro país. Depois de muitos quiproquós, ela acaba se apaixonando pelo cara simplório do trabalho (onde ela não faz quase coisa nenhuma), que se revela bem legalzinho no convívio escondido diário. Nota 6

Kill your darlings: jovens estudantes numa universidade de alto padrão se envolvem em discussões filosóficas e literárias e também em intensas relações amorosas. O assassinato de David Kammerer faz com que três dos poetas mais famosos da geração beat se aproximem: Allen Ginsberg (Daniel Radcliff), Jack Kerouac e Wiliam Borroughs. 

Após assistir ao filme na edição de 2013 do Sundance Film Festival, Damon Wise, crítico do jornal estadunidense The Guardian, disse que o filme era “bastante verossímil e mostrou de fato como foi o começo do movimento da contracultura estadunidense na literatura do século XX [...] O filme passa uma paixão e energia incríveis ao mostrar artistas não escrevendo e criando, mas em suas ações cotidianas, conversando,desenvolvendo suas idéias e incentivando uns aos outros para sempre tentarem inovar em sua arte.” “Embora ele comece com o mistério de um assassinato”, continua Damon,” Kill Your Darlings está mais para um daqueles filmes que nos fazem refletir, é uma descrição perfeita de seu tempo e que ainda assim soa incrivelmente atual.” Em sua resenha sobre o filme, Damon Wise congratulou-o com quatro de cinco estrelas. 
O barato do filme é a pegada da paixão-obsessão de um personagem, David Cammerer, por outro, Lucien Carr, por quem também Allen Guinsberg se apaixona. No final, há o drama do assassinato - Carr mata Cammerer, e as dúvidas sobre as várias versões do episódio. Todos os atores dão show de talento. Nota 8

Hawaii: lentíssima história de dois amigos de infância que se reencontram quando um vai pedir para fazer pequenos serviços durante um certo tempo, ao fim do qual ele deverá ter um trabalho em Buenos Aires. O barato do filme é exatamente o ritmo lento e a perspectiva dos pequeníssimos detalhes que compõem uma história de afetos entre os dois que vai muito lentamente emergindo na consciência do personagem escritor. Há muitos detalhes interessantes, o filme é rico em sutilezas e a pegada de incerteza e dúvidas quanto aos dois se reconhecerem amorosamente é constante, além de haver um clima de erotismo muito velado mas, por isso mesmo, intenso ao longo de todo o filme. Muito bem feito, um bordado muito delicado sobre afetividade homo. Nota 8,5

Expresso do amanhã: mais do mesmo, ou seja, filmão sobre o fim dos tempos, agora através do gelo, quando todo o planeta se resfria salvando-se apenas aqueles que viajam num trem bala que nunca para, criado por um sujeito que mantém grande parte da população no final do trem, em regime de escravidão - o filme então será a tentativa de tomada do trem, quando muitas mortes acontecem e um acidente trágico põe fim à rota infinita do trem e à vida de seus passageiros, salvo uma mulher e uma criança que, em tese, começarão uma nova humanidade. Isso se o urso bem à frente deles dois deixar. Ponto positivo: paisagens brancas lindíssimas. Negativo: déjà vu demais. Nota 6,5

Barefoot: comédia dramática sobre uma moça que foi mantida em isolamento pela mãe esquizofrênica até a idade adulta, quando morreu e ela pensa que matou a mãe, e um rapaz da família rica metido em encrencas. Os dois se conhecem num hospital psiquiátrico e ficam juntos num road trip ao fim da qual se apaixonam, têm seus problemas resolvidos, ficam juntos e provavelmente serão felizes para sempre. A esquecer em alguns dias, uma bobagem só.

Nota 5

O homem duplicado: estranhíssimo filme, em que um homem, professor de História, descobre um sósia vendo um filme, e o procura para conferir se são mesmo idênticos. São, e acompanhamos a tensão de uma pressentida luta entre um e outro para ver quem sobrevive. Mas há também um aspecto de terror, numas cenas meio incompreensíveis que abrem o filme e mostram homens reunidos num lugar que parece proibido e se extasiam com mulheres que pisam em tarântulas. Se há alguma simbologia nelas, desconheço. No final, a tarântula se apresenta ela mesma no corpo da mulher grávida da mulher do ator. Muito estranho, e só vale pela tensão que instala. nota 7


O jardim dos esquecidos - flores do sótão: sinistro, mas datado no ritmo e na verossimilhança das ações dos filhos, não há como aceitar tanta passividade com relação à crueldade reinante. Jovens bobinhos demais. nota 6


Antes sexo do que nunca: história de amor entediado, em que uma das partes decide resolver seu problema de falta de sexo com a mulher e ainda ganhar uma grana, transando com as carentes ricas. A história é comum, mas a atriz é bem interessante, e o filme se vê no modo fácil. O título é nota 10, e o filme nota 7


Mandariinid: ótimo filme sobre a inutilidade da guerra, e  o valor da convivência para mostrar que todas as facções são irmãs sob a chancela da generosidade, da fraternidade e da solidariedade. As diferenças se aplainam face à proximidade da morte, não há lados quando ela escolhe qualquer um, basta que alguém não diga a palavra certa. E a morte escolhe aleatoriamente na guerra, ela não faz qualquer distinção e só tem uma finalidade - matar.

Nota 9

Hateship Loveship: bem legal a história dessa mulher simples, que acaba descobrindo o que quer a partir das falsas cartas que lhe enviam duas adolescentes maldosas. O que elas escrevem fingindo ser o pai de uma delas acaba se tornando objeto do desejo da mulher, que vai à luta e conquista tudo que lhe foi mentido, e sem qualquer perder o jeito sereno de ser. Muito bom de ver. Nota 8,5