Trash. Stephen Daldry, 2014.
Há algumas boas passagens no filme, as atuações sempre corretas do Wagner Moura e do Selton Mello, uma Rooney Mara meio apática e um Martin Sheen meio patético. Mas a cena da perseguição dos meninos nos telhados, embora já vista em outros filmes americanos, e melhor, talvez, dá pra torcer e gostar, mas não eletriza.
O que acho que pega mal mesmo, no geral (e no particular) é a proposta um tanto pedagógico-ideológica, sobretudo no final, absolutamente inverossímel, imponderável e improvável - e mais outros 'áveis', quem sabe. Não achei viável aquela menina surgir feito um fantasma no cemitério, depois se tornar amiga desde sempre dos meninos e todos vão se esconder numa praia aparentemente longe, e vivem de pesca e brincadeiras - nesse final, até Rousseau corou. Sobre a cena da foto, está dentro de um dos sufixos mencionados - impensável.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
O juiz
O juiz. David Dobkin, 2014.
O juiz - um dos melhores filmes de tribunal que já vi, ever - muito bom, emocionante, algumas reviravoltas que levam os personagens pra lá, pra cá,Robert Downey Jr arrasando, Robert Duvall, já bem velhinho e dando também show de interpretação. Para mim, a atuação do Robert Downey é digna de Oscar, mesmo sabendo que esse tipo de filme pertence a uma categoria, aparentemente, menor. Gosto deles demais, e penso que filmes de tribunal deveriam constituir um gênero em si, e norte-americano - uma de suas grandes especialidades, o fazem há milênios e ainda conseguem emocionar. Neste caso, acho que a dupla de atores em cena é uma força da natureza - e não é que tem até um tornado no filme?. Há também acerto de contas entre pai e filho, entre antigos amores, e uma família de homens em que eu, em geral, e se o filme não for muito bom, me sinto um tanto excluída. Não aqui, não nesse grupo, talvez porque todos carreguem sua parcela de desconforto em estar aqui e agora, neste mundo, e mesmo o personagem do filho mais novo, o que tem problemas estruturais, de ordem psíquica, esse tem o poder de trazer o passado de volta, através dos vídeos que vai filmando e acumulando desde a infância. Um flme sobre valores, honra, reencontros com velhas feridas, ressentimentos, coisas não ditas em seu tempo próprio - e de superação. Um filme que faz bem ver.
O juiz - um dos melhores filmes de tribunal que já vi, ever - muito bom, emocionante, algumas reviravoltas que levam os personagens pra lá, pra cá,Robert Downey Jr arrasando, Robert Duvall, já bem velhinho e dando também show de interpretação. Para mim, a atuação do Robert Downey é digna de Oscar, mesmo sabendo que esse tipo de filme pertence a uma categoria, aparentemente, menor. Gosto deles demais, e penso que filmes de tribunal deveriam constituir um gênero em si, e norte-americano - uma de suas grandes especialidades, o fazem há milênios e ainda conseguem emocionar. Neste caso, acho que a dupla de atores em cena é uma força da natureza - e não é que tem até um tornado no filme?. Há também acerto de contas entre pai e filho, entre antigos amores, e uma família de homens em que eu, em geral, e se o filme não for muito bom, me sinto um tanto excluída. Não aqui, não nesse grupo, talvez porque todos carreguem sua parcela de desconforto em estar aqui e agora, neste mundo, e mesmo o personagem do filho mais novo, o que tem problemas estruturais, de ordem psíquica, esse tem o poder de trazer o passado de volta, através dos vídeos que vai filmando e acumulando desde a infância. Um flme sobre valores, honra, reencontros com velhas feridas, ressentimentos, coisas não ditas em seu tempo próprio - e de superação. Um filme que faz bem ver.
Take this waltz
Take this waltz, Sarah Polley, 2012
Às vezes, rever um filme faz-nos vê-lo melhor, redescobrindo suas qualidades, ou encontrando-as sob outro ângulo. Revi ontem Take this waltz (que título interessante no original) - traduzido como "Entre o amor e a paixão", e fiquei encantada. Não lembrava que a direção é da Sarah Polley, bem como o roteiro, e ele ficou de molho de 2009 até 2011, quando começou a ser produzido por ela também.
O que me fez grudar na tela são algumas qualidades que me parecem um certo modo Sarah Polley de trabalhar, que eu vejo como uma acentuada atenção ao universo psíquico e social da mulher, enxugada ao máximo das visões e versões estereotipadas que nos cercam. Por exemplo, o banho das mulheres depois da piscina, quando a personagem de Michelle Williams, adorabilíssima, faz xixi durante uma aula de hidroginástica, num frouxo de riso - existem três delas com corpos ótimos, em nus frontais e naturais, e algumas outras com corpos fora do padrão, em nus frontais e naturais. Nada ali é feito pra mostrar o corpo, mas pra mostrar o banho, numa cena de conversa entre mulheres muito boa.
E tem a paixão - e o amor. O filme explora os momentos do casamento em seu fluir, onde a insatisfação está presente claramente, mas um deles não vê, ou não pode ver. E também os vários momentos em que eles mostram sua parceria, os jogos de intimidade que, entre esses dois, ocorrem pela referência às várias formas de crueldade, de morte macabra, que se vê em filmes de terror ou de terrir, tipo 'vou esfolar sua pele com raspador de batata' - esses são momentos realmente sem graça para mim, não consigo achar humor nisso, e parece no filme que há uma espécie de "leitura" de algo que já rendeu aproximação entre eles, risos, e talvez não funcione mais.
E há a paixão entre Margot e Daniel (esse Luke Kirby, muita beleza e ternura na aura dele todo!). Um personagem homem muito parecido com o personagem mulher que a própria Sarah faz no filme onde eu a conheci - "A vida secreta das palavaas" (Isabel Coixet, 2005), ou seja, estranhos seres, introspectivos, com trabalhos inusuais, que dizem um pouco de seus modos particulares de estar na vida - no caso dele, carregador de riquixá para ganhar algum dinheiro, e também fotógrafo-pintor, e um amante sensível, que tem a cena mais deslumbrante sobre como fazer uma mulher feliz (ela, a Margot que está a sua frente, na mesa do bar) só quase murmurando e olhando pra ela e descrevendo todas as ações m.i.n.u.c.i.o.s.a.m.e.n.t.e - olhando-a com um jeito maroto, um tanto enigmático - melhor, impossível.
E tem também uma alcoólatra, em duas cenas onde o essencial da doença é dito, de modo claro, expressivo, perfeito. As falas do roteiro são uma marca de qualidade Polley, que não desperdiça palavras, nem ao vento, nem à tolice.
E o final perfeito: nada como voltar a uma roda gigante onde já se foi feliz com alguém para tentar achar a graça em si mesma, consigo mesma - Margot tem um longo percurso a sua frente, mas achará seu caminho, e sua escrita.
Às vezes, rever um filme faz-nos vê-lo melhor, redescobrindo suas qualidades, ou encontrando-as sob outro ângulo. Revi ontem Take this waltz (que título interessante no original) - traduzido como "Entre o amor e a paixão", e fiquei encantada. Não lembrava que a direção é da Sarah Polley, bem como o roteiro, e ele ficou de molho de 2009 até 2011, quando começou a ser produzido por ela também.
O que me fez grudar na tela são algumas qualidades que me parecem um certo modo Sarah Polley de trabalhar, que eu vejo como uma acentuada atenção ao universo psíquico e social da mulher, enxugada ao máximo das visões e versões estereotipadas que nos cercam. Por exemplo, o banho das mulheres depois da piscina, quando a personagem de Michelle Williams, adorabilíssima, faz xixi durante uma aula de hidroginástica, num frouxo de riso - existem três delas com corpos ótimos, em nus frontais e naturais, e algumas outras com corpos fora do padrão, em nus frontais e naturais. Nada ali é feito pra mostrar o corpo, mas pra mostrar o banho, numa cena de conversa entre mulheres muito boa.
E tem a paixão - e o amor. O filme explora os momentos do casamento em seu fluir, onde a insatisfação está presente claramente, mas um deles não vê, ou não pode ver. E também os vários momentos em que eles mostram sua parceria, os jogos de intimidade que, entre esses dois, ocorrem pela referência às várias formas de crueldade, de morte macabra, que se vê em filmes de terror ou de terrir, tipo 'vou esfolar sua pele com raspador de batata' - esses são momentos realmente sem graça para mim, não consigo achar humor nisso, e parece no filme que há uma espécie de "leitura" de algo que já rendeu aproximação entre eles, risos, e talvez não funcione mais.
E há a paixão entre Margot e Daniel (esse Luke Kirby, muita beleza e ternura na aura dele todo!). Um personagem homem muito parecido com o personagem mulher que a própria Sarah faz no filme onde eu a conheci - "A vida secreta das palavaas" (Isabel Coixet, 2005), ou seja, estranhos seres, introspectivos, com trabalhos inusuais, que dizem um pouco de seus modos particulares de estar na vida - no caso dele, carregador de riquixá para ganhar algum dinheiro, e também fotógrafo-pintor, e um amante sensível, que tem a cena mais deslumbrante sobre como fazer uma mulher feliz (ela, a Margot que está a sua frente, na mesa do bar) só quase murmurando e olhando pra ela e descrevendo todas as ações m.i.n.u.c.i.o.s.a.m.e.n.t.e - olhando-a com um jeito maroto, um tanto enigmático - melhor, impossível.
E tem também uma alcoólatra, em duas cenas onde o essencial da doença é dito, de modo claro, expressivo, perfeito. As falas do roteiro são uma marca de qualidade Polley, que não desperdiça palavras, nem ao vento, nem à tolice.
E o final perfeito: nada como voltar a uma roda gigante onde já se foi feliz com alguém para tentar achar a graça em si mesma, consigo mesma - Margot tem um longo percurso a sua frente, mas achará seu caminho, e sua escrita.
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Relatos selvagens
Relatos Selvagens. Damián Szifron, 2014.
São quatro episódios, e mais dois curtinhos (me lembra Enic), cujo núcleo e motor é a violência, em variadas situações e intensidade relativamente alta (só um não olhei tudo, porque já sabia o que estava acontecendo e aqueles dois não tinham jeito mesmo), mas com humor, quase sempre, o que torna tudo interessante – as situações de violência brotam dos atos mais comuns do cotidiano, daí todos nos encontramos ali, em algum momento: dirigindo um carro, um sujeito num carreco atrapalha a vida do sujeito num carrão que vem atrás, quando dá pra ultrapassar o dono do carrão tripudia o outro, mas daí o pneu dele fura mais na frente - pois é, já viu – chega a ser histriônico, de tão imbecil o motivo de tudo - e tem de tudo, até o fim.
Noutro, um garoto rico atropela e mata uma mulher grávida - todos da família dele se acertam com um empregado antigo e com o detetive para livrá-lo da cadeia – mas acontecimentos inesperados embolam-se e... .
Em outro, ótimo, a festa de casamento vira um caos porque a recém casada descobre que o marido tem uma amante e ela está ali, na festa, daí o que parecia aquela coisa chatinha de festa de casamento vira um pandemônio, a recém casada se transforma numa maluca-beleza e a festa fica ótima – ah, e o final também é muito bom (esse é o segundo melhor, para mim).
Por fim, o episódio com meu rei Darín não é o último, mas ele é um engenheiro especialista em implosões, e é também um sujeito dado a explosões porque a vida é cheia de arestas e de situações injustas, além de que os caras do Detran de lá não dão trégua ao personagem e rebocam o carro dele toda hora, até que o homem não agüenta mais e...bom, já deu para imaginar, né. Achei o melhor episódio, o Darín está ótimo, podem falar o que quiserem, mas ele é minha Fernanda Montenegro da Argentina, difícil errar a mão, e tem também o final mais surpreendente (todos os episódios têm um final mais, ou menos, surpreendente).
São quatro episódios, e mais dois curtinhos (me lembra Enic), cujo núcleo e motor é a violência, em variadas situações e intensidade relativamente alta (só um não olhei tudo, porque já sabia o que estava acontecendo e aqueles dois não tinham jeito mesmo), mas com humor, quase sempre, o que torna tudo interessante – as situações de violência brotam dos atos mais comuns do cotidiano, daí todos nos encontramos ali, em algum momento: dirigindo um carro, um sujeito num carreco atrapalha a vida do sujeito num carrão que vem atrás, quando dá pra ultrapassar o dono do carrão tripudia o outro, mas daí o pneu dele fura mais na frente - pois é, já viu – chega a ser histriônico, de tão imbecil o motivo de tudo - e tem de tudo, até o fim.
Noutro, um garoto rico atropela e mata uma mulher grávida - todos da família dele se acertam com um empregado antigo e com o detetive para livrá-lo da cadeia – mas acontecimentos inesperados embolam-se e... .
Em outro, ótimo, a festa de casamento vira um caos porque a recém casada descobre que o marido tem uma amante e ela está ali, na festa, daí o que parecia aquela coisa chatinha de festa de casamento vira um pandemônio, a recém casada se transforma numa maluca-beleza e a festa fica ótima – ah, e o final também é muito bom (esse é o segundo melhor, para mim).
Por fim, o episódio com meu rei Darín não é o último, mas ele é um engenheiro especialista em implosões, e é também um sujeito dado a explosões porque a vida é cheia de arestas e de situações injustas, além de que os caras do Detran de lá não dão trégua ao personagem e rebocam o carro dele toda hora, até que o homem não agüenta mais e...bom, já deu para imaginar, né. Achei o melhor episódio, o Darín está ótimo, podem falar o que quiserem, mas ele é minha Fernanda Montenegro da Argentina, difícil errar a mão, e tem também o final mais surpreendente (todos os episódios têm um final mais, ou menos, surpreendente).
O físico
Trata-se de um épico, que se passa no século XI, em plena Idade Média, sobre o nascimento da Medicina, baseado no livro de Noah Gordon, de 1999, e um dos livros mais populares do mundo. Segundo alguns espectadores e leitores do livro, aquele não faz jus a este.
Eu não li o livro, e gostei do filme, que traz os ingredientes adequados de aventura, busca por conhecimento, drama amoroso, lutas entre povos e religiões (cristãos, judeus e muçulmanos), barbárie e redenção, na história do menino que perde a mãe para uma doença cuja cura inexiste então.
Movido por essa perda, ele pede para ser aprendiz de uma espécie de médico-barbeiro, meio saltimbanco, vivido muito bem por Stellan Skarsgårdr, que vai de cidade em cidade oferecendo curas com estardalhaço, embora faça apenas o pouco que seu tempo permite. Com ele, aprende rudimentos de cura, e se descobre com o dom de sentir quando um doente vai morrer.
Sua sede de conhecimento o leva a uma longa jornada, em busca de se tornar discípulo de renomado cientista do outro lado do mundo. E o filme segue esse jovem, interpretado por Tom Payne, até a Pérsia, onde reviravoltas inúmeras acontecem – guerras, amores, amada que quase se perde, e depois se ganha, batalhas entre mil soldados, até que se salvam os dois amantes, e de volta a Londres ele abre um hospital, onde exercita sua grande paixão. Acho que o filme cumpre sua função de contar uma ótima história, embora pudesse ser um pouco menor (mas li que ele já foi reduzido em mais de meia hora).
Filmes a comentar
Homens, mulheres & filhos. Jason Reitman, 2014.
Minhas tardes com Marguerite. Jean Becker, 2010.
O crítico. Hernán Guerschuny, 2014.
Ida. Pawel Pawlikowski, 2014.
Boa sorte. Carolina Jabor, 2014.
Michael Kohlhaas. Justiça e Honra. Arnaud des Pallières.
Short term 12. Destin Cretton, 2013.
O Hobbit: a batalha dos cinco exércitos. Peter Jackson, 2014.
De volta ao jogo. Chad Stahelski, 2014.
Tom à la ferme. Xavier Dolan, 2013.
O ciúme. Philippe Garrel, 2014.
Mommy. Xavier Dolan, 2014.
I'm here. Spike Jonze, 2010.
The captive. Atom Egoyan, 2014.
As duas faces de janeiro. Hossein Amini, 2014.
Cold in July, Jim Mickle, 2014.
O último concerto, Yaron Zilberman, 2014.
Uma nova chance para amar, Arie Posin, 2014.
Bistrô romantique, Joël Vanhoebrouck, 2014.
Garota exemplar, David Fincher, 2014.
Magia ao luar, Woody Allen, 2014.
Miss Violence, Alexandro Avanas, 2014.
Mesmo se nada der certo, John Carney, 2014.
Tim Maia, Mauro Lima, 2014.
Boyhood, Richard Linklater, 2014.
O homem mais procurado, Anton Corbijn, 2014.
The Immigrant, James Gray, 2014.
Minhas tardes com Marguerite. Jean Becker, 2010.
O crítico. Hernán Guerschuny, 2014.
Ida. Pawel Pawlikowski, 2014.
Boa sorte. Carolina Jabor, 2014.
Michael Kohlhaas. Justiça e Honra. Arnaud des Pallières.
Short term 12. Destin Cretton, 2013.
O Hobbit: a batalha dos cinco exércitos. Peter Jackson, 2014.
De volta ao jogo. Chad Stahelski, 2014.
Tom à la ferme. Xavier Dolan, 2013.
O ciúme. Philippe Garrel, 2014.
Mommy. Xavier Dolan, 2014.
I'm here. Spike Jonze, 2010.
The captive. Atom Egoyan, 2014.
As duas faces de janeiro. Hossein Amini, 2014.
Cold in July, Jim Mickle, 2014.
O último concerto, Yaron Zilberman, 2014.
Uma nova chance para amar, Arie Posin, 2014.
Bistrô romantique, Joël Vanhoebrouck, 2014.
Garota exemplar, David Fincher, 2014.
Magia ao luar, Woody Allen, 2014.
Miss Violence, Alexandro Avanas, 2014.
Mesmo se nada der certo, John Carney, 2014.
Tim Maia, Mauro Lima, 2014.
Boyhood, Richard Linklater, 2014.
O homem mais procurado, Anton Corbijn, 2014.
The Immigrant, James Gray, 2014.
A gatinha esquisita
A Gatinha Esquisita (Das Merkwurdige Katzchen, Alemanha, 2013. Dir:Ramon Zurcher.
Obra prima inconteste – o diretor filmou, do começo ao fim, todo o universo existencial, psicológico e filosófico das obras literárias de Clarice Lispector, a escritora brasileira que fotografa com a palavra cada milímetro das sensações que perpassam o cotidiano das relações entre as pessoas e o mundo, os objetos familiares, os acontecimentos comuns e banais, seja ele olhar nos olhos de um búfalo no zoológico, seja o esvoaçar de uma pena no ar, ou o cruzamento fortuito de alguém no bonde com o olhar de um cego. Todos os contos de 'Laços de família' estão aqui; todo o clima de 'A paixão segundo GH' está aqui, até mesmo cenas que se lêem em Clarice estão filmadas como se transpostas para a tela – e isso independe de o diretor conhecer ou não a obra da autora brasileira, porque é um modo de estar no mundo que os aproxima, flagrantes da existência cotidiana que em ambos adquirem estatuto de obra de arte – sob a palavra, uma; sob as imagens, outro.
Essa é a primeira vez que ”vejo” na tela uma obra literária desse tipo, ou seja, um filme feito de sopros, de sensações e observações intensas sobre o mínimo, os objetos comuns, as situações cujos significados residem nas impressões que causam, expressas por pequenas, contínuas e intensas epifanias, como se o cotidiano fosse pleno de riquezas, de sentidos que nos oprimem e nos excitam, como se a vida fosse esse diuturno brilho do singular e do comum, do banal, de onde se extraem as pepitas, o que comove, o que existe, o que pasma simplesmente por estar vivo, e pulsar e existir para e sob nossos olhos.
Há cenas antológicas, como a da mulher que faz a mãe e tem uma relação difícil com o gato, e coloca um pé sobre o bichano, no vão da porta, aproximando-o lentamente do animal, como se fora esmagá-lo – dura um átimo e uma eternidade, porque ali estão resumidos todos os nossos desejos ancestrais de um dia ter esmigalhado um gato, um besouro, uma mosca, um inseto, um tudo; ou quando essa mesma mulher-mãe toma o leite deixado sobre a mesa, onde há um pelo do gato, já quase no final do filme e da refeição com os amigos – ela toma o leite, e essa cena tem o mesmo sentido de comer a barata n’A paixão – uma redenção, talvez, em meio à culpa do que não se sabe bem o motivo, mas que está lá, sempre premente, e presente.
Há quase todo o tempo, igualmente, frases brilhantes, interessantíssimas, muitas vezes emoldurando uma situação comum, como quando a menina pergunta sobre os lóbulos dos pulmões:
_ Que são lóbulos?
_ São as asas dos pulmões. Para que voem, quando necessário.
Ou quando uma das filhas está olhando pela janela, provavelmente vendo lá fora o cão da casa, e observa para o rapaz, que parece ser o irmão:
_ Não queria ser um cão preto no verão.
_ Ainda não é verão.
_ Queria ser um no outono?
_ Aí, sim.
Ou a cena em que esse mesmo rapaz reconta a ela o momento de uma festa em que uma mulher bêbada faz uma cena, e meio que enlouquece. Ele conta uma coisa, e a tela mostra outra, ou seja, a delicadeza de um sorriso. A cena toda adquire um significado novo, revigorante, quando se vê que a mulher se acalmou não pela luz da lanterna do guarda, como ele diz simplesmente, mas por vê-lo sorrir – o mundo se refez para ela de novo com aquele sorriso, todas as gárgulas se desvanecem para ela face ao – não há outro nome – amor daquele sorriso. Ele omite isso, o que nós vemos, e essa omissão é também de uma delicadeza infinita.
Um filme magistral, que requer um olhar sensível, do mesmo modo que se dá com a literatura de Clarice – nem sempre se consegue adentrar seus meandros, e percorrê-los com o prazer das descobertas de um mundo quase sempre nos interstícios – das coisas, dos seres, dos tempos.
Obra prima inconteste – o diretor filmou, do começo ao fim, todo o universo existencial, psicológico e filosófico das obras literárias de Clarice Lispector, a escritora brasileira que fotografa com a palavra cada milímetro das sensações que perpassam o cotidiano das relações entre as pessoas e o mundo, os objetos familiares, os acontecimentos comuns e banais, seja ele olhar nos olhos de um búfalo no zoológico, seja o esvoaçar de uma pena no ar, ou o cruzamento fortuito de alguém no bonde com o olhar de um cego. Todos os contos de 'Laços de família' estão aqui; todo o clima de 'A paixão segundo GH' está aqui, até mesmo cenas que se lêem em Clarice estão filmadas como se transpostas para a tela – e isso independe de o diretor conhecer ou não a obra da autora brasileira, porque é um modo de estar no mundo que os aproxima, flagrantes da existência cotidiana que em ambos adquirem estatuto de obra de arte – sob a palavra, uma; sob as imagens, outro.
Essa é a primeira vez que ”vejo” na tela uma obra literária desse tipo, ou seja, um filme feito de sopros, de sensações e observações intensas sobre o mínimo, os objetos comuns, as situações cujos significados residem nas impressões que causam, expressas por pequenas, contínuas e intensas epifanias, como se o cotidiano fosse pleno de riquezas, de sentidos que nos oprimem e nos excitam, como se a vida fosse esse diuturno brilho do singular e do comum, do banal, de onde se extraem as pepitas, o que comove, o que existe, o que pasma simplesmente por estar vivo, e pulsar e existir para e sob nossos olhos.
Há cenas antológicas, como a da mulher que faz a mãe e tem uma relação difícil com o gato, e coloca um pé sobre o bichano, no vão da porta, aproximando-o lentamente do animal, como se fora esmagá-lo – dura um átimo e uma eternidade, porque ali estão resumidos todos os nossos desejos ancestrais de um dia ter esmigalhado um gato, um besouro, uma mosca, um inseto, um tudo; ou quando essa mesma mulher-mãe toma o leite deixado sobre a mesa, onde há um pelo do gato, já quase no final do filme e da refeição com os amigos – ela toma o leite, e essa cena tem o mesmo sentido de comer a barata n’A paixão – uma redenção, talvez, em meio à culpa do que não se sabe bem o motivo, mas que está lá, sempre premente, e presente.
Há quase todo o tempo, igualmente, frases brilhantes, interessantíssimas, muitas vezes emoldurando uma situação comum, como quando a menina pergunta sobre os lóbulos dos pulmões:
_ Que são lóbulos?
_ São as asas dos pulmões. Para que voem, quando necessário.
Ou quando uma das filhas está olhando pela janela, provavelmente vendo lá fora o cão da casa, e observa para o rapaz, que parece ser o irmão:
_ Não queria ser um cão preto no verão.
_ Ainda não é verão.
_ Queria ser um no outono?
_ Aí, sim.
Ou a cena em que esse mesmo rapaz reconta a ela o momento de uma festa em que uma mulher bêbada faz uma cena, e meio que enlouquece. Ele conta uma coisa, e a tela mostra outra, ou seja, a delicadeza de um sorriso. A cena toda adquire um significado novo, revigorante, quando se vê que a mulher se acalmou não pela luz da lanterna do guarda, como ele diz simplesmente, mas por vê-lo sorrir – o mundo se refez para ela de novo com aquele sorriso, todas as gárgulas se desvanecem para ela face ao – não há outro nome – amor daquele sorriso. Ele omite isso, o que nós vemos, e essa omissão é também de uma delicadeza infinita.
Um filme magistral, que requer um olhar sensível, do mesmo modo que se dá com a literatura de Clarice – nem sempre se consegue adentrar seus meandros, e percorrê-los com o prazer das descobertas de um mundo quase sempre nos interstícios – das coisas, dos seres, dos tempos.
Child of God
Criança de Deus (Child Of God), EUA, 2013. Dir: James Franco - Nota: 9
O filme é muito bom, na verdade um tour de force do ator Scott Haze, que leva o filme inteiro em sua interpretação brutal, na pele de um homem que perdeu o pai aos dez anos e, vivendo a esmo e no ermo da cidadezinha, vai-se tornando cada vez menos um homem, e cada vez mais um sujeito doente de solidão, que o leva aos poucos a uma forma de loucura, mas com um sentido agudo de sobrevivência, buscando descobrir como sair das situações difíceis que aquela sua existência comporta. A partir de um certo momento, esse estado esgarça-se, e ele se aproxima de práticas mais bestiais, e será desse lugar, em que todos os sentidos retesam-se para garantir a sobrevivência, que ele se vê um quase selvagem, matando a sangue frio para manter sua recém descoberta possibilidade amorosa: a necrofilia.
O modo como o diretor James Franco apresenta sua história não permite ao espectador julgar as ações desse (quase) homem de um ponto de vista das normas sociais – ele é acompanhado pela câmera, pulando e caçando, evacuando e matando um bicho aqui e ali para alimentar-se, de modo que quando ele mata um homem quase sem pensar,e depois a mulher, não há aparentemente nenhuma mudança brusca – o pássaro morto mata sua fome de comida; a mulher morta mata sua fome de sexo e de amor. Assim, acompanhamos sua degradação na escala humana, rumo a seu estado mais duro e mais brutal, ao mesmo tempo em que vai-se movendo para o mais fundo da caverna, achando os buracos onde se abrigar e guardar os que lhe aprouveram amar - a mulher, os bichos de pelúcia.
Mas perder é de sua natureza de ser híbrido - entre bicho e gente, então ele perde o braço. Mas não a vida. Essa segue a trilha dentro das pedras, por um caminho que só os íntimos da natureza conhecem, e ergue-se por fim em meio a uma campina vasta – essa cena final, em que ele corre e grunhe de alegria, mostra um ser que caminha para um lugar indecidível na escala dos valores humanos, talvez. O que ele será ou fará, a partir de então, só pode ser dito em relatos de lendas, escritas ou filmadas. Ele adentra, para nós, sua mais funda, e terrível, invenção.
Um grande filme, em que se percebe como Franco acertou ao deixar seu ator agir, e filmá-lo quase como o documentário de uma loucura anunciada. E sem esse ator, sem essa entrega absurda e visceral do ator ao personagem, não haveria o filme sobre essa gestação de insanidade por absoluta falta de tudo - passo a passo. Muito bom, e muito terrível.
(Apenas um detalhe, de pouca importância, talvez, soou falso, mas mesmo esse ambíguo mínimo detalhe serve ao filme, ou seja, diz que ali há representação, e é disso que se trata aqui, visceralmente: os dentes quase sempre expostos do ator desmentem a vida selvagem do personagem, em sua perfeição e brancura).
O filme é muito bom, na verdade um tour de force do ator Scott Haze, que leva o filme inteiro em sua interpretação brutal, na pele de um homem que perdeu o pai aos dez anos e, vivendo a esmo e no ermo da cidadezinha, vai-se tornando cada vez menos um homem, e cada vez mais um sujeito doente de solidão, que o leva aos poucos a uma forma de loucura, mas com um sentido agudo de sobrevivência, buscando descobrir como sair das situações difíceis que aquela sua existência comporta. A partir de um certo momento, esse estado esgarça-se, e ele se aproxima de práticas mais bestiais, e será desse lugar, em que todos os sentidos retesam-se para garantir a sobrevivência, que ele se vê um quase selvagem, matando a sangue frio para manter sua recém descoberta possibilidade amorosa: a necrofilia.
O modo como o diretor James Franco apresenta sua história não permite ao espectador julgar as ações desse (quase) homem de um ponto de vista das normas sociais – ele é acompanhado pela câmera, pulando e caçando, evacuando e matando um bicho aqui e ali para alimentar-se, de modo que quando ele mata um homem quase sem pensar,e depois a mulher, não há aparentemente nenhuma mudança brusca – o pássaro morto mata sua fome de comida; a mulher morta mata sua fome de sexo e de amor. Assim, acompanhamos sua degradação na escala humana, rumo a seu estado mais duro e mais brutal, ao mesmo tempo em que vai-se movendo para o mais fundo da caverna, achando os buracos onde se abrigar e guardar os que lhe aprouveram amar - a mulher, os bichos de pelúcia.
Mas perder é de sua natureza de ser híbrido - entre bicho e gente, então ele perde o braço. Mas não a vida. Essa segue a trilha dentro das pedras, por um caminho que só os íntimos da natureza conhecem, e ergue-se por fim em meio a uma campina vasta – essa cena final, em que ele corre e grunhe de alegria, mostra um ser que caminha para um lugar indecidível na escala dos valores humanos, talvez. O que ele será ou fará, a partir de então, só pode ser dito em relatos de lendas, escritas ou filmadas. Ele adentra, para nós, sua mais funda, e terrível, invenção.
Um grande filme, em que se percebe como Franco acertou ao deixar seu ator agir, e filmá-lo quase como o documentário de uma loucura anunciada. E sem esse ator, sem essa entrega absurda e visceral do ator ao personagem, não haveria o filme sobre essa gestação de insanidade por absoluta falta de tudo - passo a passo. Muito bom, e muito terrível.
(Apenas um detalhe, de pouca importância, talvez, soou falso, mas mesmo esse ambíguo mínimo detalhe serve ao filme, ou seja, diz que ali há representação, e é disso que se trata aqui, visceralmente: os dentes quase sempre expostos do ator desmentem a vida selvagem do personagem, em sua perfeição e brancura).
A mulher na areia
A Mulher da Areia (Suna no Onna, 1964). Dir. Hiroshi Teshigahara.
Nota 10
Um filme magnífico, para ser visto numa telona, em excelente projeção. Não é apenas a história, entre o drama e o terror puro e simples, mas o modo como os rostos expressam as emoções, e as emoções expressam as intensidades do aprisionamento; os detalhes dos poros, de cada fio de cabelo tomado pela areia, do suor melado de terra, de tudo naquele buraco sem fim tomado pelo vento, pelo zumbido do vento. É belíssimo, e aterrador. Quando se supunha que o final poderia ter alguma escapatória, tal saída, ao contrário, apresenta-se quase como uma rendição, como se o vento tivesse vencido, quando ele sai, vê o mar, e volta - mais calmo, mais sereno. E, finalmente vencido, acaba de alguma forma vencedor por uma descoberta - não do que ele viera pesquisar, mas outra, nesse momento de inquestionável valor maior - água. Desse modo, seguimos quase sem ar uma tragédia aparentemente sobre a imobilidade das coisas e dos homens, encarcerados pelo açoite dos ventos, mas que desliza para a magia do engenho humano que se refaz, se redesenha, alia-se a seu captor - fazendo da areia e do sal, seu lugar.
Nota 10
Um filme magnífico, para ser visto numa telona, em excelente projeção. Não é apenas a história, entre o drama e o terror puro e simples, mas o modo como os rostos expressam as emoções, e as emoções expressam as intensidades do aprisionamento; os detalhes dos poros, de cada fio de cabelo tomado pela areia, do suor melado de terra, de tudo naquele buraco sem fim tomado pelo vento, pelo zumbido do vento. É belíssimo, e aterrador. Quando se supunha que o final poderia ter alguma escapatória, tal saída, ao contrário, apresenta-se quase como uma rendição, como se o vento tivesse vencido, quando ele sai, vê o mar, e volta - mais calmo, mais sereno. E, finalmente vencido, acaba de alguma forma vencedor por uma descoberta - não do que ele viera pesquisar, mas outra, nesse momento de inquestionável valor maior - água. Desse modo, seguimos quase sem ar uma tragédia aparentemente sobre a imobilidade das coisas e dos homens, encarcerados pelo açoite dos ventos, mas que desliza para a magia do engenho humano que se refaz, se redesenha, alia-se a seu captor - fazendo da areia e do sal, seu lugar.
Downton Abbey - começos
Comecei ontem a ver Downton Abbey, uma série brilhante, que não vou comentar porque já deve haver uma tonelada de textos sobre ela, cuja primeira temporada começou em 2010, mas no Netflix só tem até a terceira. A quinta deve estar passando agora na Inglaterra. De todo modo, são histórias fascinantes porque focadas na perspectiva de um conjunto grande de empregados de uma propriedade de nobres em começo de decadência, no início do século passado.
Vi os sete episódios da primeira temporada em dois dias, e tudo ali me pareceu interessante: atores entregues a um tempo que não é o nosso, com histórias de todos os tempos, porque lidam com o básico de nossa condição: ambição, inveja, poder, dominação entre senhores e seus serventes, com o detalhe de que entre os próprios empregados trava-se uma guerra mais ou menos surda por espaço, poder e lugar melhor na hierarquia da casa.
Destaque para o talento da sempre impagável Maggie Smith; para a fotografia primorosa, os belíssimos cenários, um roteiro de primeira, com diálogos plenos de ironias, sarcasmos e aquele humor corrosivo que costuma caracterizar um certo modo de ser inglês.Tudo isso com peripécias amorosas, códigos de honra e de conduta, e o começo da luta feminista - nesse momento, no final desta temporada, as lutas pelo sufrágio entram em Downton Abbey pela voz de uma das filhas, e a primeira guerra mundial também.
Vi os sete episódios da primeira temporada em dois dias, e tudo ali me pareceu interessante: atores entregues a um tempo que não é o nosso, com histórias de todos os tempos, porque lidam com o básico de nossa condição: ambição, inveja, poder, dominação entre senhores e seus serventes, com o detalhe de que entre os próprios empregados trava-se uma guerra mais ou menos surda por espaço, poder e lugar melhor na hierarquia da casa.
Destaque para o talento da sempre impagável Maggie Smith; para a fotografia primorosa, os belíssimos cenários, um roteiro de primeira, com diálogos plenos de ironias, sarcasmos e aquele humor corrosivo que costuma caracterizar um certo modo de ser inglês.Tudo isso com peripécias amorosas, códigos de honra e de conduta, e o começo da luta feminista - nesse momento, no final desta temporada, as lutas pelo sufrágio entram em Downton Abbey pela voz de uma das filhas, e a primeira guerra mundial também.
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