quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cinema Varilux 2014

Vi alguns filmes do Festival Varilux 2014, menos do que gostaria porque agora moro numa cidade pequena e qualquer diversão fílmica fica longe e, outro pecado, só tem cinema em shopping. Fazendo as contas, três dias indo e vindo a 52 o táxi, além de alguns cafés e pães de queijo, fizeram desse um dos mais caros que já segui, ever. E não vi todos, mas vi metade dos dezesseis, ou metade mais um se considerar que Os incompreendidos, do Truffaut, é acessível fora do festival, e acho que já vi a primeira versão há milênios. De todo modo, achei a maioria dos que vi bem medianos, nenhum de tirar o fôlego, e mais comédias do que de ação dramática, de que gosto mais.

Uma viagem extraordinária (2013, Jean-Pierre Jeunet) com Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Kyle Catlett é um filme bonito, do tipo-fofíssima-criança-prodígio-à-procura-de-si- mesma, com um ator mirim muito impressionante e uma mãe vivida pela ótima Bonham Carter. O filme mistura a aventura da road movie, ou melhor, da train movie, do menino que parte para pegar um prêmio que ganhou, mas ao mesmo tempo ficamos sabendo de outros motivos mais profundos e tocantes, que o levam a sair de casa - trata-se menos de uma expedição pela ciência e muito mais uma aventura para se entender e compreender um acontecimento fundamental de que ele fez parte. Muito bom, um dos melhores que vi.

Suzanne (2012, Katell Quilévéré), com Sara Forestier, François Damiens, Adèle Haenel, Paul Hamy. A história dessa moça, Suzanne, me ajudou a entender como é o processo das pessoas que não podem, mas não conseguem mesmo ficar longe de problemas. Sim, claro, é por amor, grande parte das encrencas em que ela se mete é por amor, mas como a moça demora pra aprender vai me dando um pouco de irritação. No final, não contente, ela ainda volta pra cadeia pra purgar um pouco mais os pecados. Não achei muita coisa além disso.

Eu, mamãe e os meninos (2013, Guillaume Gallienne), com Guillaume Galliene, André Marcon, Françoise Fabian, Diane Kruger. Esse parece ser um filme bem ambicioso, porque trabalha o tempo todo insinuando, sugerindo e mostrando situações de um rapaz possivelmente gay que, ao final, dá uma volta em todo mundo. Ele é engraçado, tem humor ferino, sofre bullying e dá vexames muitas vezes - tudo segundo um certo figurino meio estereotipado do gay. O ator faz muito bem tudo que faz: ele mesmo e sua mãe, uma personagem bem cruel, sobretudo em sua relação com esse filho, especialmente.

Toda a história está bem armada para direcionar o espectador ao modelo um tanto fake de homossexual, corroborado pelos que estão a sua volta - familiares, amigos, colegas. Mesmo o riso é uma coisa meio cúmplice do estereótipo - rimos do que todo mundo ri quando um gay faz "cenas". O que acontece no terço final, ou quase ao final, é uma revirolta que me pareceu meio artificial, embora o filme suporte o turning point sem se destruir. De repente, o riso fica parado na face e vemos um ator em cena, conversando conosco, sua platéia, a respeito do que se pensou que se viu. Ele vai fechar a peça em que atua, contando a história dele e de sua mãe, e ao mesmo tempo vamos sendo apresentados ao verdadeiro Guillaume. Trata-se de uma jogada de cena, e também de uma visada mais esperta do que propriamente dramática, embora haja drama também nas cenas, o que me fez ficar numa posição dúbia quanto ao valor do que vi, do que vejo. Foi como ter sido passada para trás, ter sofrido um golpe de esperteza - muito bem feito, com ótimas atuações, mas insidioso, e golpe. De todo modo, ele vale ser visto sobretudo pelo tour de force do ator (e diretor) que faz o protagonista, muito bom nos dois papéis.

Um belo domingo (Nicole Garcia, 2013), com Louise Bourgoin, Pierre Rochefort, Dominique Sanda trabalha a ideia do homem solitário, do jovem interessante que guarda um segredo e que será revelado por artimanhas do amor por uma mulher, e do afeto por seu filho. A história dele é bem interessante, e o filme é muito bom de ver, tem aspectos não simplistas quanto aos valores da vida, da grande riqueza e das escolhas que importam na vida de cada um. Nos tempos de hoje, colocar em cena alguém que abdica de enorme herança em favor de um projeto pessoal no caminho da simplicidade é quase um conto da carochinha, mas a história é muito bem conduzida de modo que aceitamos aquela decisão como a coisa certa - tomar a decisão sobre os rumos que quer dar a si mesmo, sobre o melhor caminho e o que a vida realmente significa para ele, já é parte da constituição e da cura do interessantíssimo rapaz. E, afinal, ele ganhou o amor e um filho - a vida pulsa generosa para ele nesse momento, e ele vê isso, agora, pode reconhcer os dons que recebe - e escolher. Filme ótimo, a que se assiste com prazer.

Uma juíza sem juízo (Albert Dupontel, 2012), com Sandrine Kiberlain, Albert Dupontel, Nicolas Marié trata de um daqueles imbroglios entre pessoas bem diferentes, em todos os sentidos (classe social, valores) e como ao final a vida dá uma volta nelas, que terão de rever seus próprios valores e se adequar à movida dos novos e repentinos acontecimentos em torno deles. É interessante, sobretudo por conta da rigidez dos valores da juíza, e de como ela vai ter que rever quase tudo que pensou e construiu depois de bebemorar numa festa de final de ano da empresa (sempre elas, as tais festas, onde a desrepressão vigora). A atriz principal faz o papel de modo contido, com pontuais crises de histeria, e tudo fica bem divertido.

Um amor em Paris (Marc Fitoussi, 2013), com Isabelle Huppert, Jean-Pierre Darroussin é um típico filme francês, no sentido mais chão de tratar de forma contida, mas clara, a maneira como os franceses abordam a traição no casamento. É um filme para os dois atores, que brilham mesmo, ele talvez mais do que ela, que achei meio já-vi-aquela-expressão-antes. Bem mediano.

Grandes garotos (Anthony Marciano, 2012), com Alain Chabat, Max Boublil, Sandrine Kiberlain foi um dos mais engraçados, sobretudo porque explora a relação entre um homem mais velho e desiludido com a vida, e um jovem com todos os projetos em andamento, num momento em que ambos precisam engrenar uma outra marcha em suas vidas. Os dois são ótimos atores, belos, e o jovem vivido por Alex Boubil, além de tudo, tem de altura o que carrega de charme e talento. E a atriz que faz a mulher do casal mais velho é a mesma Sandrine Kiberlain, a juíza do outro filme. (Vistos seguidos uns aos outros, nos deparamos com os mesmos atores algumas vezes em vários filmes, fica meio engraçado). Mas desse filme também gostei bem.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

sem som

Se as palavras não conseguem mais a ordem do sentido, algumas imagens talvez possam dizer um som quase inaudível. Em tradução crua: sem a menor paciência pra escrever sobre o que quer que.








sábado, 5 de abril de 2014

Dr. Fábio Machado Landim - In Memorian


 Ele faria hoje 40 anos. Que esteja  no melhor lugar, aquele que seu  nobre coração merece habitar.

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 Ele não era apenas meu sol, como  no poema de Auden. Ele era o sol  de todos nós, de quem ele cuidou  com serenidade, leveza e  generosidade. Ele era o sol de todos  cujas vidas salvou, e foram  muitas. E todos nós íamos a ele, nos momentos de pânico total, de medo  absurdo, e só em vê-lo tudo ficava melhor, mais compreensível, mais tolerável.

 Ele foi meu oncologista, e só tinha 34 anos, muita sabedoria, uma crença  profunda nas pessoas, em sua profissão, uma gentileza intrínseca, um coração  enorme. E serenidade.

  Morreu numa cirurgia boba, desobstrução nasal, saiu do centro cirúrgico bem,  com esse sorriso que era sua marca. De repente tudo mudou. Ele se foi em 21 de  outubro, só soube ontem, e me sinto mais órfã hoje do que jamais.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Três filmes, e um quarto

Os finais dos três filmes recentes que vi se assemelham, de algum modo, na forma como recusam um fácil happy ending, o que lhes confere uma outra qualidade, e densidade.

Entre nós (Paulo Morelli, 2014, com Carolina Dieckman, Caio Blat, Paulo Vilhena, Maria Ribeiro, Julio Andrade, Martha Nowill e Lee Taylor) conta uma história ótima sobre as aventuras vividas por um grupo de jovens, que acontecem em dois momentos: dez anos antes, e dez anos depois, quando eles se reúnem para ler as cartas que haviam deixado lá atrás, no auge da juventude e dos sonhos mais bonitos.

Nesse presente, as coisas não saíram como esperavam, mas o que realmente move a trama é o fato de haver um escritor, vivido (bem) por Caio Blat, que de certo modo 'herda' um livro de um amigo. Há outros imbroglios, os pares amorosos de antes são desfeitos e refeitos, e um dos presentes agora é constituído pela atriz Marta Nowill, que achei uma das atrizes mais interessantes do grupo, talvez porque engraçada, cheia de energia e boa praça, mas todos os outros (e outras) estão muito bem, gostei muito de tê-lo visto, e também de seu final.

Em Inside Llewyn Davis: balada de um homem comum (Ethan Cohen, Joel Cohen, 2014), com Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, o que deixa o espectador com o olho grudado na tela é a sina do protagonista, o fato dele não conseguir engrenar uma saída para a sua vida, para o seu trabalho de cantor e instrumentista. Os diretores miram e acertam a mirada nesse ser relativamente banal, que dá um passo à frente e dois para trás, cuja vida é constituída dos pequenos fracassos cotidianos, sem grandeza, sem projetos e sem ambição. Um ser capturado em seus momentos verdadeiramente banais, sem qualquer heroísmo - até o gesto nobre de tentar devolver o gato do amigo acaba virando um pastiche, um completo equívoco. E o outro animal ele abandona sem dó, dentro de um carro. Radiografia e síntese de qualquer um nos momentos de uma vida em preto e branco, sem a luz do sucesso, ou da grandeza - só o cinza da mesmice.

The lunchbox (Ritesh Batra, 2014), com Irrfan Khan, Nimrat Kaur, Nawazuddin Siddiqui é um filme que foca quase inteiramente dois personagens, um de cada vez, lendo ou escrevendo uma carta, um bilhete, e mesmo assim consegue prender a atenção do espectador do começo ao fim.

Achei muitíssimo interessante o modo como o diretor apresenta a história desse viúvo, cujo etapa de vida no trabalho monótono de contabilidade ele está em vias de concluir, aposentando-se, mas cuja vida fora dali tampouco tem a mais remota cor da vivacidade e/ou da alegria. Eis senão quando um equívoco leva até ele uma marmita com almoço, preparado por uma jovem senhora casada (e insatisfeita), que fez o melhor repasto com o fim de seduzir o marido, que a cada dia vem-se distanciando mais dela, e do casamento. Tudo pronto para uma história de captura amorosa pela boca, pela culinária, como já vimos tantas vezes.

Mas aqui as coisas são mais complexas, mais delicadas, mais bonitas e tristes também, embora mais tocantes, mais intrigantes, e cuja ambiguidade talvez se encontre numa de suas frases axiomáticas: "Às vezes, o trem errado pode deixar na estação certa." Torço para que eles se encontrem na estação certa, seja onde for.

O quarto é Até o fim, com Robert Redford: um tour de force em que ele fica sozinho o filme todo, lutando contra o mar tempestuoso, e consegui ver com interesse, atenção e um certo espanto - até o fim :)). Aliás, gosto muito dele, como ator e como figura pública.

domingo, 30 de março de 2014

Ron Mueck


O que me impressionou muitíssimo no trabalho de Ron Mueck, em exposição do MAM-RJ foi, primeiro, o perfeccionismo com que seus personagens são construídos, de modo que se pode ver com clareza os poros, as nervuras das mãos, as rugas, os calos, o sentimento do olhar, a tristeza, a melancolia, as unhas - os detalhes das unhas, nossa!, a solidão.

Além disso, tem as situações do cotidiano em que eles estão imersos, e que nos aproximam de cada um, nos acumpliciam, nos tornam irmãos - o menino negro com um corte na barriga é um dos feridos diários em nossa guerra particular carioca; o casal de idosos na praia é nosso parente próximo, se não for nosso alter ego; a moça carregando o bebê, que a olha pedinte enquanto ela fita o longe, o pensamento em outro lugar, ou talvez nele
mesmo, retraça nossa diuturna aflição por cuidar da vida, nossa e/ou de alguém; o homem sozinho no enorme barco, nu e com uma expressão de completa perdição não poderia ser mais emblemático de nossa solidão universal, de nosso estado meio catatônico face ao que quer que seja - ele, sobretudo, me deixou muda de espanto diante da: fragilidade.


Fragilidade que se torna ainda mais pungente quando se percebe o modo como alguns personagens são 'alocados' na exposição: se eles ali representam cenas do cotidiano, cenas quase íntimas, de momentos muito pessoais, seja pela situação, seja pelas expressões dos olhos, da boca, das mãos - ao mesmo tempo são 'invadidos' por uma multidão curiosa, voraz, que se aproxima e avidamente fotografa, fotografa, cochicha, sorri, quer olhar mais perto, mais dentro - a impressão que dá é que o artista quis "expor" seus personagens a uma certa invasão de privacidade, como uma forma de expor também nossa própria ausência dela, ou fome de viver, talvez, a vida do outro.

O fato é que tudo ali emociona, nos toca, é valioso, belo e, de certo modo, cruel.

Ver o artista, no vídeo que integra a mostra, como um homem comum, fazendo seu trabalho, obsessivamente lapidando, esmerilhando, cavoucando a massa, comendo sanduíche e lustrando, polindo, perdendo-se em meio às tralhas, e achando-se, tudo constitui uma experiência que não se poderá esquecer.



sexta-feira, 21 de março de 2014

Tergiversando - e opinando

Falar sobre filmes (não sobre cinema, sobre filmes) me parece agora uma conversa sem maiores compromissos, sobretudo depois que revi Gravidade, nessa última ida ao Rio, e fiquei boba com minha péssima primeira impressão - mas como, dona Clara, o filme é muito interessante, a protagonista vivida por Sandra Bullock não fica o filme inteiro falando coisas ininteligíveis, o par com o Clooney faz muito sentido e tem lá sua graça, ela não surge das águas no final feito uma deusa, embora haja alguma inverossimilhança em seu 'resgate', mas que sei eu de reentrada atmosférica.

De todo modo, não tenho a menor ideia do que havia em minha alma quando
vi ou quando escrevi sobre o filme. O melhor, para todos os efeitos, é que não se confie absolutamente nessas mal traçadas para decidir sobre os filmes a ver - façam como eu, não liguem a mínima para o que deles dizem, e vejam tudo com olhos de descoberta.

A despeito do dito, achei a segunda parte de Ninfomaníaca (Lars von Trier, 2014) muito boa, porque se apresenta como o drama que realmente é: uma protagonista extremamente doente, com uma doença que não tem cura, e cujo drama agora fica mais explícito, que passa por muitos maus momentos em busca de um prazer que ela não sente, mas para o qual se vê compelida sem trégua. Foi possível compreender melhor a proposta de Lars, e ela é muito forte, sensível e inapelavelmente sem saída, ou seja, pertencer de algum modo à margem dos modos de ser, pensar ou sentir da maioria será penoso, e mesmo violento, em algum momento, se alguém se dispuser a ser aquilo para o que se sente predestinado. Não haverá remanso para quem não seguir o compasso traçado entre a norma e a margem, e uma das linhas de força dramática que pontuam a história será a irredutibilidade da escolha de Joe no sentido de afirmar quem ela é. E de mostrar ao outro quem ele supõe ser - numa das cenas mais terríveis do filme, ela conta histórias a um devedor, tentando conhecer suas fraquezas pelas reações sexuais ao que ouve, até que ele mesmo se depara com sua condição, até então aparentemente 'inaudível', de pedófilo: o terror desse (re)conhecimento será discutido por Joe com seu interlocutor (e tradutor, de certa forma) no presente da narrativa. Nesse momento, ela enuncia algumas das implacáveis reflexões do diretor e roteirista Lars - duramente nitzscheanas, elas não deixam pedra sobre pedra sobre toda e qualquer forma de regulação das sexualidades intentada pelas sociedades - e seus olhos vesgos.

Não há nada que seja leve no filme, talvez alguns momentos de humor - os dois homens negros que afinal não chegam a um consenso sobre como ou por onde entrar na mulher, e enquanto ambos discutem ela sai da situação e do quarto mais invisível do que antes - ou seja, até a graça é trágica, penosa. De resto, tudo aqui é dilaceramento, frustração, desamor, desalento, violência, e mesmo o fiapo de amizade que se insinuou ao longo de toda a história entre a protagonista (Charlotte Gainsbourg) e Seligman (Stellan Skarsgard, muito bom), seu ouvinte pescador, esvai-se em pó, dor e morte.

Um filme que não flerta com o fácil, nem com o simples, mas imprescindível para olhar e ver de frente algumas verdades difíceis e penosas que atravessam nossa sexualidade, e a forma de exercê-la.

domingo, 9 de março de 2014

Sonhar, viajar

Cada vez mais ando querendo viajar, ir a outras plagas, outros mundos - teria sido mais justo para todos nós que a cada human being fosse dado o direito de ir e vir sem ônus algum de passagens, estadias, tipo assim, quatros viagens por ano pra onde quisesse por, digamos, dez dias, podendo escolher uma casa, uma família com quem trocar hospedagem.

Sim, isso já existe hoje, mas quem pode pagar tudo que tal aventura comporta? Trata-se aqui de utopia, ou de um sonho realizável por quem tem: coragem, energia, disponibilidade, espírito de aventura e entrega incondicional ao desconhecido.


Par contre, todo mês agora bato ponto no Rio (por enquanto, pelo menos), um pouco por dever filial, outro tanto porque não preciso pagar estadia, fico no meu apartamento, hoje ocupado pela mãe e suas cuidadoras. Isso é bom, claro - o Rio não é uma cidadezinha sem importância, é uma cidade lindíssima, um grande centro cultural, dinâmico, heterogêneo, bagunçado etc, etc - e põe etecétera nisso -, e ter onde pousar na cidade é um privilégio, claro.


Mas também tornou-se uma espécie de obrigação - como minha vida financeira ficou muito restrita, em razão exatamente da exorbitância que viver (ou manter a vida de uma pessoa idosa) naquela cidade passou a custar, fico sem asas para voar, tenho que ir onde é possível - e, nesse caso, o Rio não apenas se tornou possível, mas obrigatório. Aí fica chato, não é mais turismo, não é mais liberdade, nem aquilo que chamo viagem.


Tá certo, vou ficar de castigo por reclamar injustamente. Mas sem insatisfação, como caminhar em direção aos sonhos?

terça-feira, 4 de março de 2014

Só conversa

Talvez  por estar meio isolada numa cidade pequena, sem muito apelo cultural, vi a festa do Oscar com prazer, achei que esse ano foi um dos melhores, e essa foi uma das poucas vezes em que vi a cerimônia até a fim.

A Ellen De Generis estava especialmente interessante, engraçada, irônica e meio louquinha, sem excessos desagradáveis, salvo quando quase gritou com a senhorinha atriz de Nebraska, June Squibb, mas o momento pizza valeu qualquer possível gafe.

Achei que, pela leveza e bom humor da apresentadora, a plateia estava solta, leve, sem aquela regidez que marcou outros anos da festa. Aliás, acho que grande parte dos que estavam nas primeiras filas sabiam das gracinhas que ela ia aprontar e foram 'convocados' a participar, porque Ellen parece ser muito amada pelo povo do show business (agora, que ela deu a volta por cima dos preconceitos todos).

Quanto aos vencedores, torci pela deusa Cate, como quase todo mundo, que fez um discurso bonito, em que as outras colegas foram homenageadas, gosto sempre dessa coisa de compartilhar as vitórias, sobretudo porque as concorrentes eram muito boas mesmo, e gostei dela ter falado que filme com mulher protagonista quer ser visto pelo público, e dá retorno financeiro; torci pelo Jared Leto, que fez o discurso mais bonito que ouvi, além de ele ser um lindo-rapaz-que-ama-a-família, o que eu não sabia - outro dia vi um show na TV de seu grupo 30 Seconds to Mars e fiquei impressionada com sua energia, vitalidade e intensidade cantando e se apresentando, nem parecia esse rapaz meigo e calmo do Oscar. E o personagem dele no filme é mesmo um arraso.

Gostei do Matthew ter ganhado por melhor ator, mais ainda por ele ter ido abraçar o Leo antes de subir ao palco. Acho que ele mereceu, mas o Leo tinha minha torcida, acho que a Academia já deve esse Oscar a ele há vários filmes. De todo modo, não entendi muito bem seu longo discurso, vou ler a íntegra (não sei se houve tradução, porque ouvi tudo em inglês, pra treinar mesmo), porque do que captei me pareceu meio estranho. O prêmio para a Lupita foi merecido, claro, sobretudo pela cena intensamente dramática da surra de chicote, que impressiona
mesmo e me fez desviar os olhos, por odienta demais. Ela é uma figura belíssima, tem um carisma forte e espero que venham outros filmes bons para sua carreira.

Quanto ao prêmio de melhor filme, não torcia por nenhum em especial, achei todos medianos. Não gostei, particularmente, deste filme, como já disse em outro post, mas entendo que 12 anos tenha recebido a estátua - primeiro, é um filme politicamente correto, e ainda necessário para a causa da emancipação do negro, mesmo na América do Norte, e em grande parte do mundo; segundo, acho que Brad Pitt, bem como
George Clooney, quando se propõem produzir algum trabalho o fazem com o empenho dos fortes profissionais da indústria, como homens de negócios que entendem os caminhos áridos a percorrer para que um filme possa acontecer, têm lastro e conhecimentos abrangentes das pessoas certas para obter resultados bem positivos para os produtos que vendem. Não acho que a produção do Brad tenha sido o fator decisivo para a vitória do filme, óbvio, nem que sua importância na indústria tire o brilho da conquista da equipe, mas me parece um dado relevante. Os outros dados dizem respeito ao valor do próprio filme, que reconheço: ótimos personagens, história contundente e compromissada com os valores da liberdade; cenas fortes e chocantes de violência contra os escravos, que podem produzir horror, mas também catarse no final; libelo a favor da liberdade do homem, tout court.

Sobre o filme estrangeiro, sei que meu preferido e amado, Alabama Monroe, não tinha chances, e gostei da vitória de A grande beleza, assim como teria gostado se A caça tivesse sido premiada.

Por fim, como isso aqui é mesmo uma conversa de comadre (ou solilóquio, melhor), três perguntas que não querem calar: 1. o que houve com a Liza Minelli, santo deus?; 2. por que os seios da Angelina cresceram tanto? Será que ela vai parar nesse tamanho? Bom senso não faz mal a ninguém, menos ainda a esse monumento de beleza; 3. o que a Bete Midler tem feito para retroagir no tempo e aparecer lindamente rejuvenescida, sem nada que indique os 69 que já tem, e sem aquelas marcas intensas de botox, tão comuns nas atuais celebridades? Sua fórmula deveria ser patenteada.    
    

domingo, 2 de março de 2014

Alabama Monroe - quando uma história é mais que um filme

Não escrevi sobre tudo que vi em 2014, mas Alabama Monroe (Felix Van Groeningen, Bélgica, 2013) - com a linda Veerle Baetens, o belo e estranho Johan Heldenbergh, a atriz mirim Nell Cattrysse - vi duas vezes, e acho o mais emocionante filme, junto com Amor, que vi nos últimpos tempos.

Não sei todas as razões por que amei e amo tanto o filme, mas o tema da morte já é um começo. Também a mistura de passado e presente, num ir e vir frenético entre morte e vida, as duas inextricáveis ao longo de toda a história - e aqui exemplar em sua realização, deu um ritmo especial às cenas, de modo que não podemos perceber uma situação específica sem todos os outros momentos-vida que a circunscrevem, como se ela, a vida, não pudesse ser constituída de momentos isolados, mas de percepções simultâneas de tudo que vemos, sentimos, das pessoas com quem interagimos, das coisas que fazemos ou deixamos de fazer, de como nos expandimos para o mundo, e logo depois nos recolhemos em nós mesmos, regidos pelas forças de fora, pelos impulsos internos, pela potência da energia que está em nós e além de nós, mas que nos afeta, nos move em direção a - mais vida.

Todo esse movimento vital é regido pela música mais exuberantemente bela, leve, alegre, comovente que um filme jamais produziu (que eu lembre), além de ser cantada por vozes encantadoramente comuns, mas afinadas, e apaixonadas pelo que fazem. Tudo é ao mesmo tempo simples e comovente - das vidas comuns dos personagens, suas ocupações, às letras das canções, ou o amor de Didier pelo bluegrass - essa coisa meio ingênua de ir ao encontro do 'mais puro som', enfim, tudo é, de certo modo, singelo e fortemente tocante.

A música, então, me parece um personagem tão importante quanto os outros três, e é essa trilha que faz o espectador ficar em estado de enlevo todo o tempo, e mesmo quando tocado pela dor mais dilacerante ela está presente, sublinhando estados de alegria extrema, bem como seu oposto, o que nos permite vivenciar mais profundamente o fluxo dos acontecimentos, seus altos e baixos, intensificados por ritmos e imagens simultâneos, bem como regimes temporais concomitantes, que mantêm o espectador em estado de alerta quase sempre.

Mesmo ao final, quando a mãe já fez a escolha inevitável, inexorável, aquela que para ela não poderia ser outra, a música está presente não como coadjuvante, mas como reafirmação da vida, reafirmação da potência do existir - que vejo presente até mesmo no modo como ela decide integrar-se ao amor da filha, ao que lhe parece ser o lugar da filha - logo, o seu lugar.

Um filme memorável, sob todos os aspectos.

sábado, 1 de março de 2014

Minha lista - e atualizando


Meus filmes preferidos lançados aqui em 2013/2014, em ordem (neste momento) de gostância:

1. Alabama Monroe
2. Amor
3. A caça
3.1. Blue Jasmine
4. Tabu
5. Django livre
5.1. Clube de Compras Dallas
6. Flores raras
7. Azul é a cor mais quente
7.1. Nebraska
8. A grande beleza
8.1. O lobo de Wall Street
9. Serra pelada
10. A vida secreta de Walter Mitty
11. Lincoln
12. Álbum de família
13. Philomena
13.1. Trapaça
14. Faroeste caboclo
14.2. Ela
15. Sete psicopatas e um shih tzu