sábado, 14 de julho de 2012

Na estrada


On the road, do Walter Salles, é um filme interessante, bem feito, com excelentes atuações, até mesmo da quase sempre inexpressiva Kristen Stewart, mas a história dessas almas à procura de sentido tem data, esse existencialismo, filmado com cuidadosa atenção ao texto do Kerouac, já expirou, e as questões que eles discutem atiçam menos minhas emoções. E podia ter sido um pouquinho mais editado, ficou longo e um tanto cansativo em alguns momentos.

Além disso, é um filme de rapazes, para rapazes, entre rapazes - mulheres só entram com a contribuição milionária de seus órgãos genitais: boas putas*, que nem assim conseguem apaziguar a fome de mais sexo, drogas e experiências novas passíveis de ser encontradas em sempre outros e diversos  lugares. Nesse sentido, ao expressar a insatisfação intrínseca dessa geração, o filme de Salles encontra seu mais legítimo lugar na minuciosa escuta, e expressão fílmica, da obra de Kerouac que, por sua vez, dá voz ao vazio existencial e geracional do pós guerra, cuja saída se apresentou como a de ir comendo a terra e a estrada, adentrando o país para buscar, no percurso, imprimir algum sentido ao caos, ao que ainda não tinha forma, nem peso.

Tanto o livro (que li na juventude, como quase toda minha geração), quanto o filme exploram esse vigor do desespero, o desejo insano de fazer um sentido que, naquele momento, poderia estar resiliente na palavra escrita, mais precisamente na literatura. E é sobre isso também que trata o filme - ao mesmo tempo que a turma de perdidos come a estrada em busca de preencher o vazio, as palavras vão se tornando mais e mais as parceiras necessárias ao protagonista. Nesse tempo, a literatura ainda tinha o peso e a força de uma possível redenção, ou se apresentava como a outra via, mais satisfatória talvez, à corrida para o nada que a estrada aparentava.

Percebe-se em cada trabalho de interpretação um cuidado extremado, e neles, nos atores, reside uma de suas melhores qualidades: Viggo Mortensen faz uma quase ponta como Old Bull Lee, alter ego de William S. Burroughs, e no pouco tempo em que aparece resplandece, fica depois na memória tudo que fez, o modo como se moveu, falou, a marca do grande momento de interpretação, do grande ator; Kristen Stewart, pela segunda vez, me convenceu de que é uma atriz e não apenas a eterna adolescente-perdida-por-vampiros da saga que lhe deu fama e fortuna - a primeira vez em que a vi atuando de verdade foi em 'Corações perdidos' ('Welcome to the Rileys'), que passou aqui em junho do ano passado. Ela está muito bem, solta os bichos todos em vários - e necessários - momentos, dançando e transando; tanto Tom Sturridge, que faz um jovem Carlo Marx (alterego de Allen Ginsberg) perdido de amores pelos versos e de ciúmes de Dean e suas paixões vorazes; quanto Garrett Hedlund, que faz Dean Moriarty (alter ego de Neal Cassidy), e o protagonista Sam Riley, que vive Sal Paradise/Jack Kerouac, trabalham de modo visceral, percebe-se neles todos a entrega ao projeto de ser e estar inteiros nas emoções, nos excessos, na vontade de ser aqueles indivíduos perenemente perdidos, em busca mais de si mesmos do que de respostas às tão infindáveis questões quanto as estradas que não se cansam de percorrer. Não é só a América que eles percorrem - sua voracidade é por todos os caminhos, sobretudo os que poderiam levar a si mesmos, a alguma coisa de consistente em si mesmos. As outras mulheres, além da Marylou de Stewart, passam mais depressa pelas vidas deles e pelas telas - Kirsten Dunst (eterna fascinação de 'Melancolia'); Alice Braga; Amy Adams; Elisabeth Moss. Como já disse, o filme é deles, de um tempo em que o sentido da vida social ainda latejava em calças jeans apertadas, cigarros intensos e buscas desesperadas pelo amigo mais próximo - e, aqui, qualquer maneira de amor não apenas vale a pena, como é rito de salvação. 

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* Está certo, Dean Moriarty é quem faz sexo por dinheiro (e um sexo, além de tudo, que ele acha meio desprezível) e seria então 'the real whore', mas parece que essa categoria não deve ser e talvez não possa ser aplicada àqueles seres, homens e mulheres, que estavam em busca de algo muito mais transcendental (acho que o termo aqui se mostra adequado, quando pensado para aqueles loucos tempos), de modo que o sexo era apenas uma das radicais experimentações dos sentidos, das sensações, dos prazeres extremos de que eles e (algumas) elas estavam em busca frenética, e que se mostrava necessário ao conhecimento do mundo e de si.

Nesse sentido, a posição de Marylou parece então, ao contrário do que afirmei, altamente transgressora, ao infringir todos os códigos esperados para uma mulher de seu tempo, além de se mostrar antípoda da 'mulher do lar' (em que se deixa enredar Camille, por exemplo, a mulher com quem se casa Moriarty, e personagem de Dunst, para ser muito infeliz), da mulher que fica à espera do homem. Cair na estrada com os bad boys era poder vivenciar experiências de transgressão impensáveis para sua situação de gênero então. Mas vou manter a expressão errada lá em cima, que me permitiu essa retificação fundamental, porque continuo - hoje, com meus olhos adestrados por várias décadas de conquistas importantes no campo feminista - com a sensação de que a Marylou, se aproveitou para si de modo radical a viagem 'dos meninos', se aderiu e tirou proveito das transgressões todas, também serviu de objeto sexual (ativo, sem dúvida, mas objeto) para os divertimentos entre os machos. A cena de sexo entre os três parece disso exemplar: é Marylou quem pede a Dean a presença do amigo na cama, mas acho que ali a coisa forte rola muito mais entre os dois homens do que entre ela e eles. Para Dean, ela é a 'xana mais gostosa de todo o estado' (a frase é mais ou menos essa); já com Sal ele quer aprender a escrever, ele quer 'viajar' até o fim do mundo, ele se mostra seduzido e embevecido. Ele o ama, mesmo o abandonando com febre numa espelunca de beira de estrada, porque é irresponsável. Enfim, essa é uma conversa sem fim...


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Se nem Lady Gaga escapa de ir ao chão...

Hoje é meu dia sorte - sexta feira, 13, e dia de rock, uau!

Vinha andando pela rua do Catete pisando daquele jeito forte e decidido, passo rápido e firme dos que se sentem seguros quando, de repente, voei - literalmente voei no ar, em vias de me estabacar na mais espetacular das várias quedas que já tomei, assim, totalmente out of the blue.

Ainda no ar e me perguntando 'como? de novo? por quê?' avistei um gordinho como eu vindo em minha direção e a ele me agarrei segundos antes de cair, estatelada, no chão. Salva pelo gongo, ou pelo gordo, levantei rápida perguntando ao empalhador de cadeiras que estava boquiaberto sentado a minha direita, olhando aquilo a sua frente e não acreditando: - onde foi que tropecei? onde? Ele apontava o nada, porque fora em nada que eu havia pisado. Tenho certeza de que era dia de ir aos ares, e fui.

Continuei caminhando, sem arranhões ou luxações, entro no banco mais à frente pra disfarçar a insegurança e quando ponho o pé para atravessar a porta, torço o calcanhar esquerdo, sempre frágil, e uma dor descomunal avança. Eu paro, gemo, uma senhora tenta ajudar, aconselha a rodar o pé no tornozelo devagar, e isso vai fazendo a dor diminuir até ficar imperceptível.

Sigo depois meu caminho e nem acredito que ainda esteja viva, sem sequelas e a.n.d.a.n.d.o! Parto para o cinema , On the road me aguarda, devagar agora e prestando muita atenção ao chão. É quando percebo que perdi a juventude e um dos possíveis significados de ter mais de sessenta: andar devagar e sem ímpeto. Aprende, senhora. E certa de que esse foi um dia de sorte.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Bem amadas e Chiara


Bem amadas é um filme excelente, alto astral, trágico, sem ser pesado, e mesmo as canções, que não conseguem acertar o passo com o movimento do filme, não atrapalham em nada, nem acho que façam rir, como alguns espectadores responderam às cenas cantadas.

Na tradição das grandes mulheres de Fellini, as duas protagonistas são parentes próximas da clássica Cabíria, a cujo romantismo o filme rende homenagem. Ambas as atrizes que fazem a puta, Ludivine Sagnier quando jovem, e Catherine Deneuve, uns vinte anos depois, estão magníficas, não menos de que o rebento adulta dela, vivido pela filha real de Catherine, Chiara Mastroianni, esplendorosa, magnificamente bela e sexy.

Dos quatro homens importantes que andam em torno dessas duas belezas, entre eles o sempre bela-figura-zangadinha Louis Garrel, um raro Milos Forman, como marido cornudo e feliz, sobressai Paul Schneider vivendo um gay fascinado e mesmo irredutivelmente apaixonado pela personagem de Chiara, com quem vive uma das cenas eróticas mais intensas, fortes e sensuais já expostas, ever. Breve, mas intensamente interessante.

O filme tem lá suas tragédias, mas o tom é leve e tudo gira em torno dos amores dessas duas mulheres, sua incondicional liberdade, e seus desasossegos. Chiara, mais do que a icônica mãe, arrebata o espectador - ela canta, dança, atua e anda com a beleza dos animais raros. Ela é rara, e faz o filme iluminar-se a cada aparição.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Re-encontro com Vitória

Já tinha ido a Vitória há muitos anos, fazer um concurso público que se mostrou meladíssimo, razão por que tinha bronca da cidade, e nunca pensei em ir lá a passeio. Acabou a rabugice - afinal, a cidade não tem culpa se alguns de seus filhos são cafajestes - e fui passar uns dias no Radissom, hotel muito bom, o que fez metade da viagem valer a pena. Adorei tudo no hotel, salvo os travesseiros, que podiam ser menos molinhos. Mas chuveiro muito bom, o café da manhã ótimo, os meninos que dão suporte na portaria mega simpáticos, todos querendo ajudar e fazer essa senhora feliz. Acabei esquecendo de ir conhecer a piscina, só depois me dei conta de que lá em cima tinha mais coisas pra aproveitar. Fui a Vila Velha, achei legal, fiz a visita à fábrica de chocolates Garoto, achei meio chata aquela ordem-unida, não comi os chocolates que eles oferecem no final porque naquela hora não estava com vontade e não me deixaram trazer, mas já tinha comprado vários na lojinha lá deles, nem sei se mais barato, mas deve ser. De todo modo, a fábrica impressiona, primeiro mundíssimo.
A cidade é muito lindinha, são apenas cinquenta minutos de voo - aliás, fui numa promoção da Tam e achei o máximo, muito melhor do que voar pela Gol, eles são muito atenciosos, ainda nos oferecem comidinhas e bebidinhas, o que já não existe mais na outra empresa. Adorei a vista da janela do meu quarto, me fez muito bem ter aquilo tudo diante de mim, e voltarei outras vezes. Sobre o capítulo comida, melhor não falar muito, mas tudo bem, já sei como e onde escolher melhor na próxima vez.

















segunda-feira, 18 de junho de 2012

Enviado por


Uma amiga postou no facebook, depois mandou por email e achei bom o suficiente para ficar mais tempo visível, então posto aqui. Acho algumas idéias muito boas, mas não estou certa de que concordo com tudo que ela diz, tenho de pensar mais sobre... De todo modo, admiro a história da Jane Fonda, admiro o estado geral em que ela entra em seu terceiro ato, e sei que sua beleza vem de berço, e outra parte - a atual, sobretudo, vem de cuidados extremos, alguns dos quais custam preços que os vedam à maioria de nós.

Pontos interessantes:

1. Gosto do fato dela enfatizar que ganhamos, no último século, mais de trinta anos de vida, isso é um feito e tanto da ciência, das melhorias nas condições de vida da população, em geral. Mas essa condição não é para todas as pessoas, claro, nem para todos os estratos sociais, nem para todos os países. Enfim, viver mais, e com maior qualidade de vida, ainda é para poucos de nós - teria de apresentar estatísticas, para se poder avaliar melhor a questão. 

2. Olhar para o passado como uma atitude que permite reavaliar a própria história e, nesse gesto, adquirir mais controle do presente, mais harmonia com sua própria experiência e, portanto, com sua vida atual (no terceiro ou segundo patamar, eu diria), não é exatamente uma idéia nova, ela apenas a relê com roupagens que parecem novas. Não é isso, afinal, que todos (que pudemos) fazemos em análise? Muitos de nós, com ou sem análise, chegamos a esse nível de compreensão porque o próprio tempo de vida permitiu refletir sobre o que somos, o que fomos, o que temos sido. Nesse terceiro ato, muitos anos depois do apogeu das descobertas mais importantes, talvez, de cada um, há que fazer necessariamente o enlace com o passado, ou a vida tranca, não segue. 

3. Concordo com o fato de que a mulher tem relevante contribuição no processo, mas isso ocorre porque a história da mulher, há mais ou menos o mesmo século, tem sido uma luta constante pelo reconhecimento de sua visibilidade, de sua individualidade e de sua especificidade de gênero. Isso sim, é uma questão nova, que vem impulsionando muitas e relevantes mudanças em vários níveis das trocas sociais.

4. Por fim, gosto do otimismo de Fonda, desse sentimento de compartilhar suas descobertas que, parece, sua própria entrada no terceiro ato vem propiciando. Mas queria também que ela espalhasse pelo Ted sua fórmula de beleza, aparência jovial e pele fantástica. E não vale mostrar seus vídeos de exercícios.

 



domingo, 3 de junho de 2012

Conhecendo Penedo

(Quase) todos os filmes vistos, outros tantos bons livros lidos, andanças por aqui e ali, e nenhuma vontade de escrever, nada de nádaras, seca total. Será o fim, ou só o bene-dito?.























sábado, 5 de maio de 2012

Dois filmes

Estou detestando esse novo leiaute que me enfiaram goela abaixo, oh chatice!

Mas sobre Paraísos artificiais, me pareceu mais um erótico-pornô-bicho-grilo-nostálgico-de-Woodstock, ou apenas um filme pra mostrar a juventude dourada que cheira, bebe e toma todas as pílulas pra viver e  transar... não sei, mas fiquei assim meio afastada, olhando de longe esse universo do qual não faço parte, e que não me interessa tanto, tive a sensação de uma coisa um tanto antiga, meio anos 60, sei não, aí taca de fazer as meninas lindas e os meninos idem transarem todas, porque são jovens, livres e ávidos por novas e insensatas experiências... me perguntei algumas vezes: é só isso? Achei pouco, e as atuações são medianas, embora o moço lindo tenha algumas expressões convincentes, o mesmo não achei da Dill, que mais é bela do que atriz que me tenha convencido. Mas posso apenas não ter entrado no universo do filme, não sei.

Já a Camila Pitanga, que também vive cenas quentíssimas em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, e aparece belissimamente nua, convence inteiramente como grande atriz - acho mesmo que é o melhor trabalho dela no cinema (o que não significa muito porque não vejo novela e não sei como ela tem atuado em TV), mas ela fez outro filme muito bom com o Lázaro Ramos (Saneamento básico, o filme, 2007) e estava muito bem também. Aqui dá show de bola, e o ator que faz o amante (Gustavo Machado) idem, além do filme ser ótimo, gostei demais, e nem liguei pro momento 'libelo social', um discurso bobíssimo que fica meio solto na história, mas é rápido e não prejudica o todo, na minha singela opinião.

terça-feira, 10 de abril de 2012

A vida dos peixes


O que A vida dos peixes tem de interessante é esse deter-se indefinidamente em um único personagem - um homem de 33 anos, doce e belo - numa única noite, ao longo de uma festa em casa de amigos de longa data, de quem ele tenta se despedir, mas onde vai ficando, vai ficando, quase sem forças para deixar todas as histórias que ali viveu descansarem, ou abandoná-las enfim. Até porque a mulher que realmente importa, com quem ele precisa acertar as contas de seu passado, está por chegar. E chega. E somente por expressões do rosto, por frases poucas, breves trechos da história dos dois, rememorações, retificações, ficamos sabendo o que aconteceu - quando houve a falha, a fissura, a falta; quando um dos dois não pode com o peso de sua história, se acovardou
e a vida seguiu de um jeito que o outro não tem mais como reparar; como a direção e o rumo foram outros, diferentes do desejado, a despeito do amor - por medo, imaturidade, dor, não entendimento dos grandes traumas, whatever.

Há momentos na vida de todos nós em que demos um passo, ou algo se sobrepôs a nós e a nosso caminho, e aquele passo foi mais que isso: foi uma marca, um marco, ali alguma coisa indelével aconteceu e não tem volta, por mais que tentemos remediar, remendar, consertar. Não dá pra ser o que era, não dá pra engatar outra história naquela. Acabou. Carregamos então o peso daquilo para sempre, e seguimos em frente, em busca da felicidade possível, se possível. Foi essa a magistral história que o diretor Matías Bize nos contou, usando atores perfeitos, porque parecidos com todos nós, num ritmo um pouco lento, mas necessário para caminhar com as lembranças, com o tempo que dura na memória. Muito triste. Muito bom. Reconhecço-me ali não apenas culturalmente, mas inteiramente.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Em Recoleta

Nunca tinha visitado o cemitério da Recoleta e hoje o fiz, guiada por uma simpática senhora, que não cobra nada pelo excelente trabalho e oferece ótimas informações durante uma hora de agradável passeio por esse museu a céu aberto, onde moram com capricho figuras ilustríssimas da história portenha, Evita também, claro.

Mas a história que mais me chamou a atenção foi a da moça que morreu numa viagem a Espanha, se não me engano. Estava dormindo e uma nevasca  arremessou sobre ela um bloco de neve tão poderoso que a moça morreu... sufocada. Não dá pra imaginar tal situação, mas fiquei viajando muito nessa coisa quase inacreditável: como, sufocada? Ela não sentiu o peso ou o frio da neve? Não acordou sobressaltada e pulou fora rapidamente? Como isso aconteceu? O pai escreveu um poema de dor, cujo sentido  ainda estou tentando compreender, pois de italiano entendo pouco.

De todo modo, é um lugar muito interessante, em que as moradias são patrimônios valiosos, e vendem-se no mercado imobiliário como qualquer outro imóvel. Para homenagear também nossos mortos ilustres, de que a cultura brasileira sentirá  falta: Millôr e Chico, descansem em paz.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Pina, Pina

Eu nunca tinha visto uma apresentação dela no palco, e o que vi na tela me deixou meio em estado de choque - é uma experiência da ordem do transcendente, do inominável, da estupefação, do susto, do não poder conter-se, do maravilhar-se. 

São pequenos trechos dos balés, escolhidos pelos bailarinos como presente-homenagem (o filme estava em curso quando de sua morte repentina), misturados a trechos em que ela também aparece dançando - o que é isso que ela faz com os corpos e mentes de todos nós, que dança é essa que mistura drama, tragédia, leveza, sofrimento, alegria, nuvem, pó e água? Claro que se chora em vários momentos - por exemplo, sou aqueles pequenos galhos que um bailarino equilibra magistralmente nos ombros, na cabeça, nos braços, dançando com leveza extrema para não perdê-los, para que não caiam, para que não se percam: e tudo que importa está ali naquele momento (um olhar que passou de relance e não deu tempo; as perdas todas que não podiam; o amor que sempre e não; o sim, o talvez, o já) e é preciso calma e maestria para lidar com todos os pesos e levezas nesse instante. 

Também as mortes todas que sucedem no 'Café Muller', e a mulher vulnerável, à mercê de todas as mãos masculinas; o pequeno homem que dança na vastidão de um horizonte cheio de penhascos e montanhas, pequeno domador do universo; o que grita "andré, andré" e se torna menino, e se enrosca e se joga no colo do outro ao som de uma canção tão tão pungente. 

Fica-se depois que tudo termina ouvindo a canção, uma canção belíssima, numa voz tão boa de ouvir que se sai querendo a trilha toda. Sai-se porque terminou, toma-se um café em estado de alguma coisa. E volta-se para ver de novo, para ouvir de novo, e acreditar.
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